Peter Singer

O porquê e o como do altruísmo eficaz

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Translated by José Oliveira
Reviewed by Ilona Bastos
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Gostaria que vissem isto.

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(Vídeo) Repórter: É uma história que agitou profundamente milhões de pessoas na China: as imagens de uma menina de dois anos atropelada por uma carrinha e deixada, pelos transeuntes, a esvair-se em sangue. Imagens demasiado impressionantes para serem mostradas. A câmara registou o acidente na totalidade. O condutor abranda, depois de atingir a criança. Veem-se as rodas de trás sobre ela durante mais de um segundo. Nos dois minutos seguintes, três pessoas passam pela Wang Yue, de dois anos. A primeira caminha à volta da bebé gravemente ferida. Outros, olham para ela antes de se afastarem.

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Peter Singer: Houve outras pessoas que passaram pela Wang Yue. Uma segunda carrinha passou-lhe por cima das pernas, antes de um varredor de ruas dar o alarme. Foi levada de urgência para o hospital, mas era demasiado tarde. Morreu.

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Pergunto-me quantos de vós, olhando para isto, disseram, agora, para si mesmos: "Eu não teria feito aquilo. "Eu teria parado para ajudar." Levantem a mão se esse pensamento vos ocorreu.

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Como eu pensava, a maioria. Acredito em vocês. Tenho a certeza de que têm razão. Mas, antes de se acharem tão bons, olhem para isto. A UNICEF revela que, em 2011, 6,9 milhões de crianças abaixo dos cinco anos morreram de doenças evitáveis, relacionadas com a pobreza. A UNICEF pensa que se trata de boas notícias, porque o número tem vindo a descer consistentemente, desde os 12 milhões, em 1990. Isso é bom. Mas, 6,9 milhões ainda são 19 000 crianças a morrer por dia. Importa, realmente, que não passemos por elas na rua? Importa, realmente, que elas estejam longe? Penso que isso não faz diferença em termos de relevância moral. O facto de não estarem ali à nossa frente, o facto de serem de uma nacionalidade ou etnia diferente, nada disso me parece moralmente relevante. O que é realmente importante é: podemos reduzir o número de mortes? Podemos salvar algumas dessas 19 000 crianças que morrem cada dia?

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E a resposta é: sim, podemos. Cada um de nós gasta dinheiro em coisas de que não precisa realmente. Vocês podem pensar nos vossos próprios hábitos: quer seja um carro novo, umas férias, ou simplesmente comprar água engarrafada, quando a água que sai da torneira é perfeitamente segura para ser bebida. Vocês podiam pegar no dinheiro que gastam nessas coisas desnecessárias e dá-lo a esta organização, a "Fundação Contra a Malária", que pegaria no dinheiro que vocês dariam e o usaria para comprar redes como esta, para proteger crianças como esta. Sabemos, de modo fiável, que, se fornecermos redes, elas são usadas e reduzem o número de crianças que morrem de malária — apenas uma das muitas doenças evitáveis que são responsáveis por algumas dessas 19 000 mortes de crianças por dia.

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Felizmente, há cada vez mais pessoas que compreendem esta ideia. O resultado é um movimento crescente: o altruísmo eficaz. É importante, porque combina o coração e a cabeça. O coração, claro – nós sentimos. Sentimos empatia por aquela criança. Mas é realmente importante usarmos também a cabeça para nos certificarmos que o que fazemos é eficaz e bem direcionado. Não apenas isso, penso que a razão também nos ajuda a compreender que as outras pessoas, onde quer que estejam, são como nós, sofrem como nós, os pais choram a morte dos seus filhos, como nós, e tal como nós nos importamos com a nossa vida e com o nosso bem estar, eles importam-se exatamente da mesma forma. Penso que a razão não é meramente uma ferramenta neutra que nos ajuda a obter o que pretendemos. Ajuda-nos realmente a colocar-nos em perspetiva. Penso que é por isso que muitas das pessoas mais importantes do altruísmo eficaz têm sido pessoas com formação em filosofia, economia ou matemática. E isso pode parecer surpreendente, porque muitas pessoas pensam: " A filosofia está afastada do mundo real; "a economia, segundo se diz, apenas nos torna mais egoístas, " e sabe-se que a matemática é para "nerds"." Mas, de facto, faz toda a diferença, e, de facto, há um "nerd" em particular que tem sido um altruísta particularmente eficaz porque compreendeu isso.

