Amanda Burden
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Quando as pessoas pensam sobre cidades, tendem a imaginar algumas coisas. Pensam em prédios, ruas, arranha-céus, táxis barulhentos. Mas quando eu penso em cidades, eu penso em pessoas. As cidades compõem-se fundamentalmente de pessoas, e aonde elas vão e onde elas se encontram são a essência do funcionamento de uma cidade. Ainda mais importantes do que os prédios em uma cidade são os espaços públicos entre eles. E hoje, algumas das mudanças mais impactantes nas cidades estão acontecendo nesses espaços públicos.

Então eu acredito que espaços públicos vivos e agradáveis são a chave para planejar uma boa cidade. São eles que lhe dão vida. Mas o que faz um espaço público funcionar? O que atrai as pessoas para espaços públicos bem-sucedidos e o que faz com que espaços mal-sucedidos mantenham-nas distantes? Eu pensei, se eu pudesse responder essas perguntas, eu poderia contribuir muito com a minha cidade. Mas uma das coisas mais esquisitas em mim é que eu sou uma comportamentalista animal e uso essa técnica não para estudar o comportamento animal, mas para estudar como as pessoas nas cidades usam os espaços públicos urbanos.

Um dos primeiros espaços que estudei foi um pequeno parque chamado Paley Park, no centro de Manhattan. Esse pequeno espaço se tornou um pequeno fenômeno, e porque ele teve um impacto tão profundo nos nova-iorquinos, causou-me uma enorme impressão. Estudei esse parque no começo da minha carreira porque ele foi construído por meu padrasto, então eu sabia que lugares como o Paley Park não aconteciam por acaso. Eu vi em primeira mão que exigiam uma dedicação incrível e uma atenção enorme aos detalhes. Mas o que havia nesse espaço que o fazia especial e atraía as pessoas para lá? Bem, eu me sentava no parque e observava com muito cuidado, e, em primeiro lugar, antes de tudo havia assentos móveis confortáveis. As pessoas entravam, achavam seu próprio assento, moviam-no um pouco, na verdade, e então ficavam um tempo, e curiosamente, e elas mesmas atraíam outras pessoas, e ironicamente, e me sentia mais tranquila se houvesse outras pessoas perto. E era verde. Esse pequeno parque oferecia o que os nova-iorquinos anseiam: conforto e vegetação. Mas a minha questão era: por que não havia mais lugares verdes e lugares para sentar-se no meio da cidade onde você não se sentisse sozinho, ou como um intruso? Infelizmente, não era assim que as cidades estavam sendo planejadas.

Então aqui vocês veem uma vista familiar. É assim que as praças têm sido projetadas por gerações. Elas têm essa aparência elegante, espartana que associamos com frequência à arquitetura moderna, mas não é surpreendente que as pessoas evitem espaços como esse. Eles não parecem apenas ermos, parecem muito perigosos. Quero dizer, onde você se sentaria? O que você faria? Mas arquitetos os adoram. Eles são a base para as suas criações. Podem tolerar uma escultura ou duas, mas isso é tudo. E para os construtores, eles são ideais. Não há nada para regar, nada para manter, e não há pessoas indesejadas com quem se preocupar. Mas vocês não acham que isso é um desperdício? Para mim, tornar-se uma urbanista significava ser capaz de realmente mudar a cidade em que eu vivia e amava. Eu queria poder criar lugares que oferecessem a sensação que se tem em Paley Park, e não permitir que construtores fizessem praças sombrias como essa. Mas ao longo de muitos anos, aprendi como é difícil criar espaços públicos bem-sucedidos, significativos e agradáveis. Como eu aprendi com o meu padrasto, eles certamente não ocorrem por acidente, especialmente em uma cidade como Nova Iorque, onde é preciso lutar por um espaço público, e para que sejam bem-sucedidos, alguém tem que pensar muito sobre cada detalhe.

Bem, os espaços abertos das cidades são oportunidades. Sim, eles são oportunidades para investimentos comerciais, mas também são oportunidades para o bem comum da cidade, e esses dois objetivos nem sempre estão alinhados um com o outro, e aí reside o conflito.

