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Translated by Ilona Bastos
Reviewed by Isabel M. Vaz Belchior

0:11 Trabalhei num filme chamado "Apollo 13", e quando trabalhei nesse filme, descobri uma coisa sobre como o nosso cérebro funciona. Quando estamos como que imbuídos de entusiasmo, ou de espanto, ou de afeto, ou seja do que for, isso muda e altera a nossa perceção das coisas. Muda o que vemos. Muda o que recordamos. E como experiência — porque me incumbi a mim próprio da assustadora tarefa de recriar o lançamento do Saturno V para este filme em particular — porque inseri essa cena, e sentia-me um pouco nervoso, precisava de fazer uma experiência, trazer um grupo de pessoas, como este, para a sala de projeção e mostrar umas imagens de arquivo. Quando mostrei essas imagens de arquivo, só queria descobrir o que as pessoas recordavam, o que era memorável. O que devia eu tentar replicar? O que devia tentar recriar em certa medida?

1:00 Estas são as imagens que eu mostrava às pessoas. Descobri que, devido à natureza das imagens e ao facto de estarmos a fazer este filme, gerou-se uma emoção à sua volta e uma memória coletiva do que este lançamento significava para nós e todas essas variadas coisas. Quando mostrei as imagens e perguntei, logo após o final da projeção, o que pensavam delas, quais eram as suas imagens memoráveis, eles mudaram-nas. Envolviam movimentos de câmara. Tinham todo o tipo de coisas. As imagens combinavam-se, e eu fiquei bastante curioso, que diabo...

1:29 como é possível terem olhado apenas durante alguns minutos e virem com este tipo de descrições? Descobri que o que devia fazer não era replicar o que tinham visto, era replicar o que recordavam.

1:43 Estas são as nossas imagens do lançamento, baseadas, fundamentalmente, nas anotações que tomámos, perguntando às pessoas o que pensavam. A combinação de todas as imagens diferentes e coisas diferentes criou uma espécie de consciência coletiva do que se lembravam de ter visto, mas não do que realmente tinham visto. Isto foi o que criámos para o "Apollo 13".

2:05 Literalmente, o que estão a ver agora é a confluência de muitas pessoas diferentes, muitas memórias diferentes, incluindo as minhas, juntamente com um pouco de liberdade em relação ao assunto em questão. Filmei tudo com lentes de comprimento focal curto, o que significa que ficamos muito perto da ação, mas fiz um enquadramento semelhante ao das lentes de focal longo o que dá uma sensação de distância. Criei algo que nos recordasse algo que realmente nunca tínhamos visto. Vou mostrar-vos exatamente a que é que estavam a reagir quando reagiram a isto.

2:49 Tom Hanks: "Olá, Houston, daqui é o Odyssey. É bom ver-vos novamente." (Aplausos)

2:54 Rob Legato: Finjo que estão a aplaudir-me a mim.

2:56 (Risos)

2:58 Agora estou num parque de estacionamento. Há uma lata, e estou a recriar o lançamento com extintores de incêndio e fogo. Tenho cera, que atirei para a frente das câmaras, para parecer gelo e, portanto, se acreditaram nalguma das coisas que acabei de vos mostrar, aquilo a que estavam a reagir, aquilo que vos emocionou foi uma completa mentira, e isso pareceu-me de certo modo fascinante.

3:22 Neste caso particular, este é o clímax do filme, e a maneira de o conseguir foi pegar num modelo, atirá-lo de um helicóptero e filmá-lo. Foi simplesmente o que fiz. Este sou eu a filmar, e sou um operador bastante medíocre. Assim, consegui uma boa sensação de verosimilhança, uma espécie de, seguir o foguetão em toda a sua descida e dar uma espécie de movimento. Tentava desesperadamente mantê-lo enquadrado. Depois passei à etapa seguinte. Tínhamos um consultor da NASA que era astronauta e que tinha participado nalgumas das missões, na Apollo 15. Ele estava lá para verificar a minha ciência. Acho que alguém pensou que isso seria necessário.

3:59 (Risos)

4:01 Não sei porquê, mas acharam que era.

