Gostaria de falar acerca de tendências tecnológicas, que é algo que muitos de vocês seguem -- mas nós também seguimos, por razões associadas. Obviamente, sendo uma revista de tecnologia, as tendências tecnológicas são algo sobre o qual escrevemos e que precisamos conhecer.
Mas também é parte de ser de qualquer revista mensal -- vivemos no futuro. E temos um grande avanço. Temos de planear os números com muitos meses de antecedência, temos de adivinhar quais serão os apetites do público daí a seis, ou nove meses. Estamos no negócio da previsão.
Como muitas empresas, nós também criamos um produto que se baseia em tendências tecnológicas. Neste caso, o nosso é sobre ideias e informação e, se tivermos sorte, algum entretenimento. Mas o conceito é basicamente o mesmo. E por isso temos de compreender não apenas porque é que a tecnologia é importante, para onde caminha, mas também, muito importante, quando -- momento é tudo.
E é interessante quando olhamos para as previsões feitas durante o pico do boom nos anos 90, acerca de comércio electrónico, ou tráfego da internet, ou adopção de banda larga, ou publicidade na internet, todas estavam correctas -- estavam apenas erradas no tempo. Quase todas se tornaram realidade passados poucos anos. Mas a diferença de poucos anos na valorização do mercado bolsista é obviamente extrema. E é por isso que o momento é tudo.
Provavelmente já viram algo como isto antes. Esta é a clássica curva Gartner Hype, que fala sobre a trajectória do ciclo de vida de uma tecnologia. E só por brincadeira, pusemos um monte de tecnologias nela, para mostrar se estavam a subir para o primeiro pico, ou se estavam quase a cair para a desilusão, ou a subir outra vez o declive da iluminação ou etc. E esta é uma forma de fazer previsão tecnológica; ter a noção de onde a tecnologia está e então, antecipar a próxima viragem.
Tendemos a fazer qualquer tecnologia que pensamos ser suficientemente importante, e, tipicamente, fazemo-lo duas vezes. A primeira, queremos fazê-la primeiro. Queremos ser os primeiros a fazê-lo, para os entusiastas que apreciam isso, apanhamos logo no lançamento da tecnologia. Podem ver em 1997, pusemos o Linux na capa. Mas depois volta outra vez. E as tecnologias suficientemente importantes vão tornar-se moda e depois desaparecerão. E então é altura de fazê-lo outra vez. No último ano. E é uma forma de tentarmos temporizar as tendências tecnológicas.
Eu gostaria de falar acerca de uma forma de pensar acerca das tendências tecnológicas a que chamo a minha grande teoria unificada de prever o futuro, mas que é mais como uma pequena teoria unificada de prever o futuro. Baseia-se na assunção, ou até na observação, de que todas as tecnologias importantes passam por quatro fases ao longo da sua vida -- pelo menos uma das quatro fases, algumas vezes por todas elas. E em cada uma dessas fases, pode ser vista como uma colisão -- uma colisão com outra coisa qualquer -- por exemplo, uma linha de preço que muda tanto a tecnologia como o seu efeito no mundo. É um ponto de inflexão. E são estes pontos de inflexão que nos dizem qual vai ser o próximo capítulo na vida daquela tecnologia, e talvez como podemos fazer algo acerca isso.
O primeiro é o preço crítico. A primeira etapa no avanço de uma tecnologia é que caia abaixo de um preço crítico. Depois de ter baixado a esse preço crítico, tenderá se for bem sucedida, a subir acima de uma massa crítica, uma penetração. Muitas tecnologias, nessa altura, deslocam outra tecnologia, e esse é outro ponto importante. E finalmente, muitas tecnologias banalizam-se. Perto do fim da sua vida, tornam-se quase grátis.
Cada uma destas é uma oportunidade para fazer qualquer coisa; é uma oportunidade para a mudança tecnológica. E mesmo que tenham perdido, sabem, o primeiro boom do Wi-Fi -- sabem, o Wi-Fi passou o preço crítico, passou a massa crítica, mas ainda não deslocou nada e ainda não é grátis -- ainda apresenta muitas oportunidades.
Gostava de demonstrar o que quero dizer com isto contando a história do DVD, que é uma tecnologia que fez tudo isto. O DVD, como sabem, foi introduzido em meados dos anos 90 e era bastante caro. Mas como podem ver em 1998, caiu abaixo dos 400 dólares, e 400 era o limite psicológico. E começou a descolar. E podem ver que as unidades começaram a subir, o ponto de inflexão escondido, estava a descolar.
