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Translated by Rafael Eufrasio
Reviewed by Marcia de Brito

0:11 Quero abordar a questão da compaixão. A compaixão tem muitas faces. Algumas são ferozes, outras cheias de ira; algumas são suaves; outras têm sabedoria. Uma frase que o Dalai Lama disse uma vez, ele disse que "O amor e a compaixão são necessidades. Não são artigos de luxo. Sem eles, a humanidade não pode sobreviver." E vou sugerir, que não é só a humanidade que não vai sobreviver, mas todas as espécies do planeta, como ouvimos hoje. São os grandes felinos, e é o plâncton.

0:50 Há duas semanas eu estava em Bangalore, na Índia. Tive o grande privilégio em uma instituição para pacientes terminais na periferia de Bangalore. E de manhã cedo, entrei na enfermaria. Naquela instituição, havia 31 homens e mulheres que estavam agonizantes. E me aproximei do leito de uma mulher idosa que estava respirando bem rápido, frágil, claramente na última fase, à beira da morte. Olhei bem seu rosto. Olhei bem o rosto de seu filho, sentado ao seu lado, e seu rosto estava dilacerado pela dor e confusão.

1:33 E me lembrei de uma frase do Mahabharata, o grande épico indiano: "Qual é a coisa mais assombrosa do mundo, Yudhisthira?" E Yudhisthira respondeu, "A coisa mais assombrosa do mundo é que ao redor de nós as pessoas podem estar morrendo e não percebemos que isso pode acontecer conosco." Olhei pro alto. Cuidando daquelas 31 pessoas morrendo estavam mulheres jovens de vilarejos próximos a Bangalore, Olhei bem o rosto de uma dessas mulheres, e vi em seu rosto a força que surge quando a compaixão natural está realmente presente. Observei suas mãos enquanto ela dava banho num homem velho.

2:37 Meu olhar se voltou para outra jovem que enxugava as lágrimas de outra pessoa agonizante. E isso me fez lembrar de algo que tinha acabado de presenciar. A cada ano, tenho o privilégio de sair em algumas missões pelo Himalaia e o planalto tibetano. E organizamos clínicas nestas regiões tão remotas onde não existe qualquer atendimento médico.

3:04 E no primeiro dia em Simikot em Humla, extremo oeste do Nepal, a região de maior pobreza do Nepal, um homem velho chegou segurando um monte de trapos. Ele entrou, e alguém lhe disse algo, e percebemos que ele era surdo, e olhamos o que havia nos trapos, e ali estava um par de olhos. Desenrolamos os trapos em volta de uma garotinha cujo corpo estava gravemente queimado. Novamente, os olhos e as mãos de Avalokiteshvara. Foram as mulheres jovens, as agentes de saúde, que limparam as feridas daquele bebê e fizeram curativos.

3:51 Conheço aquelas mãos e aqueles olhos; eles também me tocaram. Tocaram-me lá então. E têm me tocado ao longo dos meus 68 anos. Tocaram-me quando eu tinha 4 anos e perdi a visão e fiquei parcialmente paralizada. E minha família mandou vir uma mulher cuja mãe havia sido escrava para tomar conta de mim. E aquela mulher não tinha compaixão sentimental. Ela tinha uma força fenomenal. E foi esta força, eu creio, que se tornou o tipo de diretriz que tem sido a luz que guia minha vida.

4:29 Daí podemos perguntar: Do que é composta a compaixão? E existem várias facetas. Existe a compaixão referencial e não referencial. Mas primeiro, a compaixão é composta pela capacidade de ver com clareza o que há dentro da natureza do sofrimento. É a capacidade de realmente se manter forte e também de reconhecer que não estou separado deste sofrimento. Mas isto não basta, porque a compaixão, que ativa o córtex motor, significa que aspiramos, nós, de fato, apiramos a transformar o sofrimento. E se somos assim abençoados, nos envolvemos em atividades que tranformam o sofrimento. Mas a compaixão tem outro componente, e esse componente é realmente essencial. Esse componente é que não podemos nos apegar ao resultado.

5:25 Bem, eu trabalhei com pessoas morrendo por mais de 40 anos. Tive o privilégio de trabalhar no corredor da morte numa prisão de segurança máxima por 6 anos. E percebi tão claramente ao trazer minha própria experiência de vida, de trabalhar com pessoas morrendo, e treinar cuidadores, que qualquer apego ao resultado iria distorcer profundamente minha própria capacidade de estar plenamente presente à catástrofe por inteiro.

5:56 E quando trabalhei no sistema prisional, isto ficou claro para mim: que muitos de nós nesta sala, e quase todos os homens com quem trabalhei no corredor da morte, as sementes de sua própria compaixão nunca foram regadas. Na verdade essa compaixão é uma qualidade humana inerente. Está lá, dentro de cada ser humano. Mas as condições para que a compaixão seja ativada, seja despertada, são condições específicas Eu tinha essa condição, até certo ponto, pela minha própria doença na infância. Eve Ensler, a quem ouviremos mais tarde, teve essa condição ativada surpreendentemente para ela através de várias águas de sofrimento por que ela passou.

