Eldra Jackson
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Homem não chora. Seja homem. Cale a boca e continue. Pare de chorar antes que eu lhe dê motivos para isso. Essas são apenas algumas das frases que contribuem para uma doença em nossa sociedade, e mais especificamente, nos homens. É uma doença que passou a ser conhecida como "masculinidade tóxica". É uma da qual sofri um caso crônico, tanto que passei 24 anos na prisão cumprindo perpétua por sequestro, roubo e tentativa de homicídio.

Mas estou aqui para dizer a vocês hoje que há uma solução para essa epidemia. Sei de fato que a solução funciona, porque eu fazia parte dos julgamentos. A solução é uma mistura de elementos. Começa com a vontade de analisar seu sistema de crenças e ver como ele está fora de alinhamento e como suas ações impactam negativamente não apenas você mesmo, mas as pessoas ao seu redor. O próximo ingrediente é a disposição de ser vulnerável com as pessoas que não apenas apoiariam você, mas que o responsabilizariam.

Mas antes de falar sobre isso, preciso que saibam que, para compartilhar isso, tenho que expor completamente minha alma. Enquanto estou aqui, com tantos olhos fixos em mim, sinto-me nu e cru. Quando esse sentimento está presente, tenho confiança de que a próxima fase de cura está no horizonte, e isso me permite compartilhar minha história na íntegra.

Por todas as aparências, nasci na dinâmica de família ideal: mãe, pai, irmã, irmão. Bertha, Eldra Jr., Taydama e Eldra III, que sou eu. Meu pai foi veterano do Vietnã e recebeu uma condecoração Coração Púrpuro, e voltou para casa para encontrar amor, casar e começar a própria linhagem dele. Então, como acabei cumprindo perpétua no sistema prisional da Califórnia? Guardando segredos, acreditando no mantra de que "homem não chora", não sabendo como exibir qualquer emoção com confiança além da raiva, participando em atletismo e aprendendo que, quanto maior o desempenho no campo, menor a necessidade de se preocupar com as regras dele. É difícil definir qualquer ingrediente específico dos muitos sintomas que me afligiam.

Crescendo como um jovem negro em Sacramento, na Califórnia, na década de 1980, havia dois grupos que eu identificava como sendo respeitados: atletas e gângsters. Eu me destacava nos esportes, até que um amigo e eu decidimos dar um passeio no carro da mãe dele e o destruímos. Com meus pais tendo que dividir a perda total de um veículo, fui relegado a um verão de tarefas domésticas e sem esportes. Nenhum esporte significava nenhum respeito. Nenhum respeito era igual a nenhum poder. O poder era vital para alimentar minha doença. Naquele momento, a decisão de transição de atleta para gângster foi feita, muito facilmente. As primeiras experiências de vida criaram o palco pra me sentir bem adaptado para tratar os outros como objetos, agir de uma maneira socialmente imparcial, e, acima de tudo, procurar ser visto em uma posição de poder. Uma sensação de poder...

(Suspiro)

igualava à força em meu ambiente, mas, o mais importante, acontecia em minha mente. Minha mente ditava minhas escolhas.

Minhas escolhas posteriores colocaram-me no caminho mais rápido para a vida na prisão. Mesmo na prisão, continuei minha história de atropelar os direitos dos outros, mesmo sabendo que aquele era o lugar onde eu morreria. Mais uma vez, acabei em confinamento solitário por esfaquear outro prisioneiro quase 30 vezes. Cheguei a um ponto em que não me importava como eu vivia ou se eu morresse.

Mas então, as coisas mudaram. Uma das melhores coisas que me aconteceram foi ser mandado para a prisão New Folsom. Uma vez lá, fui abordado para participar de um grupo chamado Inside Circle. No início, eu tinha dúvidas em participar de um grupo conhecido no pátio como "abrace um bandido".

(Risos)

No começo, isso foi um pouco demais mas, por fim, superei minha hesitação. Como se viu, o círculo era a visão de um homem chamado Patrick Nolan, que também cumpria prisão perpétua e que acabou ficando de saco cheio de tanto se sentir cansado de nos ver matar um ao outro pela cor da pele, a cor do nosso traje, por ser do norte ou do sul da Califórnia, ou simplesmente por respirar na direção errada em um dia de vento.

