Julio Ritta
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Em 2015, o Cozinheiros do Bem - Food Fighters surgiu da necessidade gritante das ruas de Porto Alegre. É impossível, com um mínimo de sensibilidade, não ver o aumento gritante da população em situação de rua e eu não podia deixar isso passar de uma forma invisível, como é essa população. Um dia, eu estava na minha casa assistindo a um programa e eu vi mil músicos que tinham se juntado pra chamar a atenção de uma banda. E eu falei assim: "Poxa, por que eu não consigo, como cozinheiro, juntar mil pessoas pra cozinhar pra quem tem fome?" Na época, eu estava participando de um "reality show" e eu pensei que poderia usar daquilo pra poder atingir as pessoas. Gravei um vídeo de uma forma despretensiosa e fui dormir. No outro dia, eu acordei e tinha viralizado o vídeo e as pessoas começaram a falar: "Poxa, Julio, que legal a ideia! Vamos lá, quem sabe a gente faz?" E nós tínhamos combinado num ponto de cozinhar para as pessoas. Mas, no dia, choveu muito! Eu nunca mais vou me esquecer do dia 5 de setembro de 2015, um sábado, em que o evento já tinha sido cancelado e eu falei: "Eu vou pra lá. Se as pessoas têm fome, num dia de chuva e de frio, elas sentem mais fome ainda". Eu acordei a minha esposa e falei assim: "Amor, vamos lá!" Ela falou: "Que é isso, está chovendo demais!" E eu falei: "Então, segura aí, que daqui a pouco eu volto". Eu peguei um fogareiro, peguei uma sacola, entrei num carro e fui pra baixo do Viaduto da Conceição, aqui em Porto Alegre. Nesse dia, eu e mais três amigos servimos comida pra 70 pessoas. Voltei pra casa, contei que tinha sido lindo, aquilo me tocou muito o coração... Só que eu não tinha a pretensão de seguir com o projeto. Vi que tinha um cara que já fazia almoço nos sábados lá e ele me falou: "Julio, cara, eu estou há dois anos fazendo isso aqui embaixo e eu não consegui servir mais do que 20 almoços, tu veio e no primeiro dia já serviu 70. Pra frente, é tudo contigo, meu galo". E eu: "Ai, ai, ai..." Eu cheguei em casa e falei: "Pati, o negócio é o seguinte, semana que vem, a gente vai de novo". E ela: "Como assim?" "É, na semana que vem, a gente vai de novo." E ela: "Tu tem certeza de que tu quer fazer isso? Tu sabe que depois não vai dar pra voltar atrás". Eu tinha conhecido uma palavrinha de origem africana que é "ubuntu". "Ubúntu", alguns falam. Significa: "Sou quem sou pelo que nós somos. Sou quem sou porque somos todos nós". É a consciência do espírito coletivo. É entender que eu não posso ficar no conforto do meu lar, bem arrumadinho, quentinho, enquanto as pessoas estão na rua passando necessidade. Seja na rua, seja numa aldeia, seja onde for, num albergue, numa creche, numa comunidade... E isso me moveu. No segundo final de semana, nós fomos lá e servimos 120 almoços. E eu resolvi criar uma página e movimentar melhor isso aí. No terceiro, nós servimos 750 almoços, no quarto, a gente serviu 1,4 mil almoços.

Yeah! (Aplausos)

Aí, o grupo já tinha crescido, nós já tínhamos uma média de uns 30 voluntários. Hoje, nós somos 300. Trezentos voluntários! Parece um número grande, mas são poucos voluntários. Porque hoje Porto Alegre tem mais de 7 mil pessoas em situação de rua e vulnerabilidade. Os números são gritantes. Segundo dados da NUVE/ESPM, no último ano cresceu esse número 63%, gente! E eu estou falando de Porto Alegre, não estou falando de mundo... ainda... porque um dia a gente vai chegar lá. A gente planta a ideia, a gente plantou essa ideia. E as pessoas começaram a me falar: "Julio, tu é louco! Como é que tu tá querendo fazer comida pra galera da rua, tem um monte de vagabundo!" Não. Existem pessoas. Ubuntu é isso. Ubuntu é saber que somos quem somos porque somos todos nós. Independente de classe, independente de cor, independente de credo... Cozinheiros do Bem, hoje, é um dos coletivos que mais ajuda pessoas em situação de rua no Brasil por não ter ligação política nem religiosa. Por entender que a gente consegue levar amor e carinho pras pessoas através do alimento. O alimento é usado como uma ponte. Se, dentro disso, a gente conseguisse resgatar uma pessoa, seria uma vitória. Mas a gente já resgatou mais de 40 nesses quase 3 anos. E a semente foi plantada. Hoje, tem uma filha minha que é líder de uma das ações; está aqui. E isso pra mim é motivo de orgulho, porque é esse ensinamento, é essa a herança que eu quero deixar pra minha filha e é esse pensamento que eu quero trazer à reflexão de repensar pras próximas gerações. Se eu vou ver o fim da fome, eu não sei. Talvez não. Pode ser clichê, mas a semente foi plantada. E de uma coisa eu tenho muito orgulho: que, enquanto nós tivermos uma ação nossa em Porto Alegre, nenhuma das pessoas que estão numa ação nossa precisa meter a mão numa lata de lixo pra comer. E isso, pra nós, é a grande vitória. Hoje é sábado, está tendo uma ação embaixo do Viaduto da Conceição. Hoje, nós vamos servir, lá, mais de mil almoços, com certeza. Amanhã, nós temos mais duas. Porque, hoje, o Cozinheiros do Bem tem cinco ações semanais que distribuem 15 toneladas de comida por mês pras pessoas em situação de rua de Porto Alegre. E a gente ainda vai chegar em sete ações, controlando a fome aqui. Aí, vai ter comida gostosa, quentinha, com abraço, carinho e o desejo de bom apetite pra cada pessoa que estiver ali na fila. Isso é amor.

