Peter Saul
977,580 views • 13:19

Eu andava mesmo com dúvidas se conseguiria falar disto com um público tão importante e vivo como vocês. E depois lembrei-me da frase de Gloria Steinem, que diz: "A verdade liberta-nos mas primeiro enfurece-nos." "(Risos) Portanto...

Com isso na cabeça, vou começar por tentar fazer isso aqui e falar sobre morrer no século XXI. A primeira coisa que vos vai enfurecer, é que todos nós vamos morrer no século XXI. Não haverá exceções a isso. Aparentemente, cerca de uma em cada oito pessoas pensa que é imortal, em inquéritos... (Risos) ... mas, infelizmente, isso não vai acontecer.

Enquanto faço esta palestra, nos próximos 10 minutos, vão morrer cem milhões das minhas células e durante o dia de hoje, vão morrer 2000 das minhas células cerebrais e nunca mais vão voltar. Portanto podemos argumentar que o processo da morte entra em cena muito cedo.

A segunda coisa que quero dizer sobre a morte no século XXI, para além de que vai acontecer a toda a gente, é que vai ser um pouco como o descarrilamento de um comboio, para a maioria de nós, a não ser que façamos alguma coisa para tentar recuperar este processo da sua trajetória bastante inexorável em que se encontra atualmente.

Aqui têm. Esta é a verdade. Sem dúvida que vos enfurece, vejamos se vos consegue libertar. Não prometo nada. Tal como ouviram na introdução, trabalho nos cuidados intensivos e acho que posso dizer que vivi durante o auge dos cuidados intensivos. Tem sido cá uma jornada! Tem sido fantástico. Temos máquinas que fazem "ping". Há muitas delas por aí. E temos alguma tecnologia de ponta que tem trabalhado muito bem. Desde que trabalho nos cuidados intensivos a taxa de mortalidade nos homens, na Austrália, diminuiu para metade e isso deve-se, sobretudo, aos cuidados intensivos. Muitas das tecnologias que utilizamos têm a ver com isso.

Temos tido um sucesso tremendo mas tornámo-nos um bocado vítimas do nosso próprio sucesso e começámos a usar expressões como: "salvar vidas". Peço imensas desculpas a todos por isso porque, obviamente, não salvamos. Só prolongamos a vida das pessoas, adiamos a morte e desviamo-la, mas, em rigor, não conseguimos salvar vidas de nenhuma maneira permanente.

O que tem acontecido durante o período de tempo em que tenho trabalhado nos cuidados intensivos é que as pessoas cuja vida começámos a salvar nos anos 70, 80 e 90, estão agora a morrer no século XXI de doenças para as quais já não temos respostas da mesma maneira que tínhamos no passado.

Agora, há uma grande mudança na forma como as pessoas morrem. Para a maior parte daquilo de que se morre hoje em dia, não conseguimos fazer tanto como fazíamos nos anos 80 e 90.

Por isso, fomos apanhados por isto e não temos sido verdadeiramente claros convosco sobre o que está a acontecer e já é tempo de o fazermos. Acho que acordei para esta realidade no final dos anos 90 quando conheci este homem. Este homem chama-se Jim Smith, e tinha este aspeto. Fui chamado à enfermaria para o ver. A mão dele é a pequena.

Um pneumologista chamou-me para o ver, e disse-me: "Olha, está ali um homem que tem pneumonia "e parece que precisa de cuidados intensivos. "A filha está cá e quer que façamos tudo o que for possível." O que é uma frase familiar para nós. Portanto, fui até à enfermaria para ver o Jim. A pele dele estava assim, translúcida. Consegue-se ver os ossos através da pele. Ele estava muito magro e muito doente com a pneumonia, demasiado doente para falar comigo. Portanto, falei com a filha Kathleen e disse-lhe: "Alguma vez falou com Jim sobre o que queriam que fosse feito "se ele chegasse a uma situação como esta?" Ela olhou para mim e disse-me: "Não, claro que não!" Pensei: "Ok, leva isto com calma." Continuei a falar com ela e, passado algum tempo, ela disse-me: "Sabe, sempre pensámos que haveria tempo." Jim tinha 94 anos. (Risos)

Percebi que aquilo não estava a acontecer. Não existia aquele diálogo que eu imaginava estar a acontecer. Então, começámos a fazer inquéritos e cobrimos 4500 residentes em lares de Newcastle, na área de Newcastle, e descobrimos que apenas 1 em 100 tinha um plano sobre o que fazer quando os seus corações parassem de bater. Um em cem! Apenas 1 em 500 tinha um plano sobre o que fazer, caso ficasse gravemente doente. Percebi, claro, que este diálogo não estava a ocorrer entre o público em geral.

