Julie Lythcott-Haims
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Sabem, não me dediquei a ser especialista parental. Na verdade, não estou muito interessada nas competências parentais em si mesmas. Mas há um certo estilo de educação hoje em dia que, de certo modo, está a prejudicar as crianças, impedindo-as de desenvolver a sua personalidade. Há um certo estilo de educação, hoje em dia, que está a impedi-las.

O que estou a dizer é que nos preocupamos muito com os pais que não se envolvem na vida dos seus filhos, na sua educação e formação, e fazemos bem. Mas, no extremo oposto, há também muitos prejuízos quando os pais acham que o filho não será bem sucedido, a menos que os pais estejam sempre a protegê-lo, a vigiar cada acontecimento e a gerir todos os momentos, a guiá-lo para determinadas faculdades e carreiras.

Quando criamos crianças desta forma, — e digo "nós", porque Deus sabe que ao criar os meus dois adolescentes, também tive estas tendências — as crianças acabam por ter uma infância programada.

A infância programada tem este aspeto: mantemo-los sãos e salvos, e damos-lhes comida e água. Depois, queremo-los nas escolas certas, mas não só, nas classes certas das escolas certas, e obtenham os diplomas certos nas classes certas das escolas certas. Mas não só os diplomas, também as notas,

e não só diplomas e notas, mas distinções e prémios, o desporto, as atividades, a liderança. Dizemos aos filhos: "Não adiram a um clube, iniciem um clube, "porque as faculdades gostam disso. "E não se esqueçam do serviço comunitário". Mostrem à faculdade que se preocupam com os outros.

(Risos)

Tudo isto é feito na intenção de um alto grau de perfeição. Esperamos que os nossos filhos atinjam um nível de perfeição que nunca nos exigiram a nós. E como exigimos tanto, pensamos: "Evidentemente, nós os pais temos que discutir com os professores, "com o diretor, com os treinadores e com os árbitros "e agir como guardiões dos filhos, "como assistentes pessoais, "como secretários".

Por isso, passamos imenso tempo com os nossos preciosos filhos, incitando-os, adulando-os, ajudando-os, negociando, insistindo se necessário para garantir que eles não deitem tudo a perder, não fechem nenhuma porta, não arruínem o seu futuro, na esperança de que sejam admitidos num pequeno leque de faculdades que rejeitam quase todas as candidaturas.

E o que significa ser uma criança com esta infância programada? Primeiro, não há tempo para a brincadeira. Não há espaço durante as tardes, porque achamos que tudo tem que ser enriquecedor. É como se cada trabalho de casa, cada teste, cada atividade, é um momento decisivo para o futuro que lhes planeámos. Permitimos que eles não ajudem nos trabalhos domésticos, até permitimos que eles não durmam o suficiente, desde que estejam a cumprir as tarefas do programa. Na infância programada, dizemos que só queremos que eles sejam felizes, mas quando regressam da escola, o que lhes perguntamos quase sempre em primeiro lugar é sobre os trabalhos de casa e as notas. Eles veem na nossa cara que a nossa aprovação, o nosso amor, o seu próprio valor, depende das notas altas. Depois, andamos à volta deles e cacarejamos elogios, como um treinador num concurso canino...

(Risos)

... convencendo-os a saltar um pouco mais alto, a subir um pouco mais, dia após dia, após dia. Quando eles chegam ao liceu, não dizem: "O que é que estou interessado em estudar? "Que atividade vou fazer?" Vão a conselheiros e dizem: "O que é que tenho que fazer para entrar na faculdade certa?" Depois, quando começam a aparecer as notas, no liceu, e eles começam a ter "bom menos" ou — Deus os livre — "suficiente", enviam mensagens frenéticas aos amigos e dizem: "Já alguém entrou na faculdade certa com estas notas?"

Os nossos filhos, independentemente de onde acabam no final do liceu, andam esbaforidos. Andam irritadiços. Andam um pouco esgotados. Estão um pouco envelhecidos para a sua idade, desejando que os adultos tivessem dito: "Trabalhaste o suficiente, "esse esforço que fizeste durante a infância é suficiente". Agora estão a murchar, sob uma grande ansiedade e depressão e alguns deles começam a pensar se aquela vida terá mesmo valido a pena.