(Aplausos)

É difícil ver um cara desse tamanho chorando, mas... Ah, obrigado, pai, mãe.

Mulher na plateia: É do tamanho do coração!

(Risos)

É isso aí, obrigado.

Mas...

voltando, eu trago essa reflexão e isso me fez repensar, e no ano de 2016, como o Tiago falou, eu decidi vender o restaurante. E eu tinha aquele sonho de todo chefe de cozinha: de trabalhar num restaurante estrelado, de ter participado, como participei, de um "reality show", isso era a minha ambição. Eu não acho errado. Mas entendendo que, com um quarto da comida que vai pro lixo no mundo, nós conseguiríamos acabar com a fome mundial, sabendo que 60% do que é produzido vai pro lixo e que, desses 60%, 70% se perdem no transporte do campo até a cidade e 30% da comida se perde nos nossos pratos, nas nossas geladeiras, nas sobras das nossas geladeiras, dos nossos pratos, quando a gente vai num restaurante e se serve um pouquinho além da conta, quando a gente vai numa feira e não compra uma fruta porque ela está estragadinha, com essa frutinha, se poderia ajudar a acabar com a fome no mundo. E eu estou falando de uma consciência de espírito coletivo. Eu estou falando de prestar atenção nos detalhes. E é isso que a gente faz. Através disso, a gente consegue construir histórias como a da Cris. A Cris, eu conheci no primeiro dia de ação do Cozinheiros do Bem. Ela chegou pra me abraçar, pra agradecer pelo prato de comida que estava recebendo e a Cris, nesse dia, falou: "Que legal, eu queria ser cozinheira, eu queria trabalhar com gastronomia como tu". E eu falei: "Cara, fica aqui e a gente conversa". Só que ela estava um pouco alterada nesse dia. E ela saiu. E eu fui encontrar a Cris um ano depois, quando ela saiu da cadeia, onde ela havia perdido a filha dela, e ela me abraçou e falou: "Julio, se eu tivesse te ouvido naquele dia, talvez a minha história tivesse sido outra". Então, eu falei: "Calma, que nunca é tarde pra gente recomeçar". A Cris, no Dia da Mulher, do ano de 2016, nós demos um banho de loja nela, levamos ela pra um spa, nós pintamos o cabelo dela e, nesse dia, a gente deu a notícia de que ela estaria empregada. Ela começou a trabalhar numa fábrica de trufas e me manda essa foto daquele jeitinho dela: "Ah, pro meu gordinho, aqui, ó, mandei um coraçãozinho". Cara, ela é sensacional! A Cris conseguiu realizar alguns sonhos dela, e um desses sonhos foi fazer o churrasco que ela queria fazer pro aniversário de 15 anos da filha, que ela conseguiu reaver a guarda. Além disso, o Cozinheiros do Bem, hoje, auxilia mais cinco instituições em Porto Alegre. E nós adotamos, em parceria com nosso amigo Claudio, da Vó Chica, duas aldeias. Duas aldeias no Cantagalo. E aí, a gente coloca a cabecinha pra pensar e entende que, quando a gente fala de necessidade, a gente está falando não só das pessoas que estão nas ruas, mas, muitas vezes, das pessoas que estão no entorno das ruas e muitas vezes das pessoas que estão no nosso lado, dentro do próprio projeto. Porque eu tenho certeza que, hoje, o Cozinheiros do Bem faz muito mais bem pras pessoas que participam do coletivo do que pras pessoas que são assistidas. Mas, hoje, nós já assistimos 3 mil pessoas por semana em Porto Alegre. Isso é uma grande vitória. Além disso, nós auxiliamos essas cinco instituições, em que a gente distribui comida, carinho, conversa, abraço. E o meu abraço é gigante, né, então, a galera gosta. A troca. Olhar no olho. Sentir que são pessoas, que são seres humanos como nós. Olhar de uma maneira e entender que aquela pessoa que está ali, às vezes, ela está fedendo porque não tem uma máquina pra lavar a roupa dela. Que ela está suja porque ela não tem uma cama pra deitar. Que ela está com o sapato desgastado, que tu deu pra ela na semana passada, porque ela caminha a semana inteira e ela não pode parar. Uma das nossas