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Translated by Guilherme Schmidt
Reviewed by Isabel M. Vaz Belchior

0:11 Esta não é uma história do Tibete e não é história da Amazónia. Eu não vos levarei ao cimo do Ártico, à vida dos Inuit, ou às areias escaldantes do Saara. Esta é, na verdade, uma história sobre o meu próprio quintal.

0:27 É uma terra conhecida pelo povo Tahltan e por todas as Primeiras Nações da Colômbia Britânica como as Sacred Headwaters [Nascentes Sagradas], a origem dos três grandes rios de salmão, o Skeena, o Stikine e o Nass. É um vale onde, num dia longo, talvez, também, podem seguir as pegadas de um urso-pardo e de um lobo e beber das mesmas fontes de água que deram origem e embalaram as grandes civilizações da Costa Noroeste. É um lugar tão belo. É o lugar selvagem mais deslumbrante em que alguma vez estive. É o tipo de lugar que nós, como canadianos, poderíamos lançar à Inglaterra, que eles nunca o encontrariam. John Muir, em 1879, subiu apenas o terço mais baixo do Stikine e ficou tão extasiado que lhe chamou um Yosemite com 241 kms de comprimento. Ele voltou à Califórnia e deu ao seu cachorro o nome daquele rio de encantamento. Nos Estados Unidos, o mais longe que se consegue estar de uma estrada com manutenção é a 32 kms. No Quadrante Noroeste da Colômbia Britânica, uma área do tamanho do Oregon, há uma estrada, uma fita estreita de asfalto que desliza pelo lado das Montanhas Costeiras ao Yukon. Eu segui por essa estrada no início dos anos '70, logo após ela ter sido construída, para assumir o emprego como primeiro guarda florestal na região selvagem de Spatsizi. A descrição do meu cargo era deliciosamente vaga: avaliação da região selvagem e relações públicas. Em duas temporadas de quatro meses não cheguei a ver uma dúzia de pessoas. Não havia ninguém com quem me relacionar publicamente.

1:57 Mas no decurso destas andanças, deparei-me com o túmulo de um velho xamã o que me levou a um encontro com um homem notável: Alex Jack, um ancião e chefe Gitxsan que viveu como caçador nessa região toda a sua vida. E ao longo de 30 anos, eu gravei contos tradicionais contados pelo Alex — na sua maioria, relatos mitológicos de Wy-ghet, o travesso transformador da sabedoria Gitxsan que, na sua loucura, ensinou às pessoas como viver da terra. E mesmo antes do Alex morrer, aos 96 anos, ele deu-me um presente. Era uma ferramenta esculpida, em osso de caribu, pelo seu avô, em 1910, e que descobri ser um instrumento especializado usado por um caçador para remover as pálpebras dos lobos. Foi só quando o Alex faleceu que eu percebi que as pálpebras, de alguma forma, eram as minhas, e tendo feito tanto para permitir que eu aprendesse a ver, o Alex, à sua maneira, estava a dizer-me adeus.

3:00 Bem, o isolamento tem sido a grande graça responsável por salvar este lugar extraordinário, mas hoje o isolamento poderá ser a sua desgraça. Ouvimos falar tanto sobre os desenvolvimentos das areias betuminosas, a controvérsia sobre os oleodutos de Keystone e Enbridge, mas estes são apenas elementos de um <i>tsunami</i> de desenvolvimento industrial que está a varrer todo o norte selvagem do Canadá. Apenas no território de Tahltan, há 41 importantes propostas industriais, algumas com grandes promessas, algumas a suscitar grande preocupação. Na montanha de Todagin, reverenciada pelo povo Tahltan como um santuário da vida selvagem no céu, lar da maior população de carneiros-de-dall do planeta, a Imperial Metals — a 75ª maior empresa mineradora do Canadá — assegurou licenças para estabelecer uma mina de ouro e de cobre, a céu aberto, que irá processar 30 mil toneladas de rocha por dia, durante 30 anos, gerando centenas de milhões de toneladas de resíduos tóxicos que, pela conceção do projeto, serão, simplesmente, despejados nos lagos das Sacred Headwaters. Nas próprias Sacred Headwaters, a Shell Canadá possui planos para extrair gás metano de camadas de carvão que subjazem a cerca de meio milhão de hectares, fraturando o carvão com milhares de milhões de litros de produtos químicos tóxicos, estabelecendo talvez mais de 6 mil bocas de poço, e, eventualmente, uma rede de estradas e oleodutos e bocas de poço em chamas, tudo para gerar gás metano que provavelmente rumará para ocidente para alimentar a expansão das areias betuminosas.

4:39 Durante mais de uma década, o povo Tahltan, ambos os clãs, Wolf [Lobo] e Crow [Corvo], resistiram a este ataque à sua terra natal. Homens, mulheres e crianças de todas as idades, anciãos em cadeiras de rodas, bloquearam a única estrada de acesso ao interior. Para eles, as Sacred Headwaters são uma cozinha. É um santuário. É o cemitério de seus ancestrais. E aqueles que são os verdadeiros donos são as gerações que estão por vir.

5:08 Os Tahltan têm sido capazes, com o auxílio de todos os canadianos que habitam rio abaixo, de todos os políticos locais, de resistir a este ataque à sua terra natal, mas agora tudo está em jogo. As decisões que serão tomadas neste ano irão literalmente determinar o destino desta terra. O povo Tahltan pediu a criação de uma reserva tribal que irá constituir a maior área protegida da Colômbia Britânica. O nosso objetivo não é apenas ajudá-los nisso mas também encorajar os nossos amigos, as pessoas boas na Shell, não apenas a retirarem-se das Sacred Headwaters, mas a juntarem-se a nós enquanto fazemos o notável, o extraordinário: constituir uma área protegida que será, por toda a eternidade, não apenas as Sacred Headwaters do povo Tahltan mas as nascentes sagradas de todas as pessoas no mundo.

6:09 Os Tahltan precisam da vossa ajuda. Nós precisamos da vossa ajuda. E se algum de vocês se quiser juntar a nós nesta grande aventura, peço que venha falar comigo mais tarde.

6:19 Muito obrigado.

6:21 (Aplausos)