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Alguns de vocês já ouviram a história antes, mas, na verdade, há alguém na assistência que nunca a ouviu antes, perante uma assistência, por isso estou um pouco mais nervoso do que costumo estar quando a conto. Fui fotógrafo durante muitos anos. Em 1978 trabalhava para a Time Magazine, e foi-me dado um trabalho de 3 dias -- fotografar crianças Amerasiáticas, crianças cujos pais eram soldados Americanos, por todo o Sudeste Asiático, que depois as abandonaram. 40 mil crianças por toda a Ásia. Eu nunca tinha ouvido a palavra Amerasiático antes. Passei alguns dias a fotografar crianças em diferentes países, e como muitos fotógrafos e muitos jornalistas, espero sempre que quando as minhas fotografias são publicadas tenham algum efeito na situação em vez de só a documentar.
Então fiquei tão perturbado com o que vi e fiquei tão infeliz com o artigo que se seguiu, que decidi tirar 6 meses de folga. Tinha 28 anos. Decidi encontrar 6 crianças em países diferentes, e passar mesmo algum tempo com os miúdos e tentar contar as suas histórias um pouco melhor do que pensava ter feito para a Time Magazine. Enquanto preparava a história procurei crianças que não tivessem sido fotografadas antes, e a Fundação Pearl Buck contou-me que tinham trabalhado com muitos Americanos que doavam dinheiro para ajudar alguns desses miúdos. E foi-me dito pela pessoa que geria a Fundação Pearl Buck na Coreia que havia uma menina de 11 anos a ser criada pela avó. E a avó nunca tinha deixado nenhum Ocidental vê-la. Cada vez que um Ocidental chegava à aldeia, ela escondia a menina. E claro que fiquei imediatamente intrigado. Vi muitas fotografias dela, e decidi que queria ir. E um tipo tinha-me dito, "Não há hipótese. A avó nem sequer, sabes, não há hipótese de alguma vez te deixar ver a menina que está a criar".
Levei comigo uma tradutora e fomos a uma aldeia, encontrámos a avó, sentámo-nos com ela. E, para meu espanto, ela concordou deixar-me fotografar a neta. E era eu quem estava a pagar, por isso perguntei à tradutora se não havia problema em ficar uma semana. Eu tinha um saco-cama. A família tinha um pequeno barraco ao lado da casa, por isso disse, "Posso dormir no meu saco-cama à noite?". E disse apenas à menina, cujo nome era Hyun Sook Lee, que se alguma vez fizesse algo que a embarassasse, ela não falava uma palavra de Inglês, embora parecesse muito Americana, bastaria que levantasse o braço e dissesse, "Stop". E eu pararia de tirar fotografias. E a minha tradutora foi-se embora. Então lá estava eu, sem saber falar Coreano, e esta foi a noite em que conheci a Hyun Sook. A mãe dela ainda estava viva. Não era a mãe que a estava a criar, mas sim a avó. E o que me surpreendeu imediatamente foi como se amavam estas duas pessoas. A avó tinha um carinho incrível e amava profundamente esta menina. Dormiam no chão à noite. A forma de aquecer as casas na Coreia é pondo tijolos por baixo do chão, de forma a que o calor irradie debaixo do soalho. A Hyun Sook tinha 11 anos.
