Como é que vocês gostariam de ser melhores do que são? Suponham que eu dizia que, com apenas algumas alterações nos vossos genes, conseguiriam melhor memória -- mais precisa, mais rigorosa e mais rápida. Ou talvez gostassem de estar em melhor forma, serem mais fortes, mais resistentes. Gostariam de ser mais atraentes e auto-confiantes? Que tal viver mais tempo com boa saúde? Ou talvez você seja daquelas pessoas que sempre ansiou por mais criatividade. Qual é que vocês prefeririam? Qual preferiria, se pudesse escolher apenas uma característica? (Membro do Público: Criatividade.) Criatividade. Quantas pessoas escolheriam criatividade? Levantem as mãos. Deixem-me ver. Algumas. Provavelmente tantas quantas as pessoas criativas que aqui estão. Isso é muito bom. Quantas optariam por memória? Bastantes mais. E quanto a boa condição física? Um pouco menos. E longevidade? Ah, a maioria. Isso faz-me sentir muito bem como médico. Se vocês pudessem ter alguma destas melhorias, o mundo seria muito diferente. Será só imaginação? Ou será talvez possível?
A evolução tem sido um assunto perene aqui na Conferência TED, mas hoje quero dar-vos uma perspectiva médica sobre o assunto. O grande geneticista do séc. XX, T. G. Dobzhansky, que era também um membro da Igreja Ortodoxa Russa, escreveu uma vez um ensaio que intitulou "Nada na Biologia Faz Sentido Excepto à Luz da Evolução." Agora, se você é uma daquelas pessoas que não aceitam a evidência da evolução biológica, este seria um bom momento para desligar os auscultadores, retirar o dispositivo pessoal de conferência -- eu dou-lhe autorização -- e talvez reler o livro de Kathryn Schultz sobre estar errado, porque nada, no resto desta palestra, irá fazer qualquer sentido para si. (Risos) Mas se você realmente aceita a evolução biológica, pense nisto: ela diz respeito apenas ao passado, ou respeita ao futuro? Ela aplica-se aos outros, ou aplica-se a nós?
Este é um outro olhar sobre a árvore da vida. Nesta imagem, coloquei uma planta cujo centro se ramifica em todas as direcções, porque, se olharem para as extremidades da árvore da vida, cada uma das espécies existentes nas pontas desses ramos teve sucesso em termos evolutivos: sobreviveu; demonstrou uma adaptação ao seu ambiente. A parte humana deste ramo, saindo numa das extremidades, é, evidentemente, aquela que mais nos interessa. Derivámos de um antepassado comum aos chimpanzés modernos há cerca de 6 ou 8 milhões de anos. Nesse intervalo, houve talvez 20 ou 25 diferentes espécies de hominídeos. Alguns apareceram e desapareceram. Nós estamos aqui há cerca de 130.000 anos. Pode parecer que estamos muito afastados de outras partes desta árvore da vida, mas, na verdade, quanto à maior parte, a maquinaria básica das nossas células é praticamente a mesma.
Têm a noção de que podemos aproveitar e controlar a maquinaria de uma bactéria comum para produzir a proteína da insulina humana usada no tratamento de diabéticos? E não se trata de uma proteína "como" a insulina humana; trata-se da mesma exacta proteína, que é quimicamente indistinguível da que é produzida pelo nosso pancreas. E falando de bactérias, dão-se conta de que cada um de nós traz no seu intestino mais bactérias do que as células que tem no resto do corpo? Talvez 10 vezes mais. Quero dizer, pensem nisto: quando António Damásio pergunta sobre a vossa auto-imagem, vocês pensam em bactérias? O nosso intestino é um ambiente maravilhosamente hospitaleiro para essas bactérias. É quente, é escuro, é húmido, é muito acolhedor. E vocês fornecem-lhes toda a alimentação que elas possam desejar sem esforço da sua parte. É realmente como uma "Rua da Paz" para bactérias, com a interrupção ocasional de uma expulsão tumultuosa para o exterior. Mas, tirando isso, vocês são um ambiente maravilhoso para essas bactérias, tal como elas são essenciais para a vossa vida. Ajudam na digestão de nutrientes essenciais. E protegem-vos de certas doenças.
Mas o que acontecerá no futuro? Estaremos nós nalgum tipo de equilíbrio evolutivo como espécie? Ou estaremos destinados a tornar-nos nalguma coisa diferente -- alguma coisa talvez ainda melhor adaptada ao meio ambiente? Agora, vamos recuar um passo no tempo até ao Big Bang, há 14 mil milhões de anos -- a Terra, o Sistema Solar, cerca de 4,5 mil milhões de anos -- os primeiros sinais de proto-vida, há talvez 3 a 4 mil milhões de anos na Terra -- os primeiros organismos multicelulares, há cerca de 800 ou mil milhões de anos -- e depois a espécie humana, a emergir finalmente, nos últimos 130.000 anos. Nesta vasta e incompleta sinfonia do Universo, a vida na Terra é como um compasso breve; o reino animal, como um único compasso; e a vida humana, uma pequena nota de graça. Aquilo éramos nós. É também a componente de entretenimento desta palestra, por isso espero que tenham gostado.
