Caleb Harper
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Crise alimentar. Está nos jornais todos os dias. Mas o que é?

Alguns lugares no mundo com tão pouca comida, talvez pouca demais. Em outros lugares, os OGMs salvando o mundo. Será que o problema são os OGMs? O excesso de produção agrícola gera oceanos ruins, tóxicos, e pouca nutrição. Um processo incessante. E acho o tom atual dessa discussão incrivelmente "desempoderante". Então, como trazer isso para algo que entendemos?

Como explicar a crise usando esta maçã? Certamente todos comeram uma maçã semana passada. Quanto tempo acham que se passou desde que foi colhida? Duas semanas? Dois meses? Onze meses é a idade média de uma maçã num supermercado nos EUA. E não acho que na Europa ou em outros lugares do mundo seja muito diferente. Nós as colhemos e as armazenamos numa câmara frigorífica, onde colocamos gás. Na verdade, há comprovação de trabalhadores entrarem nesses ambientes para pegar uma maçã e morrerem, pois a atmosfera que retarda o seu amadurecimento também é tóxica para os humanos.

Como é que ninguém aqui sabe disso? Por que eu não sabia disso? Portanto, 90% da qualidade desta maçã, os antioxidantes, já não existe no momento em que a compramos. É praticamente uma bola de açúcar. Como é que somos tão mal-informados, e como mudar isso?

Acho que falta uma plataforma. Entendo de plataformas, computadores. Eles me colocaram na Internet bem cedo. Fiz as coisas mais estranhas nessa plataforma,

(Risos)

mas conheci pessoas, e pude me expressar.

Como nos expressamos pela comida? Se tivéssemos uma plataforma, poderíamos nos sentir empoderados para questionar: "E se?" Do meu lado, questionei: "E se o clima fosse democrático?" Este é um mapa do clima no mundo. As áreas mais produtivas estão em verde, as menos produtivas, em vermelho. Elas se deslocam e mudam, e fazendeiros californianos agora são fazendeiros mexicanos. A China leva terra do Brasil para cultivar melhor os alimentos, e ficamos escravos do clima. E se cada país tivesse seu próprio clima produtivo? Como isso mudaria nosso modo de vida? Como isso afetaria a qualidade da vida e da nutrição?

O problema da última geração foi produzir mais alimentos e a baixo custo. Bem-vindos à fazenda global! Construímos uma enorme fazenda analógica. Todas essas linhas são carros, aviões, trens e automotivos. É um milagre alimentarmos 7 bilhões de pessoas com tão poucos de nós envolvidos na produção de alimentos.

E se... construíssemos uma fazenda digital? Uma fazenda digital mundial. E se pudéssemos pegar esta maçã, de algum modo digitalizá-la, enviá-la em forma de partículas pelo ar e reconstituí-la do outro lado? E se?

Algumas dessas citações me inspiram a fazer o que faço.

A primeira:

"A agricultura japonesa não tem jovens, água, terra nem futuro".

Foi com o que me deparei no dia em que fui a Minamisanriku, depois do desastre, uma parada ao sul de Fukushima. Os jovens foram para Sendai e Tóquio, a terra está contaminada, e eles já importam 70% dos alimentos. Mas isso não é exclusividade do Japão. Apenas 2% da população norte-americana está envolvida com a agricultura. Que boas soluções podem vir de 2% de qualquer população? Olhando mundo afora, 50% da população africana tem menos de 18 anos. E 80% não querem ser agricultores. A agricultura é difícil. A vida de um pequeno agricultor é miserável. Então, vão para a cidade. Na Índia, famílias de agricultores não têm acesso a serviços básicos: mais suicídios de agricultores este ano e nos dez anos anteriores. Incomoda falar disso. Para onde estão indo? Para a cidade. Não há jovens, e todos indo embora. Então, como construir uma plataforma que inspire a juventude?

Conheçam o novo trator! Esta é minha colheitadeira. Alguns anos atrás, fui a lojas de material de construção e comecei a inventar. Construí coisas bobas, fiz plantas dançarem, conectei-as ao meu computador e matei todas... de montão.

(Risos)

Consegui fazê-las sobreviver. E construí um dos relacionamentos mais íntimos que já tive na vida, pois estava aprendendo a linguagem das plantas. Eu queria ampliar o projeto, aí me disseram: "Divirta-se, garoto! Eis uma sala de eletrônicos velhos que ninguém quer. O que você consegue fazer?"

Com minha equipe, construímos uma fazenda no laboratório de mídia, um lugar historicamente famoso por não ter nada a ver com biologia, mas tudo a ver com vida digital. Dentro desses 5,5 m², produzimos, uma vez por mês, alimentos para cerca de 300 pessoas. Não era muita coisa, mas havia muita tecnologia interessante lá dentro. E qual a coisa mais interessante? Lindas raízes brancas, cores verde-escuras e uma colheita mensal. É uma lanchonete nova? Uma nova forma de varejo? Um novo mercado? Uma coisa posso afirmar com certeza: foi a primeira vez que alguém no laboratório de mídia extraiu as raízes de algo.