A hora do círculo tem a ver com homens sentados com homens e evitando as bobagens, desafiando maneiras estruturais de pensar. Penso da maneira que penso e ajo da maneira que ajo, porque eu não havia questionado isso. Tipo, quem disse que eu deveria ver uma mulher andando pela rua, virar e olhar para o traseiro dela? De onde veio isso? Se eu não questionar isso, estarei apenas seguindo a multidão. A conversa no vestiário. No círculo, nós nos sentamos e questionamos essas coisas: "Por que penso da maneira que penso? Por que ajo da maneira que ajo?" Porque, quando me concentro nisso, não estou pensando. Não estou sendo um indivíduo. Não estou assumindo a responsabilidade por quem sou e o que coloco neste mundo.

Foi numa sessão no círculo que minha vida deu uma guinada. Lembro-me de perguntarem quem eu era e eu não ter uma resposta, não com a qual eu me sentisse honesto em uma sala cheia de homens que buscavam a verdade. Teria sido fácil dizer: "Pertenço aos Bloods", ou: "Meu nome é Vegas", ou qualquer das inúmeras fachadas que tenha construído para me esconder atrás delas. Foi naquele momento e naquele local que a casa caiu. Percebi que eu acreditava ser inteligente, mas nem mesmo sabia "quem" eu era ou por que eu agia da maneira que agia. Eu não conseguia ficar em uma sala cheia de homens que estavam procurando servir, apoiar e apresentar um autêntico eu. Foi naquele momento que percebi um lugar dentro de mim no qual eu estava pronto para a transformação.

Durante décadas, mantive segredo sobre o fato de ser vítima de abuso sexual nas mãos de uma babá. Sujeitei-me a isso sob a ameaça de minha irmã mais nova ser prejudicada. Eu tinha sete; ela, três. Eu acreditava que era minha responsabilidade mantê-la segura. Naquele instante, foi semeada em mim uma longa jornada de ferir os outros, seja de maneira física, mental ou emocional. Desenvolvi, naquele instante, aos sete anos de idade, a crença de que seguir em frente na vida, se uma situação em que alguém se machucasse fosse apresentada, eu seria o único a ferir. Também formulei a crença de que amar me colocava em perigo. Também aprendi que me importar com outra pessoa tornava-me fraco. Então, não se importar deve ser igual a ser forte. O melhor modo de mascarar um senso instável de personalidade é se esconder atrás de um falso ar de respeito.

Sentar-se no círculo assemelha-se a sentar-se numa fogueira. É uma prova severa que pode destruir e destrói de fato. Destruiu meu velho senso de personalidade, meu sistema doente de valor e meu modo de olhar para os outros. Meus modos antigos de pensar tornaram-se públicos para ver se esse é quem eu queria ser na vida. Fui acompanhado por facilitadores qualificados a uma jornada nas profundezas de mim mesmo para encontrar as partes feridas, que não só infeccionaram, mas se infiltraram para criar um lugar inseguro para os outros. Às vezes, parecia um exorcismo e, na essência, era. Havia uma extração de modos antigos e doentes de pensar, ser e reagir e uma injeção de propósito.

Sentar-me naqueles círculos salvou minha vida. Estou aqui hoje como testemunho do poder do trabalho.

Recebi liberdade condicional em junho de 2014, após minha terceira audiência perante um júri de ex-oficiais de polícia encarregados de determinar meu atual nível de ameaça à sociedade. Estou aqui hoje, pela primeira vez desde os 14 anos de idade, sob nenhuma forma de supervisão do Estado. Sou casado com uma mulher incrível chamada Holly, e juntos criamos dois filhos, que incentivo a vivenciar emoções de maneira segura. Deixo que me abracem quando choro. Eles são testemunhas de que não tenho todas as respostas. Meu desejo é que eles entendam que ser homem não é uma caricatura de machismo e que as características definidas geralmente como pontos fracos são partes do homem íntegro e saudável.

Hoje continuo trabalhando não apenas comigo, mas apoiando rapazes jovens da minha comunidade. O desafio é erradicar esse ciclo de analfabetismo emocional e pensamento grupal que permite aos homens continuarem a vitimizar os outros, assim como a eles mesmos. Como resultado, desenvolvem novas maneiras de como querem se apresentar ao mundo e como esperam que este mundo se apresente em favor deles.

Obrigado.

(Aplausos) (Vivas)