David Birch
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Eu resolvi falar de identidade. É um tópico bem interessante para mim. E a razão disso foi que, quando me pediram para dar a palestra, eu tinha acabado de ler em algum lugar, não me lembro onde, alguém do Facebook dizendo "temos que fazer todo mundo usar o verdadeiro nome", e pronto, fim do problema. E isso está muito errado. Esse é um jeito basicamente reacionário de se ver a identidade, e que iria nos causar um sem-número de problemas. E o que me ocorreu foi explicar quatro tipos de problemas dessa visão e então propor uma solução, com sorte, uma que vocês achem interessante. Então só para definir o problema, o que significa autenticidade? Esse sou eu, uma foto minha no celular olhando um quadro. Esse quadro foi pintado por um falsificador muito famoso, e já que eu sou péssimo para falar em público, eu já esqueci o nome que estava no cartão. Ele foi preso na Penitenciária Wakefield, se não me engano, por falsificar obras primas de impressionistas franceses, eu acho. E ele é tão bom nisso que, dentro da prisão, todo mundo de lá, o diretor e tal, queria que ele pintasse obras-primas para pendurar nas paredes, de tão boas que eram. Isso é uma obra-prima que é uma falsificação de uma obra-prima, e preso na tela há um chip que mostra que ela é uma verdadeira farsa, se é que me entendem. (Risos) Quando falamos de autenticidade, o negócio é um pouco mais abstrato do que parece, e esse é um bom exemplo. Escolhi quatro problemas que vão demonstrar a situação. O primeiro problema, pensei eu, seriam cartões com chip, certo? [Derrubando o sistema por dentro] [Soluções offline não funcionam online] Todos têm um cartão com chip. E por que é um bom exemplo? Porque demonstra como uma visão saudosista da identidade sabota a segurança de um sistema bem construído. Esse cartão que vocês têm no bolso, ele tem um chip que custou milhões para ser desenvolvido e que é extremamente seguro. Você pode escaneá-lo com microscópios eletrônicos, pode tentar triturá-lo, blá, blá, blá. Esses chips nunca foram invadidos, não importa o que o jornal diz. E só de zoeira, nós pegamos esse chip superseguro, o prendemos em uma fita magnética ridiculamente fácil de falsificar e para os criminosos mais preguiçosos, fazemos o cartão em alto-relevo. Então, se você for um ladrão com pressa que precise copiar o cartão de alguém, é só colocar um papel em cima e sombrear com lápis, só para acelerar as coisas. E para dar mais graça, isso até no meu cartão de débito, nós imprimimos o nome, o código SALT e tudo mais bem na frente. E por quê? Não há nenhuma razão evidente para o seu nome estar em um cartão chipado. E se pararmos para pensar, a coisa é ainda mais perversa do que parece à princípio. Porque as únicas pessoas que se beneficiam do seu nome estar no cartão são os criminosos. Você sabe o seu nome, não sabe? (Risos) E quando você vai na loja comprar alguma coisa, pede-se a senha, o seu nome não importa. O único país onde você tem que assinar o recibo, no momento, são os EUA. E sempre que eu vou para lá e preciso pagar com a fita magnética, eu sempre assino Carlos Tethers, só por segurança, assim, se protestarem uma compra e no recibo disser Dave Birch, eu tenho certeza que foi um criminoso, já que eu não assino como Dave Birch. (Risos) Então, se vocês perderem o cartão na rua, um bandido pode achá-lo e lê-lo. Eles sabem seu nome, pelo nome eles acham o endereço, e aí eles podem sair fazendo compras online. Por que colocamos nomes nos cartões? Porque achamos que identidade tem a ver com nomes, e porque estamos presos à noção do cartão de identidade, com a qual somos obcecados. E eu sei que ela caiu por terra já faz alguns anos, mas se você é político, trabalha no governo ou algo assim, e pensar sobre identidade, você só consegue pensar em cartões com nomes escritos. E isso é muito subversivo no mundo moderno. O segundo exemplo que me ocorreu são as salas de chat. Eu tenho muito orgulho dessa foto, esse é o meu filho tocando na banda dele com os amigos na primeira apresentação, acho que o nome é esse, quando lhe pagam. (Risos) E eu adoro essa foto. Eu gosto muito mais daquela quando entrou na faculdade de medicina (Risos) Mas eu vou com essa para o assunto. E por que eu a uso? Porque foi algo muito interessante de se