ações... São cinco ações hoje... E no dia em que eu criei esse coletivo, eu sonhei com o mapa-múndi, eu acordei falando: "Patrícia, olha aqui pra mim, olha aqui..." E ela falava: "Olha o quê?" Eu falei: "Olha o mapa, olha o mapa!" Era o mapa-múndi com um monte de luzinhas piscando. E era o que eu enxergava no meu sonho: várias luzes. O Cozinheiros do Bem espalhado pelo mundo inteiro. Mas eu não estou fazendo isso aqui como um convite. Estou trazendo uma reflexão pra vocês pensarem. Se vocês abrirem a porta da casa de vocês e andarem 50 metros prum lado, 50 metros pro outro, vai ter alguém com necessidade, precisando de uma ajuda. E uma ajuda é uma palavra, uma ajuda é um carinho, é um conforto. Eu cozinho porque eu sou cozinheiro. Mas se você é músico, ensine a tocar... Se você é bailarina, ensine a dançar. Aproveita e já me ensina também... Carinho. Com crianças, com os idosos, que têm aumentado nesses últimos anos. O número de idosos e de crianças, nos últimos anos, tem crescido de uma forma absurda. Pessoas que colaboraram durante sua vida toda pra sociedade e não sabem como pedir esmola, não sabem como pedir ajuda. Mas o olhar das pessoas fala muito. Olha agora pra quem está do teu lado. Com certeza, essa pessoa está querendo dizer alguma coisa pra você. Rian. Uma criança fantástica, que me ensinou que eu não preciso ser perfeito pra ajudar alguém, não preciso ser um santo para ajudar o próximo, eu só preciso entender que, em tanto tempo de mundo, o egoísmo que nós vivemos é a prova de que não foi da forma que a gente quer criar e construir o futuro que nós queremos pra daqui pra frente e pros nossos filhos. Mais amor, mais carinho. Amor e carinho, o amor e carinho, o amor, carinho, compaixão, compreensão. Repitam essas palavras sempre, sempre. Porque o mundo lá fora está gritando. O mundo, lá fora, grita. E ele grita por pessoas como vocês, que vieram hoje aqui pra refletir, pra assistir, pra entender. E eu tenho certeza que o coração de cada um aqui está pronto pra ajudar. Cozinheiros do Bem procura levar mais do que alimento. Neste dia, nós servimos 400 pizzas embaixo de um viaduto. Forneamos as pizzas na hora. Pizza estilo napolitano, essa que vocês comem nas melhores pizzarias. Porque o Cozinheiros do Bem serve comida com qualidade. Nós servimos comida com qualidade, nós nos preocupamos. Nós montamos uma verdadeira estrutura de restaurante no meio da rua, com fogão industrial, com uma ilha, com uma brigada de cozinha que organiza tudo. Cada pessoa que chega lá na ponta da fila recebe um: "Bom apetite! Se quiser repetir, volte. Só traga, por favor, a marmita e coloque ela no lixo". Existem histórias, assim, de pessoas... Esta foto me representa muito, porque este cara foi na segunda ação, ele comeu sete vezes! Porque, às vezes, o nosso prato, "até o talo", como eles dizem, "lanhado", é a única refeição digna que eles têm durante a semana. E este senhor estava há duas semanas sem comer nada! Catando comida no lixo. Os olhares falam. As pessoas precisam de carinho, as pessoas precisam de atenção. E isso vale muito mais do que qualquer coisa. Se a gente quer criar um país, no futuro, digno de respeito, onde cor não vai mais ser diferença, onde o que tem dentro da tua carteira não vai fazer diferença, onde a roupa que tu veste não vai fazer diferença, acho que está na hora de a gente começar dentro de nós mesmos e buscarmos isso pro futuro. Hoje, eu sou feliz. Hoje, sou feliz porque, semana passada, nós servimos 2,5 mil almoços. Hoje, nós temos ação. Amanhã, nós temos ação. Amanhã, eu vou estar mais feliz ainda, porque, amanhã, nós vamos servir mais comida. Mas feliz de verdade, eu vou estar no dia em que não tiver mais nenhuma pessoa na fila. E nesse dia, eu vou poder dizer que a fome acabou.

Até lá, a gente segue. Muito obrigado, gente.

(Aplausos)