Agora, quando eu era caloiro, na universidade, tive a minha primeira aula de biologia. Fiquei fascinado pela elegância e beleza da biologia. Enamorei-me do poder da evolução, e compreendi uma coisa fundamental: na maior parte da existência da vida em organismos unicelulares, cada célula simplesmente divide-se, e toda a energia genética daquela célula passa para ambas as células filhas. Mas quando os organismos multicelulares aparecem, as coisas começam a mudar. A reprodução sexual entra em cena. E, o que é muito importante, com a introdução da reprodução sexual, que transmite o genoma, o resto do corpo torna-se dispensável. Na verdade, poder-se-ia dizer que a inevitabilidade da morte dos nossos corpos surge, no tempo evolutivo, em simultâneo com a reprodução sexual.
Agora, tenho de confessar que quando era estudante universitário pensava, ok, sexo/morte, sexo/morte, morte por sexo -- naquela altura, parecia-me bastante razoável, mas, a cada ano que passava, comecei a ter cada vez mais dúvidas. Passei a compreender os sentimentos de George Burns, que ainda actuava em Las Vegas já bem entrado nos 90. Uma noite, batem à porta do seu quarto de hotel. Ele vai abrir a porta. Diante de si está uma lindíssima corista escassamente vestida. Ela olha para ele e diz: "Estou aqui para super sexo." "Óptimo," diz George. "Para mim é uma sopa."
Apercebi-me como médico de que estava a trabalhar para um objectivo que era diferente do objectivo da evolução -- não necessariamente contraditório, apenas diferente. Estava e tentar preservar o corpo. Queria manter-nos saudáveis. Queria resgatar a saúde à doença. Queria que vivêssemos vidas longas e saudáveis. À evolução só interessa a passagem do genoma à geração seguinte, adaptando-se e sobrevivendo geração após geração. De um ponto de vista evolutivo, vocês e eu somos como foguetes de reforço desenhados para enviar a carga genética para o nível orbital seguinte e depois deixarmo-nos cair no mar. Penso que todos compreendemos o sentimento que Woody Allen exprimiu quando disse: "Não quero alcançar a imortalidade através do meu trabalho. Quero alcançá-la não morrendo."
A evolução não favorece necessariamente o mais longevo. Não favorece necessariamente o maior, ou o mais forte ou o mais rápido, e nem mesmo o mais inteligente. A evolução favorece as criaturas que melhor se adaptam ao seu meio ambiente. É esse o único teste à sobrevivência e ao sucesso. No fundo do oceano, bactérias que são termófilas e podem sobreviver no calor das fendas de vapor -- que, se ali houvesse peixes, produziriam peixe cozido sous-vide (no vácuo) -- conseguiram, no entanto, que tal ambiente se lhes tornasse hospitaleiro.
Portanto, o que significa isto quando lançamos um olhar retrospectivo sobre a evolução e repensamos o lugar dos humanos na evolução, e particularmente quando olhamos para o futuro, para a próxima fase? Eu diria que existem várias possibilidades. A primeira é que não evoluamos. Que tenhamos alcançado uma espécie de estado de equilíbrio. E as razões para tal seriam, em primeiro lugar, termos conseguido, através da medicina, preservar uma grande quantidade de genes que de outro modo teriam sido descartados e eliminados da população. E, em segundo lugar, que nós, como espécie, configurámos de tal modo o nosso ambiente que conseguimos fazê-lo adaptar-se a nós, tal como nós nos adaptamos a ele. E, a propósito, nós migramos e circulamos, e misturamo-nos tanto que não se consegue mais o isolamento necessário à ocorrência da evolução.
A segunda possibilidade é que haja evolução do tipo tradicional, natural, imposta pelas forças da Natureza. E aqui o argumento seria que as rodas da evolução movem-se devagar, mas são inexoráveis. E no que se refere ao isolamento, quando nós, como espécie, colonizarmos planetas distantes, haverá o isolamento e as alterações ambientais susceptíveis de produzir a evolução da forma natural.
Mas há uma terceira possibilidade, uma possibilidade sedutora, intrigante e assustadora. Eu chamo-lhe "neo-evolução" -- a nova evolução, que não é simplesmente natural, mas direccionada e escolhida por nós, como indivíduos, nas opções que faremos. Agora, como é que isto aconteceria? Como seria possível fazermos isso? Considerem, primeiro, a realidade -- em algumas culturas, actualmente, as pessoas fazem escolhas quanto à sua descendência. Em algumas culturas, estão a escolher ter mais rapazes do que raparigas. Isto não é necessariamente bom para a sociedade, mas é a escolha que o indivíduo e a família fazem.
