Glenn Greenwald
2,153,385 views • 20:37

Há uma série de vídeos no YouTube dedicados a uma experiência que tenho certeza de que todos aqui já tiveram. Eles mostram algum indivíduo que, pensando estar sozinho, começa a agir de forma expressiva, cantando vorazmente, dançando, rodopiando, ou em alguma atividade sexual leve, e aí descobre que, na verdade, não está sozinho, que há alguém observando escondido, o que faz com que o indivíduo pare imediatamente de fazer o que estava fazendo, apavorado. A sensação de vergonha e vexame em seu rosto fica evidente. É uma sensação assim: "Isso é algo que só faço se ninguém estiver observando".

Esse é o ponto chave do trabalho a que tenho particularmente me dedicado nos últimos dezesseis meses, a questão: por que a privacidade é importante, uma questão que surgiu num contexto de debate global, em razão das revelações feitas por Edward Snowden, de que os Estados Unidos e seus parceiros, sem o conhecimento de todo o restante do mundo, transformaram a internet, antes conhecida como uma ferramenta ímpar de liberdade e democracia, em uma zona de vigilância indiscriminada e em massa sem precedentes. O sentimento que surge desse debate é muito comum,

até entre pessoas que sentem-se incomodadas com a vigilância em massa: o de que essa invasão em escala na verdade não é prejudicial, porque apenas pessoas envolvidas em atividades delituosas têm razão para querer se enconder e se preocupar com sua privacidade. Essa mentalidade está implicitamente enraizada na premissa de que há dois tipos de pessoas no mundo: pessoas boas e pessoas más. Pessoas más seriam aquelas que tramam ataques terroristas ou que se envolvem em crimes violentos e que, portanto, teriam razões para querer esconder o que fazem, para se importar com sua privacidade. Por outro lado, pessoas boas seriam aquelas que vão para o trabalho, voltam para casa, cuidam de seus filhos, assistem à TV. Elas não usam a internet para tramar ataques a bomba, mas para ler as notícias, trocar receitas, ou planejar as atividades esportivas de seus filhos, e essas pessoas não estão fazendo nada de errado. Por isso, não teriam nada a esconder nem razão alguma para temer o fato de o governo as monitorar.

Na verdade, as pessoas que dizem isso estão tendo uma atitude extrema de autodepreciação. Na verdade, o que estão dizendo é: "Concordei em me tornar uma pessoa tão inofensiva, inocente e sem graça que, na verdade, não tenho medo de que o governo saiba o que faço". Esse tipo de pensamento teve o que julgo ser a sua mais pura expressão numa entrevista feita com Eric Smith, CEO da Google, de longa data, que, ao ser questionado sobre como sua empresa está possibilitando invasões à privacidade de milhões de pessoas em todo o mundo, disse o seguinte: "Se estiver fazendo algo que não quer que os outros saibam, talvez nem devesse fazer".

Bem, há várias coisas a se dizer sobre essa mentalidade. A primeira é que as pessoas que dizem isso, que dizem que privacidade não é importante, na verdade não acreditam nisso. Sabemos que elas não acreditam nisso porque, embora digam que privacidade não é importante, elas tomam diversas precauções visando a proteger sua privacidade. Usam senhas em suas contas de e-mail e de redes sociais, usam fechaduras nas portas de seus quartos e banheiros, tudo para evitar que outras pessoas entrem naquilo que consideram seu espaço e vejam aquilo que elas não querem que os outros vejam. O mesmo Eric Schmidt, CEO da Google, mandou que seus subordinados na empresa deixassem de se comunicar com a revista online CNET, depois que ela publicou um artigo cheio de informações pessoais e particulares de Eric Schmidt, que ela obteve exclusivamente em buscas no Google e utilizando outros produtos da Google. (Risos) Essa mesma contradição ocorreu com Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, que, numa entrevista infame, em 2010, anunciou que a privacidade não é mais uma "norma social". No ano passado, Mark Zuckerberg e sua nova esposa compraram não só sua própria casa, mas também todas as quatro casas próximas, em Palo Alto, por um total de 30 milhões de dólares, para garantir que tivessem uma zona de privacidade, evitando que outras pessoas monitorassem sua rotina privada.

Nos últimos 16 meses, discutindo essa questão em todo o mundo, todas as vezes que alguém me disse: "Não ligo se invadirem minha privacidade, pois não tenho nada a esconder", sempre faço o seguinte: pego minha caneta, anoto meu e-mail e digo: "Aqui está meu e-mail. Quando você chegar em casa, envie as senhas de todas as suas contas de e-mail para mim, não só a daquela conta legal, respeitável e de trabalho, mas de todas, porque quero poder fuxicar o que você anda fazendo online, ler o que quiser ler e publicar tudo que for interessante. Afinal, já que você não é uma pessoa má e não faz nada de errado, não terá nada a temer".

