Paul Shapiro
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Há menos de 200 anos era com isto que os americanos iluminavam as suas casas. Durante séculos, arpões como estes foram espetados no dorso de milhares de baleias, enchendo de vermelho os oceanos azuis quando estes animais magníficos eram chacinados. O problema principal para estas baleias era que o corpo delas continha grande quantidade de óleo, perfeito para arder em candeias, o que gerou um império de caça maciça às baleias. Nenhum país era tão obcecado pela caça à baleia como os EUA. New Bedford tornou-se conhecida como "a cidade que ilumina o mundo". Fizeram-se enormes fortunas com a caça às baleias nos mares. Por todo o planeta, este tipo de arpões tornou-se sinónimo da iluminação das casas. Os baleeiros eram tão implacavelmente eficazes que infligiram uma enorme razia na população das baleias do mundo inteiro, fazendo com que muita gente nesta indústria se preocupasse com a sustentabilidade dos seus esforços. Até já havia ambientalistas que apelaram, nos jornais do século XIX para "Salvar as baleias!" Hoje, nos EUA, incluindo New Bedford, ainda há um grande número de barcos usados para disparar contra as baleias. Embora agora, os disparos sejam feitos com câmaras. Se há um sítio onde ainda podemos encontrar um arpão como este é num museu. Hoje, somos líderes não na matança de baleias, mas na observação de baleias. Como é que uma indústria tão poderosa passa de píncaros tão altos para uma irrelevância total? Acontece que, na mesma altura em que Abraham Lincoln tentava salvar a União, Abraham Gesner estava a salvar as baleias. Gesner era um ambientalista em cruzada? Não. Era um geólogo canadiano que tinha patenteado e estava em vias de comercializar o querosene, oferecendo uma forma de iluminar as casas de modo mais eficaz. O querosene era uma alternativa tão superior ao óleo de baleia que, 30 anos depois de Gesner o ter patenteado, tinha dizimado a frota de baleeiros dos EUA, que diminuiu em 95%, tornando os arpões como este meras relíquias duma era passada. Que lições podemos tirar hoje desta história? Bastantes. Hoje, um dos nossos grandes problemas de sustentabilidade está, mais uma vez, relacionado com a nossa exploração de animais. Embora, desta vez, o problema não seja por termos poucas baleias, mas porque criamos demasiados frangos, porcos e vacas. A criação de animais para a alimentação está no centro de muitos dos males do nosso ambiente que infestam o nosso mundo atual. As Nações Unidas informam que a agricultura para animais contribui com mais gases com efeito de estufa do que todos os carros, camiões, barcos e aviões, em conjunto. É a causa principal da destruição da floresta tropical, da degradação do ar, da água e do solo. E, para além disso tudo, é apenas uma forma muito pouco eficaz de produzir alimentos. Para colocar o problema em perspetiva, imaginem percorrer o corredor da criação, num supermercado local. Imaginem um frango que estão a pensar comprar e, mesmo ao lado, está um garrafão de água de 5 litros. Tirem a rolha ao garrafão e despejem toda a água no chão. Façam isso mais mil vezes. É a quantidade de água necessária para pôr um único frango na prateleira. É uma quantidade muito maior do que a necessária para produzir uma quantidade de proteínas com base em plantas. Por outras palavras, pouparemos mais água se deixarmos de fazer um jantar de frango para a família do que se deixarmos de tomar um duche durante seis meses. O problema é tão grave que a recomendação número um do Centro de Diversidade Biológica para dar hipótese de sobrevivência à vida selvagem, no nosso planeta, é um slogan com apenas três palavras. Dizem: "Comam menos carne". O problema é que a maior parte do mundo não obedece a este conselho. O consumo de carne está a aumentar, a nível mundial. Países como a China, a Índia e o Brasil desejam comer mais carne, tal como os norte-americanos — uma dieta baseada em carne, ovos e laticínios. Com a previsão do aumento da população em milhares de milhões até 2050, a situação apresenta-se catastrófica. O nosso planeta não é suficientemente grande para sustentar mais milhares de milhões de consumidores com uma dieta baseada na carne. A alteração climática será demasiada, a desflorestação demasiado grave, o uso da água exagerado e o peso dos animais domésticos também é uma grande preocupação. Mas, e se pudéssemos ter carne e comê-la? E se houvesse uma inovação tecnológica — tal como o querosene nos permitiu iluminar as nossas casas sem chacinar as baleias — que permitisse que as pessoas comessem a carne de que tantos gostam sem termos de criar e abater animais? Acontece que alguns empresários estão a fazer exatamente isso. Hoje assistimos ao início duma revolução incrível, uma revolução de carne limpa. Se o