Daniel Kahneman
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Toda a gente fala de felicidade hoje em dia. Eu pedi a alguém que contasse o número de livros com "felicidade" no título, publicados nos últimos cinco anos, e eles desistiram depois de cerca de 40, e havia muitos mais. Há um interesse enorme sobre a felicidade entre os investigadores. Há muitos treinos para o desenvolvimento da felicidade. Toda a gente gostaria de fazer as pessoas mais felizes. Mas apesar de toda esta quantidade de trabalho, há várias armadilhas cognitivas que fazem com que seja quase impossível pensar corretamente acerca da felicidade.

A minha palestra vai ser, sobretudo, acerca destas armadilhas cognitivas. Isto aplica-se a leigos que pensam sobre a sua própria felicidade, e aplica-se a eruditos que pensam sobre a felicidade, porque, afinal, estamos tão confundidos como qualquer outra pessoa. A primeira destas armadilhas é a relutância em admitir complexidade. Afinal, a palavra felicidade já não é uma palavra útil porque a aplicamos a demasiadas coisas diferentes. Penso que existe um significado em particular para o qual a podemos restringir mas, no final das contas, vamos ter de desistir deste termo e teremos de adotar a visão mais complicada sobre o que é o bem-estar. A segunda armadilha é a confusão entre experiência e memória: basicamente, é a diferença entre estarmos felizes na nossa vida e estarmos felizes sobre a nossa vida, ou estar feliz com a nossa vida. E esses são dois conceitos muito diferentes que estão juntos na noção de felicidade. E a terceira é a ilusão do enfoque. Infelizmente, não conseguimos pensar em nenhuma circunstância que afete o bem-estar sem distorcer a sua importância. Quer dizer, isto é uma verdadeira armadilha cognitiva. Não há nenhuma forma de o fazer de forma correta.

Por isso, gostaria de começar com um exemplo de alguém que esteve numa sessão de perguntas e respostas depois de uma das minhas palestras, e me contou uma história. A história era esta. Ele disse que tinha estado a ouvir uma sinfonia e a música era absolutamente gloriosa. Mesmo no final da gravação, havia um guincho horrível. E ele disse-me, de forma bastante emocionada, que isso lhe tinha estragado toda a experiência. Mas não tinha. O que tinha estragado foram as recordações da experiência. Ele tinha tido a experiência. Ele tinha tido 20 minutos de música gloriosa. Mas não valeram de nada porque ele tinha ficado com aquela recordação. A recordação estava arruinada e a recordação era tudo o que ele podia guardar.

O que isto nos diz, na realidade, é que nós podemos pensar acerca de nós e das outras pessoas enquanto duas identidades. Há um eu que vive a experiência, que vive no presente e conhece o presente, é capaz de reviver o passado, mas basicamente, tem apenas o presente. É o eu que sente que o médico aborda, quando o médico pergunta: "Dói quando eu toco aqui?" E depois existe o eu que recorda. O eu que recorda é o que mantém os registos e guarda a história da nossa vida, e é aquele que o médico aborda quando pergunta: "Como se tem sentido ultimamente?" ou "Como foi a sua viagem à Albânia?", ou algo desse género. Estas são duas entidades muito diferentes, o eu que vive a experiência e o eu que recorda, e sentir-se confundido no meio dos dois faz parte da confusão quanto à noção de felicidade.

O eu que recorda é um contador de histórias. Na realidade, começa com uma resposta básica das nossas memórias, começa imediatamente, Não contamos histórias apenas quando nos dispomos a contar histórias. A nossa memória conta-nos histórias, isto é, o que nós mantemos das nossas experiências é uma história. Vou começar com um exemplo. Este é um estudo antigo. Aqueles são pacientes reais que estão a ser sujeitos a um procedimento doloroso. Não vou entrar em detalhes. Já não é doloroso hoje em dia, mas era doloroso quando este estudo foi feito nos anos 90. Foi-lhes pedido para reportar a sua dor a cada 60 segundos. E aqui estão dois pacientes. Aqueles são os seus registos. E eu pergunto-vos; "Qual deles sofreu mais?" É uma questão bastante fácil. Claramente, o Paciente B sofreu mais. A colonoscopia dele demorou mais tempo, e para todos os minutos de dor que o paciente A experimentou o paciente B experimentou o mesmo e mais.

