Ruth Ross
277,486 views • 17:36

Pediram-me para desmistificar o sistema endocanabinoide. Comecei a trabalhar na farmacologia de endocanabinoides há 20 anos. Fiz o doutoramento, e alguns pós-doutoramentos. Depois fiz uma pausa profissional de cinco anos quando tive dois filhos. De seguida voltei aos laboratórios e ao laboratório de um dos especialistas mundiais em farmacologia de canabinoides. Nessa altura, o campo de investigação em canabinoides era um grupo relativamente pequeno de pessoas, cientistas, e não era uma área de investigação muito popular. As pessoas não nos levavam a sério. Acho que pensavam que estávamos só a brincar no laboratório com batas psicadélicas, "T-shirts" tingidas, tipo peça de altar, mas, na verdade, é um grupo de pessoas sérias que trabalham muito para perceber o sistema endocanabinoide. Mas estamos em 2019, e todos estão interessados em endocanabinoides e em saber como a canábis funciona. É como quando ficamos com aquelas roupas velhas que amamos e ficamos apaixonados por elas tempo suficiente até que voltam a estar na moda. (Risos) Comecemos com uma espécie de introdução, analisando o quão inteligentes são o nosso cérebro e corpo. O nosso corpo, as nossas emoções e as nossas reações físicas são feitos para reagir ao nosso ambiente. As coisas mudam no nosso ambiente, interna ou externamente - mudanças químicas, que iniciam uma mudança nas nossas emoções ou reações. Um exemplo de que já devem ter ouvido falar chama-se "reação lutar ou fugir". O que acontece é que há algo ameaçador, algo perigoso, e produzimos adrenalina; corre nas nossas veias, ou noradrenalina, e faz com que lutemos contra a ameaça ou tentemos escapar, fugindo. Como é que isto funciona? No fundo do nosso cérebro, a amígdala sente medo e perigo, e envia sinais para outras partes do cérebro e do corpo, e depois produz-se adrenalina. Esta é a pequena estrutura química da adrenalina. Depois, percorre a corrente sanguínea - nos músculos, no sistema digestivo, em todo os órgãos; ficamos prontos para lutar ou fugir. O ritmo cardíaco também aumenta. Olhemos para a farmacologia por detrás disto. Em farmacologia, pensamos na adrenalina um pouco como uma chave. O recetor de adrenalina, o recetor adrenérgico, é como a fechadura. A chave da adrenalina entra perfeitamente nesta pequena fechadura. Isso é como que o plano de fundo. E o sistema endocanabinoide? O sistema endocanabinoide, similarmente, é uma parte do corpo feita para reagir ao nosso ambiente, interna ou externamente, e depois inicia várias mudanças como resposta. Comecemos por desmistificar coisas em torno do sistema endocanabinoide. Ele existe durante toda a vida, por isso nascemos com um sistema endocanabinoide, já existe antes de nascermos. É, por exemplo, muito importante no desenvolvimento cerebral, numa coisa chamada sinaptogénese, que é a formação de sinapses. Há pequenas ligações elétricas no cérebro que permitem aos neurotransmissores enviar informação. Também está envolvido na poda sináptica, que é o caso contrário, em que algumas sinapses supérfluas ou extra são cortadas. São duas funções muito importantes. O sistema endocanabinoide existe em pessoas que nunca ouviram falar em canábis. Se vivermos toda a vida numa comunidade onde a canábis não é utilizada, também temos um fantástico e funcional sistema endocanabinoide. E, também importante, o sistema endocanabinoide ajuda-nos a perceber como a canábis funciona. Mas a canábis não é o motivo da existência do sistema endocanabinoide. Como é que isto funciona? Olhemos para o sistema endocanabinoide com maior detalhe. Aqui estão os endocanabinoides - são dois. São produzidos no cérebro e em tecidos diferentes, em alturas específicas. Esta é a pequena estrutura química de um deles. Os endocanabinoides atuam em CB, recetores canabinoides. São dois: CB1 e CB2. Encontram-se no cérebro e em tecidos diferentes de modo a reagir aos endocanabinoides. Quando os endocanabinoides se ligam a estes, há uma reação. O mesmo cenário entre chave e fechadura: os endocanabinoides são como a chave e o recetor é a fechadura que desbloqueia estas reações pelo corpo abaixo. Porque é que produzimos endocanabinoides e quando? Como disse, eles são importantes na resposta ao nosso ambiente. Nós fazemos endocanabinoides em reação a todo o tipo de coisas, no tempo certo e na situação correta. Aqui estão alguns exemplos. Quando temos fome - se calhar estão a sentir-se assim agora, talvez ainda não, mas quando começamos a pensar em comida, os endocanabinoides e o hipotálamo começam a subir. O exercício, quando estamos com "stress", com dor, dependendo da