problema é haver demasiada criação de animais, a solução pode estar nos próprios animais, no interior das suas células. Para alimentar uma população em crescimento, em vez de aumentarmos a agricultura para animais, estamos a começar com agricultura pequena e celular, o processo de cultivar alimentos como carne de animais e outros produtos animais, diretamente a partir de células, em vez do abate. Atenção, isto não é uma alternativa nem um substituto para a carne. Estamos a falar de carne de animais, mas produzida sem o animal. Pode parecer ficção científica, mas, de facto, é ciência. Fazendo uma simples biópsia a uma galinha, com o tamanho de uma semente de sésamo, podemos fazer crescer carne de galinha a partir dessas células e comê-las em frente das galinhas enquanto elas debicam no terreiro aos nossos pés, vivas e de boa saúde. (Risos) Uma "start-up" que trabalha nesta área, a Hampton Creek, já fez isso. Outros empresários, como os de uma "start-up" chamada Geltor, já estão a abandonar a criação a partir de células animais e estão a fazer o cultivo a partir das moléculas, de gelatina real, couro real, leite real e clara de ovo real que são idênticas aos produtos que conhecemos, exceto que nunca envolveram um animal vivo. Aplicando o que até agora têm sido tecnologias médicas para cultivar produtos agrícolas para animais, estes empresários estão a proporcionar-nos aquilo a que o Dr. Uma Valeti, CEO da "start-up" de carne limpa "Memphis Meats", chama a "segunda domesticação". Na primeira domesticação, há milhares de anos, os nossos antepassados começaram a criar animais selvagens e sementes de plantas, exercendo maior controlo sobre como produziam os alimentos. Hoje, estamos a assumir o controlo a nível celular. Enquanto os nossos antepassados transformaram animais selvagens em gado, hoje estamos a começar a domesticar as células desses animais. A partir duma simples célula duma vaca, podemos produzir carne suficiente para alimentar uma aldeia inteira. A história desta segunda domesticação não passa de... domesticação. Para perceber melhor esta revolução de carne limpa, viajei pelo mundo para ver e saborear, pessoalmente, o que os inovadores e seus investidores andam a cozinhar. As ideias deles nem sequer são novas. Em 1931, Winston Churchill profetizou que apareceriam estes inovadores. Num ensaio que previa como seria o mundo daí a 50 anos, o futuro primeiro-ministro britânico sugeria que iríamos abandonar o absurdo de criar animais inteiros quando podíamos cultivar apenas as partes que desejamos. Claro, o tempo que previu pode estar errado nalgumas décadas mas a revolução que ele previu está em marcha, com "start-ups" — algumas dlas apoiadas por investidores multimilionários, como Bill Gates e Richard Branson e até gigantes da carne, como Cargill — que se apressam a transformar a visão de Churchill em realidade. Se o conseguirem, os resultados serão espantosos, porque vão ser produzidos produtos animais reais sem provocar tantas emissões de gases com efeitos de estufa, usando menos terras e menos água. O termo "carne limpa" foi popularizado pelo Instituto Good Food, sem fins lucrativos, e por boas razões. Tal como a energia limpa, a carne limpa é mais limpa para o planeta. Mas também é, literalmente, mais limpa. Pensem bem. Hoje, avisam-nos para olharmos para a carne crua na nossa cozinha quase como lixo tóxico. Porquê? Porque está cheia de fezes, de E.coli, salmonelas, bactérias. São agentes patogénicos intestinais que podem fazer-nos adoecer se não cozinharmos essa porcaria na nossa carne. (Risos) Mas quando cultivamos carne limpa, não precisamos de intestinos. Apenas criamos o músculo que pretendemos. A ausência destas bactérias patogénicas não só a tornam mais segura como alimento mas também significa que a carne limpa se degrada a um ritmo muito mais lento do que a carne convencional. Estas empresas estão a fomentar uma revolução alimentar o que motiva o entusiasmo de muitos especialistas da segurança alimentar. Eu sei que devo dizer que a carne limpa fornecerá todas as boas qualidades da carne excluindo muitas das más. Mas há uma série de outras questões, como estas. As pessoas irão comer isso? Ou seja, que sabor terão? Tenho orgulho em dizer que talvez tenha comido uma maior variedade de produtos animais limpos do que qualquer pessoa do planeta. A primeira vez que comi carne limpa foi em 2014. Nessa altura, havia mais homens que tinham ido para o espaço do que os que tinham comido carne limpa, criada fora de um animal. O meu anfitrião, Andras Forgacs da "start-up" Modern Meadow, naquela altura, estava a cultivar uma coisa a que chamava bitoques. Pensem nisso como batatas fritas, mas feitas de carne de vaca. Depois disso, ele concentrou os seus esforços apenas em couro, mas, naquela altura, Andras