Ruth Chang
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Pensem numa escolha difícil que vão enfrentar num futuro próximo. Pode ser entre duas carreiras: artista e contador; ou lugares para se viver: a cidade ou o campo; ou até mesmo duas pessoas para se casar: pode se casar com Betty ou se casar com Lolita. Ou talvez seja uma escolha sobre ter filhos ou não, ter o pai ou a mãe doente morando com você, criar seu filho numa religião que seu parceiro segue mas que o incomoda. Ou doar sua poupança de vida para a caridade.

A chance é que a maior escolha em que você pensou foi algo grande, algo memorável, algo que importa para você. Escolhas difíceis parecem ser ocasiões de agonia, lamentações e ranger de dentes. Mas acho que interpretamos mal as escolhas difíceis e o papel que têm em nossas vidas. Entender as escolhas difíceis revela um poder oculto que todos possuímos.

O que torna uma escolha difícil é a maneira como as alternativas se relacionam. Em qualquer escolha fácil, uma alternativa é melhor do que a outra. Numa escolha difícil, uma alternativa é melhor em certos pontos, a outra alternativa é melhor em outros pontos, e nenhuma das duas é melhor que a outra no geral. Você sofre pensando se deve ficar em seu emprego atual na cidade, ou se desgarrar de sua vida para um trabalho mais desafiador no campo porque ficar é melhor em alguns pontos, e mudar-se é melhor em outros, e nenhum dos dois é melhor que o outro no geral.

Não deveríamos pensar que todas as escolhas difíceis são grandes. Digamos que você está decidindo o que comer de manhã. Você pode comer cereal de grãos ou uma rosquinha de chocolate. Suponha que o que importa na escolha é o paladar e a saúde. O cereal é melhor para você, a rosquinha é bem mais gostosa, mas nenhum dos dois é melhor que o outro no geral, uma escolha difícil. Perceber que pequenas escolhas também podem ser difíceis pode tornar grandes escolhas difíceis parecerem menos intratáveis. Afinal de contas, nós conseguimos decidir o que comer de manhã, então talvez consigamos decidir entre ficar na cidade ou se desgarrar para o novo emprego no campo.

Também não deveríamos pensar que escolhas difíceis são difíceis porque somos estúpidos. Quando me formei na faculdade, não conseguia decidir entre duas carreiras, filosofia e direito. Eu adorava filosofia. (Risos) Há coisas incríveis para se aprender como filósofo, e todas no conforto de uma poltrona. Mas eu sou de uma modesta família de imigrantes onde minha ideia de luxo era ter uma língua de porco e sanduíche com geleia na minha lancheira, portanto a ideia de passar minha vida inteira sentada em poltronas só pensando, bem, aquilo me parecia o cúmulo da extravagância e da futilidade. Então eu peguei minha almofada amarela, desenhei uma linha pelo centro, e fiz o meu melhor para pensar nas razões a favor e contra cada alternativa. Eu me lembro de pensar comigo mesma, Se ao menos eu soubesse como seria minha vida em cada uma das carreiras... Se ao menos Deus ou Netflix me mandassem um DVD das minhas duas possíveis carreiras futuras, eu estaria feita. Eu as compararia lado a lado, eu veria que uma era melhor, e a escolha seria fácil.

Mas eu não recebi nenhum DVD. E porque eu não conseguia definir qual era melhor eu fiz o que muitos de nós fazemos em escolhas difíceis: eu escolhi a opção mais segura. O medo de me tornar uma filósofa desempregada me levou a ser advogada, e como eu fui descobrir, advocacia não era para mim. Não era quem eu era. E agora sou uma filósofa, e eu estudo escolhas difíceis, e posso lhes dizer que o medo do desconhecido, como o padrão motivacional comum no trato de escolhas difíceis, se baseia num conceito errado. É um equívoco pensar que nas escolhas difíceis, uma alternativa é realmente melhor que a outra, mas somos estúpidos demais para saber qual, e como não sabemos qual é, podemos bem escolher a opção menos arriscada. Até colocar as duas alternativas lado a lado com todas as informações, uma escolha ainda pode ser difícil. Escolhas difíceis são difíceis não por nossa causa ou de nossa ignorância; elas são difíceis porque não há uma escolha melhor.

