Jennifer Pahlka
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Há uns dois anos atrás eu lancei uma iniciativa tentando convencer os melhores técnicos e designers a dedicar um ano inteiro para trabalhar em um ambiente que representa tudo aquilo que eles deveriam odiar; fizemos eles trabalharem para o governo. A iniciativa se chama ‘Code for America’, que é um pouco parecido com um Corpo da Paz para ‘geeks’ Selecionamos algumas pessoas todo os anos e elas têm que trabalhar com os governos das cidades. Em vez de os mandá-los para o Terceiro Mundo, nós os enviamos para os confins da Câmara Municipal. E lá eles criam ótimos aplicativos, trabalham com os funcionários da cidade. Mas o que estão fazendo, na realidade, é mostrar o que é possível com a tecnologia hoje.

Aqui está Al. Al é um hidrante de incêndio na cidade de Boston. Aqui parece que ele está procurando por um encontro, mas na verdade está procurando alguém com uma pá para quando fica coberto de neve, porque sabe que ele não é muito bom em combater incêndios quando está coberto com um metro de neve. Bom, como é que ele veio a procurar ajuda dessa maneira tão original? Tínhamos uma equipe em Boston no ano passado através da iniciativa ‘Code for America’. Eles estavam lá em fevereiro do ano passado e nevava muito. E perceberam que a prefeitura nunca escavava a neve desses hidrantes de incêndio. Mas um companheiro em particular, um cara chamado Erik Michaels-Ober, notou algo a mais: os cidadãos escavam a neve com pás nas entradas das suas moradias bem em frente à essas coisas. Então ele fez o que qualquer bom programador faria, ele criou um aplicativo.

É um pequeno aplicativo em que você pode adotar um hidrante. Então você concorda em escavá-lo quando neva. Se o faz, você pode dar um nome a ele, E ele chamou o primeiro de Al. E se não o faz, alguém pode roubá-lo de você. Então ele tem uma dinâmica interessante de um jogo. É um aplicativo pequeno e modesto. Provavelmente o menor dos 21 aplicativos que os companheiros criaram no ano passado. Mas faz algo que nenhuma outra tecnologia governamental faz. Está se espalhando de forma viral.

Tem um cara no departamento de TI da cidade de Honolulu que viu este aplicativo e percebeu que ele poderia usá-lo, não para neve, mas para pedir cidadãos que adotem sirenas de tsunami. É muito importante que essas sirenas funcionem, mas tem gente que rouba as baterias delas. Então ele está pedindo aos cidadãos que as verifiquem. E aí Seattle decidiu usar o aplicativo para organizar cidadãos para limpar ralos entupidos depois das tempestades. E Chicago acabou de o implantar e quer que as pessoas se inscrevam para remover neve das calçadas. Então, estamos sabendo que 9 cidades estão planejando usar este aplicativo. E isso se espalhou sem impedimento algum, organicamente, naturalmente.

Se vocês sabem alguma coisa sobre tecnologia governamental, sabem que normalmente não é assim que funciona. Aquisição de software geralmente leva uns dois anos. Uma equipe de três pessoas que trabalhou num projeto em Boston no ano passado levou cerca de dois meses e meio. O projeto era sobre uma forma de os pais decidirem qual seria a melhor escola pública para seus filhos. Depois viemos a saber que se ele tivesse ido pelas vias normais, teria levado pelo menos dois anos e custaria perto de dois milhões de dólares. E isto não é nada. Há um projeto no sistema jurídico da California neste momento que até agora custou aos contribuintes dois bilhões de dólares, e não funciona. E há projetos como esse em todos os níveis de governo.

