Rabino Lord Jonathan Sacks
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"Estes são tempos", disse Thomas Paine, "que desafiam as almas dos homens". E estão nos desafiando agora.

Este é um momento crítico da história do Ocidente. Nós vimos eleições e sociedades divididas. Vimos o crescimento do extremismo em política e religião, tudo alimentado pela ansiedade, incerteza e medo, de um mundo que se transforma mais rápido do que podemos tolerar, e da certeza de que irá se transformar ainda mais rapidamente. Tenho um amigo em Washington. Perguntei como se sentia estando nos EUA durante as recentes eleições presidenciais. Ele respondeu: "Bem, foi como o homem sentado no deque do Titanic com um copo de uísque nas mãos, dizendo: 'Eu sei que pedi gelo...

(Risos)

mas isto é ridículo'".

Existe algo que podemos fazer, cada um de nós, para conseguirmos encarar o futuro sem medo? Eu acho que existe. E uma maneira de fazê-lo é ver que talvez a forma mais simples, dentro de uma cultura ou era, seja perguntar: o que as pessoas reverenciam? As pessoas já reverenciaram tantas coisas diferentes: o sol, as estrelas, a tempestade. Algumas reverenciam vários deuses; algumas, apenas um; outras, nenhum. Nos séculos 19 e 20, as pessoas reverenciavam a pátria, a raça ariana, o estado comunista. O que nós reverenciamos? Acho que os antropólogos do futuro irão analisar os livros que lemos sobre autoajuda, autorrealização, autoestima. Eles irão analisar a forma como falamos sobre moral significando sermos fiéis a nós mesmos, a forma como falamos sobre política como uma questão de direitos individuais, e analisarão este maravilhoso novo ritual religioso que criamos. Sabem qual? Chama-se "selfie". E acho que eles irão concluir que em nosso tempo o que reverenciamos é o indivíduo, o meu, o eu.

E isso é ótimo. É liberador. É fortalecedor. É maravilhoso. Mas não se esqueçam de que, biologicamente, somos animais sociais. Passamos a maioria de nossa história evolutiva em pequenos grupos. Precisamos das interações cara a cara, nas quais aprendemos a coreografia do altruísmo e nas quais criamos bens espirituais como amizade e confiança, lealdade e amor, que compensam nossa solidão. Quando temos muito do "eu" e pouco do "nós", nos tornamos vulneráveis, amedrontados e sós. Não foi por acaso que Sherry Turtle, do MIT, deu ao livro que escreveu sobre o impacto das redes sociais o nome de "Alone Together", "Sozinhos Juntos".

Penso que a forma mais simples de preservar o futuro "você" seja fortalecer o futuro "nós" em três dimensões: o "nós" da relação, o "nós" da identidade e o "nós" da responsabilidade.

Primeiro vou comentar sobre o "nós" da relação. Perdoem-me se eu for muito pessoal. Uma vez, há muito tempo, eu era um universitário de 20 anos, estudando filosofia. Tinha interesse em Nietzsche, Schopenhauer, Sartre e Camus. Eu estava cheio de dúvidas ontológicas e angústia existencial. Era maravilhoso.

(Risos)

Eu era obcecado comigo mesmo e absolutamente desagradável, até o dia em que vi, do outro lado do pátio, uma moça que era tudo o que eu não era. Ela irradiava raios de sol. E emanava alegria. Eu descobri que seu nome era Elaine. Nos encontramos. Conversamos. Nos casamos. E 47 anos, 3 filhos e 8 netos mais tarde, posso dizer com certeza que foi a melhor decisão que tomei na minha vida, porque são as pessoas diferentes de nós que nos fazem crescer. É por isso que acho que temos que fazer exatamente isso.

O problema com os filtros do Google, os amigos do Facebook e a leitura das notícias filtradas, em vez das notícias em geral, é que significa que estamos cercados de uma maioria de pessoas como nós, cujas perspectivas, opiniões e até preconceitos, são como os nossos. Cass Sunstein, de Harvard, observa que, se nos cercarmos de pessoas com as mesmas perspectivas, nos tornamos mais radicais. Precisamos renovar os encontros cara a cara com pessoas diferentes de nós. Precisamos fazer isso para concluir que podemos discordar fortemente e ainda assim continuarmos amigos. É nos encontros cara a cara que descobrimos que pessoas diferentes de nós são apenas pessoas, como nós. E, toda vez que estendemos a mão da amizade a alguém diferente de nós, cuja classe ou credo ou cor sejam diferentes dos nossos, nós curamos uma das fraturas do nosso mundo ferido. Esse é o "nós" da relação.

