Ian Firth
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O mundo precisa de pontes. Já pensaram como seria não termos nenhuma? É difícil imaginar uma civilização sem pontes porque elas são tão essenciais ao crescimento e desenvolvimento da sociedade humana, mas não são apenas um modo seguro para cruzarmos um rio ou um obstáculo. Elas são o significado da conectividade, da comunidade. Elas revelam algo sobre criatividade, nossa engenhosidade, até sugerem a nossa identidade. E quando as pontes caem, ou são destruídas em conflitos, as comunidades são penalizadas, o desenvolvimento é paralisado, as pessoas sofrem. Mesmo hoje em dia, há mais de um bilhão de pessoas vivendo em comunidades rurais pobres, ao redor do mundo, sem acesso seguro durante o ano todo a coisas que fazem parte da nossa vida: educação, cuidados médicos, acesso a mercados. É por isso que organizações maravilhosas como a "Bridges to Prosperity" constroem pontes neste tipo de lugar; isto fica em Ruanda. E elas fazem uma diferença imensa, não apenas para aquelas vidas imediatamente próximas à ponte, mas o impacto delas é enorme, e se espalha por toda a comunidade, mesmo a uma grande distância.

É claro que pontes já existem há muito tempo. As mais antigas são feitas de pedra, por ser um material muito durável. Não sei quanto a vocês, mas adoro observar o desenvolvimento da tecnologia e aprender sobre o que era feito com os materiais e as ferramentas disponíveis na época. A Pont Du Gard, no centro, é um exemplo maravilhoso, um aqueduto romano no Sul da França, obra fantástica de tecnologia construída com pedras maciças sobrepostas, a seco; não há argamassa nessas junções. São apenas sobreposições de pedras, fantástica, e parece quase nova ainda hoje. Ou às vezes nas montanhas, as pessoas construíam pontes suspensas, muitas vezes através de um desfiladeiro, usando cipó. Esta fica no Peru. Foi usada grama, plantada localmente, que é trançada em cordas para construir as pontes. E elas são reconstruídas todo ano! Porque, claro, a grama não é um material durável. Esta ponte continua a mesma desde os tempos incas.

E pontes podem ser marcos de sua localização. A Golden Gate e a de Sydney são bem familiares. Em Mostar, a ponte era sinônimo do nome do lugar, e de tal forma que na guerra de 1993, quando a ponte foi destruída, a cidade quase perdeu sua identidade até que a ponte fosse reconstruída. E as pontes são marcos enormes em nossa paisagem, não apenas enormes, mas às vezes pequenas, são marcos bem significativos, e acredito que temos o dever de fazer nossas pontes belas. Felizmente, muitos fazem isso. Pensem no impressionante Viaduto de Millau, no Sul da França. O engenheiro francês Michel Virlogeux e o arquiteto britânico Lord Foster trabalharam juntos para produzir algo com a espetacular sinergia entre a arquitetura e a engenharia. Ou a ponte Salginatobel de Robert Maillart nas montanhas suíças, simplesmente sublime. Ou mais recentemente, a ponte linda e muito delicada de Laurent Ney para o Castelo de Tintagel no Reino Unido. Estes projetos são espetaculares e belos, e precisamos ver mais deles.

Pontes podem ser classificadas em três categorias práticas, dependendo da natureza do sistema estrutural que elas adotam como o principal apoio delas. A curvatura, claro, é o modo como uma viga se comportará, então, vigas e curvaturas. Ou a compressão é o modo principal de operação de um arco. Ou para longas extensões, deve-se preferir a leveza, como veremos num minuto, e usar tensão, cabos, pontes suspensas. E a oportunidade de variedade é enorme. Engenheiros têm um alcance fantástico para inovação e engenhosidade, desenvolvendo diferentes formas baseadas nesses tipos.

Mas mudança tecnológica acontece relativamente devagar no meu mundo, acreditem ou não, comparado às mudanças que acontecem na tecnologia da telefonia móvel, tecnologias de computadores, digital e coisa assim. No nosso mundo da construção, as mudanças parecem positivamente glaciais. E isso pode ser resumido numa palavra: risco. Um engenheiro de estrutura, como eu, gerencia riscos. Somos responsáveis pela segurança estrutural. E quando projetamos pontes como essas, tenho que equilibrar a probabilidade de que cargas serão excessivas de um lado ou a força será muito baixa no outro. Ambos são, geralmente, muito incertos, então é um problema probabilístico, e temos que garantir que há uma margem adequada para segurança entre os dois, claro. Devo dizer que não há algo como segurança absoluta. Contrário à crença popular, risco zero não existe.

