Maryn McKenna
1,760,631 views • 16:59

Este é o meu tio-avô, irmão mais novo do pai do meu pai. Seu nome era Joe McKenna. Ele era um jovem marido, jogador de basquete semiprofissional e bombeiro em Nova Iorque. A história familiar diz que ele adorava ser bombeiro, e então, em 1938, em um de seus dias de folga, ele optou por ir ao quartel. Para ser útil naquele dia, ele começou a polir todo o bronze, as grades do caminhão, os encaixes nas paredes, e um dos bocais de mangueiras, um pedaço de metal gigante, pesado, tombou de uma prateleira e o acertou. Poucos dias depois, seu ombro começou a doer. Dois dias depois disso, ele teve febre. A febre aumentou e aumentou. Sua esposa estava cuidando dele, mas nada que ela fez adiantou, e quando ele chamou o médico local, ele também não conseguiu ajudar em nada.

Eles chamaram um táxi e levaram-no para o hospital. Imediatamente as enfermeiras viram que ele tinha uma infecção, que naquela época eles chamavam de "envenenamento do sangue", e, embora eles não devam ter dito isso, de cara eles sabiam que não havia nada que pudessem fazer.

Eles não podiam fazer nada, porque as coisas que usamos agora para curar infecções ainda não existiam. O primeiro teste de penicilina, o primeiro antibiótico, veio três anos depois. Pessoas que tiveram infecções, ou se recuperavam, se tivessem sorte, ou morriam. Meu tio-avô não teve sorte. Ele ficou no hospital por uma semana, tremendo com calafrios, desidratado e delirante, afundando em um coma, enquanto seus órgãos falhavam. Sua condição tornou-se tão desesperadora que as pessoas de seu quartel fizeram fila para dar-lhe transfusões na expectativa de diluir a infecção de seu sangue.

Nada funcionou. Ele morreu. Ele tinha 30 anos.

Se você olhar para trás na história, a maioria das pessoas morreu como ele. A maioria não morreu de câncer ou doença cardíaca, as doenças de estilo de vida que hoje nos afligem no Ocidente. Eles não morreram dessas doenças porque não viveram tempo suficiente para desenvolvê-las. Eles morreram por ferimentos — por serem chifrados por um touro, baleados em campo de batalha, esmagados em uma das novas fábricas da Revolução Industrial — e na maior parte do tempo por infecção, que terminava o que aquelas lesões começaram.

Tudo isso mudou quando os antibióticos chegaram. De repente, infecções que um dia foram uma sentença de morte tornaram-se algo de que você se recuperava em dias. Parecia um milagre, e desde então, vivemos na época de ouro dos remédios milagrosos.

E agora, estamos chegando ao final dela. Meu tio-avô morreu nos últimos dias da era pré-antibiótica. Estamos hoje no limiar da era pós-antibiótica, nos primeiros dias de uma era em que simples infecções, tais como a que Joe teve, vão matar as pessoas mais uma vez.

De fato, elas já estão matando. As infecções estão matando novamente por causa do fenômeno chamado de resistência aos antibióticos. Resumidamente, funciona assim. As bactérias competem entre si por recursos, por comida, fabricando compostos letais que lançam umas contra outras. Outras bactérias, para se proteger, desenvolvem defesas contra aquele ataque químico. Quando fizemos antibióticos pela primeira vez, nós pegamos esses compostos e fizemos nossas próprias versões deles, e as bactérias responderam ao ataque do jeito que sempre fizeram.

Eis o que aconteceu a seguir: a penicilina foi distribuída em 1943, e a resistência generalizada à penicilina chegou em 1945. A vancomicina chegou em 1972; a resistência à ela, em 1988. O Imipenem, em 1985, e a resistência a ele, em 1998. A Daptomicina, uma das drogas mais recentes, em 2003, e a resistência à ela, apenas um ano depois, em 2004.

Por 70 anos, brincamos de cão e gato — nossa droga e a resistência à ela, e então, uma outra droga, e então, a resistência de novo — e agora o jogo está terminando. As bactérias desenvolvem resistência tão rápido, que as empresas farmacêuticas decidiram que fazer antibióticos não é mais vantajoso. Por isso, há infecções em todo o mundo para as quais, dos mais de 100 antibióticos disponíveis no mercado, dois remédios podem funcionar, com efeitos colaterais, ou um remédio, ou nenhum.