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Este é o sítio web da Fundação Bill & Melinda Gates. Se olharem para as palavras em cima, à direita, dizem: "Todas as vidas têm igual valor." Foi a compreensão, a compreensão racional da nossa situação no mundo que levou estas pessoas a serem os altruístas mais eficazes da história: Bill e Melinda Gates e Warren Buffett.

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(Aplausos)

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Ninguém, nem Andrew Carnegie, nem John D. Rockefeller, fez tantas doações de beneficência como cada um destes três. Eles usaram a sua inteligência para se certificar de que eram altamente eficazes. De acordo com uma estimativa, a Fundação Gates já salvou 5,8 milhões de vidas e muitos mais milhões de pessoas que apanhariam doenças que as teriam posto muito doentes, mesmo que tivessem sobrevivido. Durante os próximos anos, a Fundação Gates, indubitavelmente, irá dar muito mais, irá salvar muitas mais vidas. Vocês podem vocês dizer: "Isso é ótimo para os multimilionários, "Eles podem ter esse tipo de impacto. "Mas se eu não for, o que posso fazer?" Vou debruçar-me sobre quatro questões que as pessoas colocam, que talvez as impeçam de dar.

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Preocupam-se com a dimensão da diferença que podem fazer. Mas não é necessário ser-se multimilionário. Este é Toby Ord. É um colega de investigação em filosofia na Universidade de Oxford. Tornou-se altruísta eficaz quando calculou que com o dinheiro que conseguiria ganhar ao longo da sua carreira, uma carreira académica, poderia dar o suficiente para curar a cegueira a 80 000 pessoas dos países em desenvolvimento e ainda lhe sobraria o suficiente para um nível de vida perfeitamente adequado. Então, o Toby fundou uma organização chamada "Dar o Que Podemos", para divulgar esta informação, para unir as pessoas que querem partilhar algum do seu rendimento. Ele pede às pessoas que se comprometam a dar 10% do que ganharem durante a sua vida para combater a pobreza global. O próprio Toby faz melhor do que isso. Comprometeu-se a viver com 18 000 libras por ano — que é menos de 30 000 dólares — e a dar o resto a essas organizações. Sim, o Toby é casado e tem uma hipoteca.

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Este é um casal numa fase mais avançada da vida — Charlie Bresler e Diana Schott que, quando eram jovens, quando se conheceram, eram ativistas contra a guerra do Vietname, lutavam por justiça social. Depois iniciaram as suas carreiras, como faz a maior parte das pessoas, e não fizeram nada de muito ativo em relação a esses valores, apesar de não os terem abandonado. Depois, quando atingiram uma idade em que muitas pessoas começam a pensar na reforma, regressaram a esses valores e decidiram cortar nos gastos, viver modestamente e dar, tanto dinheiro como tempo, para ajudar a lutar contra a pobreza global.