Pensem também, se alguma vez fosse possível vocês escolherem, não simplesmente o sexo do vosso filho, mas, quanto ao vosso próprio corpo, fazer ajustamentos genéticos que curariam ou preveniriam doenças. E se vocês pudessem fazer as alterações genéticas que eliminassem a diabetes ou o Alzheimer, ou reduzissem o risco de cancro, ou eliminassem os AVCs? Não quereriam introduzir essas alterações nos vossos genes? Se olharmos para o futuro, alterações deste tipo tornar-se-ão cada vez mais viáveis.
O Projecto do Genoma Humano começou em 1990, e levou 13 anos a completar-se. Custou 2,7 mil milhões de dólares. No ano seguinte à sua conclusão, em 2004, vocês conseguiriam o mesmo trabalho por 20 milhões de dólares, em 3 ou 4 meses. Hoje, vocês podem ter uma sequência completa dos 3 mil milhões de pares base do genoma humano a um custo de cerca de $20.000 e no espaço de cerca de uma semana. Não tardará muito, será realidade o genoma humano por $1.000, e tornar-se-á crescentemente acessível a todos. Há apenas uma semana, a Academia Nacional de Engenharia atribuiu o seu Prémio Draper a Francis Arnold e Willem Stemmer, dois cientistas que, independentemente, desenvolveram técnicas para encorajar a aceleração do processo natural de evolução e conduzir a proteínas desejáveis de uma forma mais eficiente -- o que Frances Arnold denomina por "evolução dirigida." Há poucos anos, o Prémio Lasker foi atribuído ao cientista Shinya Yamanaka pela pesquisa em que utilizou uma célula da pele adulta, um fibroblasto, e, através da manipulação de apenas 4 genes, induziu essa célula a reverter-se numa célula estaminal pluripotencial -- uma célula potencialmente capaz de se transformar em qualquer tipo de célula do vosso corpo.
Estas mudanças estão a acontecer. A mesma tecnologia que produziu a insulina humana em bactérias pode produzir vírus que, não só vos protegerão desses mesmos vírus, como induzirão a imunidade a outros vírus. Acreditem ou não, está em curso um ensaio experimental com a vacina contra a gripe que foi criada nas células de uma planta do tabaco. Podem imaginar alguma coisa de positivo a sair do tabaco?
Tudo isto é hoje uma realidade, e no futuro será cada vez mais possível. Imaginem, então, apenas duas outras pequenas alterações. Vocês podem alterar as células do vosso corpo, mas, e se pudessem alterar as células dos vossos descendentes? E se pudessem alterar o esperma e os óvulos, ou alterar o ovo recém fecundado, e dar aos vossos descendentes uma melhor oportunidade de uma vida mais saudável -- eliminar a diabetes, a hemofilia, reduzir o risco de cancro? Quem não quer filhos mais saudáveis? E então, a mesma tecnologia analítica, esse mesmo motor da ciência que pode produzir as alterações que previnem as doenças, permitir-nos-á também adoptar super-atributos, hiper-capacidades -- a tal memória melhor. Porque não ter a sagacidade de Ken Jennings, especialmente se puderem aumentá-la com a próxima geração da máquina Watson? Porque não ter a rápida contracção muscular que lhe permitirá correr mais depressa e mais longe? Porque não viver mais tempo? Tudo isto será irresistível.
E quando estivermos em condições de transmitir isto à geração seguinte, e pudermos adoptar os atributos que quisermos, teremos convertido a antiga evolução em neo-evolução. Levaremos um processo que normalmente poderia requerer 100.000 anos, a comprimir-se para 1.000 anos -- e talvez isto aconteça nos próximos 100 anos. Estas são as escolhas que os vossos netos, ou os netos dos vossos netos, vão ter que fazer. Utilizaremos estas escolhas para construir uma sociedade melhor, com mais sucesso, mais amável? Ou, selectivamente, escolheremos diferentes atributos que queremos para alguns de nós mas não para os demais? Construiremos uma sociedade mais aborrecida e mais uniforme, ou mais robusta e mais versátil? Este é o tipo de questões que se nos vão colocar.
E, mais profundamente, seremos alguma vez capazes de desenvolver a sabedoria, e herdar a sabedoria, de que necessitaremos para fazer estas escolhas sabiamente? Para o melhor e o pior, e mais cedo do que poderão pensar, estas escolhas caber-nos-ão a nós.
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O especialista em ética médica Harvey Fineberg mostra-nos três possíveis caminhos para uma espécie humana em constante evolução: deixar completamente de evoluir, evoluir naturalmente -- ou controlar os próximos passos da evolução humana através da alteração genética, de forma a nos tornarmos mais inteligentes, mais rápidos, melhores. A neo-evolução está ao nosso alcance. O que faremos com ela?
Harvey Fineberg studies medical decisionmaking -- from how we roll out new medical technology, to how we cope with new illnesses and threatened epidemics. Full bio »
Translated into Portuguese by Ilona Bastos
Reviewed by Nuno Miranda Ribeiro
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20:00 Posted: Nov 2006
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22:20 Posted: Apr 2007
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22:56 Posted: Nov 2006
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