Tim Harford
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É a Segunda Guerra Mundial, um campo alemão de prisioneiros, e esse homem, Archie Cochrane, é um prisioneiro de guerra e médico, e ele tem um problema. O problema é que os homens sob o seu cuidado estão sofrendo com uma condição excruciante e debilitadora que Archie realmente não entende. Os sintomas são esses horríveis inchaços cheios de fluidos sob a pele. Mas ele não sabe se é uma infecção, se isto tem a ver com subnutrição. Ele não sabe como curar isto. E ele trabalha em um ambiente hostil. E pessoas fazem coisas terríveis nas guerras. Os guardas alemães do campo, estão entediados. Eles simplesmente começam a atirar dentro do campo ao acaso por diversão. Em uma ocasião em particular, um dos guardas atirou uma granada dentro do lavatório dos prisioneiros quando estava cheio de prisioneiros. Ele disse que tinha ouvido risos suspeitos. E, Archie Cochrane sendo o médico do campo, foi um dos primeiros a entrar para limpar a bagunça. E mais uma coisa: Archie estava sofrendo da mesma doença.

Então, a situação parecia ser bem desesperadora. Mas Archie Cochrane era uma pessoa cheia de recursos. Ele já tinha contrabandeado vitamina C para o campo, e agora ele conseguiu botar a mão em provisões de ‘marmite’. no mercado negro. Bem, alguns de vocês estarão pensando o que é ‘marmite’. ‘Marmite’ é uma pasta para o café da manhã que os britânicos adoram. Parece petróleo bruto. Tem um gosto .... picante E o importante é, que é uma fonte rica de vitamina B12. Então Archie divide os homens sob seus cuidados o melhor que pode em dois grupos iguais. Ele dá vitamina C para a metade deles. Ele dá vitamina B12 para a metade deles. Ele, com muito cuidado e meticulosamente, anota seus resultados em um caderno. Uns dias depois, torna-se evidente que seja qual for a causa dessa doença, ‘marmite’ é a cura.

Então Cochrane dirige-se aos alemães responsáveis pelo campo de prisioneiros. Agora, você tem que imaginar aquele momento – esqueça esta foto, imagine este cara com esta barba longa e ruiva e este emaranhado de cabelos vermelhos. Ele não tem feito a barba – uma figura tipo Billy Connolly. Cochrane começa a falar alto com os alemães com esse sotaque escocês – em alemão fluente, a propósito, mas com sotaque escocês – e explica como a cultura alemã foi a cultura que deu Schiller e Goethe para o mundo. E ele não pode entender como esse barbarismo pode ser tolerado. E ele desabafa suas frustrações. E então retorna ao seu alojamento, consternado e chora porque está convencido que a situação é desesperadora. Mas um jovem médico alemão pega o caderno de Archie Cochrane e diz aos seus colegas, “Esta evidência é incontestável. Se não fornecemos vitaminas aos prisioneiros, isto é crime de guerra.” E na manhã seguinte, provisões de vitamina B12 são entregues no campo, e os prisioneiros começam a se recuperar.

Agora, não estou lhe contando esta história porque penso que Archie Cochrane é um cara legal – embora Archie Cochrane seja um cara legal. Também não estou lhe contando a história porque acho que deveríamos conduzir com mais cuidado os ensaios controlados aleatorizados em todos os aspectos da política pública, embora eu pense que isto também seria completamente esplêndido. Contei esta história porque Archie Cochrane, em toda sua vida, lutou contra uma aflição terrível. E ele viu que ela era debilitante aos indivíduos e era corrosivo para sociedades. E ele tinha um nome para isso. Ele a chamou de complexo de Deus. Agora, posso descrever os sintomas do complexo de Deus muito, muito facilmente. Os sintomas do complexo são, não importa o quão complicado o problema, você tem uma crença absolutamente incontrolável que você está infalivelmente certo em sua solução.