Nós, os pais, temos toda a certeza de que vale a pena. Parecemos agir como se pensássemos que não terão futuro se não entrarem numa das poucas faculdades ou carreiras que achamos que devem ter.

Ou talvez apenas tenhamos medo de que não venham a ter um futuro de que nos possamos gabar aos nossos amigos e com autocolantes na traseira do automóvel. (Risos)

(Aplausos)

Mas se olharmos para o que fizemos, se tivermos a coragem de olhar para isso, veremos que os nossos filhos não só pensam que o seu valor depende dos diplomas e notas, mas que, quando vivemos sempre dentro dos seus preciosos espíritos em desenvolvimento, como a nossa versão do filme "Queres ser John Malkovich?" estamos a enviar às crianças a mensagem: "Olha, acho que não consegues fazer isso sem mim". Portanto, com a nossa super ajuda, com a nossa super proteção, e super direção, de mão dada, privamos os filhos de desenvolverem a capacidade de realização o que é um princípio fundamental da psique humana, muito mais importante do que a autoestima que ganham sempre que os aplaudimos. A autoeficácia constrói-se quando vemos que as nossas ações produzem resultados e não...

(Aplausos)

... e não com as ações dos pais em nosso nome, mas quando as nossas ações produzem resultados. Em palavras simples, se quisermos que os nossos filhos desenvolvam autoeficácia — e têm que fazê-lo — eles têm que fazer muito mais na área do pensar, planear, decidir, fazer, ter esperanças, sobreviver, tentar e errar, sonhar e ter experiências da vida por si mesmos.

Então, será que estou a dizer que todos os miúdos são bons trabalhadores e estão motivados e não precisam da intervenção dos pais ou do seu interesse pela vida deles, e devemos afastar-nos e deixar andar? Bolas, não.

(Risos)

Não estou a dizer nada disso. Estou a dizer que, quando tratamos diplomas e notas, distinções e prémios como o objetivo da infância, no cumprimento duma possível admissão num pequeno leque de faculdades, ou da entrada num pequeno número de carreiras, isso é uma definição demasiado estreita de êxito para os nossos filhos. Apesar de podermos ajudá-los a alcançar alguns ganhos a curto prazo, com esta super ajuda — como obterem um diploma melhor, se os ajudarmos nos trabalhos de casa, ou virem a ter um maior currículo infantil quando os ajudamos — estou a dizer que tudo isso tem um alto preço a longo prazo. para o seu sentido de si mesmos. O que eu estou a dizer é que devemos preocupar-nos menos com o conjunto específico de faculdades a que eles podem candidatar-se ou poderão entrar, e preocuparmo-nos muito mais que eles tenham os hábitos, a mentalidade, o conjunto de aptidões, o bem-estar, de terem êxito para onde quer que vão. O que eu estou a dizer é que os nossos filhos precisam de andar menos obcecados com diplomas e notas e muito mais interessados em que a infância lhes proporcione os alicerces do seu êxito edificado sobre coisas como o amor e as tarefas.

(Risos)

(Aplausos)

Eu disse tarefas? Disse tarefas? Disse, sim. Por esta razão. O maior estudo longitudinal sobre seres humanos, já feito, chama-se o Harvard Grant Study. Chegou à conclusão que o êxito profissional na vida, que é o que queremos para os nossos filhos, que o êxito profissional na vida, depende de ter feito tarefas em criança e quanto mais cedo, melhor. Uma mentalidade de "arregaçar as mangas" e "pôr as mãos na massa", uma mentalidade em que, se há trabalho desagradável que alguém tem que fazer, "posso ser eu", uma mentalidade que diga "Vou contribuir com o meu esforço para a melhoria de todos", que é o que nos faz avançar no local do trabalho. Todos nós sabemos isto. Vocês sabem isto.