altura do dia, os níveis de endocanabinoides aumentam em certas partes do corpo e do cérebro. O que é que eles fazem? Fazem muitas coisas, e aqui estão alguns exemplos. Estão envolvidos, como disse, na estimulação do apetite. Estão envolvidos na redução do "stress" e da ansiedade. Estão envolvidos em processos de alívio da dor, por isso sobem em certas partes do cérebro como reação à dor. Podem ver que é muito importante no equilíbrio das coisas. Se o "stress" aumenta, os endocanabinoides aliviam-no. Se sentimos um aumento de dor, os endocanabinoides produzem efeitos de alívio da dor. Curiosidade: eles também aumentam quando cantamos. Nós cantámos há bocado, e os endocanabinoides aumentaram 42% quando cantámos. E também quando dançamos. Estes são outros dois mediadores chave do sistema endocanabinoide. Gostaria de propor-vos que o sistema endocanabinoide é inteligente. E um dos exemplos é o "stress". Em resposta ao "stress", produzimos endocanabinoides, e eles provocam a redução do "stress". Aqui temos um acontecimento que provoca "stress", como, por exemplo, fazer uma palestra TED (Risos) ou um filho a fazer uma birra no supermercado ou um exame ou uma data limite. O que acontece é que há um aumento da hormona de "stress", o cortisol, na corrente sanguínea. E também há um aumento de endocanabinoides em resposta a isso. De forma muito inteligente, o sistema aprende com o "stress". Por isso, em resposta ao mesmo evento de "stress", pela segunda ou terceira vez - podem ver ali em azul, os níveis de endocanabinoides a aumentar ainda mais,

e à terceira vez, ainda mais - eles estão a aprender com este evento de "stress". E os níveis de cortisol estão a ser reduzidos. Ou seja, têm este anti-"stress" que aprende inteligentemente com a repetição de eventos de "stress". Outro exemplo de como o sistema é mesmo inteligente é a formação da memória. Em resposta a vários eventos na vida, formamos memórias, e os endocanabinoides estão muito envolvidos nisso da maneira mais incrível. Em várias partes do cérebro, libertam-se endocanabinoides para ajudar a formar memórias. Por exemplo, no hipocampo, uma parte do cérebro com muitos endocanabinoides e recetores de endocanabinoides. O que acontece é que os endocanabinoides ajudam a formar memórias úteis; estão envolvidos na memória ativa, como lembrarmo-nos de datas, de nomes e de listas. Mas muito notavelmente, eles ajudam a evitar a formação das chamadas memórias emocionalmente desagradáveis, coisas que podem ser traumáticas. Impedem a consolidação e a recuperação de memórias emocionalmente desagradáveis. Eles integram o sistema de formação de memórias para que tenhamos memórias emocionais suficientes que são saudáveis e úteis, e que também ajudam a nossa memória ativa. E a canábis? Como é que encaixa nisto tudo? A canábis tem dois constituintes primários chamados canabidiol - CBD, e THC. Hoje apenas vou falar do THC. O CBD podia ser o tópico de outra palestra TED inteira. Vou apenas dizer que, quanto ao CBD, ainda temos muitas questões sobre como funciona - o seu mecanismo de ação - se funciona em certas doenças, e temos dúvidas sobre a sua segurança. Mas quanto ao THC, percebemos um pouco melhor como funciona. Novamente, temos o cenário da chave e da fechadura. O THC funciona como uma chave alternativa para o recetor endocanabinoide, entrando na fechadura, por assim dizer, do recetor endocanabinoide. O que acontece, quando se liga a esse recetor é que ou imita o sistema endocanabinoide ou interrompe o sistema endocanabinoide. Agora, podíamos perguntar: Como é que é possível? Como é que temos algo numa planta que é uma chave alternativa para um recetor no cérebro? Como é que isto aconteceu? Imaginem que há no vosso quintal uma pilha de mil milhões de chaves. Se experimentarem todas as chaves, há a probabilidade de encontrarem uma que dá para a porta das traseiras, e podem dar essa chave a alguém para entrar em vossa casa. O reino das plantas contém muitos milhões e milhões de pequenas moléculas. Esta é a estrutura do THC. O THC é apenas uma entre mais de 100 moléculas de tipo canabinoide na canábis, e isso numa só planta. É uma questão de probabilidade que nas plantas haja pequenas moléculas que encaixem nos recetores que temos no cérebro e no nosso corpo. Há muitos exemplos disto. Por exemplo, a morfina que há nas papoilas encaixa perfeitamente nos recetores opioides, que são normalmente ocupados por encefalinas e endorfinas no nosso corpo. Este exemplo ilustra claramente que uma coisa natural que se encontra em plantas nem sempre é segura. O que é que o THC faz ao sistema endocanabinoide? Temos