Tivemos, nos últimos 50 anos, forte construção dos subúrbios com muitas consequências indesejadas. Vou falar-vos de algumas dessas consequências e apresentar uma série de projectos realmente interessantes que creio que nos dão fortes razões para ficarmos verdadeiramente optimistas em como o grande projecto de design e desenvolvimento para os próximos 50 anos será a readaptação de subúrbios. Quer seja a reconstrução de centros comerciais decadentes tornar habitáveis grandes armazéns comerciais ou reconstruir sapais no que eram parques de estacionamento. Eu acredito que o crescente número principalmente de espaços comerciais decadentes ou não rentáveis pelos subúrbios nos dá uma tremenda oportunidade para pegar naquelas paisagens, que de momento são menos sustentáveis e convertê-las em lugares mais sustentáveis. O que este processo nos permite fazer é voltar a direccionar mais do nosso crescimento de volta para as comunidades existentes que precisam desse impulso e que têm já a infraestrutura pronta, em vez de continuarmos a arrancar árvores e a arrasar os espaços verdes da periferia.
Porque é que isto é importante? Penso que há diversas razões. Sem entrar em grande pormenor, vou mencionar algumas. Numa perspectiva de alterações climáticas, o habitante urbano médio nos E.U.A. tem uma pegada de carbono equivalente a um terço da do habitante suburbano médio, principalmente porque os habitantes dos subúrbios conduzem muito mais, e por morarem em vivendas separadas têm uma superfície exterior muito maior por onde se dissipa energia. Portanto, estritamente de uma perspectiva de alterações climáticas, as cidades são já relativamente "verdes". A grande oportunidade para reduzir as emissões causadoras de efeito de estufa está, na realidade, na urbanização dos subúrbios. A quilometragem que fazemos duplicou por vivermos nos subúrbios. Isso fez aumentar a nossa dependência de petróleo importado apesar dos ganhos em eficiência dos automóveis. Simplesmente, estamos a conduzir tanto que a tecnologia não tem sido capaz de acompanhar este crescimento.
A saúde pública é outra razão para considerarmos a readaptação dos subúrbios. Investigadores no CDC e em outros institutos têm associado cada vez mais os padrões de desenvolvimento suburbano com estilos de vida sedentários. E esses têm vindo a ser associados com o alarmante crescimento dos níveis de obesidade visível nestes mapas e, por sua vez, essa obesidade tem causado um grande aumento de doenças coronárias e diabetes até ao ponto em que, uma criança que nasça hoje tem 33% de probabilidade de vir a ter diabetes. Esta taxa de crescimento tem acompanhado a tendência para as crianças não irem a pé para a escola, mais uma vez, devido aos nossos padrões de desenvolvimento suburbano.
Finalmente temos a questão do preço. Até que ponto podemos suportar os custos de viver em subúrbios considerando o preço dos combustíveis? A expansão suburbana para terrenos baratos durante os últimos 50 anos -- sabem, os terrenos baratos na periferia -- ajudou várias gerações de famílias a desfrutar do Sonho Americano. Mas cada vez mais, as poupanças prometidas numa lógica "vai conduzindo para a periferia até conseguires que te aprovem um empréstimo bancário" essas poupanças são anuladas quando consideramos os custos de transportes. Por exemplo aqui em Atlanta cerca de metade dos agregados ganham entre 20 e 50 mil dólares por ano. E estão a gastar 29% do seu rendimento em habitação e 32 por cento em transportes. Estes são valores de 2005. Ou seja, antes de termos chegado a 1 dólar por litro. Vocês sabem, as pessoas tendem a não contabilizar os custos de transporte. E eles não vão decair nos próximos tempos.
Quer vocês adorem o ambiente idílico e privado dos subúrbios quer detestem as suas zonas comerciais sem alma, há razões pelas quais é importante recuperar e reequipar. Mas... será prático? Penso que sim. June Williamson e eu temos investigado este tema na última década. Já encontrámos mais de 80 projectos variados. Que são impulsionados pelo mercado. O que está a conduzir o mercado em particular: Primeiro: grandes alterações demográficas. Costumamos pensar nos subúrbios como lugares feitos para a vida em família. Porém já não é esse o caso. Desde o ano 2000, já dois terços dos agregados suburbanos não têm crianças. Simplesmente ainda não tínhamos atingido isto. As razões para isto têm muito a ver com a predominância de dois grandes grupos demográficos. São eles os Baby Boomers agora em idade de reforma, depois há um hiato, a Geração X, que é um grupo pequeno. Ainda estão a ter filhos. Mas a Geração Y ainda nem começou a atingir a idade para ter filhos. Eles são o próximo grande grupo.