ver, sendo mais velho. Ele e os amigos, eles se juntaram, alugaram um salão, tipo um salão de igreja, pegaram todos os amigos que tinham bandas, juntaram eles, e fizeram tudo pelo Facebook. Venderam ingressos, daí a primeira banda do... eu ia dizer "cardápio", mas não deve ser a palavra certa, não é? A primeira banda da lista a aparecer nessa apresentação pública musical ou sei lá o que, recebe o dinheiro dos primeiros 20 ingressos. A segunda banda recebe o dos 20 seguintes e por aí vai. Eles estavam no fim da lista, tipo em quinto lugar, eu achava que eles não tinham chance. E ele acabou ganhando 20 mangos. Não é fantástico? O que eu quero dizer é: o esquema funcionou perfeitamente, exceto na internet. Lá estão eles, no Facebook, mandando mensagens, organizando tudo e eles não sabem quem ninguém é, certo? Esse é o problema que estamos tentando resolver. Se esolvessem usar seus nomes reais, vocês não teriam que se preocupar com eles na internet. Quando ele chegou para mim e disse: "Ah, eu queria entrar num chat para falar de guitarras" ou algo assim, eu falei: "Olha, eu não queria que você fizesse isso, nem todo mundo lá vai ser seu amigo, algumas dessas pessoas na sala de chat podem ser pervertidos, professores ou picaretas". (Risos) Quer dizer, é o que costuma aparecer no jornal, não é? Eu quero saber quem são todas essas pessoas no chat. Tudo bem, você pode ir lá, mas só se todo mundo lá dentro estiver usando nomes verdadeiros e mandarem cópias completas das folhas de antecedentes. Mas, claro, se alguém do chat pedisse o nome verdadeiro dele, eu diria não. Não fale seu nome. Porque sabe-se lá se são pervertidos, professores e tal. Então há esse paradoxo esquisito em que eu aceito, feliz, que ele vá para um lugar onde eu saiba quem é todo mundo, mas não querendo que ninguém saiba quem ele é. Então ficamos com esse problema em torno da identidade, em que você quer transparência de todo mundo, menos de você mesmo. E assim, não há progresso. Ficamos empacados. O negócio dos chats não funciona direito, e esse é um jeito muito ruim de se pensar sobre identidade. Eu vi no meu RSS algo a ver com... Eu acabei de falar algo feio do meu feed, não acabei? Eu tinha que parar de falar assim. Por razões misteriosas que não faço ideia, algo sobre líderes de torcida apareceu na minha caixa. Li essa história sobre elas, realmente fascinante. Aconteceu alguns anos atrás nos Estados Unidos. Em uma escola de ensino médio, uma equipe de líderes de torcida falou mal da técnica delas, coisa que todo jovem faz, o tempo todo, com todos os seus professores. E a técnica de torcida ficou sabendo. Ela ficou muito chateada, e chegou em uma das garotas e disse: "você vai me dar a sua senha do Facebook". Sempre leio sobre casos assim, em que, até em universidades e instituições de ensino, os jovens têm que falar suas senhas. Então você tem que dizer a sua senha do Facebook. Ela era adolescente! O que ela devia ter dito é: "Amanhã cedo, meu advogado vai entrar em contato. Isso é uma violação ultrajante do meu direito constitucional à privacidade e eu vou te processar até o último centavo." Isso é o que ela devia ter dito, mas ela é jovem, então ela entrega a senha. A professora não pode entrar na conta da aluna porque a escola bloqueou o acesso ao Facebook, então ela tem que esperar até chegar em casa. A garota contou para as amigas e adivinhem, então as outras garotas entraram no Facebook pelo celular e deletaram seus perfis. Quando a professora entrou, não tinha nada. O que eu quero dizer é, os jovens não veem a identidade como nós. Ainda mais na adolescência, a identidade é algo fluido. Você pode ter várias delas. E se você tiver uma identidade que não gosta, porque ela foi, de algum modo, subvertida, ou se tornou insegura ou inapropriada, você a apaga e cria outra. A noção de você ter uma identidade que você recebe de alguém, do governo ou seja quem for, e você tem que ficar com ela e usá-la em todo lugar, isso é completamente errado. Por que você iria querer saber quem alguém é no Facebook, a menos que sua intenção fosse maltratá-los e perturbá-los? E mesmo assim não funciona muito bem. O meu quarto exemplo são aqueles casos em que você realmente... Só para constar, esse sou eu no protesto do G20. Eu não participei do protesto, mas eu tinha uma reunião em um banco no