(Risos)

Sempre compramos a salada em sacos, o que não tem nenhum problema. Mas o que acontece quando juntamos um especialista em processamento gráfico, um analista de dados e um roboticista, arrancando raízes e pensando: "Ah, sei alguma coisa sobre isso e poderia fazer isso acontecer, quero tentar".

Nesse processo, levávamos as plantas para fora, depois trazíamos algumas de volta, pois, quando as cultivamos, não as jogamos fora; tornam-se especiais para nós. Desenvolvi um estranho paladar, pelo receio de deixar alguém comer algo que não tenha provado primeiro, pois quero que seja bom. Como alface todos os dias e posso dizer o PH de uma alface dentro de .1.

(Risos)

Tipo: "Não, essa é 6.1; não, não, não dá para comê-la hoje".

(Aplausos)

A alface naquele dia estava superdoce. E estava assim porque a planta estava estressada, e isso gerou nela uma reação química para se proteger: "Não vou morrer!" E as plantas "que não vão morrer" parecem mais doces para mim. Tecnólogos voltando à fisiologia das plantas.

Aí, achamos que outras pessoas deveriam tentar também. Queríamos ver o que elas conseguiam criar. Daí, projetamos um laboratório que pudesse ser despachado, e então o construímos.

Eis meu laboratório na fachada do laboratório de mídia, que tem cerca de 30 pontos de sensor por planta. Se vocês conhecem genoma ou genética, este é o fenoma, certo? Os fenômenos. Quando dizemos: "Gosto dos morangos do México", gostamos na verdade dos morangos do clima que produziu a expressão que gostamos. Assim, ao codificarmos o clima: um tanto de CO2 mais outro tanto de O2 criam uma receita, estaremos codificando a expressão daquela planta, a sua nutrição, tamanho, forma, cor e textura. Precisamos de dados, por isso colocamos sensores para registrarem tudo.

Já nas plantas que temos em casa, olhamos para elas e pensamos supertristes: "Por que você está morrendo? Fale comigo".

(Risos)

Agricultores desenvolvem um olhar premonitório por volta dos 60 a 70 anos de idade. Ao ver uma planta morrendo, eles conseguem dizer se é deficiência de nitrogênio ou cálcio, ou se está faltando umidade. Esse olhar especial não está mais sendo transmitido.

É o olhar de um agricultor na "nuvem". Fazemos gráficos de tendência ao longo do tempo. Comparamos esses dados com as plantas individuais. Vejam, por endereço IP, os brócolis do laboratório naquele dia.

(Risos)

Temos brócolis com endereço IP.

(Aplausos)

Como se não bastasse, pode-se clicar e ver o perfil de cada planta. E consegue-se baixar o progresso de cada planta, mas não do jeito como pensam, não apenas quando está pronta. Quando ela vai alcançar a nutrição de que preciso? Quando vai adquirir o gosto que desejo? Está recebendo água demais? Sol demais? Alertas. Ela pode falar comigo, é um diálogo, temos uma língua.

(Risos)

(Aplausos)

Vejo isso como o primeiro usuário do Facebook das plantas, certo? É o perfil de uma planta, e ela vai começar a adicionar amigos.

(Risos)

Não é brincadeira: vai fazer amizade com outras plantas que usam menos nitrogênio, mais fósforo, menos potássio. Vamos aprender sobre uma complexidade que, hoje, só em sonho. E elas podem nos adicionar ou não, dependendo de como agirmos.

Bem, este é o meu laboratório agora. É um pouco mais sistematizado, minha formação é projetar centros de dados, principalmente em hospitais, então sei um pouco sobre como criar ambientes controlados.

Então, dentro desse ambiente, estamos testando todo tipo de coisa. A aeroponia foi desenvolvida pela NASA para a estação espacial Mir, para reduzir a quantidade de água enviada ao espaço. E o que ela faz é dar à planta exatamente o que ela quer: água, minerais e oxigênio. As raízes são menos complicadas: quando damos isso a elas, conseguimos essa expressão incrível. É como se a planta tivesse dois corações. E, por ter dois corações, ela cresce quatro ou cinco vezes mais depressa. É o ambiente perfeito. Foi um longo caminho até tecnologia e sementes para um mundo adverso, e vamos continuar a fazer isso, mas vamos ter uma nova ferramenta: o ambiente perfeito.

Cultivamos todo tipo de coisa. Esses tomates estavam fora da produção comercial há 150 anos. Vocês sabiam que temos bancos de sementes raras e antigas? Bancos de sementes. É incrível. Eles têm germoplasma vivo e coisas que vocês nunca comeram. Sou a única pessoa nesta sala que comeu esse tipo de tomate. O problema é que foi num molho e, como não sabemos cozinhar, o molho de tomate não estava muito bom. Mas fizemos coisas com proteínas, cultivamos todo tipo de coisas. Cultivamos humanos...

(Risos)

Bem, talvez vocês possam, nós não.

