David Marçal
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Eu gosto muito da natureza, de actividades ao ar livre.

Durante muitos anos fiz escalada em rocha, o que significa, literalmente, abraçar granitos e calcários. Mas, como bioquímico, sempre achei muito curiosa uma certa ideia que existe acerca dos produtos naturais, que é a sua bondade intrínseca. Um produto natural é bom porque é natural, e um produto químico é mau porque é químico. Isso não é necessariamente verdade, mas sabem que não gera muita simpatia vir aqui falar destas coisas. Toda a gente gosta da natureza e dizer isto é quase como se eu fosse contra o pôr-do-sol. Na verdade, eu adoro o pôr-do-sol. Eu adoro o pôr-do-sol. Mas se pensarmos bem, o sol é um cancerígeno de nível 1. Classificado assim pela agência internacional de investigação em cancro, é o nível mais elevado de classificação, e a certas alturas do dia é conveniente usar um protector solar. E um protector solar não é mais que uma mistura de substâncias químicas capazes de absorver radiação ultravioleta. Mas o que é que é um produto natural? Cocaína, penicilina, colesterol, é nisto que pensamos quando pensamos em produtos naturais? Eles são todos naturais, no sentido em que são produzidos por seres vivos. Eles existiriam na natureza mesmo que nós não existíssemos. O mesmo se pode dizer da morfina e da cicuta. Se todos nós desaparecêssemos amanhã da face da terra, não há razão nenhuma para pensar que estes produtos não continuariam a existir na natureza Por vezes, "natural" define-se por oposição a "químico". Mas um produto natural também é necessariamente um produto químico. Feito com os mesmos átomos ligados uns aos outros através de ligações, fazendo ligações químicas. Aqui vemos duas imagens de microscopia de força atómica. São duas moléculas. Alguém aqui consegue olhar para elas e ao olhar para elas, dizer se elas existem ou não na natureza? Não é fácil distinguir um produto natural, um produto que existe na natureza, de um produto que não existe na natureza. Vamos a um exemplo: o milho da agricultura biológica deve ser considerado um produto natural? Mesmo que consideremos que ele não foi modificado geneticamente por modernas técnicas de biologia molecular, o milho como nós o conhecemos não existe na natureza. Ele é o resultado de milhares e milhares de anos de selecção de sementes feito por gerações sucessivas de agricultores. O milho que existe na natureza é, na verdade, bastante diferente do que nós conhecemos. É uma espécie muito mais pequenina. Mas vamos tornar as coisas ainda mais interessantes. É possível modificar bactérias geneticamente para elas produzirem insulina humana. Essa insulina é igualzinha à insulina que é produzida pelo pâncreas humano. É uma proteína feita de aminoácidos, cada um deles constituído por átomos de carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto. Para os diabéticos, essa insulina serve perfeitamente. Portanto, podemos perguntar: será que essa insulina, produzida por organismos geneticamente modificados, é natural? E também podemos perguntar: um produto é seguro para nós por ser natural? Não há nenhuma razão para que uma substância produzida por um ser vivo não seja perigosa para outros seres vivos. Por exemplo, há certos fungos que produzem substâncias capazes de matar bactérias. São antibióticos naturais, como a penicilina. A nós, isso dá-nos muito jeito. Mas noutras situações isso não nos dá assim tanto jeito. Por exemplo, o peixe-balão tem uma toxina. O peixe-balão é uma iguaria muito apreciada no Japão, mas tem uma toxina chamada tetrodotoxina que é extremamente tóxica. Essa toxina bloqueia as comunicações do nosso sistema nervoso, elas deixam de funcionar, nós deixamos de conseguir mexer-nos, ficamos paralisados e morremos por asfixia. Uma a quatro miligramas são o suficiente para matar um ser humano adulto. Conhecem-se centenas de casos fatais. É uma das substâncias produzidas por um ser vivo mais tóxicas que se conhece. Por causa disso, as pessoas que preparam este peixe têm de ter uma licença especial, uma autorização especial para poderem preparar este peixe. E há uma coisa interessante, a toxina do peixe-balão não é mesmo do peixe-balão. Ela é produzida por bactérias que vivem dentro do peixe-balão, o que faz disto uma espécie de associação criminosa. (Risos) E não é caso único, há várias outras espécies marinhas que também têm as mesmas bactérias e a mesma toxina, e também algumas terrestres, como certas salamandras. A razão é sempre a mesma, estes animais têm esta toxina como um mecanismo de protecção contra predadores. A natureza não é só paz e amor. A química tem má fama. Por exemplo, se descobrirmos que o nosso refrigerante preferido tem o aditivo alimentar E300, ficamos apreensivos. Se soubermos que o E300 é o ácido ascórbico, ficamos em pânico. No entanto, ficamos completamente descansados se formos a uma loja de produtos naturais e comprarmos um suplemento com vitamina C. No entanto, E300, ácido ascórbico e vitamina C é exactamente a mesma coisa, são designações diferentes para a mesma substância química. Também se soubermos que a nossa embalagem de maionese contém o aditivo E260, nós ficamos preocupados. Se soubermos que o E260 é ácido acético, nós achamos que nos querem matar. Se soubermos que o outro nome do ácido acético é ácido etanoico, ficamos com a mente um bocadinho paranóica. Mas no entanto, o ácido acético é vinagre, que nós usamos todos os dias para temperar saladas. É verdade que a química tem má fama, mas já resolveu muitos problemas. Se pensarmos, por exemplo, nos plásticos. Os plásticos não são uma ideia assim tão má. E nós estamos rodeamos deles, a nossa