mesmo dia, e eu recebi um e-mail deles me alertando para não usar terno, porque iria provocar os manifestantes. Eu fico bem de terno, se me permitem, então dá para ver porque isso causaria um furor anticapitalista. (Risos) Então eu pensei, se não quero provocar os manifestantes, o mais óbvio a se fazer é ir vestido de manifestante. Então fui todo de preto, com essa balaclava preta, e luvas também pretas, que tirei para assinar o livro de visitantes. Estou de calça preta, botas pretas, vestido todo de preto. Entrei no banco às 10 horas, falei: "Oi, eu sou Dave Birch, tenho um horário às três". Tudo bem, me deixaram entrar. Aquele é o meu crachá de visitante. (Risos) Essa bobagem de ter que dar seu nome verdadeiro no Facebook ou onde for, gera esse tipo de segurança. Gera uma encenação de segurança, onde não há nada concreto mas as pessoas estão atuando em uma peça sobre segurança. Contanto que todo mundo saiba suas falas, todo mundo está feliz. Mas não é segurança de verdade. Especialmente porque odeio bancos mais do que aqueles que protestam, já que eu trabalho para eles. Eu sei que a coisa é pior do que esse povo acha. (Risos) Mas imaginem que eu trabalhasse ao lado de alguém que está fazendo algo errado. Como se chamam aquelas pessoas que pegam dinheiro dos bancos e não...? Investidores, isso. Imaginem que eu estivesse do lado de um investidor corrupto. e eu quisesse denunciá-lo para o dono do banco. Então eu entro no sistema para dedurar o cara, falando: "Esse cara é corrupto". Essa mensagem não tem sentido se você não souber que eu trabalho no banco. Se a mensagem vier de qualquer um, não tem valor nenhum. Não há razão para mandá-la. Mas se eu tiver que provar quem eu sou, eu nunca vou mandar a mensagem. É o mesmo que a enfermeira denunciando o cirurgião bêbado. Eu só vou fazer a denúncia se ela for anônima, então o sistema tem que me providenciar anonimato, ou não vamos conseguir chegar onde queremos. Quatro problemas. O que vamos fazer a respeito? O que costumamos fazer é pensar sobre o espaço de Orwell e tentar fazer versões eletrônicas dos cartões de identidade de que nos livramos em 1953. Imaginemos que se tivéssemos um cartão, podem chamar de login do Facebook, que provasse quem você é e tivesse que portá-lo o tempo todo, o problema estaria resolvido. E, por tudo isso que acabei de dizer, não está resolvido, e talvez acabe até piorando alguns deles. Quanto mais vezes você é obrigado a usar sua identidade real, certamente para fins de transação, mais provável será seu roubo e uso em fraudes O objetivo é fazer as pessoas pararem de usar a identidade em transações que não precisam delas, que, aliás, são quase todas. Quase todas as transações da vida não envolvem "quem é você?". Elas são coisas como: você pode dirigir esse veículo, você pode entrar nesse prédio, você tem mais de 18 anos etc. etc. A minha sugestão é: Eu, como o James, acho que é necessário um novo aumento de interesse na P&D. Acho que é um problema com solução. É algo que podemos agir para resolver. Naturalmente, nessas horas, eu me volto para Doctor Who. Porque lá, como em várias outras esferas, o Doutor já nos mostrou a resposta. Acho que cabe a mim dizer a alguns convidados estrangeiros que o Doutor é o maior cientista vivo na Inglaterra, (Risos) e um farol de verdade e iluminação para todos nós. Esse é o Doutor, com seu papel psíquico. Qual é? Vocês já devem ter visto o papel psíquico do Doutor. Ninguém vai lhe chamar de nerd. Quem já viu o papel psíquico? Ah, claro, vocês estavam sempre na biblioteca, estudando, não é? É isso que vão dizer? O papel psíquico do Doutor é um objeto que você mostra a alguém e a pessoa, dentro do cérebro dela, vê o que ela precisa ver. Eu quero mostrar um passaporte britânico, eu ergo o papel, e você vê um passaporte britânico. Eu quero entrar em uma festa, ergo o papel e mostro um convite. Você vê o que quer ver. O que estou dizendo é que precisamos de uma versão eletrônica disso, só que com uma mudança pequenininha: ele só vai lhe mostrar o passaporte se eu tiver mesmo um. Só vai mostrar o convite se eu tiver mesmo um. Só vai te dizer que eu sou maior de 18 se eu for maior mesmo. E só isso. Se você for o segurança da boate, você precisa saber que eu sou maior de 18, e ao invés de mostrar minha carteira de motorista, que mostra que eu