Eu tinha fotografado, como já disse, muitos destes miúdos. A Hyun Sook foi a quinta criança que encontrei para fotografar. E quase universalmente, este grupo de miúdos, tinha danos psicológicos reais por terem sido gozados, ridicularizados, abusados e rejeitados. E a Coreia era provavelmente, dos que encontrei, o pior lugar para estes miúdos. E o que me surpreendeu assim que conheci a Hyun Sook foi o quão confiante ela parecia ser, quão feliz ela parecia estar na sua própria pele. E lembrem-se desta imagem, porque vou mostrar-vos outra mais tarde, mas podem ver o quanto se parece com a sua avó, embora pareça tão Ocidental. Decidi segui-la até à escola. Foi a primeira manhã que fiquei com ela. Isto é a caminho da escola. Isto é a assembleia matinal à porta da escola dela. E notei que ela estava a fazer palhaçadas. Quando os professores faziam perguntas, ela era a primeira pessoa a levantar o braço. Uma vez mais, nada tímida ou retraída, nada como as outras crianças que tinha fotografado. Era também a primeira a ir ao quadro responder a perguntas. A ter problemas por sussurrar ao ouvido da melhor amiga no meio da aula. E outra das coisas que lhe disse através da tradutora, além daquilo de dizer "Stop" -- foi para não me prestar atenção. E então ela ignorou-me completamente a maior parte do tempo. Reparei que no intervalo, ela era a rapariga que escolhia as outras para ser da sua equipa. Era muito óbvio, desde o início, que ela era uma líder. Isto é a caminho de casa. E ali é a Coreia do Norte na colina ao fundo. Isto é ao longo da zona desmilitarizada. Eles tapavam as janelas todas as noites para que as luzes não se vissem, porque o governo da Coreia do Sul disse durante anos que a Coreia do Norte podia invadir a qualquer momento. Então havia sempre isto: quanto mais próximos da Coreia do Norte, mais assustador era.
Muitas vezes na escola, eu estava a tirar fotografias, e ela segredava ao ouvido da amiga, e olhava para mim e dizia, "Stop". E eu ficava em sentido e todas as miúdas se riam, e era uma espécie de piada. (Risos) Chegou o final da semana e a minha tradutora voltou, porque eu tinha-lhe pedido para voltar, para poder agradecer formalmente à avó e à Hyun Sook. E enquanto a avó falava com a tradutora, a avó começou a chorar. E eu perguntei à tradutora, "Que se passa, porque chora ela?". E ela falou com a avó por uns momentos, e começou ela a ficar com lágrimas nos olhos. E eu perguntei, "Ok, que fiz eu, que se passa, porque estão todos a chorar?". E a tradutora disse, "A avó diz que acha que está a morrer, e quer saber se podes levar a Hyun Sook para a América contigo". E eu disse, "Eu tenho 28 anos, e vivo em hotéis, e não sou casado". Quer dizer, eu tinha-me apaixonado por esta miúda, mas eu, sabem como é, era como se emocionalmente tivesse 12 anos. Se conhecem fotógrafos, a piada corre que diz que é a melhor forma de adolescência prolongada alguma vez inventada. "Desculpem, eu tenho um trabalho, volto depois". E depois nunca voltam.
Por isso perguntei à tradutora porque pensava que estava a morrer. Se a podia levar a um hospital, pagar um médico? E ela recusou qualquer tipo de ajuda. E então eu saí, dei algum dinheiro à tradutora e disse, "Por favor, volte e veja se pode fazer alguma coisa". E dei à avó o meu cartão. E disse, "Se estiver a falar a sério, eu vou tentar encontrar uma família para ela". E imediatamente escrevi uma carta aos meus melhores amigos de Atlanta, Georgia, que tinham um filho de 11 anos. E o meu melhor amigo tinha dito um dia, por engano, algo sobre desejar ter tido outra criança. Então, aqui os meus amigos Gene e Gail não tinham notícias minhas há um ano. E subitamente eu estava a ligar, "Estou na Coreia, e conheci esta rapariga extraordinária". E disse, "A avó acha que está doente, mas acho que talvez também tivéssemos que trazer a avó" E eu disse "Eu pago o...". Quer dizer, eu já tinha este plano todo construído. De qualquer maneira, fui embora. E os meus amigos até disseram que estavam muito interessados em adoptá-la. E eu disse, "Olhem, acho que vou assustar de morte a avó se chegar a escrever-lhe a dizer que estão dispostos a adoptá-la -- eu quero voltar para falar com ela." Mas eu estava fora em trabalho. Achei que podia voltar duas semanas depois e falar com a avó.
