A primeira coisa que eu quero fazer é dizer obrigado a todos vós. A segunda coisa que eu quero fazer é apresentar o meu co-autor, querido amigo e co-professor. O Ken e eu temos trabalhado juntos durante quase 40 anos. Aquele é o Ken Sharpe ali.
Há entre muitas pessoas - certamente eu e a maioria das pessoas com quem eu falo - uma espécie de insatisfação colectiva com a forma como as coisas estão a funcionar, com o modo como as nossas instituições funcionam. Os professores das nossas crianças parecem estar a falhar. Os nossos médicos não fazem a mínima ideia de quem somos, e eles não têm tempo suficiente para nós. Nós certamente não podemos confiar nos banqueiros, e não podemos certamente confiar nos correctores. Eles quase que deitaram abaixo todo o sistema financeiro. E mesmo quando fazemos o nosso próprio trabalho, com demasiada frequência nos deparamos com a necessidade de escolher entre fazer aquilo que pensamos ser a coisa acertada e aquilo que é a coisa expectável, ou aquilo que nos é requerido, ou aquilo que é lucrativo. Por isso, para onde quer que olhemos, praticamente em todo o lado, preocupamo-nos que as pessoas em quem dependemos não queiram o que é melhor para nós. Ou se tiverem os nossos interesses em consideração, preocupamo-nos que elas não nos conheçam suficientemente bem para saberem o que precisam de fazer para nos permitir assegurar esses interesses. Elas não nos compreendem. Elas não têm tempo suficiente para nos conhecer.
Há dois tipos de respostas que nos damos para resolver este tipo de insatisfação geral. Se as coisas não estão a correr bem, a primeira resposta é: vamos fazer mais regras, vamos criar um conjunto de procedimentos detalhados para assegurar que as pessoas vão fazer a coisa certa. Dêem guiões aos professores para os seguirem na sala de aula de modo a que, mesmo que eles não saibam o que estão a fazer e não se preocupem com o bem-estar das nossas crianças, desde que eles sigam os guiões, os nossos miúdos serão educados. Dêem aos juízes uma lista de sentenças obrigatórias para impor para crimes, para que não tenhamos de confiar nos juízes usando o seu discernimento. Em vez disso, tudo o que eles têm de fazer é olhar para a lista e ver que tipo de sentença corresponde a um determinado crime. Imponham limites aos juros que as companhias de cartões de crédito podem cobrar e naquilo que podem cobrar em taxas. Mais e mais regras para nos proteger contra um conjunto indiferente e insensível de instituições com que temos de lidar.
Ou - ou talvez e - além de regras, vamos ver se conseguimos pensar em alguns incentivos muito inteligentes de modo a que, mesmo se as pessoas com quem lidamos não querem particularmente servir os nossos interesses, seja do seu interesse servir os nossos interesses - os incentivos mágicos que farão com que as pessoas façam a coisa acertada mesmo que apenas por puro egoísmo. Por isso nós oferecemos bónus aos professores se os seus alunos passarem nos grandes testes que são usados para avaliar a qualidade dos sistemas escolares.
Regras e incentivos - paus e cenouras. Aprovámos uma série de regras para regular a indústria financeira em resposta ao recente colapso. Há o Dodd-Frank Act, há a nova Agência de Protecção Financeira do Consumidor [Consumer Financial Protection Agency] que está a ser temporariamente chefiada nos bastidores por Elizabeth Warren. Talvez estas regras irão, na verdade, melhorar a forma como estas empresas de serviços financeiros operam. Veremos. Além disto, estamos a lutar para encontrar uma forma de criar incentivos para as pessoas na indústria de serviços financeiros para que elas se interessem mais em servir os interesses de longo prazo até das suas próprias empresas, em vez de assegurar os lucros de curto-prazo. Por isso, se encontrarmos justamente os incentivos certos, elas farão a escolha acertada - como disse - de forma egoísta, e se nós conseguirmos encontrar as regras e regulações certas, elas não nos conduzirão para o abismo. E o Ken [Sharpe] e eu sabemos certamente que vocês precisam de guiar os banqueiros. Se há uma lição que precisa de ser retida do colapso financeiro é essa.