sei dirigir, qual é o meu nome, meu endereço, todas essas coisas, eu mostro meu papel psíquico e ele lhe diz se eu sou maior de idade ou não. Certo. E isso é só uma viagem minha? Claro que não, ou eu não estaria falando com vocês. Para criar algo assim e fazê-lo funcionar, eu vou só mencionar essas coisas, não vou dar detalhes, precisamos de um plano, no caso, de construir isso como uma infraestrutura que todos possam usar para resolver esses problemas todos. Vamos criar um método, que terá que ser universal, para ser usado em qualquer lugar. Eu vou mostrar um pouco da tecnologia conforme formos avançando. Esse é um caixa eletrônico japonês, o leitor de digitais fica dentro do celular e quando você quer tirar dinheiro, você coloca o celular no caixa e passa o dedo. O celular lê a impressão, diz que sim, é o Fulano, e o caixa entrega o dinheiro. O processo tem de ter aplicação em qualquer lugar. Tem que ser completamente conveniente. Aqui sou eu entrando na boate. Tudo que o aparelho na porta vai saber é: essa pessoa tem mais de 18 anos e não foi expulsa da boate? A ideia é: encosto o cartão na porta e se eu puder entrar, ele mostra minha foto, se eu não puder entrar, ele mostra um X vermelho. Nenhuma outra informação é revelada. Nenhum acessório especial tem que ser necessário. Isso só pode gerar uma conclusão, na linha do que o Ross disse, com a qual concordo Se é para não depender de nenhum acessório, tem que funcionar nos celulares. É o único jeito de dar certo. Há 6,6 bilhões de linhas móveis no mundo, e a minha estatística favorita, só 4 bilhões de escovas de dente. Isso quer dizer alguma coisa, só não sei o quê. (Risos) Deixo isso nas mãos dos futurologistas. Tem que ser um método expansível, portanto tem que ser algo que qualquer um possa criar em cima. Todo mundo deve ser capaz de usar essa infraestrutura, sem depender de permissões, licenças, nada; todo mundo deve poder escrever código para isso. Vocês sabem o que é simetria, eu não preciso mostrar fotos dela. É assim que vamos fazer. usando a proximidade de nossos celulares. Eu vou dizer para vocês que a tecnologia para implementar o papel psíquico do Doctor Who já existe, e se algum de vocês já tem um dos novos cartões de débito da Barclay, com a interface sem contato, você já tem essa tecnologia. Se você já foi à Londres e usou um cartão Oyster, parece familiar para alguém? A tecnologia já existe. Os primeiros telefones com essa tecnologia, o Google Nexus, o S2, o Samsung Wifi 7.9, os primeiros telefones com essa tecnologia embutida já estão à venda. Então, a ideia de o cara da companhia de gás poder aparecer na casa da minha mãe, mostrar o celular para ela e ela poder encostar o próprio celular que vai dar verde se ele é realmente da companhia de gás e poder entrar, ou dar vermelho se ele não for e fim da história. Nós temos a tecnologia para fazer isso. E mais, apesar de alguns desses usos parecerem meio contraintuitivos, como comprovar a minha maioridade sem dizer quem eu sou, a criptografia para isso não apenas existe como é muito bem conhecida e compreendida. Assinaturas digitais, certificados de chave pública, essas tecnologias já estão aí há um tempo, nós só não tínhamos um jeito de colocá-las no bolso. Então, a tecnologia já existe. Nós sabemos que funciona. Temos alguns exemplos da tecnologia sendo usada experimentalmente. Essa é a Londres Fashion Week, onde criamos um sistema com a O2, esse é o Festival Wireless no Hyde Park, dá para ver as pessoas entrando com os braceletes VIP, é só uma questão de ser verificado pelo celular Nokia lendo os braceletes. Essas coisas são prosaicas, o método funciona nesses ambientes. Eles não precisam ser especiais. Por fim, Eu sei que vocês são capazes disso, porque se vocês viram aquele episódio de Doctor Who, o especial de Páscoa, em que ele vai para Marte em um ônibus, novamente, aos estudantes estrangeiros, isso não acontece todo episódio. Foi uma ocasião especial. Bom, no episódio em que ele vai para Marte em um ônibus londrino, eu não posso mostrar o trecho devido às ridiculamente paleolíticas restrições de copyright da BBC, mas nesse episódio do ônibus em Marte, mostram claramente o Doctor Who subindo no ônibus com o leitor Oyster usando o papel psíquico. E isso prova que o papel tem uma interface MSE. Muito obrigado. (Aplausos)