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Agora, por falar de tempo. posso levar-vos a pensar: "Bem, devo abandonar a minha carreira e dedicar todo o meu tempo "a salvar algumas destas 19 000 vidas "que se perdem todos os dias?" Uma pessoa que pensou um bom bocado acerca deste assunto, sobre como se pode ter uma carreira que tenha o maior impacto para o bem no mundo é Will Crouch. É estudante de pós-graduação em filosofia e criou um sítio web chamado "80,000 Hours" — o número de horas que ele estima que a maioria das pessoas dedica à sua carreira — para aconselhar as pessoas sobre como ter a melhor carreira e a mais eficaz. Vocês ficarão surpreendidos ao saber que uma das carreiras que ele encoraja as pessoas a considerar, caso tenham o carácter e capacidades certos, é irem para a banca ou a finança. Porquê? Porque se se ganha muito dinheiro pode-se dar muito dinheiro e, se se tiver sucesso nessa carreira, pode-se dar a uma organização de beneficência o suficiente para empregar, digamos, cinco trabalhadores humanitários em países em desenvolvimento, e cada um deles, provavelmente, fará tanto bem como nós teríamos feito. Assim, podemos quintuplicar o impacto, seguindo este tipo de carreira. Eis um jovem que seguiu esse conselho. O seu nome é Matt Weiger. Era estudante em Princeton, de filosofia e matemática. Ganhou o prémio para a melhor tese de licenciatura no ano passado, quando se formou. Foi trabalhar para o setor financeiro, em Nova Iorque. Já ganha o suficiente para dar mais de 60 000 dólares a organizações de beneficência e ainda lhe sobrar o suficiente para viver. Matt também me ajudou a criar uma organização, com que estou a trabalhar, cujo nome foi tirado do título de um livro que escrevi, " A Vida Que Podemos Salvar", que está a tentar mudar a nossa cultura, de modo a que mais pessoas pensem que, se nos propomos viver uma vida ética, não é suficiente seguir apenas o "não farás" — não enganarás, não roubarás, não mutilarás, não matarás — mas que, se temos o suficiente, temos que partilhar uma parte com as pessoas que têm muito pouco. A organização reúne pessoas de diferentes gerações, como a Holly Morgan, estudante universitária, que se comprometeu a dar 10% do pouco que tem, e, à direita, Ada Wan, que tem trabalhado diretamente para os pobres, mas que agora foi para Yale fazer um MBA para ter mais para dar.

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Muitas pessoas pensarão, contudo, que as organizações de beneficência não são assim tão eficazes. Portanto, vamos falar de eficácia. Toby Ord preocupa-se muito com isto, e calculou que algumas organizações de beneficência são centenas ou mesmo milhares de vezes mais eficazes do que outras. Portanto, é muito importante encontrar as que são eficazes. Vejam, por exemplo, proporcionar um cão-guia a um cego. É uma coisa positiva, certo? Bem, é verdade, é uma coisa positiva, mas temos de pensar que mais podíamos fazer com os recursos. Custa cerca de 40 000 dólares treinar um cão-guia e treinar quem o receber, de forma a que o cão-guia possa constituir uma ajuda eficaz para uma pessoa cega. Custa qualquer coisa entre os 20 e os 50 dólares curar um cego, num país em desenvolvimento, se tiver tracoma. Portanto, fazem-se as contas e obtém-se algo assim: podemos proporcionar um cão-guia a um cego americano, ou podemos curar a cegueira de 400 a 2000 pessoas. Penso que é óbvia a melhor coisa a fazer. Mas se quiserem procurar organizações de beneficência eficazes, este é um bom sítio web para visitar. "GiveWell" existe para avaliar o impacto das organizações de beneficência — não apenas se são bem geridas — e examinou centenas de organizações. Atualmente recomenda apenas três, das quais, a "Fundação Contra a Malária" é a número um. Portanto, é muito difícil. Se quiserem procurar outras recomendações, "thelifeyoucansave.com" e "Giving What We Can", ambas têm uma lista ligeiramente mais extensa. Mas conseguimos encontrar organizações eficazes e não apenas na área do salvamento de vidas dos pobres. Tenho o prazer de dizer que agora também existe um sítio web que observa as organizações eficazes de defesa dos animais. Essa é outra causa com que me tenho preocupado toda a vida: a imensa quantidade de sofrimento que os humanos infligem em dezenas de milhares de milhões de animais por ano. Portanto, se quiserem procurar organizações eficazes para reduzir esse sofrimento, podem ir a "Effective Animal Activism". Alguns altruístas eficazes pensam que é muito importante assegurarmo-nos de que a nossa espécie vai sobreviver. Por isso, estão a analisar maneiras de reduzir o risco de extinção. Eis um risco de extinção de que todos nos tornámos conscientes recentemente, quando um asteroide passou perto do nosso planeta. A investigação talvez possa ajudar-nos, não apenas prevendo o caminho dos asteroides que podem colidir connosco, mas desviando-os realmente. Algumas pessoas pensam que seria positivo contribuir para isso. Há muitas possibilidades.

