Return to the talk Return to talk

Transcript

Select language

Translated by Rita Maia
Reviewed by Daniela Reginatto da Costa

0:11 Estou aqui hoje para falar de uma pergunta perturbante, que tem uma resposta igualmente perturbante. O meu tema é: os segredos da violência doméstica. E a pergunta que vou abordar é a que toda a gente pergunta sempre: Porque é que ela fica? Porque é que alguém ficaria com um homem que lhe bate? Não sou psiquiatra, assistente social ou especialista em violência doméstica. Sou apenas uma mulher com uma história para contar.

0:42 Tinha 22 anos. Tinha acabado de me formar pela Universidade de Harvard. Tinha acabado de me mudar para Nova Iorque, para o meu primeiro emprego como escritora e editora da revista "Seventeen". Tinha o meu primeiro apartamento, o meu primeiro cartão verde <i>American Express</i> e um grande segredo. O meu segredo era ter uma arma destas, carregada com balas de ponta oca, apontada à minha cabeça pelo homem que eu pensava ser a minha alma gémea, muitas, muitas vezes. O homem que eu amava mais do que tudo na vida apontou-me uma arma à cabeça e ameaçou matar-me mais vezes do que me consigo lembrar. Estou aqui para vos contar a história de um amor louco, uma armadilha psicológica disfarçada de amor, na qual milhões de mulheres e até alguns homens caem todos os anos. Pode até ser a vossa história.

1:39 Eu não me pareço com a típica sobrevivente de violência doméstica. Tenho uma licenciatura em Inglês pela Universidade de Harvard e um MBA em <i> Marketing</i> pela Business School de Wharton. Passei a maior parte da minha carreira a trabalhar para empresas da Fortune 500, incluindo a Johnson & Johnson, Leo Burnett e o "The Washington Post". Estou casada há quase 20 anos com o meu segundo marido e temos três filhos juntos. O meu cão é um Labrador preto e conduzo um monovolume Honda Odyssey. (Risos)

2:08 Então, a minha primeira mensagem para vocês é que a violência doméstica acontece a qualquer pessoa – de todas as raças, religiões e níveis de educação e rendimentos. Está por todo o lado. E a minha segunda mensagem é que toda a gente pensa que a violência doméstica acontece às mulheres, que é um assunto das mulheres. Não propriamente. Mais de 85% dos agressores são homens, e a violência doméstica passa-se apenas em relações de intimidade, interdependência e de longa duração, por outras palavras, nas famílias, o último sítio em que desejaríamos ou esperaríamos encontrar violência, o que é um dos motivos pelo qual a violência doméstica é tão confusa.

2:48 Eu própria vos teria dito que era a última pessoa que ficaria com um homem que me batesse mas, na realidade, era uma vítima típica devido à minha idade. Tinha 22 anos e, nos Estados Unidos, as mulheres entre os 16 e os 24 anos têm três vezes mais probabilidades de serem vítimas de violência doméstica do que mulheres de outras idades. Mais de 500 mulheres e raparigas destas idades são assassinadas todos os anos por companheiros agressivos, namorados e maridos, nos Estados Unidos.

3:22 Também fui uma vítima típica porque não sabia nada sobre violência doméstica, sobre os sinais de alerta ou os seus padrões.

3:30 Conheci o Conor numa noite de janeiro fria e chuvosa. Ele sentou-se ao meu lado no metro de Nova Iorque e começou a dar-me conversa. Ele contou-me duas coisas. Uma foi que, também ele, se tinha formado numa Universidade da <i>Ivy League</i> e que trabalhava num prestigiado banco de Wall Street. Mas o que me impressionou mais, naquele primeiro encontro, foi ele ser inteligente e divertido e se parecer com um rapaz da quinta. Ele tinha bochechas grandes, umas grandes bochechas redondas e um cabelo louro claro e parecia tão amoroso.

4:05 Uma das coisas mais inteligentes que o Conor fez, desde o início, foi criar a ilusão de que eu era o parceiro dominante na relação. Ele fez isto sobretudo no início, idolatrando-me. Começámos a namorar e ele adorava tudo sobre mim, eu ser inteligente, ter andado em Harvard, ter prazer em ajudar jovens raparigas, e o meu emprego. Ele queria saber tudo sobre a minha família, sobre a minha infância e sobre os meus desejos e sonhos. O Conor acreditava em mim, enquanto escritora e mulher, de uma forma que mais ninguém havia acreditado. Ele também criou um ambiente mágico de confiança entre nós, confessando-me o seu segredo, que era que, enquanto menino a partir dos quatro anos, ele havia sido fisicamente abusado de forma selvagem e repetida pelo seu padrasto e os abusos tornaram-se tão insuportáveis que teve de desistir da escola no 8.º ano e, apesar de ser muito inteligente, ele passou quase 20 anos a reconstruir a vida. Daí que o curso da <i>Ivy League</i>, o trabalho em Wall Street e o seu futuro brilhante tivessem tanta importância para ele. Se me tivessem dito que este homem inteligente, divertido e sensível, que me adorava, iria um dia ditar se eu usava ou não maquilhagem, o comprimento das minhas saias, onde eu vivia, que trabalhos aceitava, quem eram os meus amigos e onde passava o natal, eu ter-me-ia rido de vocês, porque não havia sequer vestígios de violência, controlo ou raiva no Conor, ao início. Eu não sabia que a primeira fase, em qualquer relação de violência doméstica, era seduzir e encantar a vítima.

