Liv Boeree
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Sou jogadora profissional de pôquer e hoje quero falar sobre três coisas que o jogo me ensinou a respeito de tomadas de decisão que acho que se aplicam à vida diária.

A primeira delas é sobre a sorte. Como o pôquer, a vida também é um jogo de habilidade e sorte, e, quando se trata das coisas com que mais nos preocupamos: saúde, riqueza e relacionamentos, os resultados não dependem apenas da qualidade de nossa tomada de decisão, mas também dos lances da vida. Por exemplo, podemos ter plena consciência da saúde, mas ainda ter azar com algo como o câncer. Ou podemos fumar 20 cigarros por dia e viver até uma idade avançada. Esse tipo de ambiguidade pode dificultar para nós sabermos o quanto nossas estratégias, às vezes, são boas, principalmente quando estamos tendo muito sucesso.

Por exemplo, em 2010, ganhei um torneio muito grande de pôquer, conhecido como European Poker Tour. Como só vinha jogando em tempo integral há cerca de um ano, quando ganhei, presumi que eu devia ser genial. De fato, eu me considerava tão genial que não só fiquei um tanto preguiçosa para estudar o jogo como também passei a arriscar mais. Comecei a jogar nos maiores torneios que eu podia contra os melhores do mundo. Então, meu gráfico de lucros passou de uma coisa bonita para algo um pouco triste, com esta preocupante tendência de queda por um longo tempo, até que finalmente percebi que estava superestimando meu nível de competência, e me organizei melhor.

Isso me lembra o que temos visto no universo de moedas digitais, pelo menos em 2017, em que a única coisa que vem crescendo mais rápido que os próprios mercados é o número de "especialistas de investimentos seniores", que têm aparecido do nada. Não digo que não é possível ter uma vantagem estratégica, mas, ao mesmo tempo, é muito fácil sentir-se como um gênio quando se está num mercado que cresce tão rápido que até as piores estratégias estão lucrando. Assim, quando estamos tendo sucesso, é importante tirar um momento para nos perguntarmos quanto isso realmente se deve a nós, porque nossos egos adoram minimizar o fator sorte quando estamos ganhando.

A segunda coisa que o pôquer me ensinou foi a importância de quantificar meu pensamento. Quando estamos jogando não podemos ir na onda de: "Ah, eles devem estar blefando". Isso só vai nos fazer perder dinheiro, porque o pôquer é um jogo de probabilidades e precisão. Por isso, é preciso treinarmos a pensar em números. Então, agora, sempre que me pego pensando vagamente sobre algo muito importante como: "É pouco provável me esquecer do que vou falar na palestra do TED", agora tento estimar numericamente. [Esquece o que ia falar 25%]

(Risos)

Ajuda muito no planejamento. E quase tudo que poderia acontecer aqui hoje, ou em qualquer momento no futuro, também pode ser expresso como uma probabilidade.

(Risos)

Portanto, agora também tento falar em números. Se alguém me perguntar: "Ei, Liv, acha que vai conseguir aquilo hoje à noite?" em vez de apenas responder: "Sim, provavelmente", dou minha melhor estimativa, digamos, 60%. Porque, sei que parece um pouco estranho, mas acontece que, fiz uma pesquisa no Twitter sobre o que as pessoas entendem por "provavelmente", e estas foram as respostas. Enorme! De maneira aparente, é totalmente inútil para expressar qualquer informação real.

Então, se vocês se pegarem usando essas palavras vagas, como "provavelmente" ou "às vezes", tentem, em vez disso, usar números, porque, quando falamos em números, sabemos o que entra no cérebro da outra pessoa.

A terceira coisa que quero discutir hoje é a intuição. Com que frequência vocês veem estes "memes" inspiradores no "feed" de seu Facebook?

[Confie sempre em seu instinto e nunca duvide.]

São bons, não é mesmo? É adorável! Sim! "Confie em sua alma." Bem, são péssimos conselhos! Esses são alguns dos melhores jogadores de pôquer do mundo atualmente. Parecem pessoas que vivem apenas de sentimentos e intuições?

(Risos)

Olhem para eles! Obviamente, estão focados em análises lentas e cuidadosas, porque o jogo superou os dias em que só a sabedoria das ruas e a leitura das pessoas podiam nos levar ao topo. E isso porque nossas intuições não são tão perfeitas quanto gostaríamos de acreditar. Seria ótimo, sempre que estivéssemos numa fase ruim, aparecer para nós uma resposta de uma fonte mágica de inspiração. Mas, na realidade, nosso instinto é extremamente vulnerável a todos os tipos de preconceitos e doces ilusões.

Então, para que serve nosso instinto? Bem, todos os estudos que li concluem que é mais adequado para as coisas do dia a dia nas quais temos muita experiência, como saber que nosso amigo está bravo conosco antes de lhe dizer qualquer coisa, ou conseguir estacionar o carro numa vaga apertada. Mas, quando se trata de coisas muito grandes, como qual será o rumo de nossa carreira ou com quem devemos nos casar, por que devemos assumir que nossas intuições estão mais bem calibradas para isso do que uma análise lenta e adequada? Não há quaisquer dados em que se baseiem.

Então, minha terceira lição é: se não devemos ignorar nossas intuições, também não devemos lhes conceder muitos privilégios. Gostaria de resumir essas três lições de hoje com meus próprios memes, com uma espécie de lance de jogadora de pôquer.

"O sucesso é mais doce quando você o atinge em larga escala."

(Risos)

"Seu instinto é seu amigo, mas uma análise custo-benefício também é."

(Risos)

"O futuro é desconhecido, mas bem que você pode tentar avaliá-lo."

Obrigada.

(Vivas) (Aplausos)