4:04 Portanto, ele era um herói, um astronauta, estávamos todos entusiasmados e eu tomei a liberdade de dizer que algumas das cenas que fiz não estavam assim tão más. Talvez nos sentíssemos relativamente satisfeitos com elas, e portanto trouxe-o ao local, e ele precisava de verificar e ver o que estávamos a fazer, e dar-nos nota 20 no nosso registo de avaliação. Mostrei-lhe algumas cenas em que estávamos a trabalhar, esperando a reação que desejávamos, e eis a que recebi. Mostrei-lhe estas duas cenas, e ele disse-me o que pensava.

4:40 [Está errado] (Risos)

4:42 Ok. (Risos) É com isto que sonhamos.

4:48 (Risos)

4:51 Então, como resposta, ele voltou-se para mim e disse: "Nunca, nunca se desenharia um foguetão assim. "Nunca se faria subir um foguetão "quando os braços do pórtico estão a sair. "Imagina a tragédia que isso podia causar? "Nunca se desenharia um foguetão assim." Olhou para mim e eu: "Não sei se reparou, "mas eu sou o tipo que está no parque de estacionamento "a recriar um dos mais altos momentos da América com extintores".

5:14 (Risos)

5:16 "E não vou discutir consigo. Você é um astronauta, "um herói, e eu sou de Nova Jérsia, portanto..."

5:21 (Risos)

5:23 "Vou-lhe só mostrar algumas sequênciasde imagens "e diga-me o que acha." Então consegui mais ou menos a reação que desejava.

5:30 Mostrei-lhe isto que é a sequência reak em que ele interveio. Isto é a Apollo 15. Esta era a missão dele. Então mostrei-lhe isto e obtive uma reação interessante.

5:41 [Também está errado] (Risos)

5:44 O que aconteceu foi que, quero dizer, o que intuí foi que ele se lembrava de uma coisa diferente. Lembrava-se de um sistema de pórtico muito seguro, de um lançamento de foguetão muito seguro, porque estava sentado num foguetão que tinha mais de 45 toneladas de propulsão, construído pelo melhor preço. Ele esperava que tudo corresse bem.

6:02 (Risos) (Aplausos)

6:04 Portanto, ele distorceu as suas memórias.

6:06 Agora, o Ron Howard correu para o Buzz Aldrin, que não estava no filme e não fazia ideia de que tínhamos recriado esta sequência. Ele reagiu como se esperava, e vou mostrar-vos.

6:17 Ron Howard: "Buzz Aldrin veio ter comigo e disse: " 'Naquela sequência do lançamento vi imagens que nunca tinha visto " 'Em que cofre é que vocês descobriram aquilo?' "E eu disse: 'Em cofre nenhum, Buzz, " 'criámos tudo de raiz.'

6:35 "E ele disse: 'Ah, está bastante bom. Podemos usá-lo?'

6:38 (Explosão) ["Claro."] (Risos)

6:42 RL: Eu penso que ele é um grande americano.

6:44 (Risos)

6:48 Portanto, o "Titanic" foi... se não conhecem a história... não acaba bem.

6:52 (Risos)

6:56 Jim Cameron fotografou o verdadeiro Titanic. Ele basicamente configurou, ou basicamente despedaçou a suspensão da incredulidade, porque o que ele filmou foi a realidade, um submarino Mir a mergulhar, ou melhor, dois submarinos Mir a mergulhar até aos destroços do navio, e criou esta sequência assombrosa. É muito bela, e evoca as mais variadas e diferentes emoções. Mas ele não conseguiu filmar tudo, e para contar a história eu tinha que preencher as lacunas, o que é bastante assustador, porque eu tinha que recriar de uma ponta à outra o que realmente tinha acontecido... e eu era a única pessoa que podia deitar tudo a perder naquela altura.

7:30 Esta é a sequência que ele filmou, e é bastante comovente e inspiradora. Vou deixá-la correr, para que possam absorvê-la e vou descrever que tipo de reações tive quando olhei para isto pela primeira vez. Tive a sensação de que o meu cérebro queria ver isto regressar à vida. Automaticamente, queria ver este navio, este navio magnífico, em toda a sua glória e vice-versa, queria vê-lo, não em toda a sua glória, mas de novo com o seu aspeto real.

