James Nachtwey
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Para alguém que passou sua carreira inteira tentando ser invisível, estar à frente de uma audiência é uma mistura entre uma experiência extra-corporal com a de um peixe fora d'água, então desculpem-me por violar um dos mandamentos de TED e usar notas, eu só espero não sofrer a ira dos Deuses antes de terminar. Eu gostaria de começar falando sobre as idéias que me motivaram a me tornar um fotógrafo documentarista.

Eu era um estudante nos anos 60, uma época de desordem social e indagação, e num nível pessoal, do despertar de um senso de idealismo. A Guerra do Vietnã se intensificava, o Movimento dos Direitos Civis estava em marcha, e fotografias me influenciavam poderosamente. Nossos líderes políticos e militares nos diziam uma coisa, e os fotógrafos nos contavam outra. Eu acreditava nos fotógrafos, assim como milhares de outros americanos. Suas imagens alimentavam a resistência contra a guerra e o racismo. Eles não somente registraram a história; mas também ajudaram a mudar o seu curso. Suas fotos se tornaram parte de nossa conscientização coletiva. e, conforme a conscientização evoluiu num senso de consciência comum, mudanças se tornaram não apenas possíveis, mas inevitáveis.

Eu vi que o fluxo livre de informação representado pelo jornalismo, especificamente o jornalismo visual, tem o poder de pôr em evidência ambos benefícios e custos de decisões políticas. Ele pode dar crédito a uma decisão, acrescentando ímpeto ao sucesso. Face a um julgamento político ruim, ou à falta de ação, ele se torna um tipo de intervenção, estimando os danos e pedindo a todos nós que reavaliemos nosso comportamento. Ele coloca uma face humana nos problemas que de longe podem parecer abstratos ou ideológicos ou monumentais em seu impacto global. O que acontece num nível popular, longe dos bastidores do poder, ocorre com cidadãos comuns, um por um.

E eu compreendi que a fotografia documentarista tem a habilidade de interpretar eventos sob seu próprio ponto de vista, dando uma voz àqueles que não a possuem. Por consequência, ela estimula a opinião pública e dá ímpeto ao debate público prevenindo assim que as partes envolvidas controlem a agenda totalmente, independentemente de sua vontade. Crescer durante aqueles dias tornou real o conceito de que o fluxo livre de informação é absolutamente vital para o funcionamento correto de uma sociedade livre e dinâmica. A imprensa é, sem sombra de dúvidas, um negócio; e para sobreviver necessita ser bem-sucedida, mas é necessário encontrar o equilíbrio certo entre decisões de marketing e responsabilidade jornalística.

Os problemas da sociedade não serão resolvidos até que sejam identificados. Num plano superior, a imprensa é uma indústria de serviços, e o serviço que ela oferece é a conscientização. Cada reportagem não precisa vender algo. Existe também um tempo para dar. Essa era a tradição que eu queria seguir. Percebendo que a guerra criava riscos gigantescos para todos os envolvidos e que o jornalismo visual poderia se tornar um agente na resolução de conflitos, eu quis me tornar um fotógrafo, para assim ser um fotógrafo de guerra. Mas eu era movido por uma intuição inata de que a foto que revelasse a verdadeira face da guerra seria quase por definição uma foto contra a guerra.

Eu gostaria de levá-los numa jornada visual por alguns eventos e questões com os quais estive envolvido nos últimos 25 anos. Em 1981 eu fui à Irlanda do Norte. 10 prisioneiros do IRA estavam em uma greve de fome até a morte em protesto contra as condições na prisão. Nas ruas, a reação foi uma confrontação violenta. Eu vi que as linhas de frente de guerras contemporâneas não estão em campos de batalha isolados, mas onde as pessoas vivem. Durante os anos 80, eu passei muito tempo na América Central, uma região submersa em guerras civis que evidenciavam a divisa ideológica da Guerra Fria.

Na Guatemala, o governo central — controlado por uma oligarquia de origem européia promovia uma guerra de aniquilação contra uma rebelião indígena, e eu vi uma imagem que refletia a história da América Latina: a conquista através da cruz e da espada. Um guerrilheiro anti-Sandinista foi mortalmente ferido durante o ataque do Comandante Zero contra uma cidade no sul da Nicarágua. Um tanque destruído pertencente à Guarda Nacional de Somoza foi deixado como um monumento num parque em Manágua, e transformado pela energia e o espírito de uma criança. Ao mesmo tempo, uma guerra civil estava ocorrendo em El Salvador e mais uma vez, a população civil foi pega no meio do conflito.