Agora, se não há uma opção melhor, se a balança não pende para um dos lados em vez do outro, certamente as duas alternativas são igualmente boas. E talvez o certo sobre escolhas difíceis é que elas são entre duas opções igualmente boas. Isso não pode estar certo. Se as alternativas são igualmente boas, só deveríamos jogar uma moeda, e parece um erro pensar: "É assim que você deveria decidir por uma carreira, lugares para morar, pessoas para casar: jogue uma moeda."

Há uma outra razão para pensar que escolhas difíceis não são escolhas entre opções igualmente boas. Suponha que você tem que escolher entre dois empregos: você pode ser um banqueiro investidor ou artista gráfico. Há uma série de coisas que são importantes para essa escolha, como a empolgação do trabalho, atingir segurança financeira, ter tempo para construir uma família e assim por diante. Talvez a carreira de artista coloque-o na vanguarda de novas formas da expressão pictórica. Talvez a carreira de banqueiro coloque-o na vanguarda de novas formas de manipulação financeira. Imagine os empregos como quiser, de modo que nenhum seja melhor que o outro.

Agora suponha que melhoremos um deles um pouquinho. Suponha que o banco, cortejando-o, adicione 500 dólares por mês em seu salário. Será que o dinheiro extra agora deixa o emprego de banqueiro melhor que o de artista? Não necessariamente. Um salário maior deixa o emprego de banqueiro melhor do que era antes, mas talvez não seja suficiente para fazer com que ser banqueiro seja melhor do que ser artista. Mas se uma melhora em um desses empregos não o deixa melhor que o outro, então os dois originalmente não podiam ser igualmente bons. Se você começa com duas coisas igualmente boas, e melhora uma delas, essa agora deve ser melhor que a outra. Não é assim que funciona com escolhas difíceis.

E agora temos um enigma. Temos dois empregos. Nenhum é melhor que o outro, e também não são igualmente bons. Então como devemos escolher? Algo parece ter dado errado aqui. Talvez a escolha em si seja problemática e é impossível comparar. Mas isso não pode estar certo. Não é como se estivéssemos tentando escolher entre duas coisas que não podem ser comparadas. Estamos ponderando os méritos de dois empregos afinal de contas, não os méritos do número nove e um prato de ovos fritos. Uma comparação dos méritos totais de dois empregos é algo que podemos fazer, e algo que frequentemente fazemos.

Acho que o enigma nasce por causa de uma suposição irrefletida que fazemos sobre valor. Inconscientemente assumimos que valores como justiça, beleza e gentileza, são similares a quantidades científicas, como comprimento, massa e peso. Tome qualquer pergunta comparativa que não envolva valor, tal como qual de duas malas é mais pesada. Só há três possibilidades. O peso de uma é maior, menor ou igual ao peso da outra. Propriedades como o peso podem ser representadas por números reais; um, dois, três e assim por diante; e só há três possíveis comparações entre dois números reais. Um número é maior, menor ou igual ao outro. Não é assim com valores. Como criaturas pós-iluminismo, nós costumamos assumir que o pensamento científico tem a chave de tudo que importa em nosso mundo, mas o mundo dos valores é diferente do mundo da ciência. As coisas em um mundo podem ser quantificadas com números reais. As coisas no outro mundo não podem. Não devíamos pressupor que o "mundo do é", de comprimentos e pesos, tem a mesma estrutura do "mundo do deve ser", do que devemos fazer.

Então, se o que importa para nós — a alegria de uma criança, o amor que tem pelo seu parceiro — não pode ser representado por números reais, não há razão para acreditar que, na escolha, só há três possibilidades, que uma alternativa é melhor, pior ou igual à outra. Precisamos introduzir uma quarta relação, nova, além de ser melhor, pior ou igual, que descreve o que acontece nas escolhas difíceis. Gosto de dizer que as alternativas estão "em pé de igualdade". Quando alternativas estão em pé de igualdade, pode ser muito importante qual você escolhe, mas uma alternativa não é melhor do que a outra. Em vez disso, as alternativas estão na mesma vizinhança de valores, na mesma liga de valores, enquanto ao mesmo tempo são muito diferentes em tipo de valor. É por isso que a escolha é difícil.

