Finn Lützow-Holm Myrstad
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Lembram-se de que, quando vocês eram crianças, deviam ter um brinquedo favorito que sempre lhes fazia companhia, como o Christopher Robin que tinha o Ursinho Pooh, e uma imaginação que estimulava aventuras infinitas? O que poderia ser mais inocente do que isso? Bem, vou lhes apresentar minha amiga Cayla.

Cayla foi eleita o brinquedo do ano em países do mundo inteiro. Ela se conecta à internet e utiliza tecnologia de reconhecimento de voz para responder às perguntas das crianças e agir como se fosse uma amiga. Mas o poder não está na imaginação das crianças. Está na empresa que reúne uma grande quantidade de informações pessoais enquanto sua família conversa inocentemente na segurança do lar, com uma perigosa e falsa sensação de segurança. Esse caso chamou minha atenção, pois meu trabalho é proteger os direitos do consumidor em meu país. Com bilhões de máquinas, como carros, medidores de energia e até aspiradores que estarão disponíveis on-line em 2020, achamos que valeria a pena investigar esse caso mais profundamente. O que Cayla estaria fazendo com as informações interessantes que estava aprendendo? Havia outra amiga fiel com quem ela compartilhava essas informações? Sim, vocês adivinharam. Havia. Para brincar com Cayla, é preciso baixar um aplicativo para acessar todas as funcionalidades dela. Os pais têm que aceitar a alteração dos termos de uso sem aviso prévio. As gravações da criança, dos amigos e familiares dela podem ser utilizadas para propagandas direcionadas. Toda essa informação pode ser compartilhada com terceiros desconhecidos.

É o bastante? Não totalmente. Qualquer um com um smartphone pode se conectar a Cayla a uma certa distância. Quando confrontamos a empresa que criou e programou Cayla, eles publicaram uma série de declarações dizendo que apenas um especialista de TI conseguiria violar a segurança. Vamos verificar essa declaração e invadir Cayla juntos ao vivo? Aqui está ela. Cayla tem um dispositivo "bluetooth" que transmite um sinal em um raio de até 18 m, ou um pouco menos, se houver uma parede no meio. Ou seja, eu ou qualquer estranho pode se conectar à boneca mesmo estando fora do quarto onde estão Cayla e as amigas dela. Para ilustrar isso, vou ligar Cayla agora. Vejamos: um, dois, três. Pronto, está ligada. Pedi a um colega para ficar lá fora com o smartphone dele, e ele já está conectado. Para tornar isto um pouco mais assustador...

(Risos)

vamos ver o que as crianças poderiam ouvir Cayla dizer, na segurança do quarto delas.

Homem: Olá, meu nome é Cayla; e o seu?

Finn Myrstad: Finn.

Homem: Sua mãe está aí?

FM: Não, foi às compras.

Homem: Quer vir aqui fora brincar comigo?

FM: É uma ótima ideia.

Homem: Ah, ótimo.

FM: Vou desligar Cayla agora.

(Risos)

Não precisamos de senha, nem passamos por qualquer tipo de segurança para fazer isso. Publicamos uma denúncia em 20 países do mundo inteiro revelando essa significativa falha de segurança e muitos outros problemas. E o que aconteceu? Cayla foi proibida na Alemanha, foi retirada da Amazon e do Wal-Mart e agora está descansando em paz no German Spy Museum, em Berlim.

(Risos)

Mas Cayla também esteve à venda em lojas do mundo inteiro durante mais de um ano após publicarmos nossa denúncia. Descobrimos que há poucas regras que nos protegem, e as que temos não estão sendo devidamente aplicadas. Precisamos garantir a segurança e privacidade desses aparelhos antes que cheguem ao mercado, pois qual é o sentido de trancar a porta de casa com uma chave se qualquer um puder entrar por meio de um dispositivo conectado?

Talvez vocês pensem: "Isso não vai acontecer comigo. Vou ficar longe desses aparelhos com falhas de segurança". Mas isso não nos manterá seguros, porque basta nos conectarmos à internet para ficarmos em uma posição impossível de "pegar ou largar".

Vou lhes mostrar. Como muitos de vocês, tenho dezenas de aplicativos em meu celular. Quando utilizados devidamente, facilitam muito nossa vida e a tornam mais conveniente e até mais saudável. Mas será que fomos acalmados com uma falsa sensação de segurança? Começa simplesmente marcando uma opção. Dizemos: "Sim, li as condições". Mas será que lemos mesmo essas condições? Têm certeza de que não pareciam longas demais, que seu celular estava ficando sem bateria e, na última vez que tentamos, era impossível entendê-las? E precisávamos utilizar o serviço imediatamente? Assim, foi estabelecido o desequilíbrio de poder, pois concordamos que nossas informações pessoais sejam reunidas e utilizadas em uma escala jamais imaginada.