O segundo é o "nós" da identidade. Vamos fazer um experimento mental. Vocês já foram a Washington? Já visitaram os monumentos? Completamente fascinantes. Lá fica o Lincoln Memorial: o discurso de Gettysburg de um lado, o segundo juramento do outro. Você vai ao Jefferson Memorial, longos discursos. O Martin Luther King Memorial, mais de 12 excertos de seus discursos. Eu não tinha me dado conta de que nos EUA você lê monumentos. Vá ao equivalente em Londres na Praça do Parlamento e você verá que o monumento a David Lloyd George contém três palavras: David Lloyd George.

(Risos)

O de Nelson Mandela tem duas. O de Churchill tem uma: Churchill.

(Risos)

Por que é diferente? Vou dizer por que é diferente. Os EUA foram, desde o começo, uma nação com um fluxo de imigrantes após o outro, então precisou criar uma identidade, o que foi feito através de uma história que você aprendeu na escola, leu nos monumentos, e ouviu repetidas vezes nos discursos de posse dos presidentes. A Grã-Bretanha até pouco tempo não era uma nação de imigrantes, e podia ignorar a questão da identidade. O problema agora é que duas coisas que não deveriam ter acontecido juntas aconteceram. A primeira é que no Ocidente paramos de contar a história de quem somos e por que, inclusive nos EUA. E, ao mesmo tempo, a imigração é mais prevalente do que jamais foi. Quando contamos uma história e nossa identidade é forte, podemos dar boas-vindas ao estrangeiro, mas, quando paramos de contar a história, nossa identidade se enfraquece e o estrangeiro nos ameaça. E isso não é bom.

Judeus vêm sendo espalhados, misturados e exilados há 2 mil anos. Nunca perdemos nossa identidade. Por quê? Porque pelo menos uma vez por ano, nas festividades da Páscoa, contamos nossa história e a ensinamos às crianças e comemos o pão sem fermento da aflição e provamos as ervas amargas da escravidão. Então nunca perdemos nossa identidade. Penso que, coletivamente, temos de voltar a contar a nossa história, quem somos, de onde viemos, por quais ideais vivemos. Se isso acontecer, nos tornaremos suficientemente fortes para acolher o estrangeiro e dizer: "Venha e compartilhe nossas vidas, compartilhe nossas histórias, compartilhe nossos objetivos e sonhos". Esse é o "nós" da identidade.

E, pra finalizar, o "nós" da responsabilidade. Sabem de uma coisa? Minha frase favorita em política é uma frase bem americana, é: "Nós, o povo". Por que "Nós, o povo"? Indica que juntos compartilhamos uma responsabilidade coletiva para com nosso futuro coletivo. É como as coisas realmente são e como deveriam ser.

Vocês perceberam como um pensamento mágico vem invadindo a política? Nós dizemos que tudo que precisamos fazer é eleger um líder forte e ele ou ela irá solucionar todos os problemas pra nós. Isso, acreditem, é mágica. Temos também os extremos: direita radical, esquerda radical, religiosos extremistas e os extremistas antirreligião, extremistas de direita sonhando com um tempo de ouro que nunca existiu e a extrema esquerda sonhando com uma utopia que jamais será realidade e os religiosos e antirreligiosos igualmente convencidos de que o que falta é Deus ou a ausência de Deus para nos salvar de nós mesmos. Isso também é mágica, porque os únicos capazes de nos salvar de nós mesmos somos nós, o povo, todos nós juntos. E, quando fizermos isso, quando deixarmos de lado a política do "eu" e adotarmos a política do todos nós juntos, redescobriremos as belas verdades contraintuitivas: uma nação é forte quando cuida dos fracos; ela se torna rica quando cuida dos pobres; ela é invulnerável quando se preocupa com os vulneráveis. Isso é o que cria grandes nações.

(Aplausos)

Tenho uma pequena sugestão. Pode ser que transforme suas vidas, e pode até ajudar a começar a transformar o mundo. Faça uma operação de busca e substituição de palavras em sua mente e, cada vez que encontrar a palavra "auto", substitua pela palavra "outro". Em vez de autoajuda, ajuda ao outro; em vez de autoestima, estima pelo outro. E se fizerem isso, vão começar a sentir o poder do que é, para mim, uma das frases mais importantes em toda a literatura religiosa. "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás comigo." Podemos encarar qualquer futuro sem medo contanto que saibamos que não o enfrentaremos sozinhos.

Em nome do futuro "você" juntos, vamos tornar mais forte o futuro "nós".

Obrigado.

(Aplausos)