Mas o que nós acreditamos, e aquilo que argumentamos no livro, é que nenhum conjunto de regras, não interessa o quão detalhadas não interessa o quão específicas, não interessa o quão cuidadosamente são controladas e reforçadas, não há nenhum conjunto de regras que nos traga o que precisamos. Porquê? Porque os banqueiros são pessoas inteligentes. E, tal como a água, eles descobrirão falhas em qualquer conjunto de regras. Criem um conjunto de regras que assegurará que a particular razão pela qual o sistema financeiro quase colapsou nunca mais aconteça. É inexplicavelmente ingénuo pensar que, ao termos bloqueado a fonte do colapso financeiro, bloqueámos também todas as possíveis fontes de colapso financeiro. É só uma questão de tempo até haver outro e então ficaremos a pensar como é que fomos tão estúpidos ao ponto de não nos protegermos contra isso.
O que precisamos desesperadamente, para além de ou ao mesmo tempo, de melhores regras e incentivos razoavelmente inteligentes, é de virtude, precisamos de carácter, precisamos de pessoas que querem fazer a coisa acertada. E, em particular, a virtude de que precisamos, acima de tudo, é a virtude a que Aristóteles chamou sabedoria prática. Sabedoria prática é a vontade moral de fazer a coisa acertada e a capacidade moral de distinguir o que a coisa acertada é. Aristóteles mostrava muito interesse em observar como os artesãos à sua volta trabalhavam. E ficou impressionado pelo modo como eles improvisavam soluções novas para novos problemas - problemas que eles não tinham antecipado. Um exemplo: ele viu três pedreiros a trabalhar na Ilha de Lesbos, e eles precisavam de medir colunas circulares. Bem, se pensarem, é muito difícil medir colunas circulares usando uma régua. Então o que é que eles fizeram? Eles desenharam uma nova solução para o problema. Criaram uma régua que se dobra, aquilo que nós chamaríamos nos dias de hoje uma fita métrica - uma régua flexível, uma régua que se dobra. E Aristóteles disse: "Ah, eles apreciavam o facto de que, por vezes, para desenharem colunas circulares, precisavam de dobrar a régua." [bend the rule=dar a volta à regra] E Aristóteles disse que, frequentemente, ao lidarmos com outras pessoas, precisamos de dar a volta às regras.
Lidar com outras pessoas requer um tipo de flexibilidade que nenhum conjunto de regras consegue alcançar. As pessoas sábias sabem quando e como dar a volta às regras. As pessoas sábias sabem como improvisar. Como explicamos eu e o meu co-autor, Ken, eles são como músicos de jazz, as regras são como as notas na página, e é o que os faz começar, mas a partir daí, dançam à volta das notas na página, conseguindo a combinação certa para aquele momento em particular com aquele conjunto particular de músicos. Por isso, para Aristóteles, o tipo de voltas que se dão às regras, de descoberta de excepções à regra e de improviso que vemos em habilidosos artesãos é precisamente o que precisamos para sermos artesãos morais hábeis. E, na interacção com as pessoas, quase sempre, este é o tipo de flexibilidade que é requerida. Uma pessoa sábia sabe quando dar a volta às regras. Uma pessoa sábia sabe quando improvisar. E, ainda mais importante, uma pessoa sábia improvisa e dá a volta às regras ao serviço dos fins correctos. Se vocês são pessoas que dão a volta às regras e improvisam para, acima de tudo, se servirem a vocês próprios, o que conseguem é a manipulação sem escrúpulos de outras pessoas. Por isso, é importante que façam esta sábia prática ao serviço dos outros e não para se servirem a vocês mesmos. E, por isso, a vontade de fazer a coisa acertada é tão importante quanto a aptidão moral de improviso e de descoberta de excepções. Juntas, elas abrangem a sabedoria prática, que Aristóteles considerava ser a virtude mestre.
Por isso, vou dar-vos um exemplo de sabedoria prática em acção. É o caso de Michael. Michael é um rapaz jovem. Ele tinha um emprego com um salário bastante baixo. Ele estava a sustentar a sua mulher e uma criança, e a criança ia para uma escola paroquial. Depois ele perdeu o seu emprego. Entrou em pânico por não poder sustentar a sua família. Uma noite, ele bebeu um bocadinho a mais, e roubou um taxista - roubou 50 dólares. E roubou-o apontando-lhe uma arma. Era uma arma de brincar. Ele foi apanhado, foi julgado, e foi condenado. As directrizes das condenações na Pensilvânia requerem uma sentença mínima, para um crime como este, de dois anos, vinte e quatro meses. A juíza neste caso, a Juíza Lois Forer considerou que isto não fazia sentido. Ele nunca tinha cometido um crime antes. Ele era um marido e pai responsável. Ele tinha-se deparado com circunstâncias desesperantes. Tudo o que aquela pena faria seria destruir a família. Por isso, ela improvisou uma sentença de 11 meses. Além disto, ele seria libertado todos os dias para ir trabalhar. Passaria a noite na prisão e o dia mantendo um emprego. Assim ele fez. Ele cumpriu a sua sentença. Ele fez a restituição e encontrou um novo emprego. E a família ficou unida.