Aquilo que atingiu, um ano depois, foi a massa crítica. Neste caso, 20 por cento é normalmente um bom indicador de massa crítica nos lares. E o que é interessante aqui é que outra coisa descolou também -- unidades de cinema em casa. De repente temos um DVD em casa, temos vídeo digital de alta qualidade, temos um motivo para ter uma televisão de ecrã grande, temos um motivo para ter som Dolby surround 5.1. E talvez tenhamos motivos para começar a ligá-los, e juntar-lhe outras coisas de entretenimento. O que também é interessante, é notar que a Netflix foi fundada em 1999. O Reed Hastings está aqui. Ele viu claramente que aquilo era um momento, que era um ponto de inflexão, que podia fazer algo com ele.
A fase seguinte que alcançou foi deslocamento. Podem ver por volta de 2001, finalmente ultrapassou o vídeo. E aqui também, podem ver as grandes implicações no mundo. A Netflix estava correcta - O modelo Netflix capitaliza no DVD de uma forma que os vídeo clubes não conseguiam. Entre as muitas vantagens do DVD, ele é muito pequeno, podemos colocá-lo no correio e enviá-lo a baixo custo. Isso deu uma vantagem; Isso foi uma consequência do crescimento da tecnologia que não foi óbvio para todos.
E finalmente, os DVD estão a aproximar-se do grátis. Existe uma empresa chamada Apex, uma empresa desconhecida Chinesa, que foi, várias vezes no último ano, o vendedor número um de DVD na América. O seu preço médio, no último ano, foi de 48 dólares. Estamos conscientes do talvez apócrifo anúncio da Wal-Mart acerca do DVD a 30 dólares. Mas eles estão a ficar muito, muito baratos, e vejam a interessante consequência disto. Enquanto vão ficando baratos, as grandes marcas, as Sonys e afins, estão a perder quota de mercado, e as desconhecidas, as Apex, estão a ganhá-la. Estão a tornar-se banais e isso é o que acontece quando as coisas vão para zero. É um mercado duro lá fora. (Risos)
Agora introduziram estas quatro formas de olhar para a tecnologia; estas quatro etapas da vida da tecnologia. Gostaria de falar acerca de outras tecnologias que existem, apenas tecnologias no nosso radar - e vou usar esta lente, estas quatro, como uma maneira de de dizer-vos onde cada uma delas está no seu desenvolvimento. Não são necessariamente as top 10 que existem - são apenas exemplos de tecnologias que estão em cada um destes períodos. Mas penso que é interessante pensar nas implicações de elas se aproximarem destes cruzamentos, destas intersecções.
Começamos com a sequenciação genética. Como provavelmente sabem, a sequenciação genética - em grande parte por assentar em computadores - tem o preço a descer a um nível como na Lei de Moore. Agora é possível - será possível, e se o Craig Venter de facto vier aqui hoje, poderá dizer-vos algo acerca disto - até ao final deste ano, sequenciar o genoma humano por 40 milhões de dólares. Em oposição a biliões há apenas alguns anos. Sabem, a nossa capacidade para capturar as ferramentas da criação está cada vez mais próxima.
O que é interessante é que ao mesmo tempo, o número de genes que estamos a descobrir está a subir muito depressa. Cada um destes genes tem um potencial de diagnóstico. Virá o dia em que poderemos ter centenas de milhar de testes, muito baratos, se quisermos saber. Podemos aprender acerca do nosso próprio mosaico.
Aqui está outra tecnologia que está a aproximar-se do preço crítico. Esta é uma investigação fascinante da OMS que mostra o efeito das drogas genéricas nos componentes e misturas de drogas anti-retrovirais. Em Janeiro de 2000, o preço era de 10000 dólares ou 27 dólares por dia. Os genéricos chegaram, primeiro no Brasil e noutros sítios, e o efeito foi dramático no preço. Hoje é menos de 50 cêntimos por dia. E o que é interessante é se repararem na elasticidade do preço, se virem a correlação entre estes dois, enquanto os anti-retrovirais descem, o número de pessoas que podemos tratar sobe radicalmente. E a Fundação Clinton e a OMS acreditam que podem tratar 3 milhões de pessoas em todo o mundo até 2005- 2 milhões na África sub-Sahriana. E a queda do preço das drogas tem muito a ver com isso.
O Linux é outro grande exemplo. Agora mudamos para a massa crítica. Estas são tecnologias que estão a alcançar a massa crítica. Se virem aqui, o Linux está a vermelho, e alcançou os 20 por cento. Curiosamente, já tinha feito um cruzamento antes, mas não o cruzamento que importa. O cruzamento que irá ser importante será com o azul. Mas podem ver a direcção que aquelas linhas estão a tomar, podem ver que a 20 por cento está a ser levada a sério. Já não é apenas para aficionados. Isto é, presumo, o que o pessoal de Redmond acorda durante a noite a pensar. (Risos)
Outra tecnologia que vemos à nossa volta por aqui são os carros híbridos. Não sei se alguém tem um Prius de 2004, mas são fantásticos. E se virem as tendências aqui, por volta de 2008, e não penso que seja uma previsão louca representarão 2 por cento das vendas de carros. Dois por cento não é 20% mas no negócio dos carros, que é muito lento a mudar, isso é enorme; é uma chegada. Com dois por cento, começaremos a vê-los nas estradas por todo o lado.