E no dia de Natal, estava em Banguecoque com um grupo de fotógrafos e recebi um telegrama -- na altura ainda havia telegramas -- da Time Magazine a dizer que alguém na Coreia tinha morrido, e me tinha deixado uma criança em testamento. Se sabia alguma coisa sobre isto. Porque eu não lhes tinha dito o que estava a fazer, por ter ficado tão chateado com a história que publicaram. Então voltei à Coreia e fui até à aldeia da Hyun Sook, e ela tinha partido. E a casa em que tinha estado estava vazia. Estava um frio incrível. Ninguém na aldeia me dizia para onde tinha ido a Hyun Sook, porque a avó sempre a tinha escondido de Ocidentais. E não faziam ideia deste pedido que ela me tinha feito. Finalmente encontrei a Myung Sung, a melhor amiga com quem brincava todos os dias depois da escola. E a Myung Sung, um pouco sob pressão minha e da tradutora, deu-nos um endereço fora de Seul. E eu fui a esse endereço e bati à porta, e um homem abriu a porta. Não era uma área muito boa de Seul, e havia estradas de lama em frente à casa. E eu bati à porta, e a Hyun Sook foi à porta, e tinha os olhos raiados de sangue, e parecia estar em choque, não me reconheceu, não me reconheceu de todo. E um homem veio à porta e gritou algo em Coreano. E perguntei à tradutora, "O que foi que ele disse?". E ela disse, "Ele quer saber quem você é". E eu disse, "Bem, diga-lhe que sou um fotógrafo". Eu comecei a explicar quem era, e ele interrompeu. E ela disse, "Ele diz que sabe quem é, o que quer você?" Eu disse, "Bem, diga-lhe que me foi pedido pela avó desta menina que lhe encontrasse uma família". E ele disse, "Eu sou o tio dela, ela está bem, pode ir embora".
E eu fiquei - sabem, a porta estava a ser fechada na minha cara, estava um frio incrível, e eu a pensar, "O que é que um herói faria num filme se eu estivesse a escrever isto como um argumento de um filme?". Então eu disse, "Ouça, está mesmo frio, vim de muito longe, importa-se que eu entre um minuto? Estou a congelar". Então o tipo relutantemente deixou-nos entrar e sentamo-nos no chão. E quando começávamos a falar, ele gritou algo, e a Hyun Sook veio e trouxe-nos alguma comida. E eu tinha esta imagem mental, de algo como a Cinderela. Eu tinha esta ideia de uma criança fantástica, brilhante e feliz, que agora parecia estar muito retraída, a ser escravizada por esta família. E eu estava horrorizado e não sabia o que fazer. E quanto mais tentava falar com ele, menos amigável ele ficava. Então finalmente decidi dizer, "Ouça", tudo isto com recurso à tradutora, porque afinal, sabem como é, eu não falo uma palavra de Coreano, e disse, "Ouça, estou mesmo contente que a Hyun Sook tenha uma família com quem viver. Estava muito preocupado com ela. Fiz uma promessa à avó, a sua mãe, que lhe encontraria uma família, e agora estou feliz que esteja a cuidar dela". Eu disse, "Mas sabe, eu comprei um bilhete de avião, e estou aqui preso por uma semana". E disse, "Estou ali num hotel na baixa. Querem ir lá e almoçamos amanhã? E você pode praticar o seu Inglês", porque ele me tinha dito, eu fiz-lhe algumas perguntas sobre ele próprio. E então fomos para o hotel, e encontrei dois Amerasiáticos mais velhos. Uma rapariga cuja mãe tinha sido prostituta, e ela era prostituta também, e um rapaz que andava dentro e fora da cadeia. E disse-lhes, "Ouçam, há uma menina que tem uma pequena chance de sair e ir para a América". Disse, "Não sei se é a decisão correcta ou não, mas gostaria que viessem ao almoço amanhã e digam ao tio como é andar pela rua, ouvir o que as pessoas vos dizem, como ganham a vida. E só quero que ele perceba o que vai acontecer se ela ficar. Posso estar errado, não sei, mas gostava que viessem amanhã".
Então os dois vieram ao almoço e fomos expulsos do restaurante. Eles gritaram com ele, eles -- aquilo ficou muito feio. Então saímos, e ele estava completamente furioso. E eu percebi que tinha estragado tudo. E lá estava eu de novo, a tentar descobrir o que fazer. E ele começou a gritar comigo, e disse à tradutora, "Ok, diga-lhe que se acalme, que está ele a dizer?" E ela disse, "Bem, ele está a dizer, 'Quem é você para entrar em minha casa, um Americano rico com câmaras ao pescoço, a acusar-me de escravizar a minha sobrinha? Esta é a minha sobrinha, adoro-a, é a filha da minha irmã. Quem diabo é você para me acusar de algo assim?". E eu disse, "Ouça. Você está absolutamente certo. Eu não vou fazer de conta que percebo o que se está a passar." Disse, "A única coisa que sei é que tenho fotografado muitas destas crianças". Disse, "Adoro a sua sobrinha, acho que é uma criança incrivelmente especial" e disse, "Ouça, eu trago cá os meus amigos dos Estados Unidos se os quiser conhecer, para ver se os aprova. Acho só que, do pouco que conheço da situação, que ela tem poucas hipóteses de ter aqui o tipo de vida que provavelmente quer que ela tenha".