Nenhuma dessas pessoas aceitou minha proposta. Eu verifico... (Aplausos) Eu verifico religiosamente essa conta de e-mail, a toda hora. Está sempre vazia. E a razão é a seguinte: nós, seres humanos, mesmo aqueles que, verbalmente, negam a importância de sua própria privacidade, compreendemos instintivamente a profunda importância dela. É verdade que, enquanto humanos, somos seres sociais, temos a necessidade de que os outros saibam o que fazemos, dizemos e pensamos, razão pela qual voluntariamente publicamos nossas informações pessoais na internet. Porém, igualmente essencial para o que significa ser uma pessoa livre e realizada é ter um lugar aonde possamos ir e estar livres dos olhares de julgamento dos outros. A razão pela qual buscamos isso é o fato de que todos nós — não apenas terroristas e criminosos, mas todos nós — temos algo a esconder. Há diversas coisas que fazemos e pensamos, que contaríamos ao nosso médico, ao nosso advogado, ao nosso psicólogo, ao nosso cônjuge, ao nosso melhor amigo, mas que teríamos pavor de que todo mundo soubesse. Todos os dias, ponderamos as coisas que dizemos, pensamos e fazemos, que contaríamos a outras pessoas, e coisas que dizemos, pensamos e fazemos que queremos que ninguém mais saiba. É muito fácil as pessoas dizerem que não ligam para sua privacidade, mas suas atitudes negam a veracidade dessa afirmação.

Bem, há uma razão de a privacidade ser tão desejada instintiva e universalmente. Não é apenas uma necessidade básica, como respirar ou beber água. É porque, quando estamos em uma situação em que podemos ser monitorados, observados, nosso comportamento muda radicalmente. As possibilidades de comportamento que poderíamos ter se reduzem drasticamente ao acharmos que estamos sendo observados. Essa é uma característica da natureza humana, que foi identificada na sociologia, na literatura, na religião e em praticamente todas as áreas de conhecimento. Há dezenas de estudos de psicologia que provam que, quando uma pessoa sabe que pode estar sendo observada, demonstra um comportamento muito mais conformista e submisso. A vergonha humana é um fator motivador muito poderoso, bem como o desejo de evitá-la. É por isso que as pessoas, quando estão sendo observadas, tomam decisões que não são produto de sua própria vontade, mas que têm a ver com o que os outros esperam delas, ou com aquilo que a tradição social determina.

Essa percepção foi usada mais poderosamente, com fins pragmáticos, por Jeremy Bentham, filósofo do século 18, que buscou resolver um problema importante trazido pela era industrial. Pela primeira vez, as instituições haviam se tornado tão grandes e centralizadas que não conseguiam mais monitorar e, portanto, controlar cada um de seus membros individualmente. A solução que ele criou foi um design estrutural, originalmente criado para ser usado em prisões, e que ele chamou de "panóptico". Sua principal característica era uma enorme torre, construída no centro da instituição, de onde quem controlasse a instituição pudesse, a qualquer momento, observar qualquer interno, embora não pudesse observar todos o tempo todo. A essência desse design era que os internos, na verdade, não podiam ver o interior do panóptico, o interior da torre. Assim, eles nunca sabiam se estavam sendo observados, nem quando. O que deixou Bentham tão empolgado com essa descoberta é que ela significava que os prisioneiros teriam de presumir que estavam sendo observados a todo instante, o que seria a tentativa máxima de impor obediência e submissão. Michel Foucault, filósofo do século 20, percebeu que esse modelo poderia ser usado não somente em prisões, mas em qualquer instituição que quisesse controlar o comportamento humano: escolas, hospitais, fábricas, ambientes de trabalho. Ele disse que essa mentalidade, essa estrutura criada por Bentham, era o principal meio de controle social para as sociedades modernas ocidentais, que não precisam mais das armas ostensivas da tirania — punições, prisões ou morte de dissidentes, ou forçar legalmente a lealdade a um determinado grupo — porque a vigilância em massa cria uma prisão mental, que é uma forma muito mais sutil, porém muito mais eficaz, de promover submissão a normas sociais ou à tradição social, muito mais eficaz que a força bruta.

