Julia Dhar
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Às vezes, parece que a única coisa em que podemos concordar é que não concordamos em nada. O discurso público está falido. Sentimos que, em toda parte, os comentaristas da TV gritam uns com os outros; vamos à internet para encontrar comunidade e conexão e acabamos saindo de lá irritados e alienados. No dia a dia, provalmente pelo fato de todos estarem gritando, temos tanto medo de entrar em uma discussão, que não queremos nos envolver de forma alguma. O desprezo substituiu a troca de ideias.

Minha missão na vida é nos ajudar a discordar de maneira produtiva, encontrar modos de revelar a verdade e avivar novas ideias. Penso, assim espero, que exista um modelo para discordância estruturada que promova o respeito mútuo e presuma um desejo genuíno de persuadir e de ser persuadido. Para desvendar isso, deixem-me levá-los de volta no tempo.

Quando tinha dez anos, eu adorava argumentar, essa possibilidade tentadora de convencer alguém do nosso ponto de vista, apenas com o poder das palavras. Talvez, como já era de esperar, meus pais e professores não gostavam tanto.

(Risos)

Da mesma maneira que decidiram pôr a Julia de quatro anos na ginástica para queimar energia, decidiram que seria bom para mim entrar para a equipe de debate. Ou seja, vá argumentar em outro lugar.

(Risos)

Para quem não conhece, as premissas do debate formal são muito diretas: há uma grande ideia para discussão, como o apoio à desobediência civil ou ao livre comércio, e um grupo argumenta a favor dessa ideia e outro contra. Meu primeiro debate, no imenso auditório da Canberra Girls Grammar School, foi uma coleção dos piores erros que vemos nas notícias. Era mais fácil atacar a pessoa que estava argumentando do que a essência das ideias em si. Quando essa pessoa desafiou minhas ideias, eu me senti horrível, humilhada e envergonhada. Senti que a resposta mais sofisticada deveria ser a mais exagerada possível. Apesar dessa entrada turbulenta no mundo do debate, adorei. Vi as possibilidades e, por muitos anos, trabalhei intensamente nisso. Eu me especializei na técnica do debate. Acabei vencendo três vezes o World Schools Debating Championships. Sei, só agora estão descobrindo que isso existe.

(Risos)

Mas foi quando comecei a treinar os debatedores, os melhores persuasores daquele jogo, que, na verdade, entendi. A maneira de chegar às pessoas é encontrar o que temos em comum. É separar as ideias da identidade e estar genuinamente aberto à persuasão. O debate é uma maneira de organizar as discussões a respeito de como o mundo é, poderia ou deveria ser. Colocando de outro modo, adoraria propor a vocês um guia testado e baseado em minha experiência para conversar com seu primo sobre política no próximo jantar de família; reorganizar a maneira como sua equipe discute novas propostas; e pensar em como podemos mudar o debate público.

Para começar: o debate requer nosso envolvimento com a ideia oposta, de modo direto e respeitoso, cara a cara. A base do debate é a refutação, a ideia de que você faz uma afirmação e eu respondo, e você responde à minha resposta. Sem refutação, não é debate, mas apenas apresentação de opiniões. Antes eu pensava que os debatedores mais bem-sucedidos, os persuasores por excelência, deviam ser ótimos em ir a extremos. Deviam ter alguma capacidade mágica de tornar os extremos toleráveis. Levei muito tempo para entender que o oposto é que é verdade. As pessoas que discordam com mais sucesso começam encontrando algo em comum, mesmo que seja pouco. Elas identificam aquilo em que todos podemos concordar e partem daí: o direito à educação, a igualdade entre todas as pessoas, a importância de comunidades mais seguras. Estão nos convidando para o que a psicologia chama de "realidade compartilhada". A realidade compartilhada é o antídoto para os fatos alternativos.

O conflito, é claro, ainda existe. Por isso, é um debate. A realidade compartilhada nos dá uma plataforma para começar a discutir. Mas o truque do debate é que fazemos isso diretamente, cara a cara, à mesa. Pesquisas confirmam que isso realmente importa. A professora Juliana Schroeder da Universidade Berkeley e os colegas dela têm pesquisas que sugerem que ouvir a voz de alguém que apresenta um argumento controverso é literalmente humanizante. Facilita o envolvimento com o que a pessoa tem a dizer.

Então, afastem-se dos teclados e comecem a debater. Se formos ampliar um pouco essa noção, nada irá nos impedir de fazer uma pausa em um desfile de discursos, a sucessão de painéis de discussão muito educados, e substituir alguns deles por um debate estruturado. Todas as nossas conferências poderiam ter, em destaque, um debate sobre as maiores e mais controversas ideias da área. Cada uma de nossas reuniões semanais com a equipe poderia ter dez minutos para debater uma proposta de alteração da maneira como nossa equipe trabalha. Em termos de ideias inovadoras, essa é fácil e gratuita. Podem começar amanhã.

(Risos)

Uma vez dentro da realidade compartilhada, o debate também requer que separemos as ideias da identidade da pessoa que as discute. No debate formal, nada é um tópico se não for controverso: se devemos aumentar a idade de voto, proibir os jogos de azar. Mas os debatedores não escolhem o lado. Por isso, não faz sentido fazer o que a Julia de dez anos fez. Atacar a identidade da pessoa que argumenta é irrelevante, porque não foi escolha dela. A única estratégia vitoriosa é lidar com a melhor versão da ideia, mais clara e menos pessoal.