Então todos me disseram depois que convidar os possíveis pais foi, de novo, a coisa mais estúpida que podia ter feito, porque quem é que vai ser suficientemente bom para um parente? Mas ele convidou-me para uma cerimónia que estavam a ter naquele dia em honra da avó. E o que eles fazem é pegar em roupas e fotografias, e queimá-las como parte do ritual. E podem ver como ficou tão diferente em apenas 3 meses. Por esta altura era, acho, início de Fevereiro. E as fotografias anteriores foram tiradas em Setembro. Bem, havia um padre Americano dos Marines que eu tinha conhecido enquanto fazia esta história, que tinha 75 crianças a viver em sua casa. Ele tinha 3 senhoras a ajudá-lo a cuidar das crianças. Então sugeri ao tio que fôssemos falar com o padre Keene, perceber como o processo de adopção funcionava. Porque queria que ele sentisse que tudo isto estava a ser feito sem subterfúgios.
Isto é a caminho do orfanato. Este e o padre Keene. É um tipo espectacular. Ele tinha miúdos de toda a Coreia a viver lá, e ele encontrava famílias para estes miúdos. Esta é uma assistente social a entrevistar a Hyun Sook. Eu achava que ela tinha estado completamente imune a tudo isto, porque a avó, pareceu-me ser uma espécie de sábia da aldeia, e a pessoa que toda a gente -- reparei que ao longo do dia várias pessoas vinham visitar a avó. E sempre tive esta ideia que embora fossem uma das famílias mais pobres da aldeia, eram uma das famílias mais respeitadas. E eu sempre senti que a avó tinha exigido e insistido com os aldeões que tratassem a Hyun Sook com o mesmo respeito que a tratavam a ela. A Hyun Sook ficou em casa do padre Keene, e o tio aceitou deixá-la ficar lá até que a adopção se completasse. Ele acabou por aceitar a adopção.
E eu parti para um trabalho e voltei uma semana mais tarde, e o padre Keene disse, "Tenho que falar consigo sobre a Hyun Sook". Eu disse, "Oh meu Deus, que foi agora?". E ele leva-me para uma sala, e fecha a porta, e diz, "Eu tenho 75 crianças no orfanato e é a confusão total". E há roupas, e miúdos, e, você sabe como é, há 3 adultos e 75 crianças. Pode imaginar". E ele disse, "Ao segundo dia aqui, ela a fez uma lista com os nomes de todos os miúdos mais velhos e mais novos. E atribuiu um miúdo mais velho a cada um dos miúdos mais novos. E depois criou uma lista de trabalho de quem limpava o orfanato em cada dia". E disse, "Ela anda a dizer-me que sou desarrumado e que tenho que arrumar o meu quarto". E ele disse, "Eu não sei quem a criou, mas," disse ele, "Ela está a gerir o orfanato, e só está cá há 3 dias": (Risos)
Este foi o dia do cinema que ela organizou, em que todos os miúdos iam ao cinema. Muitos dos miúdos que tinham sido adoptados acabavam por escrever aos outros, contando-lhes como era a vida deles com as novas famílias. Então era uma grande acontecimento quando chegavam cartas. Esta é uma senhora que trabalha agora no orfanato cujo filho tinha sido adoptado. O Gene e a Gail começaram a estudar Coreano logo que receberam a minha primeira carta. Queriam mesmo poder receber bem a Hyun Sook na sua família. E uma das coisas que o padre Keene me disse quando voltei de uma dessas viagens, foi que a Hyun Sook tinha escolhido o nome Natasha, que eu depois percebi tinha sido por ver um desenho animado na estação da Força Aérea Americana. Isto é um daqueles mitos que vamos poder esclarecer aqui, daqui a pouco.
