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Translated by Andrea Mussap
Reviewed by Leonardo Silva

0:11 Eu cresci em uma pequena cidade do interior em Vitória, Austrália. Eu tive um tipo de educação muito normal e discreto. Eu ia à escola, saía com meus amigos, brigava com minhas irmãs mais novas. Foi tudo muito normal. E quando eu tinha 15 anos, um membro da minha comunidade aproximou-se dos meus pais e quis me nomear para um prêmio comunitário de realizações. E meus pais disseram, "Hum, isso é muito legal, mas parece que há um problema evidente aqui. Não há nada que ela tenha de fato realizado." (Risos)

0:48 E eles estavam certos, sabe. Eu fui à escola, tirei boas notas, Após a escola, eu consegui um trabalho modesto no salão de beleza da minha mãe, e eu passava a maior parte do tempo assistindo a "Buffy, a Caça Vampiros" e a "Dawson's Creek". É, eu sei. Que contradição. Mas eles estavam certos, sabe. Eu não estava mesmo fazendo nada que fosse fora do comum. Eu não estava fazendo nada que pudesse ser considerado uma realização, se você deixar a deficiência fora da equação. Anos mais tarde, eu estava no meu segundo ano de ensino em uma escola em Melbourne, e, após 20 minutos de aula para uma turma do 11º ano de Direito, quando um rapaz levantou a mão e disse: "Ei, senhorita, quando você vai começar a fazer o seu discurso?" E eu disse: "Que discurso?" Sabe, eu estava falando com eles sobre a lei de difamação, por uns bons 20 minutos. E ele disse: "Você sabe, tipo, seu discurso motivacional. Sabe, quando as pessoas em cadeiras de rodas vão para a escola, eles costumam dizer, tipo, aquelas coisas inspiradoras?". (Risos) "Geralmente fica no salão maior."

1:57 E foi aí que me dei conta: esse garoto só tinha visto as pessoas com deficiência como objetos de inspiração. Para esse garoto, nós não somos, e a culpa não é dele, quer dizer, isso é verdade para muitos de nós. Para muitos de nós, as pessoas com deficiência não são nossos professores, ou nossos médicos, ou manicures. Nós não somos pessoas reais. Nós estamos lá para inspirar. E de fato, eu estou sentada neste palco, da forma como vocês estão vendo, nessa cadeira de rodas, e, provavelmente, vocês meio que estão esperando que eu inspire vocês. Certo? (Risos) É.

2:40 Bem, senhoras e senhores, sinto muito, mas vou desapontá-los dramaticamente. Eu não estou aqui para inspirá-los. Estou aqui para dizer-lhes que temos sido enganados a respeito da deficiência. É, venderam-nos a mentira de que deficiência é uma Coisa Ruim, com C maíuscula e R maíuscula. Que é uma coisa ruim, e que viver com uma deficiência torna você excepcional. Isso não é uma coisa ruim, e não torna você excepcional.

3:10 E nos últimos anos, nós fomos capazes de propagar essa mentira ainda mais através das mídias sociais. Vocês já devem ter visto imagens como esta: "A única deficiência na vida, é ter uma atitude ruim." Ou esta: "Sua desculpa é inválida". De fato é. Ou esta: "Antes de desistir, tente!" Estes são apenas alguns exemplos, mas há um monte dessas imagens por aí. Sabem, vocês devem ter visto aquela, de uma garotinha sem as mãos, que desenha segurando um lápis com a boca. Vocês devem ter visto a de um menino correndo com pernas protéticas de fibra de carbono. E essas imagens, há um monte delas por aí, e são o que chamamos de "pornô inspirador". (Risos) E eu uso o termo "pornô" deliberadamente, porque eles objetificam um grupo de pessoas em benefício de outro grupo de pessoas. Neste caso, estamos objetificando as pessoas com deficiência em benefício das pessoas sem deficiência. O propósito dessas imagens é inspirar você, motivar você, para então podermos olhar para elas e pensar: "Bem, por pior que seja a minha vida, poderia ser pior. Eu poderia ser aquela pessoa."