Portanto o resultado disso, previsto pelos demógrafos, é que até 2025 75 a 85 por cento dos novos agregados familiares não terão crianças. Diz ainda a pesquisa de mercado, pesquisa de consumo ao perguntar aos boomers e à Geração Y o que é que eles gostariam, onde é que eles gostariam de viver, revela-nos que vai haver uma forte procura -- que já é visível -- de estilos de vida mais urbanos dentro dos subúrbios. Basicamente os Boomers querem poder envelhecer onde estão e a Geração Y gostaria de ter um modo de vida urbano, porém a maioria dos seus empregos continuará a ser nos subúrbios.
O outro forte impulsionador da mudança é o desempenho económico puro do "Asfalto Ruinoso". Creio que este seria um nome fantástico para uma banda de rock alternativo. Mas na indústria imobiliária habitualmente usam o termo para se referirem a parques de estacionamento sub-utilizados. E os subúrbios estão cheios deles. Quando os subúrbios do pós-guerra foram construídos lá longe nos terrenos baratos, bem longe do centro, Fez sentido simplesmente construir parques de estacionamento à superfície. Estes lugares foram ultrapassados, e ultrapassados de novo à medida que a periferia foi alastrando. Acontece que agora eles têm uma localização relativamente central. Já não fazem sentido. Aqueles terrenos têm mais valor do que se aplicados ao estacionamento. Faz sentido agora ir lá construir umas fundações e construir na vertical nesses terrenos. Então o que se pode fazer com um centro comercial decadente, ou com um centro de escritórios morto? Acontece que se pode fazer muitas oisas. Numa economia em baixo crescimento como a nossa a re-habitação é uma das estratégias mais populares.
Este aqui é um centro comercial abandonado em St. Louis que foi recuperado como um espaço para a arte. Tornou-se um centro de estúdios para artistas, grupos teatrais, trupes de dança, ... Não está a trazer tanta receita fiscal como em temos trazia. Mas está a servir a sua comunidade. Ao menos mantém as luzes acesas. Está a tornar-se, penso eu, numa grande instituição. Outros centros comerciais foram re-habitados como lares de idosos, universidades, todo o tipo de espaços para escritórios. Encontrámos também exemplos de grandes armazéns que foram convertidos em todo o tipo de usos na comunidade -- muitas escolas, muitas igrejas, e muitas bibliotecas como esta aqui.
Esta era uma pequena mercearia, um supermercado Food Lion que agora é uma biblioteca pública. Além de ser um belo trabalho de adaptação e reutilização, eles demoliram algum do estacionamento, construíram valetas para recolher e tratar as águas construíram mais passeios para ligar as vizinhanças. E do que era apenas um armazém ao longo de uma zona comercial fizeram um local onde a comunidade se reúne. Este é um centro comercial em forma de "L" em Phoenix, no estado do Arizona. O que eles fizeram foi simplesmente uma nova pintura em tons vivos, uma mercearia gourmet, e puseram um restaurante na antiga estação dos correios. Nunca subestimemos o poder da comida para dar a volta a um local transformando-o num ponto de interesse. Têm tido tanto sucesso que agora cresceram para a zona do outro lado da rua. Os anúncios das imobiliárias na zona escrevem orgulhosamente "Pertíssimo do Le Grande Orange" Por ter gerado nesta vizinhança o que os sociólogos costumam chamar "o terceiro lugar". Se o nosso lar é o primeiro lugar, o local de trabalho é o segundo lugar, o tercerio lugar é aquele onde gostamos de ir e construir laços comunitários. Especialmente por os subúrbios se estarem a tornar menos centrados na vida familiar, os agregados familiares têm uma verdadeira sede de mais terceiros lugares.
Os projectos de recuperação mais espectaculares são os da próxima categoria, a próxima estratégia, de reconstrução. Durante as épocas de forte expansão económica houve vários projectos radicais de re-desenvolvimento em que o prédio original foi arrasado e o local foi completamente reconstruído com uma densidade significativamente maior, como que uma vizinhança compacta, urbana e pedonalizada. Porém, alguns foram projectos de natureza incremental. Aqui temos Mashpee Commons, a readaptação mais antiga que encontrámos. Eles têm vindo a urbanizar por cima do estacionamento incrementalmente ao longo dos últimos 20 anos. As fotos a preto e branco mostram o centro comercial básico dos anos 60. Os mapas por cima mostram a sua transformação gradual numa aldeia compacta de uso misto em estilo Nova Inglaterra, que agora tem planos aprovados para se ligar às novas zonas residenciais da vizinhança através de estradas nacionais e para se ligar também ao lado oposto. Portanto, umas vezes é gradual, outras vezes é uma mudança completa.