Eu trabalho nos cuidados intensivos. Este é o Hospital John Hunter. E pensei: "Com certeza que fazemos melhor do que isto." Portanto, uma colega minha de enfermagem, Lisa Shaw, e eu analisámos centenas e centenas de anotações no departamento dos registos médicos, para ver se havia sequer algum sinal de que alguém tivesse tido uma conversa qualquer sobre o que lhe poderia acontecer, se o tratamento que estava a receber não tivesse sucesso, ao ponto de morrerem. Não encontrámos um único registo com qualquer preferência sobre os objetivos, tratamentos e resultados em nenhuma das anotações iniciadas pelo médico ou pelo doente.

Começámos a perceber então que tínhamos um problema e que o problema era mais sério por causa disto.

Sabemos, obviamente, que todos vamos morrer mas a forma como morremos é realmente muito importante não apenas para nós, obviamente, mas também como é que isso influencia a vida de todas as pessoas que continuam a viver depois disso. A forma como morremos vive na cabeça de toda a gente que nos sobrevive e o "stress" criado nas famílias devido a uma morte é enorme. Na verdade, ficamos com um "stress" sete vezes maior por uma morte nos cuidados intensivos do que em qualquer outro lado. Morrer nos cuidados intensivos não é a nossa primeira opção se pudermos escolher.

E, como se isso não fosse suficientemente mau, está tudo a evoluir rapidamente para que muita gente, — um em dez neste momento — venha a morrer nos cuidados intensivos. Nos EUA, é um em cinco. Em Miami, três em cinco pessoas morrem nos cuidados intensivos. Portanto, é este o tipo de tendência que temos atualmente.

É esta a razão por que tudo isto está a acontecer — tenho de vos explicar o que isto é. Estas são as quatro maneiras possíveis de morrer. Uma delas acontecerá a todos nós. As que talvez conheçam melhor são as que estão a ganhar um interesse histórico crescente: morte súbita. É bastante provável num público deste tamanho que não aconteça a ninguém aqui presente. A morte súbita tornou-se muito rara. A morte de Little Nell ou Cordelia já não acontece. O processo da morte dos que têm uma doença terminal, que acabámos de ver, ocorre em pessoas mais jovens. Depois de chegarmos aos 80, é improvável que nos aconteça. Apenas 1 em 10 pessoas com mais de 80 anos vão morrer de cancro.

Os grandes setores em crescimento são estes. Morremos de insuficiência de múltiplos órgãos, os pulmões, o coração, os rins, vão-se acumulando uns atrás dos outros. Cada um, por si só, leva à entrada nos cuidados intensivos até que alguém diz que basta e paramos.

Este é o setor com o maior crescimento de todos. Pelo menos seis em dez pessoas aqui presentes vão morrer desta forma, que é a diminuição das capacidades com uma fragilidade crescente. A fragilidade é uma parte inevitável do envelhecimento e a fragilidade crescente a principal causa de morte no presente. Os últimos anos, ou o último ano da nossa vida, é passado com uma grande dose de incapacidade, infelizmente.

Que tal, estão a gostar? (Risos) Desculpem, mas sinto-me uma autêntica Cassandra. (Risos)

O que posso dizer de positivo? O positivo é que isso agora acontece muito tarde. Quase todos temos qualidade de vida até chegar a este ponto. Historicamente, não era assim. Isto é o que nos acontece quando vivemos até uma idade avançada. Infelizmente, a longevidade crescente significa mais velhice e não mais juventude. Desculpem-me por dizer isto. De qualquer maneira, não nos limitámos a fazer isto no Hospital John Hunter e noutros lados. Começámos uma série de projetos para tentar perceber se conseguíamos envolver mais as pessoas na forma como as coisas lhes acontecem. Mas apercebemo-nos que estamos a lidar com questões culturais. Eu adoro este quadro do Klimt, porque, quanto mais olhamos para ele, mais nos apercebemos de tudo o que está aqui em jogo, que é claramente a separação que os vivos têm da morte e o medo... Reparem naquela mulher ali que tem os olhos abertos. É para ela que a morte está a olhar, é por ela que a morte aí vem. Conseguem ver isso? Ela está aterrorizada. É um quadro magnífico.

