Ellen Jorgensen
1,298,730 views • 10:08

Este é um bom momento para ser uma bióloga molecular. (Risos) Ler e escrever código de DNA está se tornando mais fácil e mais barato. Até o final deste ano, nós seremos capazes de sequenciar as três milhões de letras do DNA humano em menos de um dia, e por menos de mil euros (R$ 3000). Biotecnologia é provavelmente o setor mais poderoso da tecnologia, e o que tem crescido mais rapidamente. Potencialmente, ela tem o poder de achar substitutos para o petróleo, revolucionar a medicina, e influenciar todos os aspectos da nossa vida diária.

Então, quem tem a sorte de trabalhar nisso? Eu acho que nós não teríamos nenhum problema com este cara. Mas e quanto a este? (Risos) (Risos)

Em 2009, euu ouvi falar do DIYbio pela primeira vez. É um movimento que promove a idéia de tornar a biotecnologia acessível ao cidadão comum, e não apenas a cientistas e aos que trabalham em laboratórios do governo. A idéia é que, se você dá livre acesso à ciência e permite a participação de grupos diversos, isso pode realmente estimular a inovação. Colocar a tecnologia nas mãos do usuário é normalmente uma boa idéia, porque eles têm uma idéia mais clara de suas necessidades. E eis que nós temos acesso a esta tecnologia realmente sofisticada, com todas as questões sociais, éticas e morais associadas a ela, e nós, cientistas, somos péssimos quando se trata de explicar ao público o que exatamente estamos fazendo naqueles laboratórios. Então não seria bom se houvesse um lugar em nossa comunidades onde você pudesse aprender sobre estas coisas e colocá-las em prática? Foi o que eu pensei.

Três anos atrás, eu me juntei a alguns amigos, cujas idéias eram semelhantes às minhas, e criamos a Genspace. É um laboratório biotech comunitário sem fins lucrativos, no Brooklyn, Nova Iorque, com a idéia de que as pessoas poderiam vir fazer aulas e explorar o laboratório em um ambiente aberto e amigável.

Mas toda a minha experiência anterior não poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida. Vocês podem advinhar? A imprensa começou a nos ligar. E quanto mais nós falávamos sobre os benefícios de se promover o conhecimento científico, mais eles queriam falar sobre o risco de criarmos o próximo Frankenstein, e o resultado disso foi que, durante 6 meses, quando você digitava o meu nome no Google ao invés de ter acesso aos meus trabalhos científicos, você via isso: ["Sou uma ameaça biológica?" (Risos) Foi bem deprimente. A única coisa que nos fez superar este período foi que sabíamos que em outras partes do mundo haviam outras pessoas tentando fazer a mesma coisa. Elas estavam criando espaços de biohacking, e algumas delas enfrentando desafios ainda maiores do que os nossos— mais regulamentações, menos recursos. Mas agora, três anos depois, eis o nosso progresso. Existe uma comunidade global ativa de espaços hacker, e isto é apenas o começo. Estes são alguns dos maiores espaços, e existem outros sendo criados todos os dias. Há um prestes a abrir em Moscou, uma na Coreia do Sul, e o mais interessante é que cada um deles tem um toque único, um diferencial que vem da comunidade de onde eles surgem.

Deixe-me levá-los num pequeno tour. Biohackers trabalham sozinhos. Nós trabalhamos em grupo, em cidades grandes (Risos) e pequenas. Nós usamos engenharia reversa para construir equipamentos de laboratório. Nós modificamos bacterias geneticamente. Nós decodificamos hardware, software, wetware, e, é claro, DNA, o código da vida. Nós gostamos de construir coisas... e de desmontá-las depois. Nós fazemos coisas crescer. Nós fazemos coisas brilhar. E fazemos células dançar.

O espírito destes laboratórios é de abertura, otimismo, mas, às vezes, quando as pessoas pensam em nós a primeira coisa que lhes vêm à mente é biossegurança, e todo o lado mais sombrio da coisa. Eu não tenho a intenção de minimizar estas preocupações. Toda tecnologia poderosa traz consigo o potencial para dupla utilização, e se nós considerarmos a biologia sintética, a nanobiotecnologia, somos mesmo levados a levar em consideração os grupos amadores, mas também os profissionais, porque eles têm mais infra-estrutura, melhores laboratórios, além de acesso a agentes patogênicos.

