O que pensei que poderia abordar hoje é a transição duma forma de pensar sobre a natureza até uma outra que é seguida pela arquitectura. O que é interessante nos arquitectos, é que sempre procurámos justificar a beleza observando a natureza, e é discutível, arquitectura bela foi sempre observada como um modelo da natureza.
Assim, durante aproximadamente 300 anos, a grande discussão na arquitectura foi, se o número cinco ou o número sete seriam a melhor proporção para raciocinar em arquitectura porque o nariz era uma quinta parte da cabeça, ou porque a cabeça era uma sétima parte do corpo. E a razão pela qual era esse o modelo da beleza e da natureza era porque o ponto decimal ainda não tinha sido descoberto foi no século XVI e todos tinham que dimensionar um edifício em função de fracções, Assim, um compartimento seria dimensionado como a quarta parte da fachada; O seu embasamento poderia ser 10 unidades, e poderíamos descer aos pequenos elementos por subdivisão fraccional: pequeno, pequeno e mais pequeno.
No século XV, o ponto decimal foi inventado, os arquitectos deixaram de usar fracções, e obtiveram um novo modelo da natureza. Então o que temos hoje é que existe um modelo das formas naturais que é fundamentado na álgebra e que utiliza ferramentas digitais, o que tem uma série de implicações na forma em como pensamos acerca da beleza e da forma, e imensas implicações no nosso raciocínio sobre a natureza. O melhor exemplo disto seria provavelmente o Gótico, e o Gótico foi inventado após a descoberta da álgebra, muito embora os arquitectos do Gótico não tenham realmente usado álgebra para definir as suas formas. Mas o o mais importante é que a época do Gótico foi a primeira vez na arquitectura em que força e o movimento foi imaginada em termos de forma.
Então, exemplos como Christopher Wren's King's Cross: podem ver que as forças estruturais da abóbada são articuladas como linhas, como tal verão realmente a expressão da força estrutural e da forma. Mais tarde, as pontes de Robert Maillart, que optimizam estruturalmente a forma com uma curvatura calculada quase como uma parábola. Os modelos de catenária suspensa de Antonio Gaudi, o arquitecto Catalão. Fim do século XIX, princípio do século XX, e como esses modelos de catenárias suspensas são transportados para arcos e abóbadas. Assim, em todos estes exemplos, a estrutura é determinada pela força. Frei Otto estava a iniciar o uso de diagramas de bolhas de espuma e modelos de bolhas de espuma para conceber o seu Mannheim Concert Hall. Curiosamente nos últimos dez anos Norman Foster utilizou um modelo similar de transferência termica por aquecimento para conceber a cobertura da National Gallery, em conjunto com o engenheiro de estruturas Chris Williams.
Em todos estes exemplos, existe uma forma ideal, porque essas são pensados em função da estrutura. E como arquitecto, sempre considerei este tipo de sistemas muito limitadores, porque não estou interessado em formas ideais e não estou interessado em optimizá-las para algum momento perfeito.
Assim, o que pensei que poderia revelar é outra componente que também necessita ser equacionada, sempre que se pensa na natureza, e que é basicamente a invenção da forma genérica na evolução genética. Presentemente o meu herói não é Darwin, É um indivíduo chamado William Bateson, pai de Greg Bateson, que esteve muito tempo aqui em Monterey. Ele é aquilo que denominam de teratologista: investiga por todas as monstruosidades e mutações para descobrir regras e leis, ao invés de olhar para as normas. Assim, em vez de tentar encontrar o tipo ideal ou a média ideal, ele procura sempre a excepção. Assim, neste exemplo, que é um exemplo daquilo que chamamos de Regra de Bateson, ele tem dois tipos de mutações num polegar humano. Quando vi pela primeira vez esta imagem, 10 anos atrás, efectivamente achei-a simultaneamente muito estranha e bela. Bela, porque tem simetria. Então, o que descobrimos é que em todos os casos de mutação do polegar, em lugar de ter um polegar, poderá começar a existir um outro polegar opositor, ou então ter quatro dedos. Assim, as mutações revertem para a simetria. E Bateson inventou o conceito de quebra de simetria, que é isto: onde quer que perca informações num sistema, voltará à simetria. Assim, a simetria não seria o sinal de ordem e organização o que eu sempre entendi, e como arquitecto, simetria era a ausência de informação. Então, sempre que perdermos informação, mutaremos para a simetria; sempre que adicionar informação a um sistema, quebrará simetria. Assim, mudou nesse preciso momento a ideia geral da procura de formas ideais para a pesquisa duma combinação de informação e forma genérica.
