Jeanne Gang
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Sou uma construtora de relacionamentos. Quando se pensa numa construtora de relacionamentos não se pensa automaticamente em "arquiteta"? Provavelmente não. Isso é porque muitos pensam que arquitetos projetam prédios e cidades, mas o que realmente projetamos são relações, porque cidades têm a ver com as pessoas. São locais onde as pessoas se juntam para todo tipo de troca. Além disso, horizontes são habitats urbanos muito específicos com seus próprios insetos, plantas e animais e até seus próprios climas.

Porém, hoje, habitats urbanos estão desequilibrados. Mudanças climáticas, juntamente com problemas econômicos e políticos, têm um impacto; eles estão se somando e estressando nossas cidades e nós, as pessoas que vivem nelas.

Para mim, o campo da ecologia tem fornecido uma importante percepção, porque ecologistas não veem apenas espécies individuais de forma isolada, eles observam as relações entre os seres e o seu ambiente. Eles observam como as diversas partes do ecossistema se conectam e é justamente esse equilíbrio, essa rede de vida, que sustenta a vida. Meu time e eu temos aplicado observações da ecologia à arquitetura para ver como espaços físicos podem ajudar a construir melhores relações. Os projetos que vou mostrar hoje usam a ideia de construção de relações como um ponto chave no projeto.

Aqui está um exemplo do que quero dizer. Recentemente, nos pediram para projetar um centro de liderança em justiça social chamado de Arcus Center. Nos pediram um prédio que pudesse quebrar barreiras tradicionais entre grupos diferentes e, ao fazer isso, criar possibilidades de conversas significantes sobre justiça social. Os estudantes queriam um lugar para trocas culturais. Eles achavam que um lugar para cozinharem juntos serviria. E eles queriam ser convidativos à comunidade externa. Eles pensaram que uma lareira poderia atrair pessoas e ajudar a começar conversas. E todos queriam que o trabalho da justiça social fosse visível para o mundo externo. De fato, não existia precedente para esse tipo de lugar, então buscamos pelo globo e encontramos exemplos de casas de reuniões comunitárias. Casas de reuniões comunitárias são locais onde há uma relação muita específica entre pessoas, como essa em Mali, onde os idosos reúnem-se. O teto baixo mantém todos sentados ao mesmo nível dos olhos. É muito igualitário. Ou seja, não se pode levantar e conduzir uma reunião. Você daria mesmo uma cabeçada.

(Risos)

Em casas de reunião há sempre um espaço central em que se pode sentar em círculo e ver um ao outro. Então projetamos um espaço assim. bem no meio do Arcus Center, e implementamos-lhe com uma lareira e uma cozinha. É muito difícil ter cozinha e lareira num prédio assim com regras de construção, mas era muito importante para o conceito, que fizemos. E agora o espaço central serve para grandes reuniões sociais e como um lugar para encontros individuais pela primeira vez. É quase como uma intersecção de três vias que encoraja o encontro casual de pessoas para que elas comecem uma conversa. É possível passar pela cozinha e ver algo acontecendo. Podem-se sentar à lareira e compartilhar histórias. Pode-se estudar em conjunto em grandes e pequenos grupos, pois a arquitetura possibilita essas oportunidades.

Até a construção trata de construir relações: ela é feita de alvenaria em madeira, sendo que as toras são usadas no lugar dos tijolos. É baixa tecnologia fácil de fazer e qualquer um pode fazer, e esse é o objetivo. O ato de fazer é uma atividade social.

E é bom para o planeta também: as árvores absorvem carbono enquanto crescem, e exalam oxigênio, e agora o carbono que está armazenado nas paredes não está sendo lançado na atmosfera. Então fazer as paredes é equivalente a tirar carros das ruas. Escolhemos esse método de construção porque ele conecta pessoas umas às outras e ao ambiente.

Mas está funcionando e criando relacionamentos que os estimulam? Como poderemos saber? Bem, cada vez mais pessoas estão vindo aqui, por exemplo, como resultado de conversas à lareira e um calendário cheio de programações, as pessoas estão se inscrevendo para a Arcus Fellowship. Na verdade, as inscrições aumentaram dez vezes desde que o prédio abriu. Está funcionando e aproximando pessoas.

Eu mostrei como a arquitetura pode unir as pessoas neste tipo de escala acadêmica horizontal. Mas nos perguntamos se as relações sociais poderiam ser ampliadas, ou melhor, elevadas, em edifícios altos. Edifícios altos não buscam ser necessariamente edifícios sociais. Podem parecer isoladores e privativos. Só vemos pessoas nas incômodas viagens de elevador. Mas em muitas metrópoles, tenho projetado edifícios altos com o propósito de criar relacionamentos entre pessoas.

Este é o Aqua. É um arranha-céu residencial em Chicago para jovens profissionais urbanos e pessoas solteiras, muitos deles novos na cidade. Com mais de 700 apartamentos, queríamos ver se poderíamos usar a arquitetura para ajudar as pessoas a conhecer seus vizinhos, mesmo quando suas casas estão organizadas na dimensão vertical. Então inventamos um jeito de usar varandas como os novos conectores sociais. As formas da laje de concreto varia ligeiramente à medida que você sobe. O resultado disso é que pode-se ver pessoas da sua varanda. As varandas são irregulares. Pode-se debruçar na varanda e dizer "Olá!" do mesmo jeito que faríamos em um quintal. Para fazer varandas mais confortáveis por um tempo maior durante o ano, estudamos o vento com simulações digitais, então o efeito das formas da varanda dispersa e confunde o vento tornando-as mais confortáveis e menos ventosas.