E parecia em direcção a um tipo de vida decente - uma história com um final feliz envolvendo o improviso sábio de uma juíza sábia. Mas aconteceu que o prosecutor [equivalente aos representantes do Ministério Público] não ficou contente que a Juíza Forer tivesse ignorado as directrizes para as sentenças e como que se tivesse criado as suas próprias directrizes, e por isso ele recorreu da decisão. E ele pediu que fosse dada a sentença mínima obrigatória para roubo armado. Ele tinha - apesar de tudo - uma arma de brincar. A sentença mínima obrigatória para roubo armado é de cinco anos. Ele ganhou o recurso. Michael foi condenado a cinco anos de prisão. A Juíza Forer teve de seguir a lei. E, já agora, este recurso chegou após ele ter terminado de cumprir a sua sentença, por isso ele estava a trabalhar e a tomar conta da sua família e ele teve de voltar à prisão. A Juíza Forer fez o que lhe foi requerido, e depois demitiu-se. E o Michael desapareceu. Isto é um exemplo de tanto sabedoria em prática como da subversão da sabedoria por regras que são feitas, claro, para tornar as coisas melhores.
Agora pensem na Sra. Dewey. A Sra. Dewey é uma professora numa escola primária no Texas. Ela um dia deu por si a ouvir uma consultora que estava a tentar ajudar os professores a aumentar as notas dos seus alunos para que a escola conseguisse atingir a categoria de elite em termos de percentagem de alunos que passavam os grandes testes. Todas estas escolas no Texas competem umas com as outras para atingirem estes objectivos, e há bónus e muitos outros benefícios que se conseguem se se bater as outras escolas. Este foi o conselho da consultora: em primeiro lugar, não desperdicem o vosso tempo em miúdos que vão passar no teste independentemente do que vocês façam. Em segundo lugar, não desperdice o seu tempo em miúdos que não conseguem passar no teste independentemente do que você faça. Em terceiro lugar, não desperdice o seu tempo em miúdos que acabaram de se mudar para a zona demasiado tarde para que as suas notas sejam consideradas. Concentrem todo o vosso tempo e atenção nos miúdos que estão na bolha, os chamados "miúdos-bolha" - miúdos que, com a vossa intervenção, conseguem talvez ultrapassar a linha entre a reprovação e a aprovação. A Sra. Dewey ouviu isto, e abanou a sua cabeça em desespero enquanto que os seus colegas se animavam uns aos outros e acenavam afirmativamente com a cabeça. Era como se eles estivessem prestes a começar um jogo de futebol. Para a Sra. Dewey, não foi por isto que ela se tornou professora.
O Ken e eu não somos ingénuos, e percebemos que é necessário haver regras. É preciso haver incentivos. As pessoas precisam de se sustentar. Mas o problema de confiar em regras e incentivos é que elas desmoralizam a actividade profissional. E elas desmoralizam a actividade profissional em dois sentidos. Primeiro, elas desmoralizam as pessoas que estão empenhadas na actividade. A juíza Forer demite-se, e a Sra. Dewey está completamente desapontada. E em segundo lugar, elas desmoralizam a própria actividade. A própria prática é desmoralizada, e os praticantes são desmoralizados. Isto cria pessoas - quando se manipulam os incentivos para que as pessoas façam a coisa acertada - cria pessoas que são viciadas nos incentivos. Isto é, cria pessoas que fazem as coisas apenas pelos incentivos.