A primeira oportunidade que tive para lutar por um grande espaço público aberto foi no início dos anos 1980, quando eu liderava uma equipe de urbanistas num aterro gigantesco chamado Battery Park City, na cidade baixa de Manhattan no Rio Hudson. E esse deserto de areia tinha ficado estéril por 10 anos, e nos disseram que se não encontrássemos um construtor em seis meses, ele iria falir. Assim, nós tivemos uma ideia radical, quase insana. Em vez de construir um parque como complemento para o desenvolvimento futuro por que não revertemos a equação e fazemos primeiro um espaço público aberto, pequeno mas de alta qualidade, e vemos se ele fez a diferença. Nós só podíamos arcar com a construção de uma seção de dois blocos do que se tornaria uma esplanada com quilômetros de extensão, de modo que o que fôssemos fazer tinha que ser perfeito. Então, só para ter certeza, eu insisti que fizéssemos uma maquete em madeira, em escala, da cerca e do muro de proteção. E quando eu me sentei naquele banco de ensaio com areia ainda rodopiando em torno de mim, a grade ficou exatamente no nível dos olhos, bloqueando a minha visão e arruinando a minha experiência à beira da água.

Então vejam, detalhes realmente fazem a diferença. Mas o design não é apenas a aparência de algo, é como o seu corpo se sente naquele lugar naquele espaço, e eu acredito que o design de sucesso depende sempre dessa experiência muito pessoal. Nessa foto, tudo parece muito acabado, mas aquela borda granito, aquelas luzes, as costas daquele banco, as árvores em plantio, e os vários tipos de lugares diferentes para sentar foram todos pequenas batalhas que transformaram esse projeto em um lugar em que as pessoas queriam estar.

Agora, ele provou ser muito valioso 20 anos depois quando Michael Bloomber me pediu para ser a sua comissária de planejamento e me colocou no comando da modelagem da cidade inteira de Nova Iorque. E ele me disse naquele mesmo dia, ele disse que Nova Iorque foi projetada para crescer de oito a nove milhões de pessoas. E ele me perguntou, "Então, onde você vai colocar um milhão a mais de nova-iorquinos?"

Bem, eu não tinha a menor ideia. Agora, vocês sabem que Nova Iorque valoriza muito a atração de imigrantes, por isso ficamos animados com a perspectiva de crescimento, mas, sinceramente, aonde iríamos crescer em uma cidade que já tinha se expandido para fora dos seus limites e era cercada por água? Como iríamos encontrar moradia para esses muitos novos nova-iorquinos? E se não poderíamos espalhar-nos, que provavelmente era uma coisa boa, aonde poderiam ir as novas habitações? E o que dizer dos carros? Nossa cidade não poderia lidar com mais carros.

Então, o que iríamos fazer? Se não poderíamos espalhar-nos, tínhamos que subir. E se tínhamos que subir, precisávamos fazê-lo em lugares onde não é necessário ter um carro. Então, aquilo significava usar um dos nossos maiores bens: o nosso sistema de trânsito. Mas nunca tínhamos pensado em como poderíamos aproveitá-lo ao máximo. Então, aqui estava a resposta para o nosso enigma. Se fôssemos canalizar e redirecionar todos as novas expansões em torno do trânsito, poderíamos dar conta daquele aumento da população, pensávamos. E aqui estava o plano, o que precisávamos mesmo fazer: tínhamos que refazer o nosso zoneamento, e zoneamento é instrumento regulatório do planejador da cidade, e, basicamente, remodelar toda a cidade, mirando aonde o novo desenvolvimento poderia ir e proibindo qualquer avanço nos nossos bairros feitos para carros e de estilo suburbano. Bem, foi uma ideia incrivelmente ambiciosa, ambiciosa porque as comunidades tinham que aprovar aqueles planos.