Então os Estados Unidos fizeram exatamente isso recentemente: publicaram um relatório nesta área, e o que concluíram foi que o potencial deste tipo de tecnologia para o bem é muito maior do que o seu risco negativo, e, inclusive, eles levaram em consideração as comunidades DYIbio (do-it-yourself biology) e notaram, não surpreendentemente, que a imprensa tem a tendência de superestimar nossas capacidades e subestimar nossa ética. Na verdade, indivíduos DYI do mundo todo, da América, da Europa, se reuniram no ano passado para criar um código de ética comum. Isso é muito mais do que a ciência convencional já fez.

Agora nós obedecemos regulamentações estaduais e locais. Nós descartamos resíduos biológicos de forma segura, obedecemos regras de segurança, e não trabalhamos com agentes patogênicos. Se você trabalha com agentes patogênicos você não faz parte da comunidade de biohackers, mas da de bioterroristas, eu sinto dizer. Às vezes as pessoas me perguntam, "Mas e se houver um acidente?" Bem, trabalhando da maneira segura com que nós hoje trabalhamos, as chances de um acidente acontecer e alguém acidentalmente criar, digamos, uma superbactéria são as mesmas de uma nevasca acontecer no meio do deserto do Sahara. Pode acontecer? Sim, mas eu não vou planejar a minha vida baseada nisso.

Na verdade, eu escolhi correr um risco diferente. Eu me inscrevi em um programa chamado Projeto Genoma Pessoal. É um estudo realizado pela Harvard em que ao final do estudo eles irão colocar toda a minha sequência de DNA, todo o meu histórico médico e a minha identidade na internet, para qualquer um ver. Eles me informaram sobre todos os riscos durante o processo de consentimento. O meu favorito foi, alguém poderia baixar a minha sequência de DNA, sintetizar um falso DNA em laboratório, e colocá-lo na cena de um crime. (Risos) Mas assim como a DYIbio, o potencial positivo, o potencial para o bem de um estudo como este suplanta os seus riscos.

Agora você deve estar se perguntando, "Mas o que eu faria em um biolaboratório?" Não muito tempo atrás, nós nos perguntamos "O que eu faria com um computador pessoal?" Então, isso tudo é apenas o começo. Nós estamos enxergando apenas a ponta do iceberg do DNA. Eu vou mostrar para vocês o que poderiam fazer agora, em um destes laboratórios. Um biohacker na Alemanha—um jornalista—queria descobrir qual o cachorro que estava deixando "presentes" na sua rua. (Risos) (Aplauso) Isso mesmo, vocês adivinharam. Ele atirou bolas de tênis para todos os cachorro da vizinhança, analisou a saliva de cada um, identificou o cachorro, e confrontou o dono. (Risos) (Aplauso) Eu descobri uma praga no meu próprio quintal. Parece uma joaninha, não? Na realidade é um besouro japonês. E o mesmo tipo de tecnologia— o código de barra de DNA, super interessante. Você pode usar para saber se o seu caviar é mesmo de beluga, se aquele sushi é atum de verdade, ou se o queijo de cabra pelo qual você pagou tão caro é mesmo de cabra. Em um laboratório biohack você pode amalisar o seu genoma e descobrir mutações. Você pode analisar o seu cereal em termos de OGM, e pode explorar sua ancestralidade. Você pode soltar balões meteorológicos na estratosfera, colecionar micróbios, ver o que existe lá no alto. Você pode fazer um bio-censor usando fermento, para detectar poluentes na água. Você pode criar um tipo de célula de biocombustível. Você pode fazer muitas coisas. Inclusive um projeto de ciências artístico. Alguns deles são mesmo espetaculares, e eles consideram problemas sociais e ecológicos de um ponto de vista completamente diferente. É um barato.

As pessoas às vezes me perguntam por que eu me envolvi com essas coisas. Eu poderia ter tido um carreira científica perfeitamente "normal", mas acontece que há algo nestes laboratórios, algo que eles podem oferecer à sociedade, que não existe em nenhum outro lugar. Há algo de sagrado nestes espaços, onde você pode trabalhar em um projeto sem precisar justificar para outras pessoas como ele vai gerar dinheiro, como ele tem o potencial de salvar a humanidade, ou até que isto é possível. Só precisamos adotar as regras de segurança. Se nós criarmos espaços como estes no mundo inteiro, isso poderá realmente mudar a nossa percepção de quem pode trabalhar com biotecnologia. São espaços como estes que geraram o computador pessoal. Então por que não a biotecnologia? Se todos neste auditório se involvessem, quem sabe o que nós poderíamos alcançar? Esta é uma área muito nova, e como a gente diz lá no Brooklyn, você não viu nada ainda. (Risos) (Aplauso)