Engenheiros devem fazer seus cálculos e acertar suas somas para garantir que consideraram essas margens, e a sociedade espera que façam isso. Por isso é ainda mais alarmante quando coisas assim acontecem. Não vou abordar os motivos de tragédias como estas, mas elas são parte do porquê a mudança tecnológica acontece bem devagar. Ninguém quer que isso aconteça. Clientes não querem que aconteça em seus projetos, obviamente. E, claro, eles querem inovação. Inovação é vital. Como engenheiro, faz parte do meu DNA. Está no meu sangue. Não poderia ser um bom engenheiro se não quisesse inovar, mas temos que fazer isso com a postura de conhecimento, força e compreensão. Não adianta dar um salto no escuro, e a civilização aprendeu com os erros desde o início dos tempos; ninguém mais do que os engenheiros.

Talvez tenham visto esse vídeo antes: o famoso colapso da Ponte Tacoma Narrows em Tacoma, estado de Washington, em 1940. A ponte ficou conhecida como "Galoppig Gertie", porque ela... ela? Ponte é palavra feminina, em inglês? Não sei. Ela ficou cambaleando assim por um bom tempo, e observem este movimento de torção. A ponte era flexível demais. Ela foi desenhada por Leon Moisseiff, conhecedor do projeto da ponte suspensa, mas, neste caso, ele forçou os limites um pouco mais do que devia e pagou o preço. Felizmente, não houve vítimas. Mas o colapso dessa ponte retardou o desenvolvimento de pontes suspensas. Por 10 anos ninguém considerou fazer outra ponte suspensa. Não havia nenhuma. E quando ressurgiram na década de 1950, elas traziam em si uma reação exagerada, um tipo de segurança excessiva em resposta ao que havia acontecido. Mas quando ocorreu, em meados dos anos 60, houve, de fato, uma mudança, uma inovação, uma mudança tecnológica. Esta é a Severn Bridge no Reino Unido. Observem a seção aerodinâmica transversal moderna ali no centro. É também uma caixa que a deixa bem rígida nas torções, aquele movimento de torção que vimos em Tacoma não aconteceria aqui. Ela também é muito leve, e como veremos daqui a pouco, leveza é ​​realmente importante para longas extensões, e parece que todos querem que sejam construídas extensões mais longas.

A mais longa no momento está no Japão. São pouco menos de 2 km, um vão. A ponte Akashi Kaikyō. No momento, trabalhamos numa ponte um pouco mais longa na Turquia, e projetamos a Ponte de Messina na Itália, que aguarda o início da construção qualquer dia desses, sabe-se lá quando.

(Risos)

Já volto para Messina num momento. Mas outro tipo de ponte de longa extensão que usa esse princípio de tensão é a ponte estaiada, e vemos muitas delas. Na verdade, na China estão construindo várias delas no momento. A mais longa dessas é a Ponte Russky, em Vladivostok, na Rússia, pouco mais de 1,1 km.

Mas vou levá-los de volta à questão quanto à extensão longa e leveza. Vou usar a Ponte de Messina como exemplo. O gráfico de pizza no centro representa a capacidade dos cabos principais, pois são eles que dão sustentação à ponte. E observem que 78% dessa capacidade é usada apenas para sustentar a ponte. Há apenas 22% de sua capacidade, ou seja, menos de um quarto, disponível para a carga útil, as coisas que a ponte deve apoiar: trilhos, a estrada e assim por diante. E, na verdade, mais de 50% daquela carga morta é o cabo sozinho; apenas o cabo, sem qualquer piso. Se pudéssemos tornar esse cabo mais leve, poderíamos ir mais distante. No momento, se usarmos o fio de aço de alta resistência disponível pra nós, podemos estender, em termos práticos, cerca de cinco ou seis quilômetros se decidirmos arriscar. Mas se pudéssemos usar fibra de carbono nesses cabos, poderíamos ir mais de 10 quilômetros. É algo espetacular.