8:02 Então, concebi um efeito que vou mostrar-vos depois. Tentei fazer o que, para mim, constitui como que o cerne do filme. Foi por isso que eu quis fazer o filme. Foi por isso que quis criar o tipo de coisas que criei.

8:15 Vou mostrar-vos outra coisa que achei interessante, o que realmente nos emocionou quando olhámos para isto. Estes são os bastidores das cenas, algumas imagens. Quando viram as minhas imagens, estavam a ver isto: um grupo de indivíduos a abanar um barco de pernas para o ar. Os pequenos submarinos Mir são do tamanho de pequenas bolas de futebol. e isto, filmado no meio de fumo. O Jim afastou-se uns 5 km, mergulhou, e eu afastei-me uns 5 km do estúdio e filmei isto numa garagem.

8:42 Aquilo que nos emociona, ou aquilo para onde estamos a olhar tem o mesmo sentimento, a mesma capacidade de nos assombrar que as imagens do Jim. Eu achei fascinante que, quando acreditamos que algo é real, os nossos cérebros como que transferem tudo o que sentimos em relação a isso. Esta capacidade que temos e é totalmente artificial. É totalmente faz-de-conta, mas não para vocês. Achei que isso era uma coisa muito interessante, a explorar e usar, e levou-me a criar o próximo efeito que vos vou mostrar. esta espécie de transição mágica Tentei conseguir que o público interpretasse o efeito. Portanto, isto tornou-se uma experiência perfeita. Eu não estava a mostrar-vos a minha interpretação, estava a mostrar-vos o que queriam ver. Nas próximas imagens, já a seguir a isto... ... podem ver o que eu estava a fazer.

9:35 Se há dois submarinos na mesma imagem, foi filmado por mim, porque, de onde vem a câmara? Quando Jim filmou, só havia um submarino, porque ele estava no outro. Não sei se fui eu ou o Jim a filmar. Foi o Jim — ele bem precisa de umas palmadinhas nas costas.

9:47 (Risos)

9:53 Ok. Então, agora, a transição do Titanic. Isto é aquilo a que me referia sobre para onde queria magicamente transplantar o Titanic de um primeiro estado para o outro. Vou passar as filmagens uma vez.

10:09 Eu esperava que isto se fundisse perante vós.

10:20 Gloria Stuart: "Foi a última vez que o Titanic viu a luz do dia."

10:25 RL: Fiz outra experiência na sala de projeção, em que procurava identificar o ponto para onde olhava, ou para onde olhávamos, Claro, estávamos a olhar para as duas pessoas na proa do navio e a dada altura, eu mudo a periferia da filmagem, altero-a, transforma-se nos destroços enferrujados. Depois, passei a sequência todos os dias, até encontrar o exato momento em que deixava de olhar para eles e começava a aperceber-me do resto. No momento em que os meus olhos mudavam, fiz uma marca no fotograma. Quando os meu olhos se afastaram, comecei imediatamente a mudá-los, de modo que agora vocês não se aperceberam onde isso começou e terminou. Portanto, vou mostrá-lo só mais uma vez. Isto é feito usando o que o nosso cérebro faz naturalmente para nós. Logo que mudamos a nossa atenção, algo muda. Então eu deixei um pequeno lenço a acenar, porque queria tornar a cena fantasmagórica, queria uma sensação como se eles ainda estivessem nos destroços. Foi onde eles ficaram sepultados para sempre.

11:20 Ou qualquer coisa assim. Inventei isto agora.

11:22 (Risos)

11:25 A propósito, foi a última vez que eu vi a luz do dia. Este filme levou muito tempo a fazer. (Risos)

11:31 "Hugo" foi outro filme interessante, porque o filme é sobre a ilusão dos filmes. É sobre como o nosso cérebro é induzido a uma visão persistente, que cria o movimento nas imagens, e uma das coisas que tive que fazer foi... O Sasha Baron Cohen, que é um sujeito muito inteligente, um comediante muito esperto, queria fazer uma homenagem às farsas ao estilo do Buster Keaton, e queria que a cinta da perna ficasse presa a um comboio em andamento. Uma coisa muito perigosa, impossível de fazer, especialmente no nosso palco, porque não há maneira de mover o comboio, porque está confortavelmente aninhado no nosso cenário.