Bom, um aplicativo que demora dois dias para ser criado e então se espalha de forma viral, isso é uma espécie de alerta para as instituições governamentais. É uma sugestão de como o governo poderia ser mais eficaz — não como uma companhia privada, como muitos pensam que deveria. E nem mesmo como uma companhia tecnológica, mas mais como a própria Internet. E isto significa sem consentimento, quer dizer aberto, generativo. E isto é importante. Mas o mais importante sobre este aplicativo é que ele representa a forma como uma nova geração está resolvendo o problema do governo — não como o problema de uma instituição rígida, mas como um problema de ação coletiva. E isso é uma grande novidade, porque, ao que parece, somos muito bons em ação coletiva com a tecnologia digital.

Há uma comunidade muito grande de pessoas que está criando as ferramentas que precisamos para trabalharmos juntos eficazmente. Não é só os companheiros da ‘Code for America”, há centenas de pessoas em todo o país criando aplicativos cívicos todos os dias em suas próprias comunidades. As pessoas não desistiram do governo. Estão frustrados pra caramba, mas não estão reclamando, elas estão consertando. E esse povo sabe de algo que paramos de considerar. Que é quando ficamos despidos dos nossos sentimentos na política e na fila do Departamento de Trânsito e todas essas outras coisas que ficamos danados da vida, o governo é, em sua essência, nas palavras de Tim O’Reilly, "O que nós fazemos juntos o que não poderíamos fazer sozinhos."

Agora, muita gente já desistiu do governo. E se você é uma dessas pessoas, eu lhe pediria para reconsiderar, porque as coisas estão mudando. A política não está mudando; o governo está mudando. E como o governo fundamentalmente obtém o seu poder da gente — lembram-se, “Nós o povo?” — como pensamos sobre isto irá afetar como aquela mudança acontece.

Bom, eu não sabia muito sobre governos até que comecei este projeto E como muitas pessoas, eu achava que governos eram, basicamente, sobre eleger pessoas para os cargos. Depois de dois anos cheguei à conclusão que, principalmente o governo local, tem a ver com gambás.

Este é centro de chamadas para serviços e informação. É geralmente para onde a chamada irá se discar 311 em sua cidade. Se você alguma vez tiver a chance de trabalhar no centro de chamadas da cidade, como nosso companheiro Scott Silverman fez como parte do projeto — de fato, todos eles fazem isto — verá que as pessoas ligam para o governo com uma grande variedade de problemas, incluindo tendo um gambá preso em casa. Então Scott recebe uma chamada. Ele digita: “Gambá” nesta base de conhecimento oficial. Realmente ele não consegue encontrar nada. Ele começa com controle de animais. E finalmente diz: “Olha, abra todas as portas da sua casa e ponha uma música bem alta e veja se a coisa vai embora.” Então aquilo deu certo. Parabéns ao Scott. Mas isso não foi o fim dos gambás.

Boston não tem um simples call center. Tem um aplicativo Web e móvel, chamado ‘Citizens Connect’ (Conectando Cidadãos). Nós não escrevemos este aplicativo. Este é o trabalho de pessoas muito inteligentes no Gabinete da New Urban Mechanics em Boston. Então, um dia — este é o relatório de fato— isto chegou: “Gambá na minha lata de lixo. Não sei se está morto. Que faço para ele ser removido?” Mas o que acontece no Citizens Connect é diferente. Scott estava falando de pessoa a pessoa. Mas no Citizens Connect tudo é publico, assim todo mundo pode ver isso. E neste caso, um vizinho viu. E recebemos o seguinte relatório, dizendo: “Fui a pé até o local, encontrei a lata de lixo atrás da casa. Gambá? Verificado. Vivo? Sim. Virei lata de lixo de lado. Fui a pé para casa. Boa noite adorável gambá.”

(Risos)

Muito simples. Isso é ótimo. É o digital encontrando o físico. E também é um grande exemplo do governo entrar no jogo de ‘crowd-sourcing’. Mas também é um grande exemplo do governo como uma plataforma. E não me refiro necessariamente a uma definição tecnológica de plataforma. Simplesmente falo sobre uma plataforma para o povo ajudar a si mesmo e aos outros. Então um cidadão ajudou um outro cidadão, mas o governo aqui desempenhou um papel fundamental. Ele conectou estas duas pessoas. E poderia as ter conectado com serviços do governo se assim fosse necessário, mas um vizinho é muito melhor e uma alternativa mais barata para os serviços do governo. Quando um vizinho ajuda ao outro, damos força as nossas comunidades. Nós chamamos o controle de animais, isto fica muito caro.