(Aplausos)

Todos sabemos isto, contudo, na infância programada, dispensamos os nossos filhos de fazerem as tarefas domésticas, e depois eles acabam, enquanto jovens, no local do trabalho à espera de um programa, que não existe. Mais importante ainda, falta-lhes o impulso, o instinto para arregaçarem as mangas e pôr as mãos na massa olhar à roda e pensar: "Como posso ser útil para os colegas?" Como posso prever com alguma antecedência o que o meu patrão pode precisar?

Uma segunda conclusão muito importante do Harvard Grant Study dizia que a felicidade na vida depende do amor, não o amor ao trabalho, mas o amor dos seres humanos: do nosso cônjuge, do nosso sócio, dos nossos amigos, da nossa família. A infância precisa de ensinar aos nossos filhos como amar, e eles não podem amar os outros se não se amarem, não se amarão a si mesmos se não lhes oferecermos um amor incondicional.

(Aplausos)

Certo. Assim, em vez de andarmos obcecados com diplomas e notas, quando os nossos preciosos filhos regressam da escola, ou nós regressamos do trabalho, precisamos de fechar a tecnologia, guardar os telemóveis, olhá-los nos olhos e deixar que eles vejam a alegria que enche a nossa cara quando vemos o nosso filho pela primeira vez, ao fim de horas. Depois temos que dizer: "Como foi o teu dia? "De que é que gostaste hoje?" Quando a nossa filha adolescente disser: "Almoço", como fez a minha, e eu quero é que ela me fale do teste de matemática, não é do almoço, temos que nos interessar pelo almoço. Temos que dizer: "O que é que o almoço teve hoje de bom?" Eles precisam de saber que nos interessam, enquanto seres humanos, não por causa das suas médias.

Devem estar a pensar: "Tarefas e amor, "soa muito bem, mas por amor de Deus "as faculdades querem ver diplomas e notas altas, distinções e prémios". Mas eu vou dizer-vos: não é bem assim. As escolas de maior renome pedem isso aos adolescentes mas as boas notícias são estas. Ao contrário do que as classificações das faculdades nos querem fazer crer...

(Aplausos)

... não é preciso ir para uma dessas escolas de maior renome para sermos felizes e ter êxito na vida. Pessoas felizes e com êxito andaram em escolas públicas, em pequenas faculdades de que ninguém ouviu falar, em faculdades comunitárias, numa faculdade deste lado, e desistiram.

(Aplausos)

A prova está nesta sala, está nas nossas comunidades, essa é que é a verdade. E se pudermos abrir as vendas e estivermos dispostos a olhar para mais faculdades, talvez a eliminar o nosso ego da equação, talvez possamos aceitar e abraçar esta verdade e perceber que dificilmente será o fim do mundo, se os nossos filhos não entrarem numa dessas escolas de renome. Mais importante ainda, se a infância deles não tiver sido vivida segundo um programa tirânico, quando eles entrarem na faculdade, qualquer que ela seja, terão ido para lá por sua própria vontade, alimentados pelo seu próprio desejo, aptos e dispostos a progredir ali.

Tenho que confessar uma coisa. Tenho dois filhos que já referi, Sawyer e Avery. São adolescentes. Em tempos, penso que estava a tratar Sawyer e Avery como pequenas árvores bonsai...

(Risos)

... que ia cuidadosamente cortar e podar e modelar numa forma perfeita de um ser humano, que pudesse ser suficientemente perfeita para lhes garantir a entrada numa das faculdades mais seletivas. Mas acabei por perceber, depois de trabalhar com milhares de crianças de outras pessoas...

(Risos)

... e de criar dois filhos meus, que as crianças não são árvores bonsai. São flores silvestres de género e espécie desconhecidos...

(Risos)

... e o meu trabalho é proporcionar-lhes um ambiente nutritivo, para os fortalecer, através de tarefas, e amá-los para que eles possam amar outros e receberem amor e a faculdade, o mestrado, a carreira, isso é lá com eles. O meu trabalho não é torná-los em quem eu gostava que fossem, mas apoiá-los, para que se tornem nos seres gloriosos que irão ser.

Obrigada.

(Aplausos)