12:05 Vou mostrar-vos a cena. Usei o truque que foi identificado por Sergei Eisenstein. Se temos uma câmara que se move com um objeto em movimento, o que não se move parece mover-se, e o que se move parece parado. Assim, o que estamos a ver é um comboio completamente parado, e o que realmente se move é o chão.

12:28 Portanto, esta é a filmagem. Este é um pequeno vídeo do que se vê ali, que é o nosso pequeno teste. É o que realmente vemos. Eu achei que seria uma coisa interessante, porque parte da homenagem do filme surge com esta espécie de truque genial, pelo qual não posso receber os créditos. Gostaria de receber, mas não posso, porque foi inventado em 1910 ou qualquer coisa do género. Eu disse ao Marty — e é uma daquelas coisas abstratas, difíceis de perceber até que as vemos realmente a funcionar — disse-lhe o que ia fazer e ele perguntou: "Deixa-me ver se compreendi bem. A coisa com rodas não anda". (Risos)

13:04 (Aplausos)

13:07 "E aquilo, sem rodas, anda."

13:10 Precisamente. (Risos)

13:13 O que me leva ao próximo e último.

13:16 O Marty não vai ver isto, pois não? (Risos) Isto não é visto lá fora... (Risos)

13:24 Sobre a próxima ilustração há como que toda uma teoria da cena. É uma forma muito elegante de contar uma história, especialmente se estivermos a seguir alguém num trajeto e esse trajeto contar algo sobre a sua personalidade de uma forma muito concisa. Com base na filmagem de "Tudo Bons Rapazes", — uma das melhores de sempre, um filme de Martin Scorsese, sobre seguir o Henry Hill através do que parece ser o passeio de um gangster a atravessar Copacabana a ser tratado de forma especial. Era o senhor do seu universo, e queríamos que o Hugo se sentisse da mesma forma, por isso, criámos esta cena.

14:00 Este é o Hugo. Sentimos que, se conseguíssemos mover a câmara com ele, teríamos a sensação do que é ser este rapaz que é o senhor do seu universo. E o seu universo encontra-se nos bastidores, nas entranhas desta estação de comboios pela qual só ele pode navegar e fazê-lo a seu modo. Nós tínhamos que dar a sensação de que esta é a sua vida diária, normal. A ideia de fazer isto como uma cena era muito importante, e, claro, filmando a 3D, com uma câmara enorme pendurada numa vara gigante. A tarefa era recriar uma cena com uma câmara fixa, e criar uma sensação do tipo da reação que tivemos quando vimos a cena do "Tudo Bons Rapazes".

14:43 O que vão ver agora é como fizemos isto. São cinco cenários separados filmados cinco vezes com dois rapazes diferentes. O da esquerda é onde a cena termina, e o da direita é onde assume o commando. Agora trocamos os rapazes. Portanto, passou do Asa Butterfield, que é a estrela do filme, para o seu substituto. Não llhe chamaria duplo. Há um equipamento louco que construímos para isto. E é isto. Agora entramos no cenário número três. Depois entramos no último momento da cena que é a cena da câmara fixa. Tudo o resto foi filmado com gruas e coisas dessas. Foi feito com cinco cenários diferentes, dois rapazes diferentes, por várias vezes, E tudo tinha que parecer uma só cena. O que me pareceu fantástico foi que esta cena foi provavelmente de todas aquelas em que trabalhei, a que recebeu melhores críticas. E, no fim, sentia-me orgulhoso. Nunca devíamos sentir-nos orgulhosos das coisas, parece-me.

15:46 Eu sentia-me orgulhoso, fui ter com um amigo meu e disse: "Sabes, esta é talvez, "de todas as cenas em que trabalhei, a que recebeu melhores críticas. "Por que razão achas que isso aconteceu?"

15:56 Ele disse: " Porque ninguém sabe "que tiveste alguma coisa a ver com ela."

15:59 (Risos)

16:02 Portanto, tudo o que posso dizer é: Obrigado, esta é a minha apresentação para vocês.

16:08 (Aplausos)