Archie era um médico. Então ele se integrava muito com médicos. E médicos sofrem muito do complexo de Deus. Eu sou um economista, não sou um médico, mas vejo o complexo de Deus à minha volta o tempo todo em meus colegas economistas. Eu vejo isto em nossos líderes empresariais. Vejo isto em políticos para quem votamos – pessoas que, a despeito de um mundo incrivelmente complicado, estão no entanto absolutamente convencidas que elas entendem como o mundo funciona. Sabem, com os futuros bilhões que tanto ouvimos falar, o mundo é simplesmente complexo em demasia para ser entendido dessa maneira.

Bem, lhe darei um exemplo. Imagina por um momento que, ao invés de Tim Harford aqui na sua frente, fosse Hans Rosling apresentando seus diagramas. Você conhece Hans: o Mick Jagger do TED. (Risos) E ele estaria lhe mostrando essas estatísticas surpreendentes, essas animações surpreendentes. Elas são brilhantes; é um trabalho fantástico. Mas um diagrama típico de Hans Rosling: pense um pouco, não o que mostra, mas em vez disso, pense no que ele deixa de fora. Ele vai lhe mostrar o PIB per capita, população, longevidade, e isso é tudo. Então, três dados para cada país – três dados. Três dados não são nada. Quero dizer, veja este diagrama.

Isto foi produzido pelo físico Cesar Hidalgo. Ele é do MIT. Agora, você não vai conseguir entender uma palavra disso, mas é assim que se parece. Cesar vasculhou o banco de dados de mais de 5.000 produtos diferentes, e usou as técnicas de análise de redes sociais para interrogar o banco de dados e criar diagramas relacionais entre os diferentes produtos. E é maravilhoso, um trabalho maravilhoso. Mostra todas essas interconectividades, todas essas interrelações. E penso que isto será profundamente útil para se entender como as economias crescem. Trabalho brilhante. Cesar e eu tentamos escrever um artigo para a revista New York Times explicando como isso funciona. E o que aprendemos foi que o trabalho do Cesar é bom demais para ser explicado na revista New York Times.

5.000 produtos – isso ainda não é nada. 5.000 produtos – imagine contando cada categoria de produto no banco de dados de Cesar Hidalgo. Imagine um segundo por categoria de produto. na duração desta sessão, teríamos contado todos os 5.000. Agora imagine fazendo o mesmo para cada tipo de produto diferente à venda em Walmart. Lá tem 100.000. Levaríamos o dia inteiro. Agora imagine você tentando contar todos os produtos e serviços à venda em uma grande economia como Tóquio, Londres ou Nova York. É ainda mais difícil em Edimburgo porque temos que contar todo o uísque e o tartan. Se quiséssemos contar cada produto e serviço em oferta em Nova York – há 10 bilhões deles – levaríamos 317 anos. Assim é a complexidade da economia que criamos. E eu estou somente contando torradeiras aqui. Não estou tentando solucionar o problema do Oriente Médio. A complexidade aqui é inacreditável. E apenas um pouco de contexto – as sociedades em que nossos cérebros se desenvolveram tinham cerca de 300 produtos e serviços. Você poderia contá-los em 5 minutos.

Esta é a complexidade do mundo ao nosso redor. Talvez isso seja o porquê achamos o complexo de Deus tão tentador. Nossa tendência é dizer, “Podemos desenhar, podemos postar alguns diagramas, nós sabemos, entendemos como isto funciona.” E não entendemos. Nós nunca entendemos. Agora, não estou tentando transmitir uma mensagem niilista. Não estou tentando dizer que não podemos resolver problemas complicados em um mundo complicado. É claro que podemos. Mas a maneira como os resolvemos é com humildade – abandonar o complexo de Deus e usar uma técnica de resolução de problemas que funciona. E temos uma técnica de resolução de problemas que funciona. Agora, me mostra um sistema complexo bem sucedido, e eu mostrarei a você um sistema que evoluiu através de tentativa e erro.

Um exemplo: Este bebê foi feito através de tentativa e erro Eu entendo que é uma declaração ambígua. Talvez eu deveria esclarecer isto. Este bebê é um corpo humano: ele evoluiu. O que é evolução? Durante milhões de anos, variação e seleção, variação e seleção – tentativa e erro, tentativa e erro, E não são só os sistemas biológicos que fazem milagres através de tentativa e erro. Poderíamos usá-lo em um contexto industrial.