Tínhamos um problema fundamentalmente cultural. As pessoas não queriam falar da morte, foi o que pensámos. Com grande financiamento do governo federal e do serviço de saúde local, introduzimos no John Hunter o projeto "Respeitar as Escolhas dos Doentes". Treinámos centenas de pessoas para irem para as enfermarias e falarem com as pessoas sobre o facto de que iriam morrer e o que prefeririam nessas circunstâncias. As pessoas adoraram. As famílias e os doentes adoraram. 98% das pessoas acharam que isto devia ter sido uma prática comum e era assim que as coisas deviam funcionar. Depois de expressaram as suas preferências, todas se concretizaram, como devia ser. Podíamos concretizá-las. Mas depois, quando o financiamento acabou, voltámos seis meses mais tarde e toda a gente tinha novamente parado. Já ninguém tinha estas conversas outra vez. IIsso destroçou-nos realmente, porque pensávamos que isto se ia mesmo estabelecer. O problema cultural tinha-se reafirmado.

Portanto, o apelo é este. Acho que é importante não nos metermos nesta via dos cuidados intensivos sem pensarmos a sério sobre se é ali ou não que queremos acabar, especialmente à medida que envelhecemos e ficamos mais frágeis e os cuidados intensivos cada vez nos oferecem menos. Tem de haver uma pequena estrada secundária para as pessoas que não queiram ir por essa autoestrada. Eu tenho uma pequena ideia e uma grande ideia sobre o que poderia acontecer.

E esta é a ideia pequena. Vamos todos envolver-nos mais nisto, da maneira como o Jason ilustrou. Porque é que não temos este tipo de conversa com os nossos velhotes e pessoas que se possam estar a aproximar do fim? Podemos fazer algumas coisas. Podemos fazer esta simples pergunta — esta pergunta nunca falha. "No caso de ficar demasiado doente para se expressar, "quem é que gostaria que falasse por si?" É uma pergunta muito importante para fazer às pessoas, porque dar às pessoas o controlo sobre quem será essa pessoa produz um resultado extraordinário. A segunda pergunta é: "Já falou com essa pessoa "sobre as coisas que são importantes para si "para termos uma ideia melhor sobre o que podemos fazer?" Portanto, esta é a ideia pequena.

A ideia grande é mais política, acho eu. Acho que temos de entrar nisto. Sugeri que fizéssemos o movimento "Ocupar a Morte" (Risos) A minha mulher disse-me: "Sim, claro, fazemos sala no cemitério. "Sim, sim. Claro." Isso não chegou mesmo a acontecer mas eu estava muito chocado com isto. Sabem, sou um "hippie" a envelhecer. Acho que já não me pareço com um hippie, mas, nos anos 80, dois dos meus filhos nasceram em casa, quando os partos em casa estavam na moda e nós, os "baby boomers", estamos habituados a tomar conta da situação. Portanto, se substituírem todas as palavras sobre o parto, eu gosto de "Paz , Amor e Morte Natural" como opção. Acho mesmo que temos de ser políticos e começar a recuperar este processo do modelo "medicalizado" em que se tornou.

Isto soa como um apelo à eutanásia. Quero deixar isto totalmente claro para todos, detesto a eutanásia, acho que é um circo. Acho que a eutanásia não interessa. O que eu penso é que, em lugares como Oregon, onde é possível o suicídio medicamente assistido, tomando uma dose letal de qualquer coisa, apenas 0,5 % das pessoas o fazem. Estou mais interessado no que acontece aos 99,5 % que não fazem isso. Acho que a maior parte das pessoas não quer morrer mas acho que a maior parte das pessoas quer ter algum controlo sobre como é que vão morrer. Portanto, sou um opositor da eutanásia mas acho que temos de devolver às pessoas algum controlo. Isto priva a eutanásia da sua bomba de oxigénio. Acho que devíamos tentar parar o desejo de eutanásia

em vez de torná-la legal ou ilegal ou de nos preocuparmos com ela.

Esta é uma citação de Dama Cicely Saunders, que conheci quando eu era estudante de medicina. Ela fundou o movimento dos hospícios. E ela disse: "Tu és importante porque és quem és, "e és importante até ao último momento da tua vida." Eu acredito firmemente que é essa a mensagem com que temos de avançar. Obrigado. (Aplausos)