Carole Cadwalladr
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No dia após o referendo do Brexit, em junho de 2016, quando o Reino Unido acordou com o choque ao descobrir que iamos sair da União Europeia, o meu editor do jornal "Observer" do Reino Unido pediu-me para eu voltar ao sul do País de Gales, — onde eu cresci — e para escrever um relatório. Então, eu fui a uma cidade chamada Ebbw Vale.

Aqui está ela. Fica nos vales do sul do País de Gales, é um lugar muito especial que sempre teve uma espécie de cultura muito fértil da classe trabalhadora. e é famoso pelos seus coros masculinos gauleses, pelo râguebi e pelo carvão. Mas quando eu era adolescente, as minas de carvão e as siderúrgicas fecharam, e toda a área ficou devastada. Eu fui lá porque era uma das zonas do país com maior proporção de votos para "Sair". 62% das pessoas aqui votaram para sair da União Europeia.

E eu queria saber porquê. Quando lá cheguei fiquei um bocado chocada, porque da última vez que estive em Ebbw Vale, era assim.

E agora é assim. Esta é uma unidade de ensino contínuo de 33 milhões de libras, que foi financiada em grande parte pela União Europeia. E este é o novo centro desportivo, que está no centro de um projeto de recuperação de 350 milhões de libras que está a ser financiado pela União Europeia. Este é o novo projeto de melhoramento rodoviário de 77 milhões de libras,

e há uma nova linha de comboios e uma nova estação,

tudo financiado pela UE. Nada disto é exatamente um segredo, porque há placas enormes como esta, por toda a parte. [Financiado pela UE: Investimento no País de Gales]

Eu tive uma sensação estranha de irrealidade

ao andar pela cidade que culminou quando encontrei um jovem, em frente ao centro desportivo e ele me disse que tinha votado "Sair", porque a União Europeia não tinha feito nada por ele.

Ele estava farto disso. E por toda a cidade, as pessoas diziam-me a mesma coisa. Diziam que queriam recuperar o controlo, o que é um dos "slogans" da campanha.

Disseram-me que o que os saturava mais eram os imigrantes e os refugiados.

Já estavam fartos. O que era estranho

porque, ao andar pela cidade, não encontrei um só refugiado ou imigrante. Encontrei uma polaca que me disse

ser praticamente a única estrangeira na cidade.

Quando fui ver os dados, descobri que Ebbw Vale, na realidade,

tem um dos índices mais baixos de imigração do país. Então, fiquei um bocado chocada,

porque não conseguia perceber onde as pessoas iam buscar estas informações.

Foram os jornais da extrema-direita que imprimiram as histórias sobre a imigração,

e esta zona é praticamente um bastião da esquerda trabalhista. Mas mais tarde, depois de o artigo sair, uma mulher entrou em contacto comigo.

Era de Ebbw Vale, e contou-me coisas que tinha visto no Facebook. E eu: "Que coisas?" Ela disse que eram coisas assustadoras sobre imigração,

especialmente sobre a Turquia. Então, eu tentei encontrá-las, mas não havia lá nada. Porque não há nenhum arquivo para anúncios que as pessoas tenham visto

ou que tenham sido publicadas na sua página do Facebook. Não há rasto de nada, tudo desapareceu por completo.

E este referendo, que vai ter um profundo impacto para sempre na Grã-Bretanha

— aliás já teve um profundo impacto: as fábricas automóveis japonesas

que vieram para a região para substituir os empregos nas minas já estão a sair por causa do Brexit.

Todo este referendo ocorreu na escuridão, porque ocorreu no Facebook. E o que acontece no Facebook, fica no Facebook, porque só nós vemos a nossa página e depois ela desaparece. É impossível pesquisar o que quer que seja.

Não fazemos ideia de quem viu tais anúncios nem que impacto tiveram.

nem que informações foram usadas para escolher o público alvo. Nem sequer quem pôs esses anúncios, nem quanto dinheiro foi gasto, nem de que nacionalidade era. Mas o Facebook sabe.