Foi por isso que meus colegas e eu decidimos fazer uma análise mais profunda. Começamos a ler as condições dos aplicativos populares de um celular comum. Para mostrar ao mundo como é irreal esperar que os usuários leiam realmente as condições, nós as imprimimos. São mais de 900 páginas. Em nosso escritório, nós as lemos em voz alta. Transmitimos a experiência ao vivo em nossos sites. Como podem ver, levou muito tempo. Levamos 31 horas, 49 minutos e 11 segundos para ler as condições de um celular comum. Demorou mais do que uma maratona de filmes do "Harry Potter" e de "O Poderoso Chefão" juntos.

(Risos)

E ler é uma coisa. Entender é outra história. Levaríamos muito mais tempo. Esse é um problema real. As empresas têm argumentado por 20 a 30 anos contra uma melhor regulamentação da internet, porque os usuários têm aceitado os termos e as condições.

Como mostramos nesta experiência, conseguir uma aceitação consciente é quase impossível. Vocês acham justo colocar o peso da responsabilidade no usuário? Eu não acho. Acho que devíamos exigir menos "pegar ou largar" e mais condições compreensíveis antes de concordarmos.

(Aplausos)

Obrigado.

Agora, gostaria de contar uma história sobre o amor. Alguns dos aplicativos mais populares do mundo são os de encontros, uma indústria que vale atualmente algo em torno de US$ 3 bilhões por ano. É claro que não temos problemas em compartilhar detalhes íntimos com nossa cara-metade. Mas quem mais está espionando, gravando e compartilhando nossas informações enquanto estamos revelando nossa intimidade? Minha equipe e eu decidimos investigar. Para entender o problema de todos os ângulos e fazer realmente um trabalho minucioso, percebi que eu mesmo precisava baixar um dos aplicativos de encontros mais populares do mundo.

Então, fui para casa falar com minha esposa...

(Risos)

com quem eu acabara de me casar. "Tudo bem se eu criar um perfil num aplicativo de encontros muito popular para fins exclusivamente científicos?"

(Risos)

Eis o que encontramos. Escondida atrás do menu principal havia uma opção pré-selecionada que dava à empresa de encontros acesso a todas as minhas fotos pessoais do Facebook. No meu caso, eram mais de 2 mil fotos; algumas muito pessoais. Para piorar as coisas, ao ler os termos e as condições, descobrimos o seguinte. Vou precisar de meus óculos para ler isto. E vou ler, porque é complicado. Está bem.

"Ao publicar o conteúdo...", o conteúdo refere-se a fotos, conversas e outras interações no serviço, "como parte do serviço, você garante automaticamente à empresa, associadas, licenciadas e sucessoras, de forma irrevogável...", o que significa que não podemos mudar de opinião, "perpétua...", ou seja, para sempre, "o direito e a licença não exclusiva, transferível, paga, universal para usar, copiar, armazenar, executar, exibir, reproduzir, gravar, tocar, adaptar, modificar, distribuir o conteúdo e preparar derivações dele, ou incorporá-lo a outros trabalhos, permite e autoriza sublicenças de precedentes em quaisquer mídia conhecida ou criada posteriormente".

Isso significa que todo o histórico do encontro e tudo relacionado a ele pode ser utilizado para qualquer fim e para sempre. Imaginem seus filhos vendo suas fotos atrevidas de um encontro em um anúncio sobre controle de natalidade daqui a 20 anos.

Mas, falando sério...

(Risos)

o que essas práticas comerciais significam para vocês? Por exemplo, perda financeira: com base no histórico de navegação, os algoritmos podem decidir se conseguiremos ou não um empréstimo. Manipulação subconsciente: as empresas podem analisar emoções, a partir de nossas fotos e conversas, e nos atacar com anúncios quando estivermos mais vulneráveis. Discriminação: um aplicativo de "fitness" pode vender dados a uma seguradora impedindo-nos de conseguir cobertura no futuro. Tudo isso está acontecendo no mundo atualmente.

É claro que nem todos os usos de dados são nocivos. Alguns são falhos ou requerem mais trabalho, e outros são realmente ótimos. Mas também há boas notícias. As empresas de encontros alteraram as políticas de forma global depois que registramos uma queixa legal. Mas empresas como a minha, que lutam pelos direitos do consumidor, não podem estar em toda a parte, nem os consumidores conseguem corrigir isso sozinhos, porque, se soubermos que algo que dissemos de maneira inocente voltará para nos atormentar, deixaremos de falar. Se soubermos que estamos sendo vistos e controlados, mudaremos nosso comportamento. E, se não pudermos controlar quem tem nossos dados e como estão sendo utilizados, teremos perdido o controle de nossa vida.

As histórias que contei hoje não são exemplos aleatórios. Estão por toda a parte e são um sinal de que as coisas precisam mudar. Como podemos conseguir essa mudança? As empresas precisam perceber que, ao priorizar a privacidade e a segurança, podem criar confiança e lealdade para os usuários. Os governos precisam criar uma internet mais segura garantindo o cumprimento e a atualização das regras. E quanto a nós, cidadãos? Podemos usar nossa voz para lembrar ao mundo que a tecnologia só poderá beneficiar verdadeiramente a sociedade se respeitar os direitos básicos.

Muito obrigado.

(Aplausos)