Eu venho cobrindo o conflito palestino-israelense desde 1981. Esta é uma foto do começo da segunda intifada, em 2000, quando ainda eram apenas pedras e coquetéis Molotov contra um exército. Em 2001, a revolta se escalou num conflito armado, e um dos maiores incidentes foi a destruição de um campo de refugiados palestino na cidade de Jenin, na Cisjordânia. Sem que o mundo político encontre um meio termo, a contínua fricção de tática e contra-tática só cria suspeitas, ódio e vingança, e perpetua o ciclo de violência.

Nos anos 90, depois da desintegração da União Soviética, a Iugoslávia se fragmentou em territórios étnicos, e uma guerra civil eclodiu entre Bósnia, Croácia e Sérvia. Essa é uma cena de uma luta em moradias em Mostar, vizinho contra vizinho. Um quarto, um lugar de intimidade, onde a própria vida é concebida, se tornou um campo de batalha. Uma mesquita no norte da Bósnia foi destruída por artilharia sérvia e usada como um necrotério improvisado. Soldados sérvios mortos eram coletados depois da batalha e trocados pelo retorno de prisioneiros ou por soldados bósnios mortos em ação. Este foi outrora um parque. O soldado bósnio que me guiou me disse que todos os seus amigos estavam lá agora.

Ao mesmo tempo na África do Sul, depois da libertação do Nelson Mandela da prisão, a população negra iniciou a fase final de libertação do Apartheid. Uma das coisas que eu tive que aprender como um jornalista foi o que fazer com a minha raiva. Eu tive que usá-la, focar essa energia e transformá-la em algo que pudesse clarear a minha visão, ao contrário de turvá-la. Em Transkei, eu testemunhei um rito de passagem à idade adulta da tribo Xhosa. Garotos adolescentes viviam em isolamento, seus corpos cobertos com argila branca. Depois de várias semanas, a argila era lavada de seus corpos e eles assumiam todas as responsabilidades de um homem. Era um ritual muito antigo que parecia simbólico da luta política que estava mudando a face da África do Sul.

Crianças em Soweto brincando num trampolim. Em outras partes da África havia fome. Na Somália, guerras entre clãs eclodiram com o colapso do governo central. Fazendeiros foram expulsos de suas terras, e colheitas e gado foram destruídos ou roubados. A fome estava sendo usada como uma arma de destruição em massa — primitiva, mas extremamente eficaz. Milhares de pessoas foram exterminadas, devagar e dolorosamente. A comunidade internacional respondeu com intensa ajuda humanitária, e milhares de vidas adicionais foram salvas. Tropas americanas foram enviadas para proteger os carregamentos, mas eventualmente elas foram envolvidas no conflito, e depois da trágica batalha em Mogadíscio, se retiraram. No sul do Sudão, outra guerra civil fez uso similar da fome como o agente do genocídio.

Novamente, ONGs internacionais, sob a égide da ONU, organizaram uma operação de ajuda humanitária, e milhares de vidas foram salvas. Eu sou uma testemunha; quero o meu depoimento honesto e livre de censuras. Também desejo que ele seja poderoso e eloqüente, e que faça o máximo de justiça possível à experiência das pessoas que estou fotografando. Este homem estava num centro de alimentação de uma ONG, sendo ajudado o máximo que sua situação lhe permitia. Ele possuía literalmente nada. Era um esqueleto virtual, e ainda assim, tinha a coragem e a vontade de se mover. Ele não havia desistido, e se ele não o fizera, como seria possível que qualquer um mundo afora pudesse sonhar em perder a esperança? Em 1994, depois de três meses cobrindo as eleições na África do Sul, eu vi a posse de Nelson Mandela na presidência, e foi uma das coisas mais inspiradoras que eu já vi. Pois exemplificava o que a humanidade tem de melhor à oferecer. No dia seguinte eu parti para Ruanda, e foi como tomar um elevador expresso para o inferno.

Este homem tinha sido liberado de um campo de concentração de Hutus. Ele me permitiu fotografá-lo por um longo período, e até virou sua face frente à luz, como se quizesse que eu o enxergasse melhor. Eu acho que ele sabia o que as cicatrizes em seu rosto diriam ao resto do mundo. Dessa vez a comunidade internacional, talvez confusa ou desencorajada pelo desastre militar na Somália, permaneceu em silêncio, e algo em torno de 800,000 pessoas foram massacradas por seus próprios compatriotas — algumas vezes seus próprios vizinhos — usando instrumentos agrícolas como armas.