O Facebook tem as respostas

e recusou-se a dar-nos essas informações. O nosso parlamento pediu a Mark Zuckerberg várias vezes para vir à Grã-Bretanha e dar-nos essas respostas. E de todas as vezes, ele recusou. Temos de perguntar porquê. Porque o que eu e outros jornalistas descobrimos é que foram praticados vários crimes durante o referendo.

E ocorreram no Facebook. Porque na Grã-Bretanha, limitamos a quantidade de dinheiro que pode ser gasta nas eleições. Isto porque, no século XIX, as pessoas andavam, literalmente, com carrinhos de mão, cheios de dinheiro para comprar votos. Então, aprovámos leis para impedir que isso aconteça. Mas essas leis já não funcionam. Este referendo ocorreu, maioritariamente, "online". Pode-se gastar qualquer quantia de dinheiro

em anúncios, no Facebook, no Google ou no Youtube e ninguém vai saber, porque são tudo caixas negras. Foi isto que aconteceu. Na realidade, não fazemos ideia da extensão disto. Mas sabemos que, nos últimos dias antes do voto no Brexit,, a campanha para "Sair" "lavou" quase 750 mil libras

através de outra entidade da campanha. que a nossa comissão eleitoral já declarou ilegal e foi referenciado à polícia. Com este dinheiro ilegal,

a campanha para votar "Sair"

lançou uma montanha de informações falsas. Anúncios como este.

[76 milhões de turcos juntam-se à UE]

Isto é completamente mentira. A Turquia não se vai juntar à União Europeia. Nem sequer há a discussão de a Turquia se juntar à UE. A maioria de nós nunca viu estes anúncios, porque não fomos alvo deles.

A campanha "Sair" identificou uma pequena quantidade de pessoas

como sendo influenciáveis e elas viram-nos.

A única razão por que estamos a ver isto agora.

é porque o parlamento obrigou o Facebook a entregar estes anúncios. Talvez vocês pensem: "Bem, foi só algum dinheiro mal gasto,

"são umas pequenas mentiras."

Mas isto foi a maior fraude eleitoral na Grã-Bretanha, em 100 anos. Numa eleição única para esta geração que se decidiu por apenas 1% dos votos. Este foi apenas um dos crimes que ocorreram durante o referendo. Houve outro grupo, que foi liderado por este homem, Nigel Farage, à direita de Trump.

O grupo dele, "Leave.EU", também violou a lei. Violou as leis eleitorais britânicas e as leis de dados britânicas.

E também está a ser referenciado à polícia. Este homem, Arron Banks, financiou esta campanha. E, num caso totalmente separado, foi referenciado à National Crime Agency — o equivalente britânico do FBI — porque a comissão eleitoral concluiu que não se sabe qual a origem do seu dinheiro. nem mesmo se é britânico. Nem sequer vou começar com as mentiras que Arron Banks contou

sobre a sua relação encoberta com o governo russo. Ou com as estranhas reuniões entre Nigel Farage, Julian Assange

e com o amigo do Trump, Roger Stone, agora indiciado,

imediatamente antes da divulgação

de duas grandes WikiLeaks,

que, por coincidência, beneficiaram Trump. Mas vou contar-vos que o Brexit e Trump estão intimamente relacionados. Este homem disse-me que o Brexit foi uma experiência para Trump. Sabemos que são as mesmas pessoas,

as mesmas empresas, a mesma informação, as mesmas técnicas, o mesmo uso do ódio e do medo.

Publicaram isto no Facebook. Nem quero chamar a isto uma mentira, [Imigração sem assimilação é invasão] porque isto parece-me sobretudo um crime de ódio. [... a liberdade de trânsito dos turcos ["aumentará a mobilidade de criminosos e terroristas" na UE"]

Não preciso de dizer que o ódio e o medo estão a ser espalhados "online", por todo o mundo. Não só nos EUA ou na Grã-Bretanha, mas em França, na Hungria no Brasil, em Myanmar e na Nova Zelândia. Nós sabemos que existe esta maré sombria que nos une globalmente e que se está a propagar lentamente

pelas plataformas tecnológicas. Mas só vemos uma pequena parte do que se passa na superfície.

Eu só descobri alguma coisa sobre isto porque comecei a investigar a relação de Trump com Farage, e com uma empresa chamada Cambridge Analytica.