Mas é claro que superextensões não são o caminho a percorrer em todo lugar. Elas são muito caras e trazem todo tipo de outros desafios associados a elas, e tendemos a construir vãos múltiplos quando atravessamos um esteiro amplo ou uma travessia marítima. Mas se essa travessia marítima estivesse num lugar como Gibraltar, ou neste caso, o Mar Vermelho, estaríamos, na verdade, construindo vãos múltiplos superlongos e isso seria algo espetacular, não? Não acho que verei aquela concluída na minha vida, mas certamente valerá a pena se alguns de vocês puderem ver.

Bem, quero falar sobre algo que acho muito empolgante. Esta é a ponte suspensa com vãos múltiplos que cruza águas muito profundas na Noruega e estamos trabalhando nela no momento. Águas profundas significam que as fundações são proibitivamente caras. Então esta ponte flutua. É uma ponte suspensa de múltiplos vãos flutuante. Já tivemos pontes flutuantes antes, mas não como esta. Ela fica sobre plataformas flutuantes fixadas ao fundo do mar e pressionadas para baixo contra essas forças de flutuação, e, para que fiquem estáveis, os topos das torres precisam ser amarrados juntos, caso contrário, a coisa toda iria simplesmente cambalear e ninguém iria querer subir ali. Mas estou muito animado com isso, pois se pensarmos em lugares pelo mundo onde a água é tão profunda que ninguém havia considerado a possibilidade de construir uma ponte ou qualquer tipo de travessia, isso agora abre essa possibilidade. Essa está sendo feita pela Administração de Estradas da Noruega, mas estou bem animado em descobrir onde mais esta tecnologia irá permitir desenvolvimento, aquele crescimento conjunto, a construção de uma comunidade.

E quanto ao concreto? O concreto ganha uma fama ruim às vezes, mas nas mãos de pessoas como Rudy Ricciotti, vejam o que é possível fazer. Chamamos isso de concreto reforçado com fibra de ultra-alto desempenho. Dá até pra enrolar a língua. Os engenheiros adoram esse tipo de palavra.

(Risos)

Descobrimos que isso é muito resistente e realmente durável, e conseguimos uma qualidade escultural fantástica. Quem disse que pontes de concreto são sem graça?

Poderíamos falar sobre todo tipo de novas tecnologias acontecendo: robôs, impressão em 3D, IA e tudo mais, mas quero levá-los de volta a algo que mencionei anteriormente. Nossas pontes precisam ser funcionais, sim; precisam ser seguras, certamente; precisam ser úteis e duráveis. Mas acredito fervorosamente que precisam ser elegantes e lindas. Nossas pontes são projetadas para durar um longo tempo. Visamos projetá-las por mais de 100 anos. Elas estarão lá por um bom tempo. Ninguém se lembrará do custo, nem se a construção atrasou alguns meses. Mas se ela for feia ou sem graça será sempre feia ou sem graça.

(Risos)

Pontes... a beleza enriquece a vida. Não é mesmo? Aumenta o nosso bem-estar. Feiura e mediocridade fazem exatamente o oposto. E se continuarmos construindo ambientes medíocres e feios, e acredito que estamos nos tornando desnorteados por essas coisas, se continuarmos fazendo isso, é algo como um vandalismo em grande escala, o que é completamente inaceitável.

(Aplausos)

Esta é uma ponte em Lyon na França, que foi adquirida através de um concurso de projetos. E acho que precisamos começar a conversar com as pessoas que obtêm nossas pontes e nossas estruturas, porque a aquisição é normalmente a chave. O concurso de projetos é um modo de se obter um bom design, mas não o único. Há muitas aquisições acontecendo que são totalmente preconceituosas em relação a um bom design.

Então sim, a tecnologia é, às vezes, um pouco devagar no meu mundo, mas estou muito animado quanto ao que podemos fazer com ela. Seja salvando vidas na África rural ou alongando os limites da tecnologia de longo alcance ou simplesmente cruzando uma estrada, espero que continuemos a construir pontes elegantes e bonitas que salvam vidas e constroem comunidades.

Obrigado.

(Aplausos)