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A minha questão final é: algumas pessoas pensarão que dar é um fardo. Não acredito verdadeiramente que seja. Toda a minha vida gostei de dar, desde os tempos de estudante. Tem sido algo que me preenche. Charlie Bresler disse-me que não é altruísta. Ele pensa que a vida que está a salvar é a sua própria. E a Holly Morgan disse-me que tinha de combater a depressão até se ter envolvido com o altruísmo eficaz, e agora é uma das pessoas mais felizes que conhece. Penso que uma das razões para isto é que ser um altruísta eficaz ajuda a ultrapassar aquilo a que chamei o problema de Sísifo. Aqui está Sísifo, tal como Ticiano o retratou, condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra até ao topo da montanha. Quando acaba de chegar lá, o esforço torna-se demasiado, a pedra escapa, rola pela montanha abaixo, ele tem de fazer a descida para voltar a empurrá-la novamente, e a mesma coisa repete-se, repete-se por toda a eternidade. Lembra-nos o estilo de vida do consumidor, que trabalha arduamente para receber dinheiro, gasta o dinheiro em bens de consumo que espera gostar de usar. Mas depois o dinheiro desaparece, tem que trabalhar arduamente para receber mais, gastar mais,

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e para manter o mesmo nível de felicidade – é como um círculo hedónico. Nunca saímos dele, e nunca nos sentimos realmente satisfeitos. Tornarmo-nos altruístas eficazes dá-nos esse significado e realização. Permite-nos ter uma base sólida para a autoestima, para podermos sentir que a nossa vida valeu mesmo a pena ser vivida.

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Vou concluir, falando-vos de um email que recebi enquanto estava a escrever esta palestra, há cerca de um mês. É de um homem chamado Chris Croy, de quem nunca tinha ouvido falar. Esta é uma fotografia dele, mostrando-o a recuperar de uma cirurgia. Porque recuperava ele de uma cirurgia?

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O email começava: "Na terça-feira passada, "doei anonimamente o meu rim direito a um estranho. "Isso deu início a uma corrente de rins "que permitiu que quatro pessoas recebessem rins."

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Há cerca de 100 pessoas, por ano, nos EUA, e mais noutros países, que fazem isso. Fiquei contente ao ler isto. O Chris dizia ainda que o tinha feito, influenciado pelos meus escritos. Tenho de admitir que também fico algo embaraçado com isso, porque eu ainda tenho os dois rins. Mas o Chris continuou, dizendo que não achava o que tinha feito assim tão espantoso, porque calculava que o número de anos de vida que tinha acrescentado às pessoas, a extensão de vida, era praticamente a mesma que podia alcançar se desse 5000 dólares à "Fundação Contra a Malária". E isso fez-me sentir um pouco melhor, porque doei mais de 5000 dólares à "Fundação Contra a Malária" e a várias outras organizações de beneficência eficazes.

16:56

Portanto, se vocês estão a sentir-se mal porque também ainda têm dois rins, há uma maneira de vocês se conseguirem safar.

17:05

Obrigado.

17:06

(Aplausos)

Se alguém tem a sorte de viver sem necessidades, é um impulso natural ser altruísta para com os outros. Mas, pergunta o filósofo Peter Singer, qual é a maneira mais eficaz de dar? Ele expõe-nos algumas experiências mentais surpreendentes, para nos ajudar a equilibrar a emoção e a prática e criar o maior impacto com o que quer que possamos partilhar.

About the speaker
Peter Singer · Philosopher, ethicist

Sometimes controversial, always practical ethicist Peter Singer stirs public debate about morality, from animal welfare to global poverty.

Sometimes controversial, always practical ethicist Peter Singer stirs public debate about morality, from animal welfare to global poverty.