Mas percebemos que a ferramenta era grande e cara demais. Comecei a disponibilizá-la, mas custava cerca de US$ 100 mil. Encontrar alguém com US$ 100 mil disponíveis não é fácil, então decidimos fazer uma menor.

Este projeto é de uma das minhas alunas da graduação, Camille, engenheira mecânica. Camille, eu e minha equipe tentamos naquele verão fazê-la mais barata e melhor, para que outros pudessem replicar o experimento. Assim, as levamos para escolas de 7.ª a 11.ª série. Se quiserem ter os pés no chão, tentem ensinar algo a uma criança.

Fomos a uma escola e explicamos: "Mantenha a planta com 65% de umidade".

Um aluno da 7.ª série perguntou: "O que é umidade?"

E eu disse: "Ah, é a água no ar".

Ele disse: "Não existe água no ar. Você é um idiota".

(Risos)

E eu falei: "Tá bom, não acredite em mim. De verdade. Mantenha com 100%". Assim ele fez, e o que aconteceu? Começou a condensar, virou uma névoa e acabou pingando.

E ele falou: "Ah... umidade é chuva... Por que você não me falou isso?"

(Risos)

Criamos uma interface que se parece com um jogo: é um ambiente 3D onde conseguem acessar de qualquer lugar com um smartphone, um tablet. Têm diversas partes dos robôs, os materiais, os sensores. Selecionam receitas criadas por outras crianças de qualquer lugar do mundo. Eles selecionam e ativam aquela receita, plantam uma muda. Enquanto a planta cresce, fazem mudanças, questionam: "Por que ela precisa de CO2? CO2 não é ruim? Ele mata as pessoas". Aumentam o CO2, a planta morre. Ou diminuem o CO2, a planta fica bem. Colhem a planta, e está criada uma nova receita digital.

É um design, desenvolvimento e processo de exploração interativos. Eles conseguem baixar todos os dados sobre a nova planta que desenvolveram, ou a nova receita digital: o que fizeram com ela, se foi melhor ou pior. Pensem nisso como pequenos núcleos de processamento. Vamos aprender muito.

Eis aqui um dos computadores de alimento, como os chamamos, numa escola no lapso de três semanas. Três semanas de crescimento. Mas, mais importante, foi a primeira vez que esse garoto pensou que poderia se tornar um agricultor, ou que gostaria de se tornar um.

Assim, os dados são todos abertos, está tudo on-line. Apesar de ser difícil, tentem fazer em casa seu computador de alimentos. Estamos no começo, mas está tudo lá. É muito importante para mim manter tudo isso aberto e acessível.

Eis os agricultores: engenheiro elétrico, engenheiro mecânico, engenheiro ambiental, cientista da computação botânico, economista, urbanistas. Em uma plataforma, fazendo aquilo que sabem fazer bem. Mas ficamos grandes demais.

Este é o início da construção das minhas novas instalações. Esse galpão poderia ser em qualquer lugar. Foi por isso que o escolhi. E, dentro desse galpão, vamos construir algo mais ou menos assim. Isso existe agora. Deem só uma olhada. Esses aqui existem também. Num, cultivamos folhas verdes; no outro, vacina para o Ebola. Impressionante que plantas e um vencedor da DARPA Grand Challenge sejam uma das razões para estarmos ganhando do Ebola. As plantas estão produzindo a proteína resistente ao Ebola. Assim, das indústrias de fármacos e nutracêuticos, até chegar à alface.

Mas essas duas coisas não se parecem, e é onde estou com meu campo. Tudo é diferente. Estamos naquele estranho estágio "está tudo bem" e é como: "Eis minha caixa preta" "Não, compre a minha". "Não, não; tenho a propriedade intelectual muito valiosa. Não compre a dele, mas a minha."

A realidade é que estamos apenas começando num tempo de mudança para a sociedade também. Queríamos mais alimento e mais barato. Agora, queremos qualidade, um alimento que respeite o meio ambiente. E, quando temos um anúncio do McDonald's mostrando o que há no nugget de frango, o alimento mais misterioso de todos os tempos, seu marketing agora é baseado nisso, está tudo mudando.

O mundo de hoje: computadores de alimentos pessoais, servidores de alimentos e centros de dados de alimentos rodando o fenoma aberto. Pensem no genoma aberto, mas com receitinhas climáticas, como a Wikipédia, que vocês podem baixar, ativar e cultivar.

Como fica a cara do mundo? Lembram-se do mundo conectado por linhas? Agora temos pontos luminosos. Estamos enviando informações sobre os alimentos, em vez dos alimentos. Isso não é fantasia minha: já estamos usando em todos esses lugares. Computadores e servidores de alimentos, em breve centros de dados de alimentos, unindo pessoas para compartilharem informações.

O futuro dos alimentos não tem a ver com lutar contra o que está errado aqui. Sabemos o que há de errado com isso. O futuro dos alimentos é conectar o próximo bilhão de agricultores e empoderá-los com uma plataforma para que perguntem e respondam: "E se?"

Obrigado.

(Aplausos)