Sabe, sem dúvida depois de ver essa imagem, e descobrir o trabalho de Bateson, começamos a usar estas regras em quebras de simetria e ramificações, ao iniciar o raciocínio sobre a forma arquitectónica. Para falar rapidamente sobre as plataformas digitais que usamos actualmente e como elas integram os cálculos: O facto de estarem fundamentadas em cálculo significa que não temos de raciocinar sobre dimensão em termos de unidades ideais ou elementos simples.
Assim, em arquitectura lidamos com grandes conjuntos de componentes, como aqui poderiam ser, digamos... 50.000 elementos materiais nesta sala onde estão agora sentados todas com necessidade de organização. Agora, normalmente acha que seriam idênticos: como, as cadeiras em que estão sentados têm todas a mesma dimensão. Como sabem, não verifiquei, mas é a norma que cada cadeira poderia diferir ligeiramente em dimensão porque poderão querer espaçá-las fora de todas das linhas de visão. Os elementos da grelha de tecto e a iluminação, estão todos a perder a sua qualidade modular, caminhando, cada vez mais, para essas dimensões infinitesimais. Isto acontece porque todos usamos instrumentos de cálculo para o fabrico e para o desenho.
O cálculo também é uma matemática de curvas. Assim, até uma linha recta, algebricamente, é uma curva. Somente uma curva sem inflexão. Assim, um novo vocabulário formal está agora a dominar todos os campos do design: Trate-se de automóveis, arquitectura, produtos, etc... está a ser afectado por este meio digital de curvatura. As complexidades de escala que daí resultem sabem, no exemplo do nariz para a face, Há uma fracção num todo da ideia. Com o cálculo, a ideia global de subdivisão é mais complexa, porque o todo e as partes são uma série contínua. Esta manhã é cedo demais para uma palestra de álgebra, como tal apresento algumas imagens para descrever como isto funciona.
Aqui está uma igreja Coreana que fiz em Queens. E neste exemplo, podem ver que os componentes desta escada são repetitivos mas são repetitivos sem serem modulares. Qualquer dos elementos nesta estrutura é único em termos de distância e dimensão, e todas as ligações são ângulos únicos. Agora, somente temos um modo para desenhar isto, ou possivelmente construi-lo, é utilizando uma definição suportada pelo cálculo da forma. Será muito mais dinâmico, que possam ver que a mesma forma se abre e fecha dum modo muito dinâmico quando caminhamos por ela, porque tem a qualidade dum vector dinâmico incorporada. Assim o mesmo espaço que aparenta ser uma espécie de volume fechado, quando visto do lado oposto torna-se numa espécie de espaço aberto. E também podem obter uma sensação de movimento visual no espaço, porque cada elemento muda num padrão, em que o padrão dirige o olhar para o altar. Acho que esta é uma das principais mudanças, inclusive, na arquitectura: que começamos a olhar, não só para qualquer ideal de forma, como uma cruz latina para as igrejas, mas verdadeiramente todas as singularidades duma igreja: assim, a luz que provém duma fonte invisível, direcciona o foco de atenção sobre o altar. Acontece que não é ciência de ponta para desenhar um espaço sagrado. Somente necessitamos de incorporar um certo número de traços duma forma muito genética. Assim, são estas as diferentes perspectivas desse interior, o qual tem um complexo conjunto de orientações dentro duma forma simples.