o sistema endocanabinoide que equilibra as coisas, reage ao "stress" e produz memórias. O que acontece quando o THC está presente? Agora há duas possíveis chaves para a mesma fechadura. Outra coisa muito inteligente sobre o sistema endocanabinoide, que se aplica a muitos sistemas biológicos, é ser muito bem controlado e concebido para não ser ativado excessivamente. Se for ativado em excesso, pode ser muito perigoso e tornar-se disfuncional. Portanto, é concebido para diminuir quando pensa estar ativo. Quando o THC surge, o sistema abranda. O que acontece é que recebemos um menor nível de endocanabinoides; eles começam a desligar-se ou a diminuir. E ficamos com menos recetores endocanabinoides. Isto significa que, como devem saber, as pessoas podem começar a precisar de maiores quantidades de THC de modo a ter o mesmo efeito que tinham antes devido a este abrandamento. Olhemos rapidamente para os mecanismos de sobrevivência. Em resposta ao "stress", há pessoas que utilizariam THC ou canábis de modo a ajudar a lidar com o "stress". Isso pode aliviar o "stress" ou não. Nalgumas pessoas causam ansiedade, mas podem aliviar o "stress". O que é que isto faz ao sistema endocanabinoide? Os sistemas endocanabinoides ficam diminuídos. Em resposta ao "stress", é como coçar a cabeça como resposta ao "stress" porque há menos endocanabinoides - visto que o local dos endocanabinoides é ocupado pelo THC. Por isso, os sistemas não aprendem com o evento de "stress".. Em vez de aprender mecanismos adaptativos de sobrevivência em resposta ao "stress", como, por exemplo, um exercício que podem controlar o sistema endocanabinoide, este local está a ser ocupado por THC. Um certo número de pessoas que utilizam canábis com THC podem desenvolver uma dependência. Isso significa que querem deixar de a utilizar. Pode afetar a sua vida negativamente. Querem parar, mas é difícil, e a isso chama-se uma dependência. A razão para isso é que o THC ocupou o lugar onde os endocanabinoides estavam. Quando o THC não estiver lá, os endocanabinoides também não estão o que pode causar um certo nível de dependência. Temos o sistema endocanabinoide. Há o efeito ambiental, como fator de "stress", como fazer uma palestra TED,

ficamos com "stress". E temos os endocanabinoides a ser libertados em certas partes do cérebro para aliviar o "stress". O THC, por outro lado, presente na canábis, não reage ao ambiente, e tem vários efeitos em simultâneo. Os recetores canabinoides estão em diferentes áreas do cérebro e em diferentes lugares do corpo. O THC ativa várias coisas simultaneamente. Pode aliviar o "stress". Afeta a memória e a perceção de diversas formas, pode prejudicar a memória ativa de curto prazo. Pode tornar-nos sonolentos. Pode afetar a motivação, aumentar o apetite. Pode também ser imprevisível, algumas pessoas sentem felicidade ou relaxamento, mas outras sentem-se ansiosas com o THC, especialmente em doses mais altas. Outras podem ter psicoses agudas, com doses pesadas de THC. E pode aumentar o risco de esquizofrenia em pessoas vulneráveis. Pode ser imprevisível, dependendo da dose e dependendo da pessoa. Resumindo, os endocanabinoides não são o mesmo que o THC. O que temos aqui são os endocanabinoides produzidos no tempo certo e na altura certa; são controlados com muita precisão; são reativos ao ambiente. O THC, por outro lado, tem vários efeitos ao mesmo tempo; não é rigoroso; não é reativo ao ambiente; e pode abrandar o sistema endocanabinoide. Com tudo isto, o THC e a canábis, e também o CBD, podem aliviar alguns sintomas de certas doenças. Mas ainda há muito que precisamos de saber sobre potenciais efeitos secundários. O que pode acontecer é que pode aliviar sintomas agudamente, ou seja, a curto prazo, mas pode piorar doenças, a longo prazo. Estas são perguntas a que precisamos de responder. Os cientistas trabalham na criação de medicamentos que apontem para o sistema endocanabinoide, coisas que possam aumentar os níveis de endocanabinoides a um dado momento e lugar. Vou terminar com esta caricatura. Sou cientista, por isso ainda há muita investigação a fazer. Esta é uma empresa de chocolate. E no quadro está escrito: "A conclusão é que comer chocolate o fará parecer mais novo e mais magro." E o supervisor está a dizer: "Olha, metade do trabalho está feito. "Só precisas de preencher a parte superior e podemos dizer legalmente a inferior." Precisamos de mais dados. Precisamos de perceber os potenciais riscos da canábis recreativa. Precisamos de perceber melhor a eficácia e a segurança da canábis medicinal para diferentes doenças. Obrigada. (Aplausos)