Então o meu amigo Gene veio com o seu filho, Tim. A Gail não pôde vir. E passaram muito tempo debruçados sobre um dicionário. E aqui era o Gene a mostrar ao tio onde Atlanta ficava no mapa, onde ele vivia. Aqui é o tio a assinar os papeis da adopção. Agora, nós fomos jantar essa noite para celebrar. O tio voltou para a sua família, e a Natasha, o Tim, o Gene e eu fomos jantar. E o Gene estava a mostrar à Natasha como usar a faca e o garfo, e a Natasha devolvia as lições sobre utensílios. Voltámos ao nosso quarto de hotel, e o Gene estava a mostrar à Natasha onde ficava Atlanta. Esta era a nossa terceira noite na Coreia. Na primeira noite reservámos um quarto para os miúdos junto a nós.
Eu já estava naquele quarto há cerca de 3 meses, era um pequeno hotel Coreano de 15 andares. Então na segunda noite, não ficámos com o quarto dos miúdos, porque fomos dormir no chão com os miúdos todos no orfanato. E na terceira noite voltámos, tínhamos saído para jantar onde viram as fotografias, e chegámos à recepção e o tipo que estava na recepção disse, "Não há mais quartos livres no vosso andar esta noite, por isso se quiser por os miúdos 5 andares abaixo, há lá um quarto". O Gene e eu olhámos um para o outro e dissemos, Não, não queremos dois miúdos de 11 anos tão longe". Então o filho disse, "Pai, eu tenho o saco-cama, eu durmo no chão". E eu disse, "Sim, eu também tenho um". Então o Tim e eu dormimos no chão, a Natasha ficou numa cama, o Gene noutra, os miúdos adormecem, estavam a ser 3 dias muito entusiasmantes.
Estamos na cama, o Gene e eu a dizermos como éramos porreiros. Dissemos, "Isto foi tão bom, salvámos a vida desta menina". Estávamos, sabem, com a mania. E adormecemos. E eu já estava neste quarto há dois meses. E, na Coreia, aquecem sempre terrivelmente os hoteis, então durante o dia deixava sempre a janela aberta. E à noite, perto da meia noite, desligam o aquecimento no hotel, então, pela 1 da manhã, o quarto ficava a -20 °C, e eu levantava-me. Fazia isto todas as noites que lá estive. Então como estava previsto, há 1 da manhã, o quarto estava gelado, eu vou para fechar a janela e ouço pessoas aos gritos lá fora, e pensei, "Oh, os bares devem ter fechado". E eu não falo Coreano, mas ouço estas vozes, e não ouço raiva, ouço terror. Então abro a janela, e olho lá para fora, e há chamas a subir pela parede do nosso hotel, e o hotel está a arder. Então corro até ao Gene, e acordo-o, e digo-lhe, "Gene, não te assustes, acho que o hotel está a arder". E agora há fumo e chamas do lado de fora nas nossas janelas, estamos no 11º andar. Então estávamos os dois, "Ó meu Deus, ó meu Deus". Estamos a tentar acordar a Natasha, mas não conseguimos falar com ela. E sabem como são os miúdos quando só estão a dormir há uma hora, é como se tivessem tomado 5 Valiums, nem sabem onde estão. E não conseguimos falar com ela. Lembro-me que o filho dele tinha atacadores da L.L. Bean, e estamos a tentar atá-los. Então estamos a tentar chegar à porta, corremos para ela, e abrimo-la e é como se entrássemos num alto-forno. Há pessoas a gritar, há o som de vidro a partir, há uns barulhos estranhos. E o quarto encheu-se todo de fumo em cerca de 2 segundos. E o Gene volta-se e diz, "Não nos vamos conseguir safar". E fecha a porta, e todo o quarto está agora cheio de fumo. Estamos a sufocar, e há fumo a entrar pela ventilação, por baixo das portas, há pessoas aos gritos. Lembro-me só deste inacreditável e absoluto caos. Lembro-me de estar sentado ao lado da cama e estava tão... Eu tinha dois sentimentos esmagadores. Um era terror absoluto. Do tipo, "Ó, por favor Deus, só quero acordar, isto tem