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Translated by ana raquel
Reviewed by Cláudia Lopes

0:11 Vamos começar com boas notícias, e as boas notícias têm a ver com o que sabemos baseado em pesquisa biomédica que, na verdade, tenha mudado as consequências de muitas doenças graves.

0:25 Comecemos pela leucemia, leucemia linfóide aguda, LLA, o cancro mais comum nas crianças. Quando eu era estudante, a taxa de mortalidade era de cerca de 95%. Hoje, passados 25, 30 anos falamos de uma taxa de mortalidade que diminuiu em 85%. Seis mil crianças por ano que antes teriam morrido com esta doença, estão agora curadas. Se querem os números mesmo grandes, olhem para estes números sobre a doença cardíaca. A doença cardíaca costumava ser a maior responsável por mortes, sobretudo para homens na casa dos 40. Hoje, vimos uma redução de 63% na mortalidade por doença cardíaca — notavelmente, 1,1 milhões de mortes evitadas todos os anos. A SIDA, incrivelmente, foi nomeada, no mês passado, como uma doença crónica, o que significa que alguém de 22 anos que contraia o vírus tem uma esperança de vida não de semanas, meses ou um par de anos, como se dizia há uma década, mas sim de décadas, para morrer provavelmente com 60 ou 70 anos, de outras causas. Estas são apenas mudanças notáveis no panorama de algumas das maiores causadoras de mortes. E uma em especial, sobre a qual provavelmente não sabem, o AVC, que tem sido, assim como a doença cardíaca, uma das maiores causas de morte no país, é uma doença sobre a qual agora sabemos que se pusermos as pessoas nas urgências dentro de três horas desde o início, cerca de 30% delas poderão deixar o hospital sem qualquer incapacidade.

1:57 Histórias notáveis, histórias que nos dão boas notícias, e tudo se resume a perceber algo sobre as doenças que nos tenha permitido detectá-las e intervir cedo. Detecção precoce, intervenção precoce, é a história destes sucessos.

2:17 Infelizmente, nem todas as notícias são boas. Falemos de outra história que tem a ver com suicídio. Claro que isto não é mesmo uma doença. É uma condição ou é uma situação que leva à mortalidade. O que não sabem é quão predominante é. Há 38 000 suicídios todos os anos nos EUA. Isso significa um a cada 15 minutos. É a terceira causa de morte mais comum entre os 15 e os 25 anos. É uma história extraordinária quando nos apercebemos de que é duas vezes mais do que o homicídio e até mais comum como causa de morte do que mortes por acidentes nas estradas deste país. Quando falamos de suicídio, também há uma contribuição médica, porque 90% deles relacionam-se com problemas mentais: depressão, bipolaridade, esquizofrenia, anorexia, personalidade <i>borderline</i>. Há uma grande lista de distúrbios que contribuem, e, como referi antes, muitas vezes começam cedo.

3:19 Mas não é só a mortalidade destes distúrbios. É também a morbilidade. Se olharem para a deficiência, tal como é medida pela Organização Mundial de Saúde com algo a que eles chamam "Anos de Vida Ajustados pela Incapacidade", uma espécie de métrica que ninguém imaginaria excepto um economista, excepto que é uma maneira de tentar capturar o que se perdeu em termos de deficiência com causas médicas, e como podem ver, praticamente 30% de todas as deficiências com causas médicas podem ser atribuídas a distúrbios mentais, síndromes neuropsiquiátricas.

3:52 Provavelmente estão a pensar que não faz sentido nenhum. O cancro parece ser muito mais sério. A doença cardíaca parece muito mais séria. Mas podem ver que eles estão mais abaixo nesta lista, e é por isso que aqui falamos de deficiência. O que leva à incapacidade para estes distúrbios como a esquizofrenia, a bipolaridade e a depressão? Porque é que aqui elas são o número um?