tirava células duma vaca e cultivava esses bitoques no laboratório, grelhava-os e desidratava-os, dando-lhes o aspeto de pequenos pedaços de carne seca. Surpreendeu-me, oferecendo-me generosamente uma amostra de um dos seus bitoques. Claro que eu aceitei. Não sabia bem o que iria encontrar, mas quando pus um pouco de carne na língua, cresceu-me água na boca. Mastiguei-a, disse-lhe que gostava e tive de reconhecer que me apetecia mais. Desde então, provei todo o tipo de produtos limpos de animais, de carne de vaca, de pato, de peixes, de fígado e até de iogurte. Percebo o que pode atravessar a vossa cabeça ao ouvir esta palestra. Podem estar a pensar: "Ok, Paul, tudo bem, "talvez seja melhor para o planeta, seja mais seguro... "Mas, vamos lá, "Mas criar carne de animais fora do corpo dos animais? "Isso não é antinatural?" Isto pode ser uma boa altura para pararmos e considerarmos, por instantes, quão naturais são os nossos atuais métodos de produção de carne. Olhemos para os frangos, como exemplo. Quase todos os frangos que se comem hoje nos EUA, provêm de aves que definham em aviários onde vivem das suas fezes, nunca sentem o sol na cabeça, nunca põem os pés num terreiro, são injetadas com drogas, como antibióticos, foram geneticamente selecionadas para crescerem muito e depressa de tal modo que muitas delas só conseguem dar uns passos antes de caírem sob o seu peso antinatural. Quando, por fim, são abatidas, digamos que vocês preferem nem saber. Quando consideramos como são antinaturais, insustentáveis e desumanos os nossos atuais métodos de produção de carne, a carne limpa, de repente, parece ser a opção naturalmente preferível. De certa forma, faz-nos lembrar a indústria do gelo natural do passado. No século XIX, quando as baleias andavam a ser arpoadas, rebocavam-se nos lagos do norte enormes blocos de gelo natural que eram enviados para todo o mundo para climas mais quentes, onde os consumidores não tinham gelo. Quando chega a refrigeração industrial, de súbito, temos uma forma de produzir gelo muito mais eficaz. Bastava arrefecer a água local mesmo em frente do nariz. A indústria do gelo natural ficou lívida com esta inovação tecnológica, uniu-se contra o chamado gelo artificial, avisando os consumidores de que usar este gelo artificial era uma coisa antinatural e porventura prejudicial. A ironia, naquela época, é que o gelo artificial era muito mais seguro porque a água era fervida ou filtrada, antes de ser congelada enquanto o gelo natural era recolhido em lagos poluídos por causa da revolução industrial, dos cavalos que defecavam nesses mesmos lagos, de onde estávamos a extrair essa água. Hoje, quase todos nós temos em casa aparelhos que fabricam gelo artificial — chamamos-lhe congeladores. Não pensamos que há nada de antinatural nisso. Provavelmente, até pensamos não poder viver sem ele. Hoje, todos temos congeladores em casa mas ainda não temos acesso a carne limpa no mercado comercial. Mas isso vai mudar e vai mudar dentro de poucos anos, não são décadas. Quando pensamos nas mudanças que podem trazer à nossa vida. começamos a pensar: Como é que isso pode mudar a forma como vivemos? No entretanto, temos de pensar nisso. Ainda não temos carne limpa, mas temos muitas outras alternativas que estão disponíveis. Por exemplo, há muitas carnes com base em plantas, muitas das quais têm o sabor e o aspeto do que se chama "a coisa real" Adoro esses produtos, como-os e espero que vocês também os comam. Espero que esse mercado continue a crescer. Mas para as pessoas que confessam que são fanáticas da carne animal, será que a carne limpa se tornará em breve uma solução sem causar tanto prejuízo no processo? Tal como precisamos de energia limpa para competir com os combustíveis fósseis, a carne limpa pode tornar-se uma concorrente aos aviários. Sim, devemos mudar para uma dieta baseada sobretudo em plantas. Comer menos carne é uma forma estupenda de proteger o nosso planeta e de proteger a nossa saúde. Mas tal como precisamos de diferentes tipos de energia limpa

— eólica, solar, geotérmica e outras — tal como a carne com base em plantas, a carne limpa é uma alternativa promissora aos aviários que merece o nosso apoio. Porque a revolução que estas "start-ups" de carne limpa estão a preparar, em breve podemos provar um sabor daquele futuro que Winston Churchill visionou. Será possível que, nesse futuro, uma quinta-fábrica possa parecer-nos tão arcaica como um baleeiro no presente? Poderá uma faca do matadouro parecer um dia como uma relíquia dum passado tecnologicamente primitivo tal como o arpão das baleias nos parece hoje? Penso que não é difícil imaginar, Quanto a mim, estou ansioso para saborear esse futuro mais limpo, mais verde, mais sustentável, mais humano com todos vocês. Obrigado. (Aplausos)