que ser um pesadelo, não pode estar a acontecer, por favor, só quero acordar, tem que ser um pesadelo". E o outro era uma culpa inacreditável. Ando aqui a fazer de Deus com a vida dos meus amigos, do seu filho, da Natasha, e isto é o que acontece quando tentamos fazer de Deus, magoamos pessoas. Lembro-me de estar tão assustado e aterrorizado. E o Gene, que está deitado no chão, diz, "Pá, temos que encharcar toalhas". Eu disse, "O quê?". Ele diz, "temos que encharcar toalhas. Vamos morrer com o fumo". Então corremos para o WC, arranjámos toalhas, e pusemo-las sobre os nossos rostos e dos miúdos. E depois ele disse, "Tens fita adesiva?". Eu disse, "O quê?". Ele disse, "Tens fita adesiva?". Eu disse, "Sim, algures na minha mala". Ele diz, "Temos que parar este fumo". Disse, "É tudo que podemos fazer, temos que parar o fumo". Quer dizer, o Gene, graças a Deus pelo Gene. Então pusemos os menus do serviço de quartos a tapar a ventilação, pusemos cobertores no fundo da porta, pusemos os miúdos nas janelas para apanharem ar, e havia um edifício, um edifício novo, que estava a ser construído ali ao lado, em frente ao nosso hotel. E no edifício havia fotógrafos à espera que as pessoas saltassem. Onze pessoas acabaram por morrer no fogo. Cinco pessoas saltaram e morreram, outros morreram devido ao fumo. E depois ouve-se a bater forte na porta, depois de 45 minutos nisto tudo, e pessoas a gritar em Coreano. E lembro-me, a Natasha não queria que abríssemos a porta, desculpem, eu estava a tentar não abrir a porta, porque tínhamos perdido tanto tempo a barricar a porta. Eu não sabia quem eram, não sabia o que queriam, e a Natasha percebeu que eram bombeiros a tentar tirar-nos de lá. Lembro-me de uma luta para tentarem abrir a porta. De qualquer forma, 12 horas depois, puseram-nos na entrada. O Gene acabou por usar o casaco, e o seu punho no casaco, para abrir o armário das bebidas. Havia pessoas deitadas no chão. Foi uma daquelas noites horríveis.
E 12 horas depois, alugámos um carro, como tínhamos planeado, e dirigimo-nos para a aldeia da Natasha. E eu só dizia, "Tens noção que estávamos a morrer num incêncio, há umas 8 horas?". É tão estranho como a vida continua. A Natasha queria apresentar o irmão e o pai a todos os aldeões, e o dia em que fomos acabou por ser o aniversário de um homem de 60 anos, este tipo tem 60 anos. Então acabou por ser uma celebração dupla, porque a Natasha era a primeira pessoa desta aldeia a ir para os Estados Unidos. Estas são as tendas-estufa. Aqui os anciãos ensinam ao Gene as suas danças. Bebemos muito vinho de arroz, estávamos tão bêbedos, eu nem acreditava.
Esta é a última fotografia antes do Gene e do Tim voltarem. O pessoal da adopção disse-nos que ia demorar 1 ano para a adopção se concretizar. O que é que poderia demorar 1 ano? Então descobrimos o nome de cada funcionário nos lados Coreano e Americano, e fotografei-os a todos e disse-lhes como iriam ficar famosos quando o livro estivesse pronto. E quatro meses mais tarde, os papeis da adopção saíram. Aqui é o adeus a todos no orfanato. Aqui é o padre Keene com a Natasha na paragem de autocarro. A tia-avó dela no aeroporto. Eu tive um excelente acordo com a companhia Cathay Pacific por muitos anos, em que me davam voos grátis nas suas companhias em troca de fotografias. Era o derradeiro privilégio. E o piloto, que eu até conhecia, porque costumavam deixar-me sentar na cabine, só para verem há quanto tempo isto foi. Este é um Tri-Star, então deixaram a Natasha sentar-se na cabine. E o piloto, Jeff Cowley, acabou mesmo por voltar e adoptou um outro miúdo do orfanato depois de conhecer a Natasha.