4:29 Mas e se você for aquela pessoa? Eu já perdi a conta do número de vezes em que fui abordada por estranhos querendo me dizer que eles me acham corajosa ou inspiradora, e isso foi muito antes que meu trabalho tivesse qualquer tipo de visibilidade pública. Eles só estavam meio que me parabenizando por eu conseguir levantar de manhã e lembrar meu próprio nome. (Risos) E isso é objetificar. Essas imagens, aquelas imagens objetificam as pessoas deficientes em benefício das pessoas não deficientes. Elas estão lá para que você possa olhar para elas e pensar que as coisas não são tão ruins para você, para colocar suas preocupações em perspectiva.

5:11 E a vida de uma pessoa deficiente é realmente um tanto difícil. Nós temos que superar algumas coisas. Mas as coisas que nós superamos não são as coisas que vocês pensam. Não são coisas que fazemos com o corpo. Uso o termo "pessoas com deficiência" de propósito, porque eu concordo com o chamado modelo social da deficiência, que nos diz que estamos mais desabilitados pela sociedade em que vivemos do que pelos nossos corpos e nossos diagnósticos.

5:42 Então, eu já vivo neste corpo há muito tempo. Eu sou muito apaixonada por ele. Ele faz o que eu preciso que ele faça, e eu aprendi a usá-lo no máximo de sua capacidade, bem como vocês, e o mesmo vale para aquelas crianças daquelas fotos. Elas não estão fazendo nada de extraordinário. Elas só estão usando seus corpos no melhor de sua capacidade. Então, é mesmo justo objetificá-las da forma como fazemos, compartilhando essas imagens? Quando as pessoas dizem: "Você é uma inspiração", elas o fazem como um elogio. E eu sei o porquê disso. É por causa da mentira, é porque venderam-nos essa mentira, de que a deficiência torna você excepcional. E, honestamente, ela não faz.

6:31 E eu sei o que vocês estão pensando. Sabem, eu estou aqui, evitando ser uma inspiração, e vocês estão pensando: "Nossa, Stella, você não fica inspirada com algumas coisas às vezes?" E a verdade é que eu fico. Eu aprendo com outros deficientes, o tempo todo. Mas eu não estou aprendendo que eu sou mais sortuda do que eles. Eu estou aprendendo que é uma ideia genial usar pinças de churrasco para pegar coisas que você deixou cair. (Risos) Eu estou aprendo aquele truque legal, com que você pode carregar a bateria do celular, na sua cadeira de rodas. Genial. Nós estamos aprendendo com a força e a resistência uns dos outros, e não contra nossos corpos e nossos diagnósticos, mas contra um mundo que nos torna objetos excepcionais.

7:20 Eu realmente acredito que essa mentira que nos venderam a respeito da deficiência é uma grande injustiça. Ela torna a vida difícil para a gente. E aquela citação: "A única deficiência na vida é uma atitude ruim", a razão de isso ser uma besteira é que não é verdade, por causa do modelo social da deficiência. Ficar rindo para um lance de escadas nunca fez com que ele virasse uma rampa. Nunca. (Risos) (Aplausos) Sorrir para uma tela de televisão não vai fazer as legendas aparecerem para as pessoas que são surdas. Ficar em pé durante horas, no meio de uma livraria, irradiando uma atitude positiva, não vai transformar todos aqueles livros em braile. Isso não vai acontecer.

8:17 Eu realmente quero viver num mundo em que a deficiência não seja a exceção, mas o normal. Eu quero viver num mundo em que uma garota de 15 anos, sentada em seu quarto, assistindo a "Buffy, a Caça Vampiros", não seja nomeada para ganhar alguma coisa só porque ela está fazendo isso sentada. Eu quero viver num mundo em que não tenhamos expectativas tão baixas para com as pessoas deficientes, em que sejamos parabenizados por sair da cama de manhã e por lembrar nosso próprio nome. Eu quero viver num mundo em que valorizamos verdadeiras conquistas das pessoas deficientes, e eu quero viver num mundo em que um garoto do 11º ano numa escola de Melbourne não fique nem um pouco surpreso que seu novo professor seja um cadeirante.

9:01 A deficiência não torna você excepcional, mas questionar-se sobre o que você acha que sabe sobre isso o faz.

9:07 Obrigada.

9:09 (Aplausos)