O que é bioenergia? Bioenergia não é etanol. Bioenergia não é aquecimento global. Bioenergia é algo que parece contra-intuitivo. É petróleo. É gás. É carvão. E parte da construção daquela ponte para o futuro, até ao ponto em que poderemos realmente ver os oceanos de uma maneira racional, ou colocar estas órbitas geo-espaciais que irão girar ou produzir micro-ondas, vai depender de como entendemos a bioenergia e a gerimos. E para fazer isto, vocês têm primeiro que olhar bem para a agricultura.
Portanto, nós plantamos coisas desde há 11.000 anos. E à medida que plantamos coisas, o que aprendemos da agricultura é que temos de lidar com pragas, temos de lidar com todo o tipo de coisas horríveis. Temos de cultivar as coisas. À medida que aprendemos a usar a água para cultivar, vamos ser capazes de nos espalhar para além do Nilo. Vamos ser capazes de alimentar coisas. Portanto, a irrigação faz a diferença.
A irrigação começa a permitir cultivar coisas onde as queremos, em vez de onde os rios transbordam. Vocês começam a ter esta agricultura orgânica, começam a introduzir maquinaria. A maquinaria, com uma grande quantidade de água, conduz a uma agricultura em grandíssima escala. Junta-se máquinas e água, e obtém-se paisagens que se parecem com isto. E então obtém-se vendas que se parecem com isto. É força bruta. O que se tem feito na agricultura é: começa-se com algo que é um sistema natural razoável. Começa-se a dominar aquele sistema natural. Coloca-se muita pressão naquele sistema natural. Põe-se uma grande quantidade de pesticidas e herbicidas -- “Pensa que SEU trabalho envolve um monte de m...” -- naquele sistema natural, e chega-se a sistemas que se parecem com isto.
E é tudo força bruta. E é desta forma que nós temos abordado a energia. Assim, a lição em agricultura é que é possível, de facto, mudar o sistema que é baseado na força bruta quando se começa a absorver aquele sistema, e a aprender sobre ele e, realmente, aplicando a biologia. E passa-se de uma disciplina em engenharia, de uma disciplina da química, para uma disciplina de biologia. Provavelmente, um dos mais importantes seres humanos do planeta é este homem atrás de mim.
Este é um homem chamado Norman Borlaug. Ele ganhou o prémio Nobel. Ele recebeu a medalha de honra do congresso. Ele merece tudo isto. E merece isto porque, provavelmente, alimentou mais gente do que qualquer outra pessoa viva, porque pesquisou sobre como aplicar a biologia às sementes. Fez isto no México. A razão pela qual a Índia e a China já não têm quantidades massivas de famintos é porque Norman Borlaug os ensinou a cultivar cereais de uma maneira mais eficiente e lançou a Revolução Verde. Isto é algo que muita gente tem criticado. Mas, claro, essas são pessoas que não se dão conta de que a China e a Índia, em vez de terem enormes quantidades de pessoas com fome, estão a exportar cereais.
E a ironia deste sistema em particular é que o lugar onde ele fez a pesquisa, que foi o México, não adoptou esta tecnologia, ignorou esta tecnologia, discutiu o motivo por que esta tecnologia deveria ser considerada, mas não a aplicou. E o México permanece um dos maiores importadores de cereais do planeta, porque não aplica a tecnologia que foi descoberta no próprio México. E, de facto, não reconheceu o trabalho deste homem, ao ponto de não haver estátuas deste homem em nenhum lugar do México. Há na China e na Índia. E o instituto que este homem geriu, mudou-se agora para a Índia. Esta é a diferença entre adoptar tecnologias e discutir tecnologias. Agora, não é apenas o facto de que este tipo alimentou uma quantidade enorme de pessoas no mundo. É que este é o resultado prático em termos do que a tecnologia faz, se vocês entenderem a biologia.
O que aconteceu na agricultura? Bem, se olharem para a agricultura ao longo de um século, a agricultura por volta de 1900 seria reconhecível por alguém que tivesse plantado mil anos antes. Sim, os arados pareceriam diferentes. As máquinas seriam tractores ou coisas parecidas em vez de mulas, mas o lavrador teria entendido isto é o que o homem está a fazer, aqui está o porquê de ele estar a fazê-lo, aqui está para onde ele vai. O que realmente começou a mudar na agricultura é quando se começa a passar desta engenharia e química de força bruta, para a biologia. É quando se obtêm aumentos de produtividade. E quando se aplica aquilo, isto é o que acontece à produtividade.
