Allan Savory
7,125,617 views • 22:19

A mais maciça e perfeita tempestade de tsunami está sobre nós. Esta tempestade perfeita está a construir uma realidade cruel, uma realidade crescentemente cruel, e somos confrontados com esta realidade agarrados à crença de que podemos resolver os problemas através da tecnologia. Isso é muito compreensível. Esta tempestade perfeita que enfrentamos resulta do contínuo aumento populacional, que ascende para as 10 mil milhões de pessoas. A terra está a transformar-se em deserto, e, claro está, a alteração climática.

Agora, não há dúvidas: só solucionaremos o problema de substituir os combustíveis fósseis com a tecnologia. Mas os combustíveis fósseis, o carbono — o carvão e o gás — não são de modo algum a única coisa que causa a alteração climática.

"Desertificação" é um eufemismo para designar terra que se transforma em deserto, e isso somente ocorre quando criamos demasiada terra nua. Não há outra causa. Eu pretendo chamar a atenção que a maioria das terras do mundo se estão a transformar em deserto.

Mas para vocês, tenho uma mensagem muito simples que oferece mais esperança do que podem imaginar. Existem ambientes em que a humidade é garantida durante todo o ano. Nesses, é quase impossível criar grandes áreas vastas de terra nua. Não importa o que se faça, a natureza vai cobri-la rapidamente. E existem ambientes onde se têm meses de humidade e depois meses de aridez, e é aí que ocorre a desertificação. Felizmente, com a atual tecnologia espacial, podemos observar o mundo a partir do espaço, e quando o fazemos, podemos ver as proporções relativamente bem. Geralmente, o que se vê em verde não está a desertificar e o que aparece castanho, está. Estas são de longe as maiores áreas da Terra. Aproximadamente dois terços da Terra está a desertificar, diria eu.

Tirei esta foto no deserto Tihama enquanto caíam 25 mm de chuva. Pensem em termos de barris de água, cada um contendo 200 litros. Mais de 1000 barris de água caíram sobre cada hectare de terra nesse dia. No dia seguinte, a terra estava assim. Para onde foi a água? Uma parte foi levada por escorrência mas a maior parte da água que se infiltrou simplesmente evaporou-se, exatamente como acontece no nosso jardim se deixarmos a terra descoberta. Agora, como o destino da água e o carbono está ligado à matéria orgânica do solo, quando danificamos os solos, liberta-se carbono. O carbono regressa à atmosfera.

Dizem-nos uma e outra vez, repetidamente, que a desertificação só está a ocorrer nas zonas áridas e semi-áridas do mundo, e que nas pradarias de ervas altas como esta, com muita chuva, não é importante. Mas se não olharmos para as ervas, mas pelo que está por baixo delas, descobrimos que a maior parte do solo das pradarias que acabaram de ver está árida e coberta com uma crosta de algas, que provoca mais escorrência da água e evaporação. Este é o cancro da desertificação que só reconhecemos na sua forma final.

Sabemos que a desertificação é causada pela pecuária, sobretudo as vacas, ovelhas e cabras, que pastam demasiado as plantas, deixando a terra nua e emitindo metano. Quase todos o sabem, dos Prémios Nobel aos "caddies" de golfe, ou foi ensinado assim, como eu fui. Os ambientes como este que vemos aqui, ambientes poeirentos da África onde cresci, e eu amava a vida selvagem, pelo que cresci a odiar a pecuária pelos danos que estava a causar. Depois, a minha educação universitária como ecologista reforçou mais as minhas crenças.

Bom, eu tenho notícias para vocês. Já tivemos a certeza de que o mundo foi plano. Estávamos errados então, e estamos errados novamente. Quero convidar-vos agora para virem comigo na minha viagem de reeducação e descoberta.