Então, como eu ia conseguir fazer isso? Ouvindo. Então eu comecei a ouvir, na verdade, milhares de horas de escuta apenas para estabelecer confiança. Vocês sabem, as comunidades podem contar se você compreende seus bairros. Não é algo que você pode simplesmente fingir. Então eu comecei a andar. Não sei dizer quantos blocos eu andei, nos verões escaldantes, nos invernos congelantes, ano após ano, apenas para que eu pudesse começar a entender o DNA de cada bairro e saber como cada rua era. Tornei-me uma especialista em zoneamento incrivelmente nerd, encontrando maneiras de o zoneamento atender às preocupações das comunidades. Assim, pouco a pouco, bairro a bairro, bloco a bloco, começamos a definir limites de altura para que todo novo desenvolvimento fosse previsível e próximo ao trânsito. Ao longo de 12 anos, pudemos rezonear 124 bairros, 40% da cidade, 12.500 blocos, de modo que agora, 90% de todo novo desenvolvimento de Nova Iorque fica a 10 minutos a pé do metrô. Em outras palavras, ninguém nos novos edifícios precisa possuir um carro.

Bem, esses rezoneamentos foram desgastantes e debilitantes e importantes, mas rezonear nunca foi minha missão. Não vemos o zoneamento e não sentimos o zoneamento. Minha missão sempre foi criar grandes espaços públicos. Assim, nas áreas que zoneamos para um desenvolvimento significativo, eu estava determinada a criar lugares que fizessem diferença nas vidas das pessoas. Aqui vemos o que eram três quilômetros de uma orla abandonada e degradada nos bairros de Greenpoint e Williamsburg no Brooklyn, impossível de chegar e impossível de usufruir. Agora, o zoneamento ali foi enorme, de modo que eu senti a obrigação de criar parques magníficos nessas orlas, e eu passei uma quantidade incrível de tempo em cada centímetro quadrado desse projeto. Eu queria ter certeza de que havia caminhos arborizados da parte alta para a água, de que havia árvores e vegetação em toda parte, e, é claro, muitos e muitos lugares para se sentar. Honestamente, eu não tinha ideia de como isso iria acabar. Eu tinha que ter fé. Mas eu pus tudo o que eu tinha estudado e aprendido nesses projetos.

E depois que abriu, eu tenho que lhes falar, foi incrível. As pessoas vinham de todas as partes da cidade para esses parques. Eu sei que mudaram as vidas das pessoas que viviam ali, mas também toda a imagem que os nova-iorquinos tinham da sua cidade. Eu costumo ir lá e ver as pessoas entrarem nessa pequena balsa que agora circula entre os bairros, e eu não sei dizer por quê, mas eu fico muito emocionada pelo fato de as pessoas estarem usufruindo dela como se tivesse estado sempre lá.

E aqui está um novo parque na baixa Manhattan. A margem da água em Manhattan era uma completa bagunça antes de 11 de setembro. Wall Street estava sem litoral porque não dava para chegar perto desta borda. E depois de 11 de setembro, a cidade tinha muito pouco controle. Mas eu pensei que, se nós fôssemos para a Lower Manhattan Development Corporation e pegássemos dinheiro para recuperar esses três quilômetros de orla degradada, isso teria um enorme efeito na reconstrução da baixa Manhattan. E teve. A baixa Manhattan finalmente tinha uma orla públcia em todos os três lados.

Eu amo de verdade esse parque. Sabem, as grades têm que ser maiores agora, então colocamos guarda-corpo na borda, e dá para ficar tão perto da água que você está praticamente nela. E vejam como a grade amplia e fica plana para permitir colocar o seu lanche ou o seu laptop. E eu adoro quando as pessoas vão lá e olham para cima e dizem: "Uau, ali está o Brooklyn, e está tão perto."

Então, qual é o truque? Como transformar um parque em um lugar em que as pessoas querem estar? Bem, isso cabe a você, não como um urbanista, mas como um ser humano. Você não faz uso do seu conhecimento em design. Você usa a sua humanidade. Quero dizer, você gostaria de ir para lá? Você gostaria de estar ali? Você pode ver dentro dele e fora dele? Há outras pessoas lá? Parece verdejante e amigável? Você pode encontrar um lugar para você?