Basicamente, para produzir 100 alqueires, passou-se de 250 horas para 40, para 15, para cinco. A produtividade do trabalho agrícola aumentou em sete vezes, entre 1950 e 2000, enquanto o resto da economia aumentou aproximadamente 2,5 vezes. Este é um aumento absolutamente massivo na quantidade produzida por pessoa. O resultado disto, é claro, não são apenas ondas amareladas de cereais, são montanhas delas. E 50% do orçamento da UE vai subsidiar a agricultura de montes de coisas que as pessoas têm super-produzido.
Isto seria uma boa consequência para a energia. E claro, nesta altura, vocês estarão provavelmente a dizer para vós mesmos, "Pensava que vinha para uma apresentação sobre energia, e aqui está este tipo a falar sobre biologia". Então, onde está a ligação entre estas duas coisas? Uma das ironias de todo este sistema é: nós estamos a discutir o que fazer com um sistema que não entendemos. Nós nem sabemos o que é o petróleo. Nós não sabemos de onde o petróleo vem. Quer dizer, literalmente, é ainda uma fonte de discussão o que será este rio de substância negra, e de onde vem. A melhor suposição, e uma das melhores especulações sobre esta substância, é que ela viria desta outra coisa. E que estas coisas absorvem luz solar, apodrecem sob pressão durante milhões de anos, e obtém-se estes rios negros.
Agora, a coisa interessante sobre esta tese -- se esta tese se revelar verdadeira -- é que o petróleo, e todos os hidrocarbonetos são afinal luz solar concentrada. E se vocês pensarem em bioenergia, bioenergia não é etanol. Bioenergia é usar o Sol, concentrando-o em amebas, concentrando-o em plantas, e talvez seja por isso que você obtém estes arco-íris. E à medida que observamos este sistema, se os hidrocarbonetos forem luz solar concentrada, então a bioenergia funcionará de uma maneira diferente. E nós temos que começar a considerar o petróleo e outros hidrocarbonetos como parte destes painéis solares. Talvez essa seja uma das razões pelas quais, se sobrevoarem o oeste do Texas, os tipos de poços que começam a ver não parecem diferentes destas imagens do Kansas e destes terrenos irrigados.
É assim que vocês “cultivam” o petróleo. E enquanto vocês pensam em produzir petróleo e em como o petróleo evoluiu... Nós começámos com esta abordagem à base de força bruta. E então o que aprendemos? Nós aprendemos que tínhamos que crescer. E então o que aprenderíamos? Que temos que crescer mais ainda. E nós estamos a ficar realmente destrutivos à medida que vamos avançando e cultivando esta bioenergia. Estas são as areias betuminosas de Atabasca, e há uma enorme quantidade -- primeiro da indústria mineira, os maiores camiões do mundo trabalham aqui, e depois é necessário retirar esta lama preta, que é basicamente petróleo que não escorre. Ele está agarrado à areia. E depois é necessário usar bastante vapor para separá-lo, o que só é rentável com os preços actuais do petróleo.
Carvão. Com o carvão vem a ser praticamente a mesma coisa. São provavelmente plantas, com a excepção de que estas foram queimadas e esmagadas sob pressão. Então pega-se em algo como isto, queima-se, coloca-se sob pressão e, quase de certeza, obtém-se isto. Mas, novamente, eu enfatizo: nós não o sabemos. O que é curioso quando debatemos tudo isto... Mas enquanto vocês pensam em carvão... isto é como os grãos de trigo ficam quando queimados. Não muito diferentes do carvão.
E, é claro, as minas de carvão são sítios muito perigosos, porque nalgumas destas minas de carvão, existe gás. Quando esse gás explode, pessoas morrem. Portanto, está a ser produzido um biogás a partir de carvão em algumas minas, mas não em outras. Onde se vê um diferencial, colocam-se algumas questões interessantes. Há algumas questões sobre o que se deveria fazer com esta coisa. Mas, novamente, carvão... Talvez a mesma coisa, talvez o mesmo sistema, talvez bioenergia, e vocês estão a aplicar exactamente a mesma tecnologia.