Entender escolhas difíceis desse jeito revela algo sobre nós mesmos que não sabíamos. Cada um de nós tem o poder de criar razões. Imaginem um mundo onde cada escolha que você enfrenta é uma escolha fácil, ou seja, sempre há uma alternativa melhor. Se há uma alternativa melhor, então é essa que você deve escolher, porque parte de ser racional é fazer a melhor coisa ao invés da pior. Escolher o que tem mais razões para ser escolhido. Num mundo assim, nós teríamos razões principalmente para usar meias pretas em vez de meias rosa, para comer cereal em vez de rosquinhas, para viver na cidade em vez de no campo, para casar-se com Betty em vez de Lolita. Um mundo cheio só de escolhas fáceis nos tornaria escravos das razões. Quando pensamos nisso, é loucura acreditar que as razões apresentadas a nós ditaram que tínhamos mais razões para seguir exatamente os hobbies que temos, viver na casa em que vivemos, ter o emprego que temos. Em vez disso, tivemos alternativas que estavam em pé de igualdade, escolhas difíceis, e criamos razões para nós mesmos para escolher aquele hobby, aquela casa e aquele emprego. Quando as alternativas estão em pé de igualdade, as razões apresentadas a nós, aquelas que determinam se estamos cometendo um erro, ficam em silêncio sobre o que fazer. É aqui, no espaço das escolhas difíceis, que conseguimos exercitar nosso poder normativo, o poder de criar razões para nós mesmos, de nos tornarmos o tipo de pessoa para quem viver no campo é preferível à uma vida urbana.

Quando escolhemos entre opções que estão em pé de igualdade, podemos fazer algo realmente notável. Podemos colocar-nos atrás de uma opção. É aqui que eu fico. É assim que eu sou. Fui feito para bancos. Fui feito para rosquinhas de chocolate. Essa resposta em escolhas difíceis é uma resposta racional, mas não é ditada por razões apresentadas a nós. Em vez disso, é apoiada por razões criadas por nós. Quando criamos razões para nós mesmos para nos tornarmos esse tipo de pessoa em vez daquele outro, nós nos tornamos a pessoa que somos com todo o coração. Pode-se dizer que nos tornamos os autores de nossas próprias vidas.

E quando nos deparamos com escolhas difíceis, não deveríamos bater a cabeça na parede, tentando entender qual alternativa é melhor. Não há uma alternativa melhor. Em vez de procurar por razões lá fora, deveríamos buscar razões aqui dentro: Quem eu devo ser? Você pode decidir ser um banqueiro que usa meias cor-de-rosa, adora cereal e mora no campo, e eu posso decidir ser uma artista urbana que usa meias pretas e adora rosquinhas. O que fazemos em escolhas difíceis só depende de cada um de nós.

As pessoas que não exercitam seu poder normativo em escolhas difíceis ficam à deriva. Todos nós conhecemos alguém assim. Eu fiquei insegura e tornei-me advogada. Não exerci a advocacia. Não fui feita para a advocacia. Pessoas à deriva permitem que o mundo escreva a história de suas vidas. Elas deixam mecanismos de recompensa e punição — tapinhas na cabeça, medo, a facilidade de uma opção — determinarem o que elas fazem. Então a lição das escolhas difíceis: reflita em que você pode atuar, naquilo para que você foi feito, e através das escolhas difíceis, torne-se essa pessoa.

Longe de ser fonte de agonia e pavor, escolhas difíceis são oportunidades preciosas para que celebremos o que é especial na condição humana, de que a razão que governa nossas escolhas como corretas ou incorretas às vezes se acaba, e é aqui, no espaço das escolhas difíceis, que temos o poder de criar razões para nós mesmos para nos tornarmos as pessoas diferentes que somos. E é por isso que escolhas difíceis não são uma maldição, mas sim uma dádiva.

Obrigada.

(Aplausos)