Só de poder sair para a varanda ou no terraço superior no terceiro andar, você pode relacionar-se ao exterior, mesmo estando muito acima do nível térreo. O edifício atua como criador de coletividade dentro do edifício e da cidade ao mesmo tempo. Funciona. As pessoas começaram a se conhecer no alto do edifício e ouvimos dizer...

(Risos)

que começam até um namoro. Mas além das relações afetivas, o edifício tem um efeito social positivo na comunidade, comprovado por pessoas que começaram a criar grupos e grandes projetos juntas, como esse jardim orgânico comunitário na cobertura do edifício.

Eu mostrei como os edifícios altos podem ser conectores sociais, mas, o que dizer da arquitetura pública? Como podemos criar uma melhor coesão social em edifícios públicos e espaços cívicos e por que é importante? A arquitetura pública não tem tanto êxito se for imposta pelas autoridades.

Há cerca de 15 anos em Chicago, começaram a substituir as antigas delegacias de polícia, e construíram modelos idênticos por toda a cidade. Mesmo que tenham tido boas intenções em tratar todos as bairros da mesma maneira, as comunidades não se sentiram dentro do processo e não tiveram a sensação de posse desses prédios. Foi igualitário no sentido de que todos teriam a mesma delegacia, mas não igualitário no sentido de responder às necessidades individuais de cada comunidade. E a igualdade é a questão principal aqui.

Na minha área há um debate se a arquitetura pode mesmo fazer qualquer coisa para melhorar as relações sociais. Mas creio que precisamos da arquitetura e de todas as ferramentas em nosso kit para melhorar essas relações. Nos Estados Unidos, foram recomendadas reformas políticas para reconstruir a confiança. Mas eu e minha equipe pensamos se o projeto e um processo de projeto mais inclusivo poderia ajudar a acrescentar algo positivo nessa conversa sobre políticas. Simplesmente nos perguntamos: projetos podem ajudar a reconstruir a confiança?

Chegamos aos membros comunitários e aos policiais de North Lawndale; um bairro de Chicago, no qual a delegacia é vista como uma fortaleza assustadora cercada por um estacionamento. Em North Lawndale, as pessoas têm medo da polícia e de ir próximo à delegacia, até para denunciar um crime. Então organizamos uma discussão de ideias com ambos os grupos participando, e chegamos a uma nova ideia para a delegacia. Chama-se "Polis Station". "Polis" é uma palavra grega que significa um lugar com sentido de comunidade. É baseado na ideia de que se aumentarmos oportunidades para interações sociais positivas entre a polícia e os membros comunitários, podemos reconstruir essa relação e estimular a vizinhança ao mesmo tempo.

Em vez da delegacia ser uma fortaleza assustadora, pode-se ter espaços altamente ativos na parte pública da delegacia, lugares que iniciam conversas, como uma barbearia, um café e quadras poliesportivas também. Policiais tanto como crianças disseram adorar esportes. Essas visões vieram diretamente dos membros comunitários e dos próprios policiais, e como projetistas, nosso papel foi apenas ligar os pontos e sugerir os primeiros passos. Então com o apoio da cidade e dos parques, pudemos levantar fundos para projetar e construir meia quadra, bem no estacionamento da delegacia.

Já é um começo. Mas isso reconstrói a confiança? As pessoas em North Lawndale dizem que as crianças usam a quadra diariamente e até organizam torneios como esse mostrado aqui, e de vez em quando um policial participa. Agora eles têm até bolas de basquete na delegacia para emprestar às crianças. Recentemente nos pediram para expandir as quadras e construir um parque no local. E os pais relatam algo surpreendente. Antes, havia o medo de ir a qualquer lugar perto da delegacia e hoje, existe a sensação de que a quadra é mais segura do que as outras e eles preferem que seus filhos joguem aqui.

Talvez no futuro, na parte pública da delegacia, talvez pudéssemos passar na barbearia para cortar o cabelo, reservar o salão comunitário para uma festa de aniversário, renovar a carteira de motorista ou sacar dinheiro no caixa eletrônico. Pode ser um lugar para os vizinhos se encontrarem e conhecer os policiais e vice-versa. Não é uma fantasia utópica. É uma questão de como você planeja para reconstruir a confiança, e relações confiáveis.

Sabem, todas as cidades têm parques, bibliotecas, escolas e outros edifícios públicos que têm o potencial de ser reinventado como conectores sociais. Mas reinventar edifícios para o futuro vai requerer engajamento das pessoas que lá vivem. Engajar o público pode ser intimidador, eu também acho. Mas talvez seja porque na escola de arquitetura não aprendemos como engajar pessoas no ato de projetar. Fomos ensinados a defender nossos projetos contra as críticas. Mas acho que isso pode mudar também.

Então se focarmos a mente projetista para criar relacionamentos positivos e fortalecidos na arquitetura e através da arquitetura, acredito que possamos fazer muito mais do que criar edifícios individuais. Podemos reduzir o stress e a polarização em nossos habitats urbanos. Podemos criar relacionamentos. Podemos ajudar a estabilizar esse planeta que partilhamos.

Viram? Arquitetos são construtores de relacionamentos.

(Risos)

Muito obrigada.

(Aplausos)