6:48 E o que é fascinante é que a compaixão tem inimigos, e esses inimigos são coisas como a pena, indignação moral, medo. E sabem, temos uma sociedade, um mundo, que está paralisado pelo medo. E nessa paralisia, é claro, nossa capacidade de ter compaixão também está paralisada. A própria palavra terror é global. O próprio sentimento de terror é global. Então nosso trabalho, de certo modo, é abordar este imago, este tipo de arquétipo que permeia a psique de todo o nosso globo.

7:34 Agora sabemos pela neurociência que a compaixão tem agumas qualidades bem extraordinárias. Por exemplo: Ao cultivar a compaixão, quando na presença do sofrimento, as pessoas sentem aquele sofrimento muito mais do que muitas outras pessoas. No entanto, elas retornam à linha de base bem mais rápido. A isso chamamos resiliência. Muitos de nós pensamos que a compaixão nos esgota, mas eu garanto a vocês que é algo que verdadeiramente nos anima.

8:09 Outra coisa sobre a compaixão é que ela realmente aumenta o que chamamos de integração neural. Ela conecta todas as partes do cérebro. Uma outra coisa, que foi descoberta por vários pesquisadores em Emory e em Davis, etc. é que a compaixão fortalece nosso sistema imunológico. Opa, nós vivemos num mundo muito nocivo. (Risos) A maioria de nós está encolhendo diante de venenos psico-sociais e físicos, das toxinas do nosso mundo. Mas a compaixão, a geração de compaixão, de fato mobiliza nossa imunidade.

8:52 Sabem, se a compaixão é tão boa para nós, eu tenho uma pergunta. Por que é que não treinamos nossas crianças na compaixão? (Aplauso) Se a compaixão é tão boa para nós, por que é que não treinamos nossos cuidadores na compaixão para que eles possam fazer o que devem fazer, que é transformar realmente o sofrimento? E se a compaixão é tão boa para nós, por que não votamos na compaixão? Por que não votamos em pessoas para nosso governo com base na compaixão? Para que possamos ter um mundo que se importe mais. No budismo, dizemos, "é preciso ter as costas fortes e a frente suave." É necessária uma força tremenda nas costas para se sustentar em meio às condições. E esta é a qualidade mental da equanimidade.

9:54 Mas também é preciso ter a frente suave — a capacidade de estar realmente aberto ao mundo como ele é, de ter o coração não defendido. E o arquétipo disso no budismo é Avalokiteshvara, Kuan-Yin. É um arquétipo feminino. aquela que percebe os gritos de sofrimento do mundo. Ela está de pé com 10 mil braços, e em cada mão, há um instrumento de liberação, e na palma de cada mão, estão olhos, e estes são olhos de sabedoria. Eu digo que, por milhares de anos, as mulheres têm vivido, têm exemplificado, encontrado na sua intimidade, o arquétipo de Avalokiteshvara, de Kuan-Yin, aquela que percebe os gritos de sofrimento do mundo.

10:53 As mulheres têm manifestado há milhares de anos a força que vem da compaixão, sem filtro ou mediação na percepção do sofrimento do modo como é. Elas têm infundido sociedades com bondade, e temos realmente sentido isso quando mulher após mulher esteve neste palco no último dia e meio. E elas concretizaram a compaixão pela ação direta. Jody Williams chamou isso de: É bom meditar. Sinto muito, você tem que fazer isso um pouquinho, Jody. Dá um passo atrás, dá um tempo pra sua mãe, ok?

11:35 (Risos)

11:37 Mas o outro lado da equação é que você tem sair da sua caverna. Você tem que entrar no mundo como Asanga o fêz, que estava olhando para perceber o Buda Maitreya depois de 12 anos sentado em sua caverna. Ele disse, "Fui." Ele vai descendo o caminho. Ele vê alguma coisa lá. Ele olha, é um cachorro, ele cai de joelhos. Ele vê que o cachorro tem uma grande ferida na perna. E a ferida está cheia de larvas. Ele põe a língua pra fora para tirar as larvas, sem feri-las. E naquele momento, o cão se tranformou no Buda de amor e bondade.

12:23 Eu acredito que mulheres e meninas hoje têm que ser poderosas parceiras dos homens — de seus pais, de seus filhos, de seus irmãos, dos bombeiros hidráulicos, construtores de estradas, de cuidadores, de médicos, de advogados, do nosso presidente, e de todos os seres. As mulheres nesta sala são flores de lótus num mar de fogo. Que possamos concretizar essa capacidade para mulheres de todo lugar.

12:54 Obrigada

12:56 (Aplauso)