Passei meses à procura

de um ex-funcionário, Christopher Wiley. Ele contou-me como esta empresa, que tinha trabalhado para Trump e para o Brexit, tinha feito um perfil político das pessoas de forma a compreender os seus medos individuais,

para os atingir com anúncios no Facebook

e fizeram isso, recolhendo ilegalmente

informações do perfil do Facebook

de 87 milhões de pessoas. Foi preciso um ano inteiro de trabalho para conseguir falar com Christpher. Tive de passar de escritora convidada a repórter de investigação para o fazer. Ele foi extraordinariamente corajoso, porque a empresa é de Robert Mercer, o multimilionário que financiou Trump. Ele ameaçou processar-nos várias vezes, para nos impedir de publicar. Mas finalmente chegámos lá, faltava um dia para a publicação.

Recebemos outra ameaça legal. Desta vez, não era da Cambridge Analytica, mas do Facebook. Disseram que, se publicássemos, processar-nos-iam. Nós publicámos mesmo assim. (Aplausos) Facebook, vocês estavam do lado errado da história. Estavam do lado errado da história nisto, por se recusarem a dar-nos as respostas de que precisamos.

É por isso que estou aqui, para me dirigir a vocês diretamente.

os deuses do Silicon Valley. (Aplausos) Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg e Larry Page e Sergey Brin e Jack Dorsey e os vossos empregados e os vossos investidores também. Porque há 100 anos, o maior perigo nas minas no sul do País de Gales era o gás. Silencioso, mortal e invisível.

Por isso mandavam os canários primeiro, para verificar o ar. E nesta enorme e global experiência "online"

em que vivemos, nós na Grã-Bretanha

nós somos os canários. Nós somos o que acontece a uma democracia ocidental

quando uma centena de anos de leis eleitorais são violadas pela tecnologia. A nossa democracia está corrompida, as nossas leis já não funcionam.

Não fui eu quem disse isto, foi o nosso parlamento, que publicou um relatório a dizer isto. A tecnologia que vocês criaram tem sido fantástica. Mas agora é a cena de um crime. E vocês têm as provas. Não basta dizer que vão fazer melhor no futuro.

Porque para termos esperança de impedir que isto aconteça novamente, temos de saber a verdade. Talvez vocês pensem: "Foram só uns anúncios, "As pessoas são mais espertas que isso, certo?" Ao que responderia, "Boa sorte com isso."

Porque o que o referendo do Brexit mostrou foi que a democracia liberal está viciada. Foram vocês que a viciaram. Isto não é democracia, espalhar mentiras na escuridão,

cheias de ódio e financiadas com dinheiro ilegal, sabe Deus de onde. Isto é subversão, e vocês são cúmplices disso. (Aplausos) O nosso parlamento foi o primeiro no mundo a tentar responsabilizar-vos mas não conseguiu. Vocês estão literalmente, fora do alcance da lei britância. Não só da lei britânica. Há nove parlamentos. Nove países representados aqui, a quem Mark Zuckerberg recusou receber e fornecer provas.

O que parece que não percebem é que isto é maior que vocês.

É maior que qualquer um de nós. Não se trata de esquerda ou de direita, sobre "Sair" ou "Ficar", sobre Trump ou não. Trata-se se, de facto, é possível voltarmos a ter eleições livres e justas. Porque como as coisas estão agora, acho que não é possível. Então, a minha pergunta para vocês é: É isto que vocês querem? É assim que querem ficar na história? Como os lacaios do autoritarismo que está a crescer por todo o mundo? Porque vocês surgiram para interligar as pessoas e recusam-se a reconhecer que essa tecnologia nos está a dividir. A minha pergunta para toda a gente é:

É isto que queremos? Deixá-los sair impunes?

Sentarmo-nos a brincar com os nosso telemóveis à medida que a escuridão aumenta? A história dos vales do sul do País de Gales é de luta pelos direitos. Isto não é uma simulação, é um ponto de inflexão. A democracia não está garantida, e não é inevitável. Nós temos de lutar e temos de ganhar. Não podemos deixar estas empresas terem este poder incontrolável.. Depende de nós, de você, de mim e de todos nós.

Somos nós que temos de recuperar o controlo. (Aplausos)