Digamos que queiram fazer detergente. Digamos que você seja a Unilever e quer fazer detergente em um fábrica perto de Liverpool. Como faríamos isso? Bem, há um tanque grande cheio de detergente líquido. Você bombeia o líquido a alta pressão por um bico. Cria um spray de detergente. O spray seca. Vira pó. Ele cai no chão. Você recolhe o pó e o coloca em caixas de papelão. Você os vende no supermercado. Ganha muito dinheiro. Como você desenha o bico? Acontece que isto é muito importante. Agora, se você tem o complexo de Deus, o que você faz é achar um pequeno Deus. Você contrata um matemático; contrata um físico – alguém que entenda a dinâmica deste fluido. E ele ou ela, calculará o design ideal para o bico. Agora, a Unilever fez isto e não funcionou – muito complicado. Esse problema é muito complicado.

Mas o geneticista Professor Steve Jones descreve como a Unilever conseguiu resolver este problema – tentativa e erro, variação e seleção. Pega-se o bico e cria-se 10 variações aleatórias do bico. Você testa todos os 10 e fica com o que funciona melhor. Você cria 10 variações dessa. Você testa todos. Você fica com o que funciona melhor. Você testa 10 variações naquele. Você vê como isto funciona, certo. E depois de 45 gerações, tem-se este incrível bico. Parece um pouco com uma peça de xadres – funciona brilhantemente. Não temos a mínima ideia como ele funciona, nenhuma ideia. No instante em que você desiste do complexo de Deus – vamos tentar obter um monte de coisas; de se ter uma forma sistemática para determinar o que e o que não funciona – você pode resolver seu problema.

Agora, este processo de tentativa e erro é na verdade muito mais comum em instituições bem sucedidas do que queremos reconhecer. E ouvimos muito sobre como as economias funcionam. A economia dos EU é ainda a maior economia do mundo. Como foi que este país se tornou a maior economia do mundo? Eu poderia lhe dar todos os tipos de fatos e valores sobre a economia dos EU, mas acho que o mais importante é isto: 10 por cento das empresas nos EU desaparece todo ano. É uma taxa de falha enorme. É bem mais alta do que a taxa de falha, digamos, de americanos. 10 por cento dos americanos não desaparece todo ano. O que nos leva a concluir que as empresas nos EU falham mais rápido do que as pessoas, e, portanto, as empresas nos EU evoluem mais rápido do que as pessoas. E eventualmente, elas chegarão a um tal alto nível de perfeição que irão fazer de nós todos seus animais de estimação – (Risos) se, claro, eles já não o tiverem feito. Às vezes fico pensando. Mas é este processo de tentativa e erro que explica essa grande divergência, esse incrível desempenho das economias ocidentais. Isso não surgiu por que colocou-se uma pessoa incrivelmente inteligente no comando. Surgiu por tentativa e erro.

Eu fiquei meio repetitivo neste assunto nos últimos meses, e as pessoas à vezes dizem: “Bem Tim, é meio óbvio. Obviamente tentativa e erro é muito importante. Obviamente experimentação é muito importante. Agora, por que você fica repetindo esta coisa mais do que óbvia?”

Aí eu digo, OK, tudo bem. Você acha que é óbvio? Eu irei admitir que isto é óbvio quando nas escolas começarem a ensinar as crianças que há problemas que não têm uma resposta certa. Pare de lhes dar listas com perguntas em que para cada pergunta há uma resposta. E que há uma figura de autoridade no canto, atrás da mesa do professor que sabe todas as respostas. E se elas não conseguem responder, devem ser preguiçosas ou burras. Quando as escolas pararem de fazer isso o tempo todo, Eu vou admitir, sim, é óbvio que tentativa e erro é uma coisa boa. Quando um político se levanta durante sua campanha eleitoral e diz: “Eu quero melhorar nosso sistema de saúde. Eu quero melhorar nosso sistema educacional. Não sei como fazer isso. Eu tenho algumas ideias. Nós vamos testá-las. Provavelmente todas falharão. Então testaremos algumas outras ideias. Acharemos algumas que funcionam. Estas iremos desenvolver. Vamos nos livrar das que não funcionam.” Quando um político fizer campanhas nesta plataforma, e, mais importante ainda, quando eleitores como você e eu estivermos dispostos a votar neste tipo de político, aí então irei admitir que é óbvio que tentativa e erro funciona, e que – obrigado.