Agora, uma coisa importante que precisamos pensar sobre o governo é que não é a mesma coisa que a política. E a maioria das pessoas entendem isso, mas pensam que um contribui com o outro. Que a nossa contribuição para com o governo é com o voto. Quantas vezes elegemos um líder político — e, às vezes, nós gastamos muita energia ajudando um novo líder político a ser eleito — e depois ficamos sentados esperando que o governo represente nossos valores e atenda às nossas necessidades, e aí quase nada muda? Isso é porque governos são como um vasto oceano e política é a camada na superfície de 15 centímetros. E o que está abaixo disso é o que chamamos de burocracia. E dizemos esta palavra com tanto desprezo. Mas é este desprezo que mantém essa coisa que nós possuímos e que sustentamos como algo que está funcionando contra nós, essa outra coisa, e então estamos nos incapacitando.

O povo parece pensar que política é sexy. Se quisermos que esta instituição funcione para nós, nós teremos que fazer a burocracia sexy. Porque é ali que o trabalho real do governo acontece. Temos que participar da maquinaria do governo. Então esse movimento ‘OccupytheSEC’ (Comissão de Segurança e Câmbio). Vocês já viram esses caras? É um grupo de cidadãos preocupados que escreveram um relatório detalhado de 325 páginas que é uma resposta à solicitação do SEC para comentar na Lei da Reforma Financeira. Isso não é ser politicamente ativo, e sim ser burocraticamente ativo.

Bom, para aqueles entre nós que desistimos do governo, chegou a hora de nos perguntarmos sobre o mundo que queremos deixar para nossos filhos. Precisamos ver os grandes desafios que eles irão encarar. Será que realmente achamos que vamos atingir nossos objetivos sem consertar a única instituição que pode atuar a nosso favor? Não podemos viver sem o governo, mas precisamos que ele seja mais eficaz. A boa notícia é que a tecnologia está fundamentalmente tornando possível reformular a função do governo de uma forma que pode de fato expandir ao fortalecer a sociedade civil. E há uma geração que cresceu com a Internet, e eles sabem que não é tão difícil atuar juntos, só precisamos arquitetar os sistemas da maneira certa.

Agora, a idade média dos nossos companheiros é 28, assim eu sou, relutantemente, quase uma geração mais velha do que a maioria deles. Esta é uma geração que cresceu com uma voz praticamente sem ser questionada. Eles não enfrentam essa batalha que todos nós estamos enfrentando em relação a quem consegue falar; eles todos falam. Conseguem expressar suas opiniões em qualquer situação a qualquer momento, e o fazem. Assim, quando eles se deparam com um problema de governo, eles não ligam tanto sobre usar as suas vozes. Eles usam suas mãos. Eles usam suas mãos para escrever aplicativos que estimulam o governo a funcionar melhor

E esses aplicativos nos permitem usar nossas mãos para melhorar nossas comunidades. Pode ser cavando um hidrante, capinando, virando uma lata de lixo com um gambá dentro. E certamente, já podíamos estar escavando esses hidrantes de incêndio o à muito tempo, e muitas pessoas o fazem. Mas esses aplicativos são como lembretes digitais que nós não somos apenas consumidores, e não somos apenas consumidores do governo, pagando nossos impostos e obtendo serviços. Somos mais do que isso, somos cidadãos. E não vamos consertar o governo até que consertemos a cidadania.

Então, eu pergunto a todos presentes: Quando se trata de coisas grandes, importantes que precisamos fazer juntos, todos nós juntos, vamos ser apenas uma multidão de vozes, ou também seremos uma multidão de mãos?

Obrigada.

(Aplausos)