Em termos de construção e fabrico, aqui temos uma banda habitacional de 1Km. edificada nos anos 70 em Amesterdão. E aqui quebramos os 500 apartamentos em pequenas vizinhanças, e diferenciámos essas vizinhanças. Não quero detalhar muito qualquer destes projectos, Mas o que podemos ver é que as escadas rolantes e elevadores pelas quais circulam pessoas pela face do edifício são sustentadas por 122 treliças estruturais. Porque usamos escadas rolantes para transportar pessoas, todas essas treliças recebem esforços oblíquos. Assim, cada qual possui um perfil ligeiramente diferente consoante nos movemos em descida ao longo do edifício. Assim, trabalhando com Bentley e MicroStation, escrevemos uma rotina personalizada que interliga em rede todos os componentes para esses troços de informação, de forma que, se alterar qualquer elemento sobre o comprimento do edifício, não somente muda a distribuição sobre cada uma das treliças, mas também cada treliça transfere essa informação a jusante ao longo de toda a fachada, Afinal é um cálculo simples para cada elemento singular do edifício que lhe estamos a adicionar. Assim, são 10 milhões de cálculos somente para desenhar uma ligação entre um elemento de aço estrutural e outro elemento de aço estrutural. Mas o que obtemos é uma harmónica e sintetizada interligação de todos esses componentes.
Esta ideia levou-me, de certo modo, a fazer algum design de objectos, e é porque as empresas de design que estão ligadas a arquitectos, tal como eu trabalho com Vitra, que é uma empresa de mobiliário, e Alessi, que é uma empresa de utilidades domésticas. Elas viram que isso realmente resolvia um problema: esta capacidade de diferenciar componetes mantendo-os no entanto sintéticos. Então, não para destacar a BMW, ou glorificá-la, mas tomar a BMW como exemplo. Eles tiveram que, em 2005 ter uma nova identidade para todos os seus modelos de automóveis. Assim, a série 300, ou o que é o seu carro mais recente, a série 100 que acaba de sair, têm que se assemelhar à série 700, no outro extremo da sua linha de produtos, então necessitam uma nova e coerente identidade, Que é BMW. Simultaneamente, existe alguém a pagar 30.000 dólares por um carro da série 300, e outro a pagar 70.000 dólares por um série 700, e quem pagou mais do dobro não quer que o seu carro se pareça muito com o fim de linha do mercado automóvel. Então também têm que diferenciar estes produtos. Assim, como fabricante começou a possibilitar mais opções de projecto, este problema agrava-se, com o todo e com as partes.
Agora, como arquitecto, o relacionamento de partes para todo... É com isso que me preocupo, mas em termos de concepção do produto começa a ser mais e mais uma preocupação das empresas. Assim, o primeiro teste de produtos que fizemos foi com a Alessi. para um conjunto de café e chá. Trata-se dum caríssimo conjunto de café e chá; desde o início que o sabíamos. Assim, efectivamente vou ter com algumas pessoas que conheço lá em baixo, no sul, em São Diego e usamos um método de molde em titânio explodido que é usado na indústria aeroespacial. Basicamente o que podemos fazer, é simplesmente cortar um molde de grafite, colocá-lo no forno, aquecê-lo a 1.000 graus, o titânio, que é macio, infla suavemente, e então explodi-lo por fim sobre este molde. Mas o que é notável é, os moldes custam custam poucas centenas de dólares. O titânio muitíssimos milhares de dólares, mas as formas são baratas. Então desenhámos aqui um sistema de oito curvas que podem ser alternadas muito semelhantes ao projecto habitacional que apresentei antes, e podemos recombiná-las juntas, de forma a obter sempre perfis ergonómicos sempre com o mesmo volume e possam produzir-se sempre do mesmo modo. Dessa forma, poderemos pagar por cada uma dessas utilidades algumas centenas de dólares obtendo uma incrível variação nos componentes. E este é um dos exemplos dos conjuntos. Assim para mim o que é importante é que este conjunto de café apenas uma cafeteira, um bule de chá, e estas chávenas assentes na bandeja... que possuirão uma coerência assim, serão cafeteiras Greg Lynn Alessi mas em que todos os compradores considerariam de certo modo ter um objecto único.
Voltando à arquitectura, tudo que é orgânico no campo da arquitectura, por oposição ao design de produto, é simplesmente uma questão holística e de monumentalidade que é efectivamente o nosso domínio. Assim, devemos projectar aquilo que é coerente como objecto único, mas também subdividido em pequenos compartimentos têm uma identificação com ambas, a escala maior e a pequena escala. Os arquitectos tendem a trabalhar com a assinatura, de forma que um arquitecto necessita assinatura e essa assinatura tem que aparecer em toda a escala de construções até aos arranha-céus, por assim dizer, e este problema das assinaturas é matéria em que somos bons em manter ao trabalhar, e complexidade, que é, por assim dizer, o relacionamento do perfil dum edifício, da sua estrutura, das janelas, da cor, do padrão, Estes são problemas efectivos da arquitectura.