Talvez porque uma lição tenha sido aprendida com a fraca resposta à guerra na Bósnia e o fracasso em Ruanda, ação international foi tomada mais decisivamente quando a Sérvia invadiu o Kosovo. Forças da OTAN entraram no país, e o exército sérvio se retirou. Albaneses étnicos haviam sido assassinados, suas fazendas destruídas e uma enorme quantidade de pessoas deportadas à força. Eles foram recebidos em campos de refugiados organizados por ONGs na Albânia e na Macedônia. A marca deixada por um homem que foi queimado dentro de seu próprio lar. A imagem me lembrou a de uma pintura rupestre, e refletiu o quão primitivo nós ainda somos em tantos aspectos.

Entre 1995 e 1996, eu cobri as duas primeiras guerras na Chechênia, de dentro de Grózni. Este é um rebelde checheno no fronte de batalha contra o exército russo. Os russos bombardearam Grózni constantemente por semanas a fio, matando em sua maioria civis que ainda estavam presos dentro da cidade. Eu encontrei um menino de um orfanato local perambulando pelos arredores do fronte de batalha. O meu trabalho amadureceu com o tempo, evoluindo de uma preocupação com a guerra, a um foco em assuntos sociais críticos. Depois da queda de Ceausescu, eu fui à Romênia e descobri uma espécie de gulag de crianças, onde milhares de órfãos estavam sendo mantidos em condições medievais. Ceausescu havia imposto uma quota na quantidade de filhos que cada família poderia ter, transformando assim os corpos de mulheres em instrumentos da política econômica estatal. Crianças que não tinham como ser criadas por suas famílias eram criadas em orfanatos do governo. Crianças com defeitos de nascimento eram rotuladas incuráveis e confinadas à uma vida de condições desumanas.

Assim que relatos começaram a surgir, mais uma vez ajuda internacional foi enviada. Investigando mais a fundo o legado de regimes políticos do leste europeu, eu trabalhei vários meses numa história sobre os efeitos da poluição industrial, quando tal preocupação com o meio ambiente ou com a saúde dos empregados ou da população geral não existia. Uma fábrica de alumínio na Tchecoslováquia infestada com fumaça e pó cancerígeno, onde quatro de cinco trabalhadores contraíam câncer.

Depois da queda de Suharto na Indonésia, eu comecei a explorar os determinantes da pobreza em um país que estava se modernizando. Eu passei um bom tempo com um homem que vivia com a sua família em um aterro ferroviário e que havia perdido uma perna e um braço em um acidente de trem. Quando a história foi publicada, doações inspontâneas foram dadas. Um fundo fiduciário foi estabelecido, e a família vive agora em uma casa no interior com todas as suas necessidades básicas providenciadas. Essa história não estava tentando vender nada. O jornalismo havia fornecido um conduto para o senso de generosidade natural das pessoas, e os leitores reagiram. Eu conheci um bando de crianças de rua que tinham vindo a Jacarta do interior, e acabaram por viver numa estação de trem. Aos 12 ou 14 anos, eles já haviam se tornado mendigos ou drogados. Os pobres rurais haviam virado pobres urbanos, e no processo eles se tornaram invisíveis.

Estes viciados em heroína em desintoxicação no Paquistão me lembravam de figuras em uma peça de Beckett: isolados, esperando no escuro, mas atraídos pela luz. O Agente Laranja foi um desfolhante usado durante a guerra do Vietnã para destruir a camuflagem do exército do Vietnã do Norte e dos vietcongues. O ingrediente ativo era a dioxina, uma substância extremamente tóxica que foi usada em vastas quantidades e cujos efeitos foram transmitidos geneticamente à próxima geração. Em 2000, eu comecei a documentar questões de saúde global, com um foco inicial em AIDS na África. Eu tentei contar a história através do trabalho de funcionários de saúde. Achei que era importante ressaltar o fato de que pessoas estavam sendo ajudadas, seja por ONGs internacionais ou por organizações ativistas locais.

A epidemia gerou tantos órfãos que avós tomaram o lugar de pais, e muitas crianças nasceram aidéticas. Um hospital na Zâmbia. Eu comecei a documentar a estreita ligação entre a AIDS/HIV e a tuberculose. Este é um hospital dos Médicos Sem Fronteiras no Camboja. Minhas fotos podem assumir um papel coadjuvante ao trabalho de ONGs, ajudando a esclarecer problemas sociais críticos com as quais elas trabalham. Eu fui ao Congo com os Médicos Sem Fronteiras, e fiz contribuições a um livro e a uma exibição cujo tema era uma guerra esquecida na qual milhões morreram, e na qual doenças infecciosas sem tratamento eram usadas como armas. Uma criança mal-nutrida sendo medida como parte do programa de alimentação suplementar.