(Aplausos)

Até então, vou continuar sendo repetitivo sobre tentativa e erro e porque deveríamos abandonar o complexo de Deus. Porque é tão duro admitir nossa própria falibilidade. É tão desconfortável. E Archie Cochrane entendeu isto como entenderia uma outra pessoa qualquer. Ele conduziu um ensaio clínico muitos anos depois da Segunda Guerra. Ele queria testar a questão: Onde pacientes deveriam se recuperar de ataques do coração? A recuperação deveria ser em uma unidade especializada de cardiologia no hospital, ou em casa? Todos os médicos cardiologistas tentaram fazer ele se calar. Eles tinham o complexo de Deus em abundância. Sabiam que seus hospitais eram o lugar certo para os pacientes. E sabiam que era muito antiético conduzir qualquer tipo de ensaio ou experimento.

No entretanto, Archie conseguiu uma permissão para fazer isto. Ele conduziu o teste. Depois de conduzir o teste por algum tempo, ele se reuniu com seus colegas em volta da sua mesa, e disse, “Bem, senhores, temos alguns resultados preliminares. Eles não são estatisticamente significantes. Mas temos alguma coisa. E acontece que vocês estão certos e eu estou errado. É perigoso para pacientes se recuperarem de um ataque de coração em casa. Devem permanecer no hospital.” E há esse alvoroço. Todos os médicos começam a bater na mesa dizendo: “Sempre falamos que você era antiético, Archie. Você está matando pessoas com seus ensaios clínicos. Tem que parar agora. Encerre isto imediatamente.” E há um grande tumulto. Archie espera se acalmarem. E diz: “Bem, isto é muito interessante, senhores, porque quando lhes dei a tabela de resultados, Eu troquei as duas colunas. Acontece que seus hospitais estão matando as pessoas, eles deveriam ir para casa. Gostariam de encerrar o ensaio agora, ou esperar até termos resultados robustos?” ‘Tumbleweed’ (planta rodadora) rola pela sala de reunião.

Mas Cochrane faria este tipo de coisa. E o porquê dele fazer este tipo de coisa. é porque ele entendeu que nos sentimos muito melhor quando nos levantamos e dizemos, “Aqui, no meu pequeno mundo, eu sou um deus, entendo tudo. Não quero ter minhas opiniões desafiadas. Não quero ter minhas conclusões testadas.” É tão mais confortável simplesmente se estabelecer a lei. Cochrane entendeu que incerteza, falibilidade, que se ser desafiado, tudo isso machuca. E às vezes você precisa ser forçado a sair disso. Agora, não vou fingir que isto é fácil. Não é fácil. É extremamente doloroso.

E desde que comecei a falar sobre esse tema e a pesquisar este tema, Fiquei realmente angustiado com algo que um matemático japonês disse sobre este tema. Logo depois da guerra, esse jovem, Yutaka Taniyama, desenvolveu essa extraordinária conjetura chamada a Conjetura Taniyama-Shimura. Ela se relevou ser absolutamente instrumental, depois de muitas décadas, para se provar o último teorema de Fermat. De fato, é evidente que ela é o equivalente à prova do último teorema de Fermat. Você prova um, você prova o outro. Mas ficou sempre uma conjetura. Taniyama tentou muitas vezes e nunca conseguiu provar que era verdadeira. Pouco antes de fazer 30 anos, em 1958, Yutaka Taniyama se matou. Seu amigo, Goro Shimura – que trabalhou com matemática junto a ele – muitas décadas depois, refletiu na vida de Taniyama. Ele disse, “Ele não era muito cuidadoso como um matemático. Ele cometeu muitos erros. Mas os fez em uma direção boa. Tentei imitá-lo, mas entendi que é muito difícil cometer erros bons.”

(Obrigado)

(Aplausos)