O cenário é o seguinte. Em 2000, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças - CPD, identificou um único caso em um hospital na Carolina do Norte, de uma infecção resistente a todos, menos dois remédios. Hoje, aquela infecção conhecida como KPC, se espalhou para todos os estados, menos três, e para a América do Sul, Europa e Oriente Médio. Em 2008, médicos na Suécia diagnosticaram um indiano com uma infecção diferente, resistentes a todos, menos a um remédio naquela época. O gene que cria esta resistência, conhecido como NDM, já se espalhou da Índia para a China, Ásia, África, Europa, Canadá e os Estados Unidos.

Seria natural esperar que estas infecções fossem casos extraordinários, mas de fato, nos Estados Unidos e na Europa, 50 mil pessoas por ano morrem de infecções para as quais não há medicamentos que ajudem. Um projeto bancado pelo governo britânico conhecido como "Estudo sobre a Resistência Antimicrobiana" estima que o número de vítimas no mundo agora é de 700 mil ao ano.

Isso é um monte de mortes, e ainda assim, há uma boa chance de que você não se sinta em risco, de que você imagine que essas pessoas são pacientes hospitalares, em unidades de terapia intensiva ou os residentes dos lares de idosos, perto do fim de suas vidas, pessoas cujas infecções estão distantes de nós, em situações com que não nos identificamos.

O que você não pensou, nenhum de nós pensou, é que os antibióticos ajudam em quase tudo da vida moderna.

Se perdêssemos os antibióticos, eis o que também perderíamos: primeiro, qualquer proteção para pessoas com sistemas imunitários enfraquecidos — pacientes de câncer, AIDS, receptores de transplantes, bebês prematuros.

Depois, qualquer tratamento que instala objetos estranhos no corpo: "stents" para o AVC, bombas para a diabetes, diálise, substituição de articulações. Quantos atletas "baby boomers", precisaram de novos quadris e joelhos? Um estudo recente estima que, sem antibióticos, uma em cada seis pessoas morreria.

Nós provavelmente perderíamos a cirurgia. Muitas operações são precedidas de doses profiláticas de antibióticos. Sem essa proteção, não poderíamos mais abrir as áreas internas do corpo. Então, nada de operações cardíacas, nada de biópsias da próstata, nada de cesarianas. Teríamos que aprender a temer infecções que agora parecem pequenas. Infecções na garganta costumam causar insuficiência cardíaca. Infecções de pele levam a amputações. Dar à luz já matou, nos hospitais mais limpos, quase uma mulher em cada 100. A pneumonia matou três crianças em cada 10.

Mais que qualquer coisa, perderíamos a confiança na forma como vivemos nossas vidas hoje. Se você soubesse que qualquer machucado poderia matá-lo, você dirigiria uma motocicleta? Desceria numa pista de esqui? Subiria uma escada para pendurar as luzes de Natal? Deixaria seu filho jogar futebol? Afinal, a primeira pessoa a receber penicilina, um policial britânico chamado Albert Alexander, que foi tão devastado por uma infecção que pus escorria do seu couro cabeludo e os médicos tiveram que tirar-lhe um olho, foi infectado ao fazer algo muito simples. Ele foi no jardim e arranhou o rosto em um espinho. O projeto britânico que eu mencionei, que estima o número mundial de vítimas em 700 mil mortes por ano, também prevê que se não controlarmos isso até 2050, em breve, serão 10 milhões de mortes por ano no mundo.

Como chegamos a esse ponto onde o que temos que visualizar são esses números terríveis? A resposta difícil é que nós fizemos isso a nós mesmos. A resistência é um processo biológico inevitável, mas nós carregamos a responsabilidade de acelerá-lo. Fizemos isso ao desperdiçarmos os antibióticos com uma negligência que agora parece chocante. A penicilina era vendida no balcão até a década de 1950. Em boa parte do mundo em desenvolvimento muitos antibióticos ainda são. Nos Estados Unidos, 50% dos antibióticos administrados em hospitais são desnecessários. Quarenta e cinco por cento das prescrições dos consultórios médicos são para condições que os antibióticos não podem ajudar. E isso é só na área da saúde. A maioria dos animais que comemos recebe antibióticos todos os dias, não para curar doenças, mas para engordá-los e protegê-los contra as condições da "fábrica-fazenda" onde são criados. Nos Estados Unidos, possivelmente 80% dos antibióticos vendidos todos os anos vão para os animais, não para os humanos, criando bactérias resistentes que saem da fazenda e vão para a água, a poeira, para a carne que os animais se tornam. A aquicultura também depende de antibióticos, especialmente na Ásia, a fruticultura baseia-se em antibióticos para proteger maçãs, peras e cítricos contra doenças. E já que as bactérias podem passar seu DNA umas para as outras como um viajante que entrega a mala de viagem em um aeroporto, uma vez que incentivamos essa resistência, não há como saber onde ela vai se espalhar.