No outono de 2004 eu fui a Darfur. Dessa vez, a trabalho para uma revista. Mas novamente, trabalhei estreitamente com os Médicos Sem Fronteiras. A comunidade internacional ainda não encontrou uma maneira de criar pressão suficiente para acabar com esse genocídio. Um hospital dos Médicos Sem Fronteiras em um campo de refugiados. Estou trabalhando num extenso projeto sobre crime e punição nos EUA. Esta é uma cena de Nova Orleans. Um prisioneiro acorrentado no Alabama foi algemado a um poste em pleno sol a pino, como punição. Tal experiência gerou várias questões, entre as quais, questões sobre raça e igualidade, e para quem estão disponíveis as oportunidades e opções no nosso país. No pátio de um campo de prisioneiros no Alabama.

eu não vi nenhum dos aviões bater. Quando olhei pela minha janela, eu vi a primeira torre em chamas, e pensei que pudesse ter sido um acidente. Alguns minutos mais tarde, quando olhei novamente e vi a segunda torre em chamas, eu soube que estávamos em guerra. Entre os destroços do Marco Zero, eu finalmente comprendi. Desde 1981 vinha fotografando o mundo islâmico — não somente no Meio Oriente, mas também na África, Ásia e Europa. Em dada ocasião que fotografava todos esses lugares diferentes, eu pensava que estava cobrindo matérias separadas. Mas em 11 de Setembro a história se cristalizou, e eu entendi que na verdade vinha cobrindo uma única matéria há mais de 20 anos, e que o ataque em Nova Iorque era a sua mais recente manifestação.

O distrito comercial central de Cabul, Afeganistão, no final da guerra civil, pouco antes da cidade cair nas mãos do Talibã. Vítimas de minas terrestres sendo ajudadas num centro de reabilitação da Cruz Vermelha operado por Alberto Cairo. Um garoto que perdeu sua perna devido a uma mina abandonada. Eu testemunhei imenso sofrimento no mundo islâmico causado por opressão política, guerras civis, invasões estrangeiras, pobreza, fome. Entendi que, enquanto sofría, o mundo islâmico estava gritando por ajuda. Por que não escutamos? Um combatente talibã levou um tiro em batalha enquanto a Aliança do Norte adentrava a cidade de Cunduz. Quando a guerra contra o Iraque tornou-se iminente, eu me dei conta de que as tropas americanas estariam bem preparadas, então decidi cobrir a invasão de dentro de Bagdá. Um mercado local atingido por um projétil de morteiro que matou vários membros de uma única família. Um dia depois das forças americanas entrarem em Bagdá, uma companhia de fuzileiros navais começou a prender ladrões de banco e foram aplaudidos pelas multidões — um momento fugaz de esperança.

Pela primeira vez em anos, xiitas foram permitidos fazer a perigrinação a Karbala para participar da Ashura, e eu fiquei espantando com a enorme quantidade de pessoas e com o quão ferventemente eles praticavam sua religião. Um grupo de homens marchando pelas ruas e se cortando com facas. Era óbvio que os xiitas eram uma força a ser considerada, e que nós deveríamos tentar entendê-los e aprender a como lidar com eles. Ano passado eu passei vários meses documentando nossas tropas feridas, desde os campos de batalha no Iraque até os nossos lares.

Este é um médico fazendo RCP em um soldado que havia levado um tiro na cabeça. A medicina militar se tornou tão eficiente que a porcentagem de tropas que sobrevivem depois de machucadas é maior nessa guerra que em qualquer outra em nossa história. A arma típica dessa guerra é o artefato explosivo improvisado, e a ferida típica é o dano severo à perna. Após sofrer extrema dor e trauma, os feridos enfrentam uma luta física e psicológica esgotante durante a reabilitação. O espírito por eles demonstrado era absolutamente excepcional. Eu tentei me imaginar em seus lugares, e fiquei totalmente diminuto frente à sua coragem e determinação em face a uma perda tão catastrófica. A troco de resultados questionáveis, pessoas boas haviam sido colocadas em uma má situação. Certo dia no centro de reabilitação alguém começou a falar sobre surfar e todos esses caras que nunca haviam surfado na vida falaram: "Opa, vamos lá." E eles foram surfar.

Fotógrafos vão às fronteiras extremas da experiência humana para mostrar aos outros o que está acontecendo. Algumas vezes eles põem suas vidas em linha, porque eles acreditam que a sua opinião e influência fazem a diferença. Eles focam suas fotos em nossos melhores instintos, generosidade, um senso de certo e errado, a habilidade e a vontade de se identificar com os outros, a recusa de aceitar o inaceitável. Meu desejo TED: existe uma história vital que precisa ser contada, e eu desejo que TED me ajude a ganhar acesso a ela e que depois me ajude a criar maneiras inovadoras e excitantes de usar a fotografia jornalística na era digital. Muito obrigado.

(Aplausos)