4:15 Há provavelmente três razões. Uma é que têm uma grande prevalência. Uma em cada cinco pessoas terá um destes distúrbios durante a sua vida. A segunda, claro, é que para alguns, estas incapacitam-nos mesmo, e é cerca de 4 a 5%, talvez 1 em 20. Mas o que realmente leva a estes números, esta elevada morbilidade, e, em parte, a elevada mortalidade, é o facto de começarem muito cedo durante a vida. Cinquenta por cento terão início aos 14 anos, 75 por cento aos 24, uma imagem muito diferente da que veríamos se estivéssemos a falar de cancro ou de doença cardíaca, diabetes, hipertensão — a maioria das grandes doenças que vemos como fontes de morbilidade e mortalidade. Estes são, de facto, os distúrbios crónicos dos jovens.

5:08 Comecei por vos dizer que há boas notícias. Esta não é obviamente uma delas. Esta é a parte que é talvez mais difícil e, de certo modo, isto é quase uma confissão para mim. O meu trabalho é garantir que progredimos em todos estes distúrbios. Eu trabalho para o governo federal. Na verdade, trabalho para vocês. Vocês pagam o meu salário. E talvez agora, que sabem o que eu faço, ou talvez o que não consegui fazer, pensam que talvez eu devesse ser despedido, e eu até poderia perceber isso. Mas o que quero sugerir, e a razão pela qual estou aqui é para vos dizer que estamos prestes a estar num mundo muito diferente à medida que pensamos nestas doenças.

5:48 Até agora tenho falado sobre distúrbios mentais, doenças mentais. Na verdade, está-se a tornar um termo bastante impopular e as pessoas sentem que, por qualquer razão, é politicamente mais correcto usar o termo "distúrbios" de comportamento e falar sobre eles como distúrbios do comportamento. É legítimo. São distúrbios de comportamento, e são distúrbios da mente. Mas o que vos quero sugerir é que ambos os termos, que têm estado presentes durante um século ou mais na verdade, agora são obstáculos para o progresso, que precisamos conceptualmente para progredir é voltar a pensar nestes distúrbios como distúrbios do cérebro.

6:30 Alguns de vocês vão dizer: "Oh meu Deus, lá voltamos nós ao mesmo. "Vamos ouvir falar de desequilíbrios químicos "ou vamos ouvir falar de medicamentos "ou sobre uma noção muito simplista "que vai pegar na nossa experiência subjetiva "e transformá-la em moléculas, ou talvez numa "compreensão muito simples e unidimensional "sobre o que é ter depressão ou esquizofrenia."

6:59 Quando falamos sobre o cérebro, ele é tudo menos unidimensional ou simplista ou reducionista. Depende, claro, de que escala ou que âmbito querem falar, mas este é um órgão de complexidade surreal e estamos apenas a começar a perceber como o estudar, quer estejam a pensar nos 100 mil milhões de neurónios que estão no córtex ou nos 100 biliões de sinapses que realizam todas as ligações. Começámos agora mesmo a tentar perceber como pegar nesta máquina muito complexa que realiza extraordinários tipos de processamento de informação e usar as nossas mentes para perceber este cérebro muito complexo que apoia as nossas mentes. Na verdade, é uma espécie de manha cruel da evolução que simplesmente não temos um cérebro que pareça estar suficientemente bem ligado para se perceber a si mesmo. De certo modo, faz-vos mesmo sentir que quando estão na zona segura de estudar o comportamento ou a cognição, algo que podem observar, isso, de certo modo, parece mais simplista e reducionista do que tentar envolver este órgão muito complexo e misterioso que começamos a tentar perceber.

8:14 Já no caso dos distúrbios do cérebro de que vos tenho estado a falar, depressão, distúrbio obsessivo-compulsivo, distúrbio de <i>stress</i> pós-traumático, ainda que não tenhamos um entendimento aprofundado de como se processam anormalmente ou do que é que o cérebro está a fazer nestas doenças, já fomos capazes de identificar algumas das diferenças de ligação ou algumas das maneiras nas quais o circuito é diferente para pessoas que têm estes distúrbios. Chamamos a isto o "conectoma humano", e podem pensar sobre o conectoma como o diagrama de cablagem do cérebro. Vão ouvir mais sobre isto dentro de alguns minutos. O que é importante é que comecem a olhar para as pessoas com estes distúrbios, um em cada cinco de nós que lutam de alguma maneira, vêm que há muita variação na maneira como o cérebro está ligado, mas há alguns padrões previsíveis e esses padrões são factores de risco para desenvolver um desses distúrbios. É um pouco diferente da maneira como pensamos sobre distúrbios do cérebro como as doenças de Huntington, Parkinson ou Alzheimer onde têm uma parte do vosso cortex afetada. Aqui estamos a falar de engarrafamentos ou, às vezes, desvios, ou, às vezes, apenas problemas com as ligações e a maneira como o cérebro funciona. Podiam, se quisessem, comparar isto a, por um lado, um enfarte do miocárdio, um ataque cardíaco, onde têm tecido morto no coração, por oposição a uma arritmia, onde o órgão simplesmente não está a funcionar devido a problemas de comunicação no mesmo. Qualquer um vos podia matar; em apenas um deles encontrarão uma grande lesão.