Quando eu era jovem, um jovem biólogo em África, eu estava envolvido em escolher áreas maravilhosas como futuros parques nacionais. Nesse momento — estávamos em 1950 — e não antes, proibimos a caça e os tocadores de tambor, para proteger os animais, e então a terra começou a degradar-se, como vemos neste parque que criámos. Não havia intervenção de gado, mas suspeitando que tínhamos demasiados elefantes, pesquisei e provei que tínhamos efetivamente demasiados, e recomendei que diminuíssemos o seu número a um nível sustentável para o solo. Foi uma decisão terrível para mim e, francamente, foi politicamente explosiva. O nosso governo formou uma equipa de especialistas para avaliar a minha pesquisa. Fizeram-no. Concordaram comigo. Ao longo dos anos seguintes, matámos 40 000 elefantes, tentando parar com os seus danos. Mas ficou tudo pior, não melhor. Sendo um amante de elefantes como eu sou, este foi o maior e mais triste erro da minha vida, e vou carregar com ele até à morte. Mas uma coisa boa saiu de tudo isto. Tornou-me absolutamente determinado a dedicar a minha vida a encontrar soluções.

Quando vim aos EUA, fiquei chocado, ao encontrar parques nacionais como este a sofrer desertificação tão grave como em África. Não existia gado nesta terra há mais de 70 anos. Descobri que os cientistas americanos não tinham explicação para isto exceto que a terra estava árida e natural. Então comecei à procura de todas as bases de pesquisa que pude encontrar por todo o oeste dos EUA onde tivesse havido remoção de gado para provar que isso travava a desertificação, mas encontrei exatamente o contrário, como observamos nesta estação de pesquisa, onde estas pradarias estavam verdes em 1961, mas que em 2002 se tinham alterado para isto. Os autores do artigo sobre a posição relativa à alteração climática de quem obtive estas imagens atribuem esta mudança a "processos desconhecidos".

Claramente, nunca entendemos o que está a causar a desertificação, que destruiu muitas civilizações e agora nos ameaça globalmente. Nunca o compreendemos. Se usarmos um metro quadrado de terra e a tornarmos nua como este está aqui em baixo, garanto, ela estará mais fresca ao nascer do dia e mais quente ao meio-dia do que se a mesma terra estivesse coberta de lixo, lixo orgânico vegetal. Alterámos o microclima. Agora, enquanto fazemos isso, aumentando bastante a percentagem de terra nua, em mais de metade das terras do mundo, estaremos a mudar o macroclima. Mas simplesmente não compreendemos porque é que isto começou a acontecer há 10 000 anos. Porque é que acelerou recentemente? Não compreendíamos isso.

O que nos faltava entender era que nestes ambientes mundiais de humidade sazonal, o solo e a vegetação desenvolveram-se juntamente com grande número de animais de pasto, e estes herbívoros desenvolveram-se com ferozes predadores de rebanhos. Ora bem, a maior defesa contra estes predadores de rebanhos é formar manadas. Quanto maior a manada, mais a salvo estará cada indivíduo. Então, as grandes manadas defecavam e urinavam sobre a sua comida, pelo que tinham de continuar a mover-se. Era esse movimento que evitava o pastoreio excessivo das plantas, enquanto que o pisoteio periódico assegura uma boa cobertura do solo, como vemos onde passou uma manada.

Esta imagem é de uma típica pradaria sazonal. Acabou de passar por quatro meses de chuva, e vai agora passar por oito meses de estação seca. Observem as mudanças por que passa ao entrar nesta estação seca. Ora, toda a erva observada acima do solo tem de se decompor biologicamente antes da próxima estação de crescimento. Se tal não acontecer, a pradaria e o solo começam a morrer. Se não se decompuser biologicamente, passa à oxidação, que é um processo muito lento. Isso sufoca e mata as ervas, levando a uma alteração para vegetação lenhosa e solo nu, libertando carbono. Para impedir isso, temos usado tradicionalmente o fogo. Mas o fogo também deixa o solo nu, libertando carbono e, pior que isso, a queima de um hectare de pradaria liberta mais poluentes, e mais perigosos, do que 6 000 carros. Temos queimado em África, todos os anos, mais de mil milhões de hectares de pradaria, e quase ninguém tem falado nisso. Justificamos a queima, enquanto cientistas, porque é assim que removemos o material morto da terra, permitindo o desenvolvimento de novas plantas.