A obra literária mais icônica sobre vigilância e privacidade é o romance "1984", de George Orwell, que todos lemos na escola e que, por isso, já é quase um clichê. Sempre que ele vem à tona num debate sobre vigilância, as pessoas instantaneamente falam que não tem nada a ver, dizendo: "Ah, em "1984", havia monitores nas casas das pessoas. Elas eram observadas a todo instante, e isso não tem nada a ver com o estado de vigilância em que vivemos". Essa é uma interpretação fundamentalmente equivocada das advertências que Orwell deixou em "1984". As advertências que ele deu eram a respeito de um estado de vigilância que não monitorava todos a todo instante, mas um em que as pessoas sabiam que poderiam ser monitoradas a qualquer momento. Foi assim que Winston Smith, o narrador de Orwell, descreveu o sistema de vigilância em que eles estavam: "É claro que não havia como saber quando você estava sendo vigiado". Ele continua: "Em todo caso, eles podiam grampear sua casa sempre que quisessem. Você tinha de viver, vivia, num cotidiano alienante, supondo que qualquer som que fizesse era alto demais e que, exceto na escuridão, cada movimento era observado".

As religiões abraâmicas igualmente postulam que existe uma autoridade invisível, que tudo sabe, e que, por causa de sua onisciência, sempre observa tudo o que você faz, o que significa que você nunca tem um momento de privacidade: a tentativa máxima de imposição à obediência a suas ordens:

O que todas essas obras aparentemente diferentes reconhecem, a conclusão a que todas chegam, é a de que uma sociedade em que as pessoas podem ser monitoradas o tempo todo é uma sociedade que alimenta a passividade, a obediência e a submissão, razão pela qual todo tirano, do mais declarado ao mais sutil, deseja esse sistema. Em contrapartida, e principalmente, é um estado de privacidade podermos ir a qualquer lugar onde possamos pensar, debater, interagir e falar sem o olhar inquisitivo de outras pessoas sobre nós, onde só a criatividade, a pesquisa e a divergência de opiniões existam, e é por essa razão que, quando permitimos a existência de uma sociedade em que estejamos sujeitos a monitoramento constante, permitimos que a essência da liberdade humana seja gravemente danificada.

Minha última observação sobre essa mentalidade, a ideia de que só pessoas que fazem algo de errado têm coisas a esconder e, portanto, motivos para quererem privacidade, reforça duas mensagens bastante destrutivas, duas lições destrutivas. A primeira é que as únicas pessoas que se preocupam com a privacidade, as únicas pessoas que buscam privacidade, são necessariamente pessoas más. Esta é uma conclusão que deveríamos evitar por diversas razões. A mais importante dessas razões é que, quando você diz "alguém que faz coisas erradas", provavelmente se refere a coisas como tramar um ataque terrorista, ou envolvimento com crimes violentos, uma concepção bem mais limitada do que aquela a que pessoas que detêm o poder se referem ao dizerem "fazer coisas erradas". Para elas, "fazer coisas erradas" geralmente significa "fazer algo que representa obstáculos significativos ao exercício do nosso próprio poder".

A outra lição realmente destrutiva e, acredito, ainda mais pérfida, advinda da aceitação dessa mentalidade, é que há uma barganha implícita que as pessoas que têm essa mentalidade aceitaram. A barganha é a seguinte: se você está disposto a se tornar suficientemente inofensivo, suficientemente não perigoso para quem detêm o poder político, então, e somente então, você pode estar livre dos perigos da vigilância. Somente os dissidentes, aqueles que desafiam o poder, têm que se preocupar. Também há diversas razões pelas quais deveríamos evitar essa lição. Talvez você seja uma pessoa que, agora, não queira ter esse tipo de comportamento, mas talvez, em algum momento no futuro, você queira. Mesmo que você decida que nunca vai querer, o fato de haver outras pessoas capazes e dispostas a resistir e divergir dos que estão no poder — dissidentes, jornalistas, ativistas e diversas outras — é algo que nos traz todo tipo de bem coletivo e que deveríamos querer preservar. É igualmente fundamental o fato de que o nível de liberdade de um sociedade não está em como ela trata seus cidadãos bons, obedientes e submissos, mas em como ela trata seus dissidentes e aqueles que resistem ao ortodoxo. Mas a razão mais importante é que um sistema de vigilância em massa inibe nossa própria liberdade de diversas formas. Ele torna proibidos diversos tipos de comportamento, sem que sequer saibamos que isso aconteceu. Rosa Luxemburg, renomada ativista social, disse uma vez: "Quem não se move não se dá conta de que tem correntes". Podemos tentar tornar as correntes da vigilância em massa invisíveis ou indetectáveis, mas as restrições que ela nos impõe não deixam de ser poderosas.

Muito obrigado.

(Aplausos)

Obrigado.

(Aplausos)

Obrigado.

(Aplausos)

Bruno Giussani: Glenn, obrigado. Foi bastante convincente, tendo de dizer, mas quero voltar aos últimos 16 meses e a Edward Snowden, e fazer algumas perguntas, se não se importar. A primeira é pessoal. Todos lemos sobre a prisão de seu companheiro, David Miranda, em Londres, e sobre outros problemas, mas presumo que, em termos de envolvimento pessoal e risco, a pressão sobre você não seja tão fácil de aguentar, vinda das organizações mais soberanas do mundo. Fale um pouquinho sobre isso.

GG: Acho que uma das coisas que acontecem é que a coragem das pessoas a esse respeito torna-se contagiosa. Embora eu e os outros jornalistas com que trabalhei estivéssemos cientes do risco — os Estados Unidos ainda são o país mais poderoso do mundo e não gostam quando você divulga milhares de seus segredos na internet, à vontade — ver uma pessoa comum, de 29 anos, que cresceu num ambiente bem comum, arriscar-se com tamanha coragem baseada em princípios, como Edward Snowden, sabendo que ficaria preso por toda sua vida ou que sua vida seria investigada, inspirou-me, inspirou outros jornalistas, e pessoas em todo o mundo, eu acho, inclusive futuros delatores, fazendo-os perceber que podem agir da mesma forma.

BG: Tenho curiosidade sobre sua relação com Ed Snowden, porque você falou bastante com ele, e certamente continua falando, mas, em seu livro, você nunca o chama de Edward, nem de Ed. Você diz "Snowden". Por quê?

GG: Tenho certeza de que é um caso a ser avaliado por uma equipe de psicólogos. (Risos) Não sei por quê. Acho que um dos objetivos importantes que ele teve, uma de suas táticas, creio, mais importantes, é que ele sabia que uma das formas de tirar a atenção da essência das revelações seria tentar pôr o foco nele e, por essa razão, ele ficou fora da mídia. Ele tentou evitar que sua vida pessoal fosse alvo de especulações. Então, acho que chamá-lo de Snowden é só uma forma de identificá-lo como um personagem histórico importante, em vez de tentar caracterizá-lo de forma a tirar a atenção do essencial.

BG: As revelações dele, a sua análise, o trabalho de outros jornalistas, realmente desenvolveram o debate, e muitos governos, por exemplo, reagiram, inclusive o Brasil, com projetos e programas que remodelam um pouquinho a estrutura da internet, etc. Há muitas coisas acontecendo nesse sentido. Mas me pergunto: para você, especificamente, qual é o objetivo final? Em que ponto você vai pensar: "Bem, na verdade, conseguimos o que esperávamos"?

GG: Bem, meu objetivo como jornalista é bem simples. É garantir que cada documento que tenha valor de notícia e que deva ser tornado público seja tornado público e que segredos que jamais deveriam ter sido segredos sejam descobertos. Para mim, é a essência do jornalismo. É o que estou comprometido a fazer. Eu acho a vigilância em massa odiosa, por todas as razões que mencionei e tantas outras. Vejo isso como algo que jamais vai terminar até que os governos em todo o mundo não possam mais sujeitar populações inteiras ao monitoramento e à vigilância, a não ser que convençam um tribunal ou outra entidade de que determinada pessoa fez, de fato, algo de errado. Para mim, essa é a maneira de revitalizar a privacidade.

BG: Bem, como vimos no TED, Snowden é bem articulado ao se apresentar e falar de si, como defensor de valores democráticos e princípios democráticos. Mas muitas pessoas acham muito difícil acreditar que essas sejam suas únicas motivações, que não houve dinheiro envolvido nisso tudo, que ele não vendeu alguns desses segredos até mesmo para a China e para a Rússia, que evidentemente não são as melhores amigas dos Estados Unidos neste momento. E tenho certeza de que muitos aqui se perguntam a mesma coisa. Você acha possível que exista esse lado de Snowden que ainda não vimos?

GG: Não. Acho isso um absurdo e uma idiotice. (Risos) Se você quisesse... Sei que está fazendo o "advogado do diabo"... Mas se quisesse vender segredos a outro país, o que ele poderia ter feito e ficado extremamente rico por isso, a última coisa que faria seria pegar esses segredos e cedê-los a jornalistas, pedindo-lhes que os publicasse, porque isso os torna sem valor. Pessoas que querem enriquecer fazem isso secretamente, vendendo-os ao governo, mas acho importante dizer que essa acusação vem de pessoas do governo americano, de pessoas da mídia, que são leais a esses diversos governos, e acho que, geralmente, quando acusam alguém dessa maneira: "Ah, é claro que ele não faz isso por princípios. Ele deve ter alguma razão corrupta e abominável", essas pessoas dizem muito sobre si mesmas e tornam-se alvo de sua própria acusação, porque... (Aplausos) ...essas pessoas que fazem essa acusação, elas mesmas nunca agem por nenhuma outra razão que não seja corrupta. Por isso, pressupõem que todo mundo está infectado pela mesma doença da crueldade, como elas. É isso o que acontece. (Aplausos)

BG: Glenn, muito orbigado. GG: Muito obrigado.

BG: Glenn Greenwald. (Aplausos)