Pode parecer impossível ou ingênuo imaginar que se possa levar essa noção para fora de um auditório escolar. Passamos muito tempo rejeitando ideias como democratas ou republicanas, rejeitando propostas, porque vinham da sede ou de uma região que pensamos ser diferente da nossa. Mas é possível. Quando trabalho com equipes, tentando propor a próxima grande ideia, ou resolver um problema muito complexo, começo pedindo a todos para enviar ideias de maneira anônima.

Para ilustrar, há dois anos, eu trabalhava com várias agências do governo para chegar a novas soluções para reduzir o desemprego de longo prazo, que é um daqueles problemas desagradáveis, delicados e bem-estudados da política pública. Tal como descrevi logo no início, as soluções possíveis vieram de todo lugar. Nós as juntamos. Cada uma delas foi apresentada em um modelo idêntico. Nesse momento, todas pareciam iguais, sem identidade distinta. Depois, é claro, foram discutidas, escolhidas, refinadas e finalizadas. No fim do processo, mais de 20 dessas novas ideias foram apresentadas ao conselho de ministros responsável pela deliberação. No entanto, mais da metade delas vinham de alguém com poucas chances de ser ouvido por um assessor político, ou de alguém que, pela identidade, talvez não fosse levado tão a sério: telefonistas, assistentes que gerenciam agendas, representantes de agências em cuja opinião as pessoas nem sempre confiam.

Imaginem se o noticiário fizesse o mesmo. Podemos ver uma seção semanal de notícias com uma grande proposta política para discussão, que não é classificada como liberal nem conservadora. Ou uma série de editoriais a favor de uma grande ideia e contra ela, que não informa onde os autores trabalhavam. Nossos debates públicos, até nossas discordâncias particulares, podem ser transformadas pelo debate de ideias, em vez de discussão de identidades. O debate permite a nós, como seres humanos, nos abrirmos realmente à possibilidade de podermos estar errados, a humildade da incerteza.

Uma das razões pelas quais é tão difícil discordar de maneira produtiva é porque nos apegamos às nossas ideias. Começamos a acreditar que são nossas e que, por extensão, somos delas. Mas, finalmente, se debatermos por tempo suficiente, mudaremos de lado; discutiremos a favor da expansão do bem-estar social e contra ela; a favor do voto obrigatório e contra ele. Esse exercício liga uma espécie de interruptor cognitivo. Nossas suspeitas sobre as pessoas com crenças diferentes das nossas começam a desaparecer, porque conseguimos nos imaginar na situação delas. Ao fazer isso, estamos abraçando a humildade da incerteza, a possibilidade de estarmos errados. É essa humildade que nos faz tomar decisões melhores.

O neurocientista e psicólogo Mark Leary da Universidade Duke e os colegas dele descobriram que as pessoas capazes de praticar, e isso é uma habilidade, o que os pesquisadores chamam de "humildade intelectual" são mais capazes de avaliar uma ampla gama de evidências, são mais objetivas na avaliação e tornam-se menos defensivas ao serem confrontadas com evidências opostas. Todos os atributos que queremos em nossos chefes, colegas, parceiros de discussão, tomadores de decisão, todas as virtudes que gostaríamos de ter. Ao abraçarmos essa humildade da incerteza, deveríamos perguntar uns aos outros, todos nós, nossos moderadores de debates e âncoras de notícias deveriam perguntar a nossos representantes eleitos e candidatos também: "Sobre o que você mudou de ideia e por quê?" "Que incerteza o torna humilde?" A propósito, isso não é uma fantasia sobre como a vida pública e o debate público podem funcionar. Há precedentes.

Em 1969, o querido apresentador norte-americano de programas infantis, Mister Rogers, sentou-se perante uma subcomissão do Congresso dos Estados Unidos sobre comunicações, liderada pelo aparentemente muito rabugento John Pastore. Mister Rogers estava lá para um caso clássico de debate, uma proposta muito arrojada: um aumento no financiamento do governo para a televisão pública. No início, o líder da comissão, senador Pastore, não admitia isso. Isso ia acabar muito mal para Mister Rogers. Mas, de maneira paciente e muito sensata, Mister Rogers declarou as razões pelas quais a transmissão de programas infantis de boa qualidade, que falam sobre os dramas que afetam as famílias mais comuns, era importante para todos nós, mesmo que custasse algum dinheiro. Ele nos convidou a uma realidade compartilhada.

Do outro lado da mesa, o senador Pastore ouviu, envolveu-se e foi receptivo. Em voz alta, em público e em gravação, o senador Pastore disse a Mister Rogers: "Sabe, sou considerado um homem bastante austero, e esta foi a primeira vez que fiquei arrepiado em dois dias". E, mais tarde: "Parece que você acabou de ganhar os US$ 20 milhões". Precisamos de muitos mais Mister Rogers, pessoas com a habilidade técnica de debate e persuasão. Mas, do outro lado da mesa, precisamos de muitos mais senadores Pastore. A magia do debate é que permite, nos dá poder para sermos Mister Rogers e senador Pastore, ao mesmo tempo.

Quando trabalho com essas equipes que mencionei antes, peço a elas para se comprometerem com a possibilidade de estarem erradas, para explicarem a mim e aos outros o que seria preciso para mudarem de ideia. Tem tudo a ver com a atitude, não com o exercício. Quando começamos a pensar no que seria preciso para mudar de ideia, começamos a nos perguntar por que estávamos tão certos no início. Há tanto que a prática do debate tem a nos oferecer no que se refere a discordar de maneira produtiva. Deveríamos trazer essa prática ao nosso trabalho, às nossas conferências e aos nossos conselhos municipais. Os princípios do debate podem transformar a maneira como falamos uns com os outros; nos levar a parar de falar e começar a ouvir; parar de rejeitar e começar a persuadir; parar de nos fechar e começar a abrir nossa mente.

Muito obrigada.

(Aplausos)