Bem, agora, por toda a cidade de Nova Iorque, há lugares onde vocês podem encontrar um lugar para vocês. Onde costumava haver lugares de estacionamento, há agora cafés temporários. Onde o tráfego da Broadway costumava passar, há agora mesas e cadeiras. Onde, há 12 anos, cafés na calçada não eram autorizados, eles estão em toda parte. Mas reivindicar esses espaços para uso público não foi fácil, e é ainda mais difícil mantê-los dessa forma.

Agora vou contar uma história sobre um parque muito incomum chamado High Line. O High Line era uma ferrovia elevada... (Aplausos) O High Line era uma ferrovia elevada que percorria três bairros no West Side de Manhattan, e quando o trem parou de funcionar, tornou-se uma paisagem auto-semeada, uma espécie de jardim no céu. E quando eu o vi pela primeira vez, honestamente, quando subi naquele velho viaduto, apaixonei-me, como me apaixonaria por uma pessoa, honestamente. E quando fui nomeada, salvar as duas primeiras seções do High Line da demolição tornou-se a minha primeira prioridade e o meu projeto mais importante. Eu sabia que se houvesse um dia em que eu não me preocupasse com o High Line, ele viria abaixo. E o High Line, mesmo que seja amplamente conhecido agora e extraordinariamente popular, é o espaço público mais contestado na cidade. Vocês podem ver um belo parque, mas nem todo mundo o vê. Sabem, é verdade, interesses comerciais vão sempre lutar contra o espaço público. Vocês podem dizer: "Como é maravilhoso que mais de quatro milhões de pessoas venham do mundo todo para visitar o High Line." Bem, um construtor enxerga apenas uma coisa: clientes. Ei, por que não tirar essas plantações e ter lojas por todo o High Line? Não seria espetacular e não geraria muito mais dinheiro para a cidade? Bem, não, não seria espetacular. Seria um shopping, não um parque. (Aplausos) E quer saber, isso pode significar mais dinheiro para a cidade, mas uma cidade tem que tomar a visão de longo prazo, a visão pelo bem comum. Mais recentemente, a última parte do High Line, a terceira parte do High Line, a última parte do High Line, foi confrontada com interesses da construção civil, onde alguns dos principais construtores da cidade estão construindo mais de 17 milhões de metros quadrados no Hudson Yards. E eles vieram até mim e propuseram que "desmontassem temporariamente" aquela terceira e última parte. Talvez o High Line não se encaixasse na sua imagem de uma cidade de arranha-céus reluzentes sobre uma colina. Talvez estivesse simplesmente no caminho. Mas em todo o caso, foram nove meses de negociação diária ininterrupta para finalmente obter o acordo assinado para proibir a sua demolição e isso foi apenas dois anos atrás.

Então vejam, não importa o quão popular e bem-sucedido um espaço público possa ser, ele nunca pode ser dado como certo. Espaços públicos sempre... Ali está "salvo". Espaços públicos sempre precisam de defensores vigilantes, não só para reivindicá-los a princípio para uso público, mas para projetá-los para as pessoas que os utilizam, e então, para mantê-los, para assegurar que eles sejam para todos, que eles não sejam violados, invadidos, abandonados ou ignorados. Se há alguma lição que eu aprendi na minha vida como urbanista, é que os espaços públicos têm poder. Não é apenas o número de pessoas que os usam, mas o número ainda maior de pessoas que se sentem melhor na sua cidade só por saber que estão nela. Espaços públicos podem mudar como você vive em uma cidade, o que você sente da cidade, se escolhe uma cidade em vez de outra, e o espaço público é uma das razões mais importantes para ficar em uma cidade.

Acredito que uma cidade de sucesso é como uma festa incrível. As pessoas ficam nela porque estão se divertindo.

Obrigada.

(Aplausos) Obrigada. (Aplausos)