Mas agora surge outra questão: "Quanto é que estes pacientes pensam que sofreram?" E aqui está uma surpresa: A surpresa é que o paciente A tinha uma recordação muito pior da colonoscopia do que o paciente B. As histórias das duas colonoscopias eram diferentes e, porque uma parte fundamental da história é como acaba, e nenhuma destas histórias é muito inspiradora ou maravilhosa, mas uma delas é esta distinção, uma delas é distintamente pior do que a outra. A que foi pior foi aquela em que a dor atingiu o pico no final. É uma má história. Como é que sabemos isso? Porque perguntámos a estas pessoas depois das colonoscopias, e muito mais tarde, também, "Quão mau foi todo o procedimento, no geral?" Foi muito pior para A do que para B na sua recordação.

Isto é um conflito direto entre o eu que vive a experiência e o eu que recorda. Do ponto de vista do eu que vive a experiência, claramente, o paciente B teve uma pior experiência. Mas, o que se poderia fazer com o paciente A, e nós chegámos a fazer testes clínicos, isso já foi feito, e funciona, poderíamos prolongar a colonoscopia do paciente A, mantendo o tubo sem o abanar muito. Isto faz com que o paciente sofra, mas só um bocadinho e muito menos do que antes. Se fizermos isso durante alguns minutos, o eu que vive a experiência do paciente A sente-se pior. e o eu que recorda do paciente A sente-se muito melhor, porque agora oferecemos ao paciente A uma história melhor sobre a sua experiência. O que é que define uma história? Isto é verdade para as histórias que a memória nos dá, assim como para as histórias que inventamos. O que define uma história são as mudanças, os momentos significativos e os finais. Os finais são muito, muito importantes. Neste caso, foi o final dominou.

Agora, o eu que vive a experiência vive a sua vida de forma contínua. Tem momentos de experiência, um após o outro. E perguntamos: O que acontece a esses momentos? A resposta é bastante clara. São perdidos para sempre. Quer dizer, é que a maior parte dos momentos da nossa vida

— eu calculei isso — diz-se que o presente psicológico dura cerca de 3 segundos. Isto quer dizer que há cerca de 600 milhões deles durante a vida. Num mês, há cerca de 600 000. A maior parte deles não deixa qualquer traço. A maioria é completamente ignorada pelo eu que recorda. E apesar disto, de certa forma, temos a sensação de que eles deviam contar, que o que acontece nestes momentos de experiência é a nossa vida. Nós estamos a gastar este recurso finito enquanto estamos nesta terra. E a forma como o gastamos deveria ser relevante. Mas isso não é a história que o eu que recorda guarda para nós.

Por isso, temos o eu que recorda e o eu que vive a experiência, que são bastante distintos. A maior diferença entre eles é como lidam com o tempo. Do ponto de vista do eu que vive a experiência, se formos de férias e a segunda semana for tão boa como a primeira, as férias de duas semanas são duas vezes melhores do que as férias de uma semana. Mas não é assim que funciona para o eu que recorda. Para o eu que recorda, umas férias de duas semanas são pouco melhores do que férias de uma semana porque não houve novas memórias adicionadas. Nós não mudámos a história. Desta forma, o tempo é realmente a variável crítica que distingue o eu que recorda de um eu que vive a experiência. O tempo tem muito pouco impacto nesta história.

Mas, o eu que recorda faz mais do que relembrar e contar histórias. É ele que toma decisões porque, se tivermos um paciente que fez, digamos, duas colonoscopias com dois cirurgiões diferentes e que está a decidir qual deles escolher, o que ele escolhe é aquele que cuja recordação é menos má, e esse é o cirurgião que será escolhido. O eu que vive a experiência não tem qualquer voto nesta escolha. Na realidade, nós não escolhemos entre experiências. nós escolhemos entre recordações de experiências. E, até quando pensamos acerca do futuro, não pensamos acerca do nosso futuro enquanto experiências. Pensamos no nosso futuro como recordações antecipadas. Basicamente podem olhar para isto como a tirania do eu que recorda, e podem pensar acerca do eu que recorda como se arrastasse o eu que vive a experiência através das experiências que o eu que vive a experiência não necessita.