9:45 À medida que pensamos nisto, é melhor ir mesmo um pouco mais fundo num distúrbio em particular que seria a esquizofrenia, porque acho que é um bom caso para ajudar a perceber porque é importante pensar nisso como um distúrbio do cérebro. Estes são exames de Judy Rapoport e os seus colegas no Instituto Nacional de Saúde Mental no qual estudaram crianças que começaram a ter esquizofrenia muito cedo, e podem ver já no topo, há áreas que são vermelhas ou laranja, amarelo, são lugares onde há menos perda de massa cinzenta, e à medida que as seguiram nos cinco anos seguintes, comparando-as a grupos de controle da mesma idade podem ver que, particularmente em áreas como o córtex pré-frontal dorsolateral ou o giro temporal superior, há uma perda profunda de massa cinzenta. E é importante, se tentarem demonstrar isto, podem pensar sobre desenvolvimento normal como uma perda de massa cortical, perda de massa cinzenta cortical, e o que está a acontecer na esquizofrenia é que passaram os limites dessa marca, e num determinado ponto, quando passam do limite, passam um limite e é esse limite onde dizemos, esta é uma pessoa com esta doença, porque tem os sintomas comportamentais como alucinações e ilusões. É algo que podemos observar. Mas olhem de perto e podem ver que, na verdade, passaram um limiar diferente. Passaram um limiar do cérebro muito mais cedo, que talvez não aos 22 ou 20 anos, mas mesmo aos 15, 16 anos podem começar a ver que a trajectória para o desenvolvimento é muito diferente ao nível do cérebro, não do comportamento.

11:10 Porque é que isto interessa? Primeiro, porque, para distúrbios do cérebro, o comportamento é o último a mudar. Sabemos isso em relação ao Alzheimer, Parkinson ou Huntington. Há mudanças no cérebro uma década ou mais antes de se verem os primeiros sinais de mudança comportamental. As ferramentas que agora temos permitem-nos detetar essas mudanças cerebrais muito mais cedo, muito antes de os sintomas aparecerem. Mas mais importante, voltando aonde começámos. As boas notícias em Medicina são a deteção precoce e a intervenção precoce. Se esperássemos até ao ataque cardíaco, estaríamos a sacrificar 1,1 milhões de vidas todos os anos neste país devido à doença cardíaca. É precisamente isso que fazemos hoje quando decidimos que todos os que têm um desses distúrbios cerebrais, distúrbios do circuito cerebral, têm um distúrbio comportamental. Esperamos até o comportamento se tornar evidente. Isso não é detecção precoce. Isso não é intervenção precoce.

12:10 Para ser claro, não estamos bem preparados para isto. Não temos todos os factos. Nem sequer sabemos quais serão as ferramentas, nem o que procurar especificamente em cada caso para conseguir chegar lá antes de o comportamento emergir como diferente. Mas isto diz-nos como precisamos de pensar sobre tal, e onde precisamos de ir.

12:30 Vamos chegar lá rapidamente? Acho que isto é algo que irá acontecer durante os próximos anos, mas gostaria de terminar com uma citação sobre a tentativa de prever como isto irá acontecer de alguém que pensou muito sobre mudanças em conceitos e mudanças na tecnologia.

12:44 "Sobrestimamos sempre a mudança que acontecerá "nos próximos dois anos e subestimamos "a mudança que irá acontecer nos próximos 10." — Bill Gates.

12:53 Muito obrigado. (Aplausos)