5:51 Eu também não sabia que o segundo passo era isolar a vítima. Agora, o Conor não chegou a casa um dia e anunciou: "Sabes, toda esta coisa do Romeu e Julieta tem sido boa mas eu preciso passar para a fase seguinte, em que te isolo e maltrato" – (Risos) – "portanto preciso tirar-te deste apartamento, onde os vizinhos conseguem ouvir-te gritar e fora desta cidade onde tens família e amigos e colegas de trabalho que podem ver as nódoas negras". Em vez disso, o Conor chegou a casa numa 6.ª feira à tarde e disse-me que se tinha despedido do emprego nesse dia, do seu emprego de sonho, e ele disse que se havia despedido por causa de mim, porque eu o fazia sentir-se tão seguro e amado que ele já não tinha que se provar em Wall Street e ele apenas queria sair da cidade, para longe da sua família agressiva e disfuncional e mudar-se para uma cidadezinha em Nova Inglaterra, onde podia começar a vida de novo comigo ao seu lado. Agora, a última coisa que eu queria era deixar Nova Iorque e o meu emprego de sonho, mas pensei que tínhamos que fazer sacrifícios pela nossa alma gémea. Então, concordei e deixei o meu emprego. O Conor e eu saímos de Manhattan juntos. Eu não fazia ideia de que estava a cair num amor louco, que estava a entrar de cabeça numa armadilha física, financeira e psicológica muito bem montada.

7:20 O passo seguinte no padrão da violência doméstica é apresentar a ameaça da violência, e ver como ela reage. E é aqui que entram aquelas armas. Assim que nos mudámos para Nova Inglaterra – aquele lugar onde o Conor se deveria sentir tão seguro – ele comprou três armas. Ele guardava uma no porta-luvas do nosso carro. Guardava uma debaixo das almofadas na nossa cama, e a terceira andava sempre com ela no bolso. E ele disse que precisava dessas armas por causa do trauma que vivera em criança. Ele precisava delas para se sentir protegido. Mas essas armas eram, na realidade, uma mensagem para mim, e embora ele não me tivesse levantado a mão, a minha vida já estava em grande perigo a cada minuto, de cada dia.

8:08 O Conor atacou-me fisicamente, pela primeira vez, cinco dias antes do nosso casamento. Eram 7h da manhã e eu ainda estava de camisa de dormir. Estava ao computador a tentar acabar um trabalho de escrita e fiquei frustrada. O Conor usou a minha frustração como desculpa para pôr as duas mãos à volta do meu pescoço e para apertar com tanta força que eu não conseguia respirar ou gritar. Ele usou o estrangulamento para bater com a minha cabeça repetidamente contra a parede. Cinco dias depois, as dez nódoas negras no meu pescoço haviam desaparecido e eu vesti o vestido de noiva da minha mãe e casei-me com ele.

8:51 Apesar do que havia acontecido, eu estava certa de que iríamos viver felizes para sempre, porque eu o amava e ele me amava muito de volta. E ele estava muito, muito arrependido. Ele estava muito stressado com o casamento e com a formação de uma família comigo. Foi um incidente isolado e ele nunca mais me iria magoar.

9:15 Aconteceu mais duas vezes na lua-de-mel. A primeira vez, eu estava a conduzir para tentar encontrar uma praia desconhecida e perdi-me. Ele bateu-me com tanta força na lateral da cabeça que o outro lado da minha cabeça bateu várias vezes na janela, do lado do condutor. E alguns dias mais tarde, de regresso a casa após a lua-de-mel, ele ficou frustrado com o trânsito e atirou-me com um Big Mac frio à cara. O Conor continuou a bater-me uma a duas vezes por semana durante os dois anos e meio do nosso casamento.

9:46 Eu estava enganada ao pensar que era única e que estava sozinha nesta situação. Uma em cada três mulheres norte-americanas vive a experiência da violência doméstica ou a perseguição em alguma fase da vida e os relatórios do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças prevê que 15 milhões de crianças sejam abusadas todos os anos, 15 milhões. Portanto, na realidade, eu estava em muito boa companhia.