Isto era previsível. De fato, foi previsto por Alexander Fleming, o homem que descobriu a penicilina. Ele recebeu o Prêmio Nobel em 1945, em reconhecimento, e logo após, em uma entrevista, eis o que ele disse:

"A pessoa imprudente que brinca com tratamento com penicilina é moralmente responsável pela morte de um homem que sucumbe à infecção com um organismo resistente à penicilina". E acrescentou: "Espero que este mal possa ser evitado."

Podemos evitá-lo? Há empresas trabalhando em novos antibióticos, coisas que as superbactérias nunca viram antes. Precisamos muito dessas novas drogas, e precisamos de incentivos: subvenções de descoberta, patentes prolongadas, prêmios, para atrair outras empresas a fazerem antibióticos de novo.

Mas isso provavelmente não será suficiente. Eis o porquê: a evolução sempre vence. A cada 20 minutos nasce uma nova geração de bactérias. A química farmacêutica leva 10 anos para conseguir uma nova droga. Cada vez que usamos um antibiótico, damos às bactérias bilhões de chances para quebrar os códigos das defesas que construímos. Nunca houve um remédio do qual elas não conseguissem se defender.

Esta é uma guerra assimétrica, mas podemos mudar o resultado. Podemos construir sistemas de informações que nos digam automática e especificamente como os antibióticos estão sendo usados. Construir revisores em sistemas de venda de remédios, de modo que cada prescrição receba uma segunda olhada. Poderíamos exigir que a agricultura desista do uso de antibióticos. Poderíamos construir sistemas de vigilância para nos dizer onde a resistência surgirá em seguida.

Essas são as soluções técnicas. Mas elas provavelmente não são suficientes, a menos que ajudemos. A resistência aos antibióticos é um hábito. Todos sabemos como é difícil mudar um hábito. Mas, como sociedade, nós fizemos isso no passado. As pessoas costumavam jogar lixo nas ruas, não usavam cinto de segurança, costumavam fumar no interior dos edifícios públicos. Nós não fazemos mais essas coisas. Nós não entulhamos o ambiente, ou arriscamos acidentes devastadores, ou expomos os outros à possibilidade de câncer porque decidimos que essas coisas eram caras, destrutivas, não vantajosas. Nós mudamos as normas sociais. Poderíamos mudar normas sociais quanto ao uso de antibióticos também.

Sei que a escala de resistência a antibióticos parece esmagadora, mas se você já comprou uma lâmpada fluorescente porque estava preocupado com a mudança climática, ou leu o rótulo de uma caixa de biscoitos porque você pensa no desmatamento do azeite de dendê, você já sabe como é dar um pequeno passo para resolver um problema esmagador. Nós poderíamos tomar medidas como essas para o uso de antibióticos também. Poderíamos não receitar um antibiótico se não tivermos certeza de que é o certo. Poderíamos parar de insistir em receitas para a infecção de ouvido de nossos filhos antes de termos certeza da causa. Poderíamos perguntar a cada restaurante, a cada supermercado, de onde a carne deles vem. Poderíamos prometer uns aos outros nunca mais comprar frango, ou camarão ou frutas criados com a rotina de antibióticos, e, se fizéssemos essas coisas, poderíamos retardar a chegada do mundo pós-antibiótico.

Mas temos que fazer isso logo. A penicilina deu início à era do antibiótico em 1943. Em apenas 70 anos, conduzimos a nós mesmos à beira do desastre. Nós não teremos 70 anos para encontrar o nosso caminho de volta.

Muito obrigada.

(Aplausos)