Agora, o que é alarmante nisto é que os psicólogos sabem isto há 30 anos. Os psicólogos conhecem as consequências negativas de incentivar tudo há 30 anos. Nós sabemos que se recompensarmos as crianças por desenharem, elas deixarão de se preocupar com o desenho e preocupar-se-ão apenas com a recompensa. Se recompensarmos as crianças por lerem livros, elas param de se preocupar com o que está nos livros e preocupar-se-ão apenas com a quantidade de páginas que eles têm. Se recompensarem os professores pelos resultados dos seus alunos, eles deixam de se preocupar em educá-los e preocupar-se-ão apenas com a preparação para o teste. Se recompensássemos os médicos por fazer mais intervenções - o que corresponde ao actual sistema - eles fariam mais. Se, ao invés, recompensarmos os médicos por fazerem menos intervenções, eles farão menos. O que nós queremos, claro, é que os médicos façam a quantidade certa de intervenções e que façam a quantidade certa pelas razões certas - nomeadamente, para servir o bem estar dos seus doentes. Os psicólogos sabem isto há décadas, e é tempo que os nossos decisores políticos comecem a prestar atenção. e a ouvir um pouco do que os psicólogos dizem, em vez do que os economistas dizem.
E não é preciso ser assim. Nós (o Ken e eu) pensamos que há verdadeiras fontes de esperança. Nós identificamos um conjunto de pessoas em todas estas áreas que nós chamados de foragidos (fora-da-lei) perspicazes. São pessoas que, ao serem forçados a operar num sistema que obriga ao seguimento de regras e que cria incentivos, encontra uma forma de as contornar, encontra uma forma de subverter as regras. Então, há professores que têm um guião para seguir, e eles sabem que se eles seguirem estes guiões, os alunos não aprenderão nada. E, por isso, o que eles fazem é seguir os guiões, mas eles seguem os guiões mais rapidamente e guardam pequenos pedaços de tempo extra durante os quais eles ensinam da forma que eles sabem ser eficaz. Por isso, estes são pequenos heróis quotidianos, e eles são incrivelmente admiráveis, mas não há forma de eles conseguirem manter este tipo de actividade à frente de um sistema que ou os tira do caminho ou os esmaga.
Por isso os foragidos perspicazes são melhores do que nada, mas é difícil imaginar qualquer foragido perspicaz que sobreviva durante um tempo indefinido. Mais esperança trazem-nos as pessoas a que chamamos reformadores do sistema. São pessoas que estão a pensar não em contornar as regras e regulações do sistema, mas em transformar o sistema, e nós falamos em várias. Uma em particular é um juiz chamado Robert Russell. E um dia ele foi confrontado com o caso de Gary Pettengill. Pettengill era um veterano de 23 anos que tinha planeado seguir uma carreira no exército, mas que sofreu ferimentos graves nas costas no Iraque, que o forçaram a ficar de baixa médica. Ele era casado, e tinha um terceiro filho a caminho, ele sofria de stress pós-traumático, além das costas, e de pesadelos recorrentes, e tinha começado a usar marijuana para aliviar alguns dos sintomas. Ele conseguiu apenas um trabalho em part-time por causa das suas costas e por isso ele era incapaz de ganhar o suficiente para pôr comida na mesa e cuidar da sua família. Por isso ele começou a vender marijuana. Ele foi apanhado numa operação policial. A sua família foi expulsa do apartamento onde vivia, e a segurança social estava a ameaçar retirar os seus filhos da sua guarda.
De acordo com os procedimentos normais das sentenças, o Juiz Russel não teria grande escolha se não condenar Pettengill a uma séria pena de prisão como traficante de droga. Mas o Juiz tinha uma alternativa. E tinha uma alternativa porque estava num tribunal especial. Ele estava num tribunal chamado o Tribunal dos Veteranos [Veteran's Court]. No Tribunal dos Veteranos - este foi o primeiro desta espécie nos Estados Unidos. O Juiz Russell criou o Tribunal dos Veteranos. Era um tribunal apenas para veteranos que tinham violado a lei. E ele criou-o exactamente porque as leis de sentenças obrigatórias estavam a desvirtuar os julgamentos. Ninguém queria criminosos não violentos - e especialmente criminosos não violentos que eram veteranos - a ser enviados para a prisão. Ele queria fazer alguma coisa sobre aquilo que todos conhecemos, nomeadamente, a porta giratória do sistema de justiça penal. E o que o Tribunal dos Veteranos fez foi tratar cada criminoso como um indivíduo, tentando compreender os seus problemas, tentando desenhar respostas para os seus crimes, que os ajudariam a reabilitarem-se, e que não se esquecesse deles uma vez terminado o julgamento. Acompanhá-los-ia