Observando esta nossa pradaria que secou, o que poderemos fazer para a tornar saudável? Tenham em mente que falo de quase toda a terra do planeta atualmente. Não podemos reduzir o número de animais para permitir maior repouso sem causar desertificação e mudança climática. Não podemos queimá-la sem causar desertificação e alteração climática. O que vamos nós fazer? Temos apenas uma opção. Eu repito, apenas uma opção disponível para os climatologistas e cientistas, ou seja, fazer o impensável. Usar o gado, agrupado e em movimento, como uma representação das antigas manadas e predadores, e simular a Natureza. Não resta outra alternativa à Humanidade.

Então façamo-lo. Neste pedaço de pradaria, iremos fazê-lo, mas apenas em primeiro plano. Vamos pisoteá-la fortemente com gado para simular a Natureza. Fizemo-lo e observem. Toda aquela erva está agora a cobrir o solo como estrume, urina e lixo orgânico ou folhas, como qualquer jardineiro compreenderá. Esse solo está pronto a absorver e reter a chuva, armazenar carbono e decompor o metano. E fizemo-lo, sem usar o fogo danificador do solo, e as plantas estavam livres para crescer.

Quando eu percebi que não tínhamos opção como cientistas a não ser usar o maldito gado para responder à mudança climática e à desertificação, enfrentei um grande dilema. Como iríamos fazê-lo? Tínhamos tido 10 000 anos de pastores extremamente conhecedores agrupando e movendo os seus animais, mas foram eles que criaram os grandes desertos do mundo. Depois tivemos 100 anos de moderna ciência das chuvas, e isso acelerou a desertificação, como descobrimos primeiro em África e confirmámos depois nos EUA, como observam nesta imagem de terra controlada pelo governo federal. Claramente era necessário mais do que agrupar e mover os animais, e os seres humanos, ao longo de milhares de anos, nunca foram capazes de lidar com a complexidade da Natureza. Mas nós, biólogos e ecologistas, nunca resolvemos um problema tão complexo como este. Em vez de reinventar a roda, comecei a estudar outras profissões para ver se alguém já o tinha feito. E descobri que havia técnicas de planeamento que podia adaptar às nossas necessidades biológicas. A partir delas, desenvolvi o que chamamos controlo holístico e pastoreio planificado, um processo de planificação. Isso visa toda a complexidade da Natureza e a nossa complexidade social, ambiental e económica.

Temos hoje jovens como esta a ensinar em aldeias em África como colocar os animais em manadas maiores, planear o pastoreio para simular a Natureza, e onde guardar os animais à noite — conduzimo-los num modo sem predadores, porque temos muitas terras, e assim por diante — e onde aplicam isto e os mantêm durante a noite para preparar os campos de cultivo. Estamos a obter também um grande aumento da produção agrícola.

Vejamos alguns resultados. Este é um local adjacente às nossas terras no Zimbabué. Passou agora por quatro meses de boas chuvas e vai começar a época seca. Mas como podem ver, quase toda aquela chuva, evaporou-se da superfície do solo. O rio está seco, mesmo tendo caído tanta chuva, e temos aqui 150 000 pessoas em ajuda alimentar quase permanente. Vejamos a nossa terra ao lado, no mesmo dia, com a mesma chuva, e observemos. O nosso rio está transbordante, saudável e limpo. Está ótimo. A produção de ervas, arbustos, árvores, vida selvagem, tudo está agora mais produtivo. Não temos praticamente qualquer medo de anos de seca. E conseguimo-lo aumentando o gado e as cabras em 400 por cento, planificando o pastoreio para simular a Natureza e integrando-os com todos os elefantes, búfalos, girafas e outros animais que temos. Mas antes de começarmos, a nossa terra estava assim. Este local estava nu e em erosão há mais de 30 anos, caísse a chuva que caísse. Observem a árvore marcada e vejam a diferença ao usarmos o gado para simular a Natureza. Este é outro local que tinha ficado nu e sujeito a erosão. Na base daquela pequena árvore marcada, tínhamos perdido mais de 30 cm de solo. Observem novamente a mudança apenas usando gado a simular a Natureza. Agora há lá árvores caídas, porque a terra está melhor e atrai agora elefantes, etc. Esta terra no México estava em condições terríveis. Tive de marcar o monte porque a mudança é muito profunda.