10:09 De volta à minha pergunta: Porque é que fiquei? A resposta é fácil. Eu não sabia que ele me estava a maltratar. Apesar de ele me ter apontado aquelas armas carregadas à cabeça, empurrado escadas abaixo, ameaçado matar o nosso cão, arrancado a chave da ignição do carro enquanto eu conduzia auto-estrada fora, deitado borras de café na minha cabeça quando me vestia para uma entrevista de emprego, nunca pensei em mim enquanto esposa maltratada. Em vez disso, eu era uma mulher muito forte, apaixonada por um homem muito problemático, e eu era a única pessoa à face da Terra que podia ajudar o Conor a enfrentar os seus demónios.

10:51 A outra pergunta que toda a gente coloca é: porque é que ela não se foi embora? Porque é que não o abandonei? Eu podia ter saído em qualquer altura. Para mim, esta é a pergunta mais triste e dolorosa que as pessoas fazem, porque nós, as vítimas, sabemos algo que vocês, normalmente, não sabem: É extremamente perigoso deixar um agressor, porque o último passo no padrão de violência doméstica é matá-la. Mais de 70% dos homicídios por violência doméstica acontecem após a vítima ter terminado a relação, após ter saído de casa, porque aí o agressor não tem nada a perder. Outros resultados incluem perseguição de longa duração, mesmo depois do agressor voltar a casar; negação de recursos financeiros e manipulação do tribunal de família para aterrorizar a vítima e os seus filhos, que são regularmente forçados por juízes do tribunal de família a passarem tempo não supervisionado com o homem que batia na mãe deles. E ainda perguntamos porque é que ela não sai de casa?

12:00 Eu consegui sair devido a uma tareia final e sádica, que acabou com a negação em que estava. Apercebi-me que o homem que eu tanto amava me mataria, se eu deixasse. Então, rompi o silêncio. Contei a toda a gente: à polícia, aos meus vizinhos, aos meus amigos, absolutos estranhos, e estou aqui hoje porque todos vocês ajudaram.

12:33 Tendemos a estereotipar as vítimas como manchetes aterradoras, mulheres auto-destrutivas, bens danificados. A pergunta: "Porque é que ela fica?", é código para algumas pessoas, para: "A culpa é dela por ficar", como se as vítimas escolhessem intencionalmente apaixonar-se por homens apostados em as destruirem.

12:57 Mas desde a publicação de "Amor Louco", tenho ouvido centenas de histórias de homens e mulheres que saíram da relação, que aprenderam uma lição preciosa com o que lhes aconteceu e que reconstruíram as vidas – vidas alegres, felizes – enquanto empregados, esposas e mães, vidas totalmente livres de violência, como a minha. Porque, no fim de contas, eu sou a típica vítima de violência doméstica e a típica sobrevivente de violência doméstica. Eu voltei a casar com um homem amável e gentil e temos três filhos juntos. Tenho o tal Labrador preto e tenho o tal monovolume. O que eu nunca mais terei, nunca mais, é uma arma carregada apontada à cabeça por alguém que diz amar-me.

13:50 Agora, talvez estejam a pensar: "Uau, isto é fascinante" ou "Uau, que parva que foi", mas todo este tempo, tenho estado a falar de vocês. Garanto-vos que existem muitas pessoas a ouvirem-me neste momento que são maltratadas ou que foram violentadas em criança, ou que são, elas mesmas, agressoras. Os abusos podem estar a afetar a vossa filha, a vossa irmã, a vossa melhor amiga, neste instante.

14:25 Eu consegui acabar com a minha própria história de amor louco, rompendo o silêncio. Ainda hoje quebro o silêncio. É a minha forma de ajudar outras vítimas e é o último apelo que vos faço. Falem do que aqui ouviram. Os maus-tratos crescem apenas com o silêncio. Vocês têm o poder de acabar com a violência doméstica apenas chamando a atenção para o tema. Nós, as vítimas, precisamos de toda a gente. Nós precisamos que cada um de vós compreenda os segredos da violência doméstica. Exponham o tema dos maus-tratos, falando dele com os vossos filhos, os vossos colegas de trabalho, os vossos amigos e família. Vejam os sobreviventes como pessoas maravilhosas, adoráveis com futuros completos. Reconheçam os primeiros sinais da violência e intervenham de forma consciente, diminuam-na, mostrem a saída às vítimas. Juntos podemos fazer das nossas camas, das nossas mesas de jantar e das nossas famílias, o óasis seguro e perfeito que devem ser.

15:40 Obrigada.

15:42 (Aplausos)