vida está completamente rodeada de plásticos. Nós não conseguimos imaginar a nossa vida sem plásticos. Nem na casa de banho, nós vamos tomar duche, a cortina do chuveiro é de PVC, que é um tipo de plástico. A canalização por onde vem a água também é de PVC. Outro tipo de plástico, vamos lavar os dentes e a nossa escova de dentes tem cerdas de nylon, que é um tipo de plástico. Mas se pensarmos bem, os plásticos não são assim uma ideia tão má, porque eles vieram substituir materiais naturais de produção escassa, como madeira, peles de animais ou tecidos naturais, permitindo libertar espaços agrícolas para outras finalidades. Mas talvez não haja nenhum caso mais paradigmático da importância das substâncias químicas produzidas pelo homem do que os adubos sintéticos. No início do século, todos os fertilizantes utilizados na agricultura... Ah, resta dizer que é óbvio que, hoje em dia, temos um problema ambiental com os plásticos, mas isso não decorre directamente da química, decorre do nosso estilo de vida, que é muito exigente em recursos e que produz muitos resíduos. Mas de facto, no início do século XX, nós tínhamos um problema na agricultura que tinha a ver com fertilizantes. Todos os fertilizantes utilizados eram fertilizantes naturais. Tinham origens naturais, eram excrementos de animais. E essas fontes são escassas, portanto, havia um problema de produtividade agrícola na Europa, porque os adubos são fundamentais para a produtividade agrícola. Eles têm uma função muito importante, que é de fornecerem azoto às plantas, que estas precisam para se desenvolverem. Por acaso, a nossa atmosfera até está cheia de azoto. Na verdade, aquilo que mais existe na atmosfera é azoto. Mas infelizmente as plantas não conseguem utilizar o azoto que existe na atmosfera. Assim, desenvolveu-se um processo químico chamado processo de Haber-Bosch, que consegue utilizar o azoto que existe na atmosfera e, através de um conjunto de processos químicos muito complexos, consegue transformá-lo numa fórmula que serve para produzir adubos sintéticos, ou seja, para fornecer azoto às plantas de uma forma que elas conseguem utilizar. Estima-se que esse processo terá salvo da fome milhares de milhões de pessoas. E é um processo muito energético, precisa de elevadas temperaturas e de pressões também muito elevadas, por isso, pensa-se que ele consome cerca de 2% de toda a energia produzida no mundo. E também, como nós comemos plantas, ou animais comem plantas, também se estima que 8 em cada 10 átomos de azoto no nosso corpo foram arrancados da atmosfera pelo processo de Haber-Boch. Portanto, não é fácil evitar as substâncias produzidas pelo homem. Mesmo o naturista mais ferrenho terá no seu corpo imensos átomos de azoto arrancados da atmosfera pelo processo Haber-Bosch, e com toda a probabilidade, lavará os dentes com cerdas de nylon. Porque, se calhar, natural, natural é não lavar os dentes. (Risos) E será que importa esta distinção entre natural e não natural? Desde o século XVII, com a revolução científica, temos vindo a perceber com cada vez mais clareza que o Homem faz parte da natureza. Um exemplo muito claro disso é o código genético, a linguagem em que estão escritos os genes. É universal, todos os seres vivos o partilham. É por causa disso que nós conseguimos introduzir um gene da insulina humana numa bactéria e pôr bactérias a produzir insulina humana. Também albergamos no nosso corpo muitas bactérias, especialmente nos intestinos. E elas têm funções muito importantes no nosso sistema digestivo e imunitário. A ciência tem-nos vindo a mostrar cada vez com mais clareza como nós estamos ligados à natureza e como fazemos parte dela. Agora, pensemos num dique dum castor. O dique do castor faz parte da natureza, faz parte da paisagem. No entanto, ele é o resultado directo da acção dos genes do castor. Se pensarmos numa barragem, ela também é o resultado directo da acção dos nossos genes. Sendo assim, é natural? Natural é uma designação comercial inconsistente que ninguém realmente controla. Por vezes, os produtos apresentados como naturais não têm quaisquer garantias sequer do que está lá dentro. É o caso, por exemplo, de muitos remédios à base de plantas que são vendidos como produtos naturais. Num estudo publicado em 2013, foi analisado o conteúdo de remédios à base de plantas à venda nos Estados Unidos. Chegou-se à conclusão que 59% desses remédios continham plantas não listadas no rótulo. Para além disso, também continham contaminantes, alguns deles, perigosos. Seria praticamente impossível existir este tipo de inconsistência num medicamento normal, regulado pelas autoridades do medicamento, que têm auditorias e fiscalizações constantes a todo o processo de produção e comercialização desses medicamentos. Portanto, o que importa a distinção entre natural e não natural? Essa é uma distinção que não tem uma base científica na realidade. Já vimos que há casos difíceis, como o milho de agricultura biológica, em que não sabemos bem se ele é natural ou não. E também há casos de substâncias que são produzidas por seres vivos, mas que são extremamente tóxicas para outros seres vivos. A boa notícia é que podemos relaxar. Não temos que estar preocupados em dividir todas as coisas do mundo em naturais e não naturais. Esse é um terreno muito pantanoso e que não nos dá garantias. Podemos e devemos, isso sim, estar preocupados com as avaliações de eficácia e segurança dos produtos que consumimos. E isso é uma questão muito mais objectiva para a qual a ciência pode dar resposta. Porque saber se um produto é natural ou não natural, e isso é realmente a nossa boa notícia, quanto a isso, podemos descontrair. (Aplausos)