Aqui está a abordagem com base na força bruta. Uma vez iniciada esta abordagem de força bruta, simplesmente arrasa-se montanhas. E isso leva à maior fonte de emissões de carbono, que são as centrais termoeléctricas alimentadas a carvão. Este não é, provavelmente, o melhor uso da bioenergia. Enquanto vocês pensam em quais seriam as alternativas a este sistema... É importante encontrar alternativas, porque os EUA estão a esgotar as suas reservas de petróleo, mas não estão a esgotar as reservas de carvão, nem está a China. Há enormes reservas de carvão espalhadas por aí, e nós temos que começar a pensar nelas como energia biológica, porque se continuamos a tratá-las como energia química, ou energia de engenharia, nós vamos acabar no fundo da m...
Com o gás a questão é semelhante. O gás também é um produto biológico. E quando se pensa em gás... Bem, vocês estão familiarizados com gás. E aqui está uma maneira diferente de extrair o carvão. Isto é chamado metano de camada de carvão. E porquê que esta fotografia é interessante? Porque se o carvão for vida vegetal concentrada, a razão pela qual se pode obter uma diferença de produção de gás entre uma mina e outra -- a razão pela qual uma mina pode explodir e a outra não – pode ser porque há alguma coisa a digerir aquela substância e a produzir gás. Este é um fenómeno bem conhecido. (Risos) Vocês comem certas coisas, e produzem muito gás. Pode ser, afinal, que os processos biológicos em minas de carvão passem pelo mesmo processo. Se isto for verdade, então uma das maneiras de extrair a energia do carvão pode não ser arrasando montanhas, e não ser queimando carvão. Pode ser tendo coisas a processar aquele carvão de uma maneira biológica como se fez na agricultura.
Isto é o que bioenergia é. Não é etanol. Não são subsídios a um pequeno conjunto de empresas. Não é importando milho para o Iowa porque você construiu lá tantas dessas fábricas de produção de etanol. É começando a entender a transição que ocorreu na agricultura, da força bruta para a biológica. E à medida que se pode fazer isto, pode limpar-se alguma coisa, e pode limpar-se até rapidamente. Nós já temos alguns indicadores de produtividade nesta área: OK, se for injectado vapor nos campos de carvão ou petróleo que estão em exploração há décadas, pode obter-se um aumento realmente substancial, de oito vezes, na sua produção. Estes são apenas os estágios iniciais nesta área.
E enquanto vocês pensam em biomateriais, este tipo-- que fez parte do sequenciamento do genoma humano, que acabou de duplicar as bases de dados de genes e proteínas conhecidos na terra, navegando pelo mundo -- tem pensando em como estruturar isto. E há uma série de gente inteligente a pensar nisto. E elas estão a criar empresas como Synthetic Genomics, como uma Cambria, como Codon, e o que estas empresas estão a tentar fazer é descobrir: como aplicar princípios biológicos para evitar a força bruta? Pensem nisto nos seguintes termos: pensem nisto como o início da programação de coisas para fins específicos. Pensem na célula como um hardware. Pensem nos genes como um software. E à medida que vocês começam a pensar na vida como um código que é intermutável, que pode tornar-se energia, que pode tornar-se alimento, que pode tornar-se fibra, que pode tornar-se em seres humanos, que pode tornar-se numa série de coisas. Então vocês tem de mudar a vossa abordagem na maneira de como estruturar e lidar e pensar sobre energia de uma maneira muito diferente.
Quais são os primeiros princípios nesta área e em que direcção estamos a caminhar? Este é um dos gigantes cordiais do planeta. Ele é um dos seres humanos mais simpáticos que jamais conhecerão. O seu nome é Hamilton Smith. Ele ganhou o prémio Nobel por descobrir como cortar genes -- algo chamado enzimas de restrição. Ele estava em Hopkins quando fez isto, e ele é um tipo tão modesto, que, no dia em que ganhou, a mãe telefonou-lhe e disse: "Eu não me apercebi de que havia um outro Ham Smith em Hopkins. Sabias que ele acabou de ganhar o Nobel?" (Risos) Quer dizer, era a mãe. Continuando. Este tipo é espectacular. Encontra-se na bancada de trabalho todo o santo dia, a trabalhar com uma pipeta e a construir coisas. E uma das coisas que este tipo acabou de construir são estas coisas.
O que é isto? Isto é o primeiro transplante de ADN puro, em que se extrai um sistema operativo de ADN inteiro de uma célula, insere-se numa célula diferente, e faz-se aquela célula inicializar-se como uma nova espécie. Isto é com um mês de vida. Vocês verão coisas, no próximo mês, que serão tão importantes como esta. E enquanto vocês pensam nesta coisa e nas suas implicações... Nós vamos começar a não converter simplesmente o etanol a partir do milho com subsídios bastante altos. Vamos começar a pensar em introduzir biologia na energia. É muito caro processar esta coisa, tanto em termos económicos como energéticos.
