Joelle Maletis
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Muitos de nós sofremos qualquer trauma durante a vida. Por vezes, isso não causa efeitos a longo prazo. Mas, para milhões de pessoas, essas experiências persistem, provocando sintomas como "flashbacks", pesadelos e pensamentos negativos que interferem com a vida quotidiana. Este fenómeno, chamado perturbação de "stress" pós-traumático ou PSPT não é um defeito pessoal. É uma perturbação tratável de determinados mecanismos biológicos que nos permitem fazer face a experiências perigosas.

Para percebermos a PSPT, precisamos primeiro de perceber como o cérebro processa uma ampla gama de provações, incluindo a morte de um ser querido, a violência doméstica, um ferimento ou uma doença, os maus tratos, a violação a guerra, os acidentes de viação e os desastres naturais. Estes acontecimentos podem provocar sentimentos de perigo e desamparo que ativam o sistema de alarme do cérebro, conhecido por reação "luta, foge ou paralisa". Quando este alarme é acionado, o sistema hipotálamo-pituitária-adrenalina, conhecido por eixo HPA, envia sinais ao sistema nervoso parassimpático. É a rede que comunica com as glândulas suprarrenais e os órgãos internos para regular funções como o ritmo cardíaco, a digestão e a respiração. Estes sinais iniciam uma cascata química que inunda o corpo com diversas hormonas de "stress", provocando alterações fisiológicas que preparam o corpo para se defender. O ritmo cardíaco acelera, a respiração torna-se mais rápida, e os músculos ficam tensos.

Mesmo depois de a crise terminar, os altos níveis das hormonas de "stress" podem manter-se durante dias provocando nervosismo, pesadelos e outros sintomas. Para muita gente, estas experiências desaparecem ao fim de dias, no máximo duas semanas, à medida que os níveis de hormonas estabilizam. Mas uma pequena percentagem dos que sofrem um trauma têm problemas persistentes que desaparecem temporariamente e reaparecem meses depois. Não entendemos totalmente o que é que acontece no cérebro mas uma teoria é que o cortisol, a hormona de "stress", pode continuar a ativar a reação "luta, foge ou paralisa" que reduz o funcionamento geral do cérebro e provoca uma série de sintomas negativos. Estes sintomas caem habitualmente em quatro categorias: pensamentos invasivos, como sonhos e "flashbacks", fuga às recordações do trauma, pensamentos e sentimentos negativos, como o medo, a raiva e a culpa e sintomas reativos, como a irritabilidade e a dificuldade em dormir. Nem toda a gente tem estes sintomas todos, nem os experimentam com a mesma extensão ou intensidade. Quando os problemas duram mais de um mês, diagnostica-se a PSPT. A genética, o "stress" esmagador permanente e muitos fatores de risco, como doenças mentais pré-existentes, ou a falta de apoio emocional, desempenham provavelmente um papel na escolha de quem sofrerá PSPT. Mas a causa subjacente continua a ser um mistério médico.

Um grande problema com a PSPT, é a sensibilidade a estímulos, físicos e emocionais que o cérebro associa com o trauma original. Podem ser sensações do dia-a-dia que não são perigosas em si mesmas mas provocam poderosas reações físicas e emocionais. Por exemplo, o cheiro de uma fogueira pode evocar a lembrança de ter ficado preso numa casa em chamas. Para algumas pessoas com PSPT essa memória ativa a mesma cascata neuroquímica que o acontecimento original. Depois, provoca os mesmos sentimentos de pânico e desamparo como se estivessem a viver o trauma outra vez.

Tentar evitar esses estímulos que por vezes são imprevisíveis pode levar ao isolamento. Isso leva as pessoas a sentir-se inválidas, ignoradas ou mal compreendidas como se alguém acionasse um botão de pausa na vida delas enquanto o resto do mundo continua à volta delas.

Mas há opções. Se pensam que sofrem de PSPT, o primeiro passo a dar é um exame com um profissional de saúde mental que pode direcionar-nos para muitos recursos disponíveis. A psicoterapia pode ser muito eficaz, no caso da PSPT, ajudando os doentes a compreender melhor os estímulos. E certos medicamentos podem controlar melhor os sintomas, assim como as práticas de cuidados, desde a meditação a exercício regular.

E se detetarmos indícios de PSPT num amigo ou numa pessoa de família? O apoio social, a aceitação e a empatia são essenciais para ajudar a recuperação. Digam-lhe que acreditam no que ela conta sobre o que está a sofrer e que não a culpam pelas suas reações. Se ela se mostrar recetiva, encorajem-na a submeter-se a um exame e ao tratamento.

Chama-se à PSPT "a ferida oculta" porque não apresenta sinais físicos exteriores. Mas apesar de ser uma perturbação invisível, não tem que ser silenciosa.