E o que é interessante acerca da descolagem dos híbridos é que foram introduzidos motores eléctricos na indústria automóvel. É a primeira mudança radical na tecnologia automóvel em 100 anos. E uma vez que se tenha motores eléctricos, podemos fazer qualquer coisa: podemos mudar a estrutura do carro da forma que quisermos. Podemos ter travagem regenerativa, podemos ter condução-por-fio, podemos ter partes substituíveis do corpo -- é uma coisa pequena que começa com um híbrido, mas pode levar a uma era do automóvel completamente nova.
Voz sobre IP é algo de que podem ter ouvido falar. Mais uma vez, parece surgir do nada, ainda é um pouco difícil de utilizar. Existe uma empresa criada pelos fundadores do Kazaa chamada Skype. Vejam estes números. Lançaram-no em Agosto do ano passado; já têm cerca de 4 milhões de utilizadores registados -- isso é massa crítica. E a mesma coisa está a acontecer no lado do fornecedor. Estão a ver o IP tomar conta de alguns dos padrões tradicionais das telecom. Isto é um ponto de viragem -- se o Malcolm estiver aqui, perdoe-me -- e vai mudar a economia, e a velocidade e os actores na indústria; irá parecer-se um pouco com isto.
E finalmente, grátis. O grátis é mesmo, mesmo interessante O grátis é algo que vem com o digital, porque os custos de reprodução são essencialmente grátis. Chega com o IP, porque é um protocolo tão eficiente. Chega com a fibra óptica porque permite muita largura de banda. O grátis é na realidade, sabem, o presente de Silicon Valley para o mundo. É uma força económica, é uma força técnica. É uma força deflacionária, se não for manuseada como deve ser. É abundância, em oposição à escassez. O grátis é provavelmente a coisa mais importante.
E aqui têm o número de canções que podem ser guardadas num disco rígido. Sabem, podia ser um filme [...] ali mas basicamente, todas as canções já feitas podiam ser guardadas num armazenamento no valor de 400 dólares em 2008. Isto retira da tabela aquele elemento, o elemento físico, das canções. E vocês viram os números. Quero dizer, vocês sabem, a indústria da música está a implodir à frente dos nossos olhos e em Hollywood também estão preocupados. Eles estão a enfrentar uma força que nunca haviam enfrentado. E a sua resposta é draconiana e não necessariamente aquela que os vai tirar desta situação.
E finalmente, vou dar-vos um último exemplo de grátis -- talvez o mais poderoso de todos. Eu mencionei a fibra óptica: a sua abundância tende a tornar as coisas grátis. Este é o preço por minuto de uma chamada telefónica para a Índia. E o que é interessante é que em 1990 ainda era mais de 2 dólares por minuto. A Índia ainda tinha um sistema telefónico regulado, tal como nós. Era surpreendentemente pouco inovador, movia-se muito devagar, mas depois havia tanta fibra óptica disponível que não se podia conter e vejam quão depressa o preço caiu. São 7 cêntimos por minuto, em muitos casos.
E a consequência de chamadas telefónicas baratas, chamadas telefónicas grátis, para a Índia, é o programador zangado, é a sub-contratação. É provavelmente uma das mudanças mais dramáticas na globalização, e uma das ferramentas económicas mais poderosas que estamos a ver hoje no nosso mundo. A força da Índia, e depois da China e qualquer outro país que pode contactar os nossos mercados e que irão trabalhar com as nossas empresas -- porque as comunicações são de graça -- está apenas a começar a sentir-se. E penso que é provavelmente uma das mais importantes tendências tecnológicas que estamos a ver hoje. Obrigado.
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Chris Anderson, o editor da WIRED, explora as quatro fases chave de qualquer tecnologia viável: estabelecer o preço adequado, conquistar quota de mercado, deslocar uma tecnologia estabelecida e, finalmente, tornar-se ubiqua.
As editor of WIRED, Chris Anderson is an authority on emerging technologies and the cultures that surround them. Full bio »
Translated into Portuguese by Nuno Caseiro
Reviewed by Sofia Nunes
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19:34 Posted: Jul 2008
Views 687,738 | Comments 221
20:33 Posted: May 2007
Views 486,460 | Comments 46
19:31 Posted: Feb 2008
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