Isto é 28 horas mais tarde em Atlanta, é um voo muito longo. Só para tornar as coisas mais loucas, a Gail, a nova mãe da Natasha, estava a 3 dias de dar à luz a sua filha mais nova. Então, se estivessem a escrever isto, diriam, "Não, temos que mudar o argumento." Esta é a primeira noite, em que a Natasha conhece os novos primos, tios e tias. O Gene e a Gail conhecem toda a gente em Atlanta, são o casal mais social que possam imaginar. E por esta altura, a Natasha não fala uma palavra de Inglês, além do pouco que o padre Keene lhe ensinou. Esta é a Kylie, a irmã dela, que é agora médica, à direita. Isto foi um acordo que fiz com a Natasha, que quando chegássemos a Atlanta ela podia tirar-me, podia cortar-me a barba. Nunca gostou muito dela.
Ela aprendeu Inglês em 3 meses. Entrou no 7º ano na idade correcta. O juramento pela primeira vez. A professora de culinária dela. A Natasha disse-me que muitos miúdos pensavam que era convencida, porque falavam muito com ela e ela não respondia, e não se tinham apercebido que ela não falava bem Inglês ao início. Mas o que reparei, de novo como observador, é que ela escolhia quem é que ia fazer parte da equipa dela. E pareceu tornar-me muito popular, muito rapidamente. Agora, lembram-se da fotografia, de como se parecia com a avó, no início? As pessoas diziam sempre à Natasha que se parecia muito com a mãe, a Gail. Este é um momento tenso no primeiro jogo de futebol americano, creio. E a Kylie, quer dizer, é quase como se a Kylie fosse filha dela. Ela a ser baptizada. Muitos pais, quando adoptam, tentam apagar a história dos seus filhos. A Gail e o Gene fizeram exactamente o oposto. Estudaram Coreano, compraram roupas Coreanas. O Gene até pôs azulejos na cozinha, a contar a história de uma menina muito bonita que veio das colinas da Coreia viver feliz para sempre em Atlanta.
Ela odeia esta fotografia: o primeiro emprego dela. Ela comprou um Karmann Ghia vermelho vivo com o dinheiro que juntou a trabalhar no Burger King. A capitã das chefes de claque. Concurso de beleza. Costumava fazer os cartões de Natal todos os anos. O Gene anda a restaurar este carro há milhões de anos.
A Kodak contratou a Natasha para ser tradutora nos Jogos Olímpicos na Coreia. O futuro marido, Jeff, estava a trabalhar para a Canon, e conheceu a Natasha na aldeia Olímpica. Está é a primeira viagem de volta à Coreia, e aqui o tia dela. A meia-irmã dela. Ela voltou à aldeia, esta é a mãe da melhor amiga. E achei sempre que isto era uma roupa muito ao estilo Annie Hall. Era tão, sabem, era tão interessante de ver, esta é a mãe dela ao fundo. Aqui o dia do casamento da Natasha. O Gene está um pouco mais velho. Esta é a Sydney, que vai fazer 3 anos dentro de 2 dias. E este é o Evan.
Natasha, se pudesses subir aqui por um segundo, talvez só dizer olá a toda a gente. (Aplausos) A Natasha nunca me ouviu a contar a história. Quer dizer, ela, nós já vimos as fotografias juntos.
Natasha: já vi as fotografias milhões de vezes, mas hoje foi a primeira vez que o vejo a fazer a apresentação completa. Comecei a chorar.
Rick Smolan: tenho a certeza que há 40 coisas que ela me vai dizer. "Não foi isso que aconteceu, não foi isso que eu disse". Natasha: Mais tarde, faço-o mais tarde. (Risos)
RS: De qualquer forma, obrigado, Mike e Richard, por nos deixarem contar a história. Obrigado a todos. (Aplausos)
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O fotógrafo Rick Smilan conta a história inesquecível de uma jovem Amerasiática, uma fotografia fatídica e uma saga de adopção com com um final inesperado.
Rick Smolan is the co-founder of the America 24/7 and Day in the Life photography series -- and a natural storyteller in many media. His latest books are America at Home and Blue Planet Run. Full bio »
Translated into Portuguese by Sérgio Lopes
Reviewed by Inês Pereira
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18:35 Posted: Jan 2007
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11:14 Posted: Jun 2008
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14:53 Posted: Aug 2008
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