Eu tenho a sensação que quando vamos de férias, isto é frequentemente o caso. Nós vamos de férias em grande parte ao serviço do nosso eu que recorda. Quanto a mim, isto é um bocado difícil de justificar. Quer dizer, quanto aproveitamos das nossas memórias? Essa é uma das explicações dadas para a predominância do eu que recorda. Quando penso sobre isso, penso numas férias que tivemos na Antártida há uns anos, que foram claramente as melhores férias que alguma vez tive. Penso nelas com bastante frequência em comparação com o que penso noutras férias. Provavelmente, aproveitei as minhas memórias dessa viagem de três semanas, cerca de 25 minutos nos últimos quatro anos. Mas, se tivesse aberto o álbum que contém as 600 fotografias dentro, teria gasto outra hora. Ora, isso são três semanas e, no máximo, uma hora e meia. Parece que existe uma discrepância. Eu posso ser um pouco extremista no pouco apetite que tenho para aproveitar recordações, mas mesmo que vocês aproveitem mais, há uma questão genuína: Porque é que damos tanta importância às recordações em relação à importância que damos às experiências?

Por isso, queria que pensassem numa experiência difícil. Imaginem que nas vossas próximas férias vocês sabem que, no final das férias, todas as vossas fotografias vão ser destruídas, e dão-vos uma droga amnésica para que não se lembrem de nada. Escolheriam as mesmas férias? (Risos) E, se escolhessem umas férias diferentes, existe um conflito entre os dois eus e precisam de pensar como vão resolver esse conflito. Na realidade, não é óbvio de todo, porque, se pensarem em termos de tempo têm uma resposta, mas se pensarem em termos de recordações, podem ter outra resposta. A razão por que escolhemos as férias que escolhemos é um dilema que nos confronta com uma escolha entre os dois eus.

Mas, os dois eus trazem consigo duas noções de felicidade. Existem dois conceitos de felicidade que podemos aplicar, um para cada eu. Portanto, podem perguntar: "Quão feliz é o eu que vive a experiência?" e depois perguntariam: Quão felizes são os momentos na vida do eu que vive a experiência?" Todos eles são — a felicidade durante momentos é um processo complicado. Que emoções podem ser medidas? Já agora, neste momento somos capazes de ter uma boa perceção sobre a felicidade do eu que vive a experiência ao longo do tempo. Se questionarem sobre a felicidade do eu que recorda, isso, é algo completamente diferente. Não se trata de quão feliz alguém vive. Trata-se de quão satisfeito ou contente a pessoa se sente quando pensa na sua vida. Uma noção muito diferente. Quem quer que não distinga entre essas noções, vai baralhar o estudo da felicidade, e eu pertenço ao grupo de estudantes do bem-estar que tem criado confusão no estudo da felicidade durante muito tempo exatamente desta forma.

A distinção entre a felicidade do eu que vive a experiência e a satisfação do eu que recorda foi reconhecida nos últimos anos, e fazem-se agora esforços para medir ambos separadamente. A Organização Gallup fez um inquérito mundial em que perguntaram a mais de meio milhão de pessoas o que pensam da sua vida e das suas experiências. E tem havido outros esforços na mesma direção. Portanto, nos últimos anos, temos começado a aprender sobre a felicidade dos dois eus. E a principal lição que penso termos aprendido é que eles são bastante diferentes. Podem saber o quanto alguém está satisfeito com a sua vida, e isso, na realidade, não vos diz muito sobre quão feliz é a vivência dessas pessoas, e vice versa. Só para vos dar uma noção da correlação, a correlação é de cerca de 0,5. Isso quer dizer que, se conhecerem alguém e vos disserem: "O pai dele mede 1,80 m", quanto saberiam acerca da altura dele? Saberiam qualquer coisa sobre a sua altura, mas existe bastante incerteza. Tem essa mesma incerteza se eu vos disser que alguém classificou a sua vida com 8 numa escala de 10, têm bastante incerteza acerca de quão feliz essa pessoa é no seu eu que vive a experiência. Portanto, a correlação é baixa.

Sabemos algo acerca do que controla a satisfação do eu da felicidade. Sabemos que o dinheiro é muito importante, os objetivos são muito importantes. Sabemos que a felicidade é sobretudo estar satisfeito com pessoas de quem gostamos, e passar tempo com pessoas que gostamos. Há outros prazeres, mas este é dominante. Portanto, se quiserem maximizar a felicidade dos dois eus, vão acabar por fazer coisas muito diferentes. O ponto fulcral do que eu disse aqui é que não devemos pensar na felicidade como um substituto para o bem-estar. É uma noção completamente diferente.