Então, neste tema, o meu herói no mundo natural são estas rãs tropicais. Interessei-me por elas, porque são o maior exemplo extremo duma superfície em que a textura e a... chamemos-lhe decoração Bem sei que a rã não pensa no assunto como decoração, mas é como funciona... estão estreitamente ligados entre si. Então, uma mudança na forma indica uma mudança na paleta de cores. Assim, padrão e forma não são a mesma coisa, Mas efectivamente trabalham em conjunto em fusão de alguma maneira. Assim, ao fazer um centro para o parque nacional da Costa Rica, tentámos usar esta idéia dum gradiente de cor e uma alteração na textura à medida que a estrutura caminha sobre toda a superfície do edifício, Também usamos uma alteração de continuidade dum átrio principal de exposição para o museu de história natural, como tal, tudo é uma mudança contínua na aglomeração, mas dentro deste aglomerado estão diversos tipos de espaços e formas.
Num projecto habitacional em Valência, que estamos a construir, as diferentes torres habitacionais fundem-se em curvas concordantes, obtendo-se uma mole única, como uma espécie de monólito, mas subdividido em elementos individualizados. E podem ver que essa alteração no volume corresponde em todos os 48 apartamentos a uma única forma e tamanho, mas sempre dentro duma tipologia de limites controlados, uma envolvente de mutação.
Trabalho com um grupo de arquitectos. Temos uma empresa denominada United Architects. Somos um dos finalistas para o projecto do World Trade Center. Penso que isto por si mostra como nos aproximámos da problemática da construção em incrível larga escala. Queríamos fazer uma espécie de catedral gótica em redor dos vestígios do sítio do World Trade Center. E para o concretizar, tentámos ligar as cinco torres num único sistema. E verificámos, que desde os anos 50, existem numerosos exemplos doutros arquitectos tentando fazer o mesmo. Realmente aproximámo-nos ao nível da tipologia do edifício, no qual podemos construir essas cinco torres separadas, mas juntam-se todas ao nível do 60º piso formando uma simples massa monolítica. Também, com United Architects, concebemos uma proposta para a sede do Banco Central Europeu usando o mesmo sistema, mas, formando neste caso, ainda maior massa monolítica, similar a uma esfera. De novo, podem ver essa, tipo, fusão orgânica de multiplos elementos do edifício formando um todo, mas subdividido em partes menores, só que duma forma incrivelmente orgânica.
Por fim, gostaria de vos apresentar alguns dos resultados do recurso ao fabrico digital Cerca de seis anos atrás, eu adquiri uma das fresas CNC, para substituir, de certo modo, jovens com dedos cortados sempre que construíam modelos. E também adquiri um cortador laser, começando a fabricar na minha própria loja, protótipos de elementos de construção e modelos em que podíamos ir directamente para a cinzelagem. O que descobro é que a cinzelagem, se interviermos na programação, produz actualmente efeitos decorativos. Assim, para estes interiores, como esta loja em Estocolmo, Suécia, ou esta parede instalada na Holanda no Instituto dos Arquitectos Holandeses pudemos utilizar a textura original dada pela ferramenta para produzir uma série de efeitos espaciais, e podemos integrar a textura da parede com a forma da parede com o material. Assim, no plástico moldado a vácuo, na fibra de vidro, e mesmo ao nível do aço estrutural, que julgam ser linear e modular. A indústria do aço está tão afastada, à frente do design industrial que se tirarmos proveito dela podem inclusive pensar em pilares e vigas todos participam num único sistema o que é muito eficiente, mas também produz efeitos decorativos e efeitos formais que são muito belos e orgânicos. Muito obrigado.
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Palestra de Greg Lynn sobre as origens matemáticas da arquitectura -- e como a álgebra e as ferramentas digitais possibilitam aos projectistas modernos ir para além das formas de construção tradicional. Uma notável igreja em Queens (e um conjunto de chá de titânio) ilustram esta teoria.
Greg Lynn is the head of Greg Lynn FORM, an architecture firm known for its boundary-breaking, biomorphic shapes and its embrace of digital tools for design and fabrication. Full bio »
Translated into Portuguese by Vítor Rei
Reviewed by Filipe Delgado
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