Isto é o que se acumula nas areias betuminosas de Alberta. Estes são blocos de enxofre. Porque quando se separa o petróleo da areia, e usa uma enorme quantidade de energia dentro daquele vapor -- o vapor usado para separar estas coisas -- também se tem de separar o enxofre. A diferença entre o petróleo leve e o pesado -- bem, é de aproximadamente 14 dólares o barril. É por isto que se está a construir estas pirâmides de blocos de enxofre. E, já agora, a escala destas coisas é bastante grande.
Agora, se se puder retirar parte da energia necessária para isto, reduz-se o sistema, e começa-se realmente a aplicar os princípios biológicos à energia. Isto tem que ser uma ponte para o ponto em que se pode chegar à energia eólica; para o ponto em que se pode chegar à energia solar; para o ponto em que se pode chegar à nuclear -- e, esperemos, não será necessário construir a próxima central nuclear numa bonita costa à beira mar, junto a uma falha geológica. (Risos). Apenas uma sugestão.
Mas, entretanto, na próxima década, pelo menos, o nome do jogo é hidrocarbonetos. E seja ele petróleo, seja ele gás, seja ele carvão, é com isto que estamos a lidar. E antes que eu torne esta apresentação muito longa, aqui está o que está a acontecer no actual sistema de energia: 86% da energia que consumimos vem de hidrocarbonetos. Isto significa que 86% das coisas que consumimos são, provavelmente, plantas, amebas e tudo o resto, processados. E há um papel aqui para a conservação. Há um papel aqui para coisas alternativas, mas nós também temos que ter aquela outra parte correctamente. Como nós lidamos com aquela outra parte é a nossa ponte para o futuro. E enquanto pensamos nesta ponte para o futuro, uma das coisas que vocês deveriam ponderar é: nós estamos a deixar dois terços do petróleo, hoje, dentro destes poços. Então, estamos a gastar uma quantidade enorme de dinheiro e a deixar grande parte da energia lá em baixo. O que, é claro, requer mais energia para extrair e produzir energia. As proporções tornam-se ridículas quando se chega ao etanol. Pode até ser uma razão de um-para-um entre as energias de entrada e saída. Esta é uma maneira estúpida de gerir este sistema.
Último ponto, último gráfico. Uma das coisas que temos que fazer é estabilizar os preços do petróleo. Isto é como estão os preços do petrólio. Ok? Este é um sistema muito mau porque o que acontece é que a taxa de retorno é estabelecida a um patamar muito baixo. As pessoas desenvolvem ideias muito engenhosas para painéis solares, ou para torres eólicas, ou para outras coisas, e então, o que acontece? O preço do petróleo cai em flecha. Aquela empresa fecha por falta de negócio e então o preço do petróleo volta para o topo.
Então, se me permitem uma modesta sugestão para terminar: vamos fixar um preço estável para o petróleo na Europa e Estados Unidos. Como se faz isto? Bem, vamos estabelecer um imposto sobre o petróleo que não seja um imposto sobre rendimentos, e digamos, para os próximos 20 anos, o preço do petróleo será... o que se quiser: 35 dólares, 40 dólares. Se o preço da OPEP cair abaixo disso, nós taxamo-lo. Se o preço da OPEP for acima disso, o imposto desaparece. O que traz isto aos empreendedores? O que traz isto às empresas? Isto diz às pessoas: se você puder produzir energia por menos de 35 dólares o barril, ou por menos de 40 dólares o barril, ou por menos de 50 dólares o barril -- vamos debater isto -- você terá um negócio. Mas não vamos fazer as pessoas passarem por este ciclo em que não compensa pesquisar porque a sua empresa fechará enquanto a OPEP controla as alternativas e previne o advento das bioenergias. Obrigado.
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Juan Enriquez desafia a nossa definição de bioenergia. Petróleo, carvão, gás e outros hidrocarbonetos não são produtos químicos, mas biológicos, baseados em plantas -- e portanto, cultiváveis. Toda a nossa abordagem aos combustíveis, diz ele, tem que mudar.
Juan Enriquez thinks and writes about profound changes that genomics will bring in business, technology, and society. Full bio »
Translated into Portuguese by Jaime Ventura
Reviewed by Ilona Bastos
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15:58 Posted: Nov 2007
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17:52 Posted: May 2007
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17:34 Posted: Apr 2007
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