Agora, muito rapidamente, outra razão por que não podemos pensar claramente sobre a felicidade é porque não levamos em conta as mesmas coisas quando pensamos sobre a vida, e quando a vivemos realmente. Portanto, se perguntarmos quão felizes são as pessoas na Califórnia, não vamos chegar à resposta certa. Quando perguntamos isso, pensamos que as pessoas devem ser mais felizes na Califórnia do que, digamos, se viverem no Ohio. (Risos) O que acontece é que quando pensam em viver na Califórnia, estão a pensar no contraste entre a Califórnia e outros lugares. E esse contraste é, digamos, o clima. Na realidade, o clima não é muito importante para o eu que vive a experiência e nem sequer é muito importante para o eu que reflete, que decide quão felizes são as pessoas. Mas, porque é o eu que reflete que está no comando, algumas pessoas poderão acabar por se mudar para a Califórnia. É interessante analisar o que vai acontecer às pessoas que se mudam para a Califórnia na esperança de serem mais felizes. O seu eu que vive a experiência não vai ficar mais feliz. Nós sabemos isso. Contudo, vai acontecer uma coisa. Eles vão pensar que são mais felizes, porque, quando pensam no assunto, lembram-se do quão horrível era o clima no Ohio e vão sentir que fizeram a escolha certa.

É muito difícil pensar claramente sobre o bem-estar e eu espero que vos tenha oferecido uma noção de quão difícil é.

Obrigado.

(Aplausos)

Chris Anderson: Obrigado. Tenho uma pergunta para ti. Muito obrigado. Quando estávamos ao telefone há umas semanas, mencionaste que havia um resultado bastante interessante que tinha surgido do questionário da Gallup. Há alguma coisa que possas partilhar já que ainda tens uns momentos de sobra?

Daniel Kahneman: Claro. Penso que o resultado mais interessante que tivemos no questionário da Gallup é um número, que não esperávamos encontrar, de todo. Descobrimos que, no que respeita à felicidade do eu que vive a experiência — quando observávamos como os sentimentos variavam com os rendimentos — revelou-se que, abaixo de um rendimento de 60 000 dólares por ano, para norte-americanos — e foi uma grande amostra de norte-americanos, uns 600 000, uma amostra grande e representativa — abaixo de um rendimento de 600 000 dólares por ano...

CA: 60 000

DK: ... 60 000 (Risos) ... 60 000 dólares por ano, as pessoas são infelizes, e ficam progressivamente mais infelizes quanto mais pobres são. Acima disso, temos um linha totalmente reta. Quer dizer, raramente vi linhas tão retas. Claramente, o que acontece é que o dinheiro não compra a felicidade que se vive, mas a falta de dinheiro compra, certamente, a infelicidade, e nós podemos medir essa infelicidade muito, muito claramente. Em relação ao outro eu, o eu que recorda, a história é diferente. Quanto mais dinheiro ganham, mais satisfeitos estão. Isso não se verifica para as emoções.

CA: Mas Danny, todo o esforço americano é sobre a vida, a liberdade, a busca da felicidade. Se as pessoas levarem esse resultado a sério, quer dizer, parece que volta do avesso tudo aquilo em que acreditamos, por exemplo, as políticas de impostos, etc. Há alguma hipótese que os políticos, que o país em geral, levem um resultado como esse a sério e criem políticas públicas baseadas nisso?

DK: Sabes, eu penso que se reconhece o papel da investigação em felicidade nas políticas públicas. O reconhecimento vai ser lento nos EUA, não há dúvida, mas no Reino Unido, isso está a acontecer, assim como noutros países. As pessoas estão a reconhecer que deveriam pensar na felicidade quando pensam em políticas públicas. Vai levar algum tempo, e as pessoas vão debater se querem estudar a experiência de felicidade, ou se querem estudar a avaliação da vida. Portanto, precisamos de ter esse debate em breve. Como aumentar a felicidade toma formas muito diferentes, dependendo de como pensas e se pensas no eu que recorda ou no eu que vive a experiência. Penso que isto vai influenciar as políticas nos próximos anos. Nos EUA, estão a fazer-se esforços para medir a experiência de felicidade na população. Penso que, nas próximas décadas, isto fará parte das estatísticas nacionais.

CA: Bem, parece-me que este assunto será, ou pelo menos deveria ser, a discussão política mais importante para acompanhar nos próximos anos. Muito obrigado por inventares a economia comportamental. Obrigado, Danny Kahneman.