(Aplausos)

Comecei a ajudar uma família no Deserto de Karoo, nos anos 70, a tornar o deserto que veem aqui à direita de novo em pradaria. Felizmente os seus netos vivem nestas terras com esperança no futuro. Vejam ainda a surpreendente mudança nesta aqui onde aquele ribeiro recuperou completamente usando nada mais que gado simulando a Natureza. De novo, temos a terceira geração daquela família naquelas terras com a bandeira hasteada.

As vastas pradarias da Patagónia estão a desertificar, como observam aqui. O homem no meio é um investigador argentino, que documentou o declínio constante daquelas terras, ao longo dos anos, enquanto reduziam o número de ovelhas. Puseram 25 000 ovelhas num rebanho, simulando realmente a Natureza com pastoreio planeado, e documentaram um aumento de 50% na produção da terra no primeiro ano.

Vemos agora os violentos pastores do Corno de África planificando os pastoreios para simular a Natureza e dizendo abertamente ser a sua única esperança de salvar as suas famílias e a sua cultura. Noventa e cinco por cento daquela terra apenas alimenta os seres humanos através dos animais.

Lembro-vos que falo da maioria das terras do mundo que controlam o nosso destino, incluindo a mais violenta região do mundo, onde apenas os animais servem de alimento aos seres humanos de cerca de 95% da terra. Penso que, globalmente, estamos a causar a alteração climática, tanto como os combustíveis fósseis, e talvez mais que os combustíveis fósseis. Mas pior ainda, estamos a causar fome, pobreza, violência, colapso social e guerra. E enquanto estou aqui a falar convosco, milhões de homens, mulheres e crianças estão a sofrer e morrer. Se isto continuar, é improvável que sejamos capazes de travar a alteração climática mesmo depois de eliminarmos o consumo de combustíveis fósseis.

Acredito que vos mostrei como podemos trabalhar com a Natureza a muito baixo custo para inverter tudo isto. Estamos já a fazê-lo em cerca de 15 milhões de hectares em cinco continentes. As pessoas que compreendem muito mais de carbono do que eu calculam que, para efeitos ilustrativos, se fizermos o que aqui mostrei, podemos retirar suficiente carbono da atmosfera e restaurá-lo seguramente ao solo das pradarias durante milhares de anos. Se o fizermos em apenas metade das pradarias do mundo como vos mostrei, podemos chegar a níveis pré-industriais, enquanto alimentamos as pessoas. Não consigo pensar em mais nada que ofereça mais esperança ao nosso planeta, às nossas crianças, e às crianças de toda a Humanidade.

Obrigado.

(Aplausos)

Obrigado, Chris.

Chris Anderson: Obrigado. De certeza que todos temos a) cem perguntas, b) vontade de abraçar-te. Farei apenas uma pergunta rápida. Quando começas isto e reúnes um rebanho de animais, é num deserto. O que comem? Como funciona essa parte? Como começas?

Allan Savory: Fazemos isto há algum tempo, e a única vez que tivemos de fornecer qualquer alimento foi na reabilitação de minas, onde está 100% nu. Mas há muitos anos, pegámos na pior terra do Zimbabué, e eu oferecia uma nota de 5 libras. ao longo de 100 milhas. a alguém que encontrasse uma erva ao longo de 100 milhas. Aí, triplicámos a taxa de ocupação, o número de animais, no primeiro ano, sem fornecer qualquer alimento, apenas pelo seu movimento, simulando a Natureza, e usando uma curva sigmoide, é esse o princípio. É um pouco técnico para explicar aqui.

CA: É uma ideia interessante e importante. As melhores pessoas do nosso blogue virão falar contigo. Quero saber mais sobre isto que poderíamos partilhar mais desta conversa.

Foi uma palestra espantosa, realmente espantosa. Penso que ouviste que te apoiamos no teu caminho. Muito obrigado. AS: Obrigado, Chris.

(Aplausos)