Aqui temos outro projecto sobre os parques de estacionamento, trata-se de um centro de escritórios na periferia de Washington D.C. Quanto a Metrorail expandiu as linhas para os subúrbios e abriu uma estação perto deste local, os seus proprietários decidiram construir um novo nível de estacionamento e a seguir colocar sobre os seus estacionamento de superfície uma nova rua principal, apartamentos, e condomínios fechados, mas mantendo os prédios de escritórios existentes. Aqui está o local em 1940. Era apenas uma pequena quinta na aldeia de Hyattsville. Por altura de 1980 tinha sido subdividida entre uma grande galeria comercial de um lado e um centro de escritórios do outro. Tinha também uma biblioteca e uma igreja do lado mais à direita. Hoje, os transportes públicos, a rua principal e a nova zona residencial todos foram construídos. Eventualmente, é expectável que as ruas se expandirão por via de reconstrução da galeria comercial. Já foram anunciados planos para muitos destes apartamentos no jardim acima do centro comercial serem reconstruídos. Os transportes públicos são um forte impulsionador para a adaptação. Aqui está. Pode ver-se estes condomínios todos modernos por entre os prédios de escritórios e o espaço público e a nova rua principal.
Este é um dos meus favoritos, Belmar. Acho que eles construíram um lugar mesmo atractivo e empregaram métodos 100% "verdes". Existem enormes paineis foto-voltaicos nos telhados e também geradores eólicos. Este local era um enorme centro comercial numa zona de 40 hectares. Agora são 22 quarteirões urbanos e pedonalizados com ruas abertas ao público dois parques, oito carreiras de autocarro e vários tipos de habitação. Isto tudo trouxe a Lakewood, Colorado uma "baixa" da cidade que este subúrbio nunca tinha tido. Aqui vemos o centro comercial nos seus melhores dias. Eles tiveram o baile de finalistas no centro comercial. As pessoas adoravam-no. E aqui está o local em 1975 com o centro comercial. Por volta de 1995 a galeria comercial estava acabada. A loja-âncora tinha-se mantido. Verificámos que isto sucede em muitos casos. As grandes lojas ocupam vários andares, são de melhor construção. São facilmente re-adaptadas. Mas as de piso térreo... Isso é mesmo passado.
Aqui está como o projecto se desenvolveu. Este projecto, penso eu, tem boa acessibilidade em relação às vizinhanças existentes. Oferece a 1500 famílias a opção de um estilo de vida mais urbano. Cerca de dois terços da construção está concluído. Aqui vemos o aspecto da nova rua principal. Um grande sucesso. E ajudou a impulsionar oito dos 13 centros comercias regionais em Denver que foram ou anunciaram que irão ser re-adaptados. Mas é importante notar que toda esta re-adaptação não consiste apenas em termos umas máquinas a chegar e a arrasar a cidade inteira. Não, trata-se de zonas-enclave pedonais nos locais onde havia propriedades que não eram rentáveis. Isto é, oferece-se às pessoas mais escolha, não se tiram opções às pessoas.
Porém, não é suficiente criar zonas pedonais. Quer-se também tentar transformações sistémicas. Queremos também readaptar os corredores. Aqui vemos um que foi readaptado na Califórnia. Eles pegaram na avenida comercial visível nas imagens a preto e branco em baixo, e construíram uma alameda que se tornou a rua principal para a cidade. A transformação foi de um local indesejável, feio, inseguro, para um local atractivo, bonito, digno, uma morada de prestígio. Espero que se vá tornando visível -- eles construíram a câmara municipal, atraíram dois hoteis. Podia imaginar belas habitações por ali acima sem se arrancar uma única árvore. Aqui estão grandes melhorias. Mas eu adoraria ver mais avenidas a serem readaptadas.
No entanto, a densificação não vai resultar em todos os casos. Por vezes, tornar os espaços verdes é, de facto, a melhor resposta. Há muito para aprender com o sucesso de bancos de terrenos que permitiram a compra rápida de terras desocupadas em cidades como Flint, Michigan Há também uma moda do cultivo de terras nos subúrbios -- os "Jardins de Guerra" na era da internet. Mas o aspecto mais importante da devolução dos espaços à Natureza talvez seja a oportunidade para restaurar a ecologia local. Como se vê neste exemplo à saída de Minneapolis. Quando o centro comercial faliu a cidade restaurou os sapais que havia no local originalmente, criando terrenos com vista para o lago que por sua vez atraíram investimento privado, o primeiro investimento privado numa vizinhança muito pobre em mais de 40 anos. Portanto eles conseguiram restaurar a ecologia do local e a economia local ao mesmo tempo. Este é outro exemplo de restauro de espaços verdes. Faz sentido também em mercados imobiliários fortes. Este aqui em Seattle fica no local de um estacionamento de um centro comercial adjacente a uma estação de transportes públicos. A linha ondulada é um caminho ao longo de um ribeiro que foi desenterrado. O ribeiro tinha sido coberto para a construção do estacionamento. Quando desenterramos as vias de água melhoramos significativamente a qualidade da água e a sua contribuição para os habitats.
Mostrei-vos já algumas adaptações de primeira geração. O que se segue? Penso que temos três desafios para o futuro. O primeiro é o de planear a readaptação de forma sistémica à escala metropolitana. Temos que ser capazes de apontar quais as áreas que de de facto deveriam ser novas zonas verdes. Onde deveremos reconstruir? E onde deveremos encorajar nova habitação? Estes slides mostram duas imagens de um projecto maior que tentou fazer isto para a cidade de Atlanta. Eu liderei uma equipa a quem se pediu que imaginasse Atlanta daqui por 100 anos. Nós optámos por inverter o alastrar dos subúrbios em 3 passos simples -- dispendiosos mas simples. Primeiro, em 100 anos, transportes públicos em todos as principais vias férreas e rodoviárias. Segundo, em 100 anos, zonas livres de construção de 300 metros em torno de todas as vias de água. É algo radical, mas nós temos um "pequeno" problema com a falta de água. Em 100 anos, as subdivisões que fiquem demasiado perto da água ou demasiado longe dos transportes públicos serão inviáveis. Por isso criámos o "Eco Acre Transfer", uma bolsa imobiliária para transferir direitos de desenvolvimento na direcção dos corredores de transportes públicos permitindo a recuperação de espaços verdes nas zonas assim libertas para a produção de alimentos e energia.
O segundo desafio é a melhoria da qualidade do design e arquitectura das novas urbanizações. Ilustro isto com uma imagem da democracia em acção. Esta manifestação está a decorrer numa nova urbanização em Silver Spring, Maryland. Num parque da cidade coberto de relva sintética. As novas urbanizações são por vezes acusadas de serem exemplos de falsos centros urbanos e urbanismo instantâneo. E tem um fundo de verdade. Não há nada mais artificial que um parque da cidade com relvado sintético. Devo dizer que estes locais são muito híbridos. São modernos, mas tentam parecer antigos. Têm ruas de aspecto urbano mas espaços de estacionamento suburbano. A sua população é mais diversificada do que no subúrbio típico mas menos do que nas cidades. São locais públicos mas que são geridos por empresas privadas. A sua aparência exterior é -- com o relvado sintético -- suficiente para me arrepiar. Por isso, fico contente ao saber que o urbanismo está a fazer o seu papel. O facto de estar a haver uma manifestação realmente significa que a disposição das zonas, ruas e quarteirões, a disponibilização de espaços públicos com os compromissos visíveis, é ainda assim uma grande melhoria. Temos é que conseguir melhor arquitectura.
O último desafio é para todos vós. Quero que adiram à manifestação e comecem a exigir lugares suburbanos mais sustentáveis -- ou lugares mais sustentáveis, ponto final. Culturalmente costumamos pensar que o centro da cidade deve ser dinâmico e é essa a expectativa. No entanto, parece que a expectativa é que os subúrbios devem ficar congelados na forma adolescente em que foram criados. É tempo de os deixarmos crescer. Então peço-vos que apoiem as mudanças na definição de zonas, a redução do número vias para automóveis, as melhorias em infraestruturas, e as readaptações que chegarão em breve a uma vizinhança perto de vós.
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Ellen Dunham-Jones dá o tiro de partida para o grande projecto de design sustentável para os próximos 50 anos: recuperar e reequipar os subúrbios. A seguir: reabilitação de centros comerciais mortos, grandes armazéns falidos tornados habitáveis, parques de estacionamento transformados em sapais cheios de vida.
Ellen Dunham-Jones takes an unblinking look at our underperforming suburbs -- and proposes plans for making them livable and sustainable. Full bio »
Translated into Portuguese by Nuno Lima
Reviewed by Sofia Nunes
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19:44 Posted: May 2007
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