Eddie Jaku
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Caros novos amigos. (Risos) Chamo-me Eddie Jaku, e estou aqui hoje à vossa frente, um sobrevivente do Holocausto e uma testemunha dos tempos mais trágicos na história da Humanidade. Eu era um jovem alemão orgulhoso. Pensava que era a melhor civilização que podia ser dada a um jovem como eu. Como estava enganado. A 5 de novembro de 1938, regressei da escola interna onde tinha vivido sob um nome falso, durante cinco anos, porque era judeu. Vivi afastado da minha família, como um órfão, recebendo uma educação sob uma pressão e um medo enorme de que alguém descobrisse que eu não era Walter Shleiss conforme eu afirmava. Corria um perigo enorme. Naquela noite fatídica, cheguei a casa, mas a minha família tinha-se escondido e eu estava sozinho. Fui para a cama com o meu cão ao pé de mim. Às cinco da manhã, do dia 10 de novembro de 1938, dez nazis arrombaram a porta da nossa casa. Tenho vergonha de dizer o que eles me fizeram. Fiquei tão maltratado que pensei: "Eddie, vais morrer hoje". Depois, obrigaram-me a assistir à demolição da nossa casa com 200 anos e mataram o meu querido cão, Lulu que tentara proteger-me, em frente dos meus olhos. Perdi a dignidade, a liberdade, e a minha fé na humanidade. Perdi tudo aquilo por que tinha vivido. Fiquei reduzido a um homem que não era nada. O que acontecera ao meu país, em que eu tinha nascido, o país dos meus antepassados, o país que produziu Schiller, Goethe, Beethoven e Mozart? O que acontecera aos meus amigos alemães que se tornaram assassinos? Na época, nenhum de nós percebeu que a Kristallnacht, a "Noite dos Cristais" em que foram estilhaçadas as montras das lojas de judeus, foram pilhadas as lojas e foram incendiadas casas e sinagogas, era apenas o começo do pesadelo de muito pior que estava para vir. Naquele dia, eu fui levado para o meu primeiro campo de concentração, Buchenwald, onde estive com mais 11 000 judeus, durante cinco meses. A 2 de maio de 1939, fui libertado. O meu pai foi-me buscar e levou-me para Aachen. Ao fim de 10 horas de carro, negociámos com um contrabandista para nos levar para a Bélgica. Passei ali duas semanas com o meu pai num apartamento até ser preso pela polícia belga, por ser alemão, não por ser judeu, e fui internado num campo com outros 4000 alemães. A 10 de maio de 1940, o campo foi encerrado. Separámo-nos em Dunquerque e eu continuei para Lyon. Aí, fui preso pela polícia francesa e enviado para Gurs, um campo terrível com 6000 alemães. Depois dos internamentos em campos, fui transportado finalmente para o que seria o inferno na terra: Auschwitz. Os meus pais e a minha irmã também foram levados para Auschwitz e eu nunca mais voltei a ver os meus pais. Não tive sequer a hipótese de me despedir da minha querida mãe e senti a falta dela todos os dias da minha vida. Se tiverem a oportunidade, hoje, voltem para casa e assegurem-se de dizer à vossa mãe quanto a amam. Por favor, façam isso por este vosso novo amigo, Eddie. Mas eu tive muita sorte, consegui escapar ao que veio a ser conhecido por "marcha da morte" e escondi-me numa floresta, sozinho, durante muitos meses, antes de ser encontrado pelo exército norte-americano. Mas estou aqui hoje como um homem feliz, que aprecia a vida, com uma mulher maravilhosa e uma bela família. Não odeio ninguém. O ódio é uma doença que pode destruir o inimigo, mas também nos destrói, ao mesmo tempo. (Aplausos) Faço tudo o que posso para tornar este mundo um local melhor para toda a gente, e imploro-vos que também façam o mesmo. Temos de nos assegurar que esta tragédia terrível, a pior da História, nunca mais volte a acontecer e também nunca seja esquecida. Ao fim de muitos anos de dificuldades e esconderijos, a 7 de setembro de 1945, depois de uma longa viagem de comboio, regressei à Bélgica, sem documentos. Muito pouco tempo depois disso, conheci e casei com a minha mulher, Flora, com quem tenho estado casado há 73 anos. (Aplausos) Obrigado. Nessa altura, eu não era um homem feliz. (Risos) Não me sentia bem no meio das pessoas. Foi só quando nasceu Michael, o nosso primeiro filho. Nessa altura, o meu coração ficou curado e a minha felicidade voltou abundante. Prometi que, a partir daquele dia, e até ao fim da minha vida, prometi ser feliz, sorrir, ser delicado, prestativo e amável. Também prometi nunca mais pôr os pés em solo alemão. Hoje, estou aqui à vossa frente, um homem que manteve todas essas promessas. A minha maior felicidade vem da minha família, da minha mulher, dos meus dois filhos — Michael e Andre — dos muitos netos e bisnetos que me dão tanta alegria. Hoje, ensino e partilho a felicidade com todas as pessoas que encontro. A felicidade não cai do céu: está nas nossas mãos. Se somos saudáveis e felizes, somos milionários. A felicidade também dá boa saúde ao corpo e ao espírito e eu atribuo os meus 99 anos de saúde sobretudo a uma atitude positiva e feliz. (Aplausos) Uma flor é o meu jardim, um bom amigo é o meu mundo. Os jovens hoje esquecem-se de parar, andam sempre a correr e não sabem para onde correm. (Risos) Devem arranjar tempo para serem felizes e gozar a vida. Há um tempo para rir e um tempo para chorar. Eu vejo as coisas boas da vida. Convidem um amigo ou um membro da família para uma refeição. Deem um passeio. O amanhã chegará, mas primeiro, gozem o dia de hoje. (Aplausos) Penso como é que há pessoas que existem sem amizade, sem pessoas com quem partilhem os seus segredos, esperanças e sonhos, com quem partilhem a boa sorte ou as tristes perdas. Na doçura da amizade haverá alegria e partilha de prazer, Os bons momentos melhoram, os maus momentos são esquecidos devido à magia da amizade. Quanto a mim, quando acordo, sinto-me feliz porque é mais um dia para apreciar. Quando recordo que podia ter morrido uma morte miserável mas, em vez disso, estou vivo, desejo ajudar as pessoas que se sentem em baixo. Eu estive no fundo do poço. Por isso, se conseguir que uma pessoa infeliz sorria, sinto-me feliz. (Aplausos) Recordem estas palavras: Por favor, não andem à minha frente, posso não conseguir acompanhar-vos. Por favor, não andem atrás de mim, posso não conseguir guiar-vos. Andem ao meu lado e sejam meus amigos. (Aplausos) Vou acabar com um desejo de todo o meu coração. Que tenham sempre muito amor para dar, muito boa saúde para viver, e muitos bons amigos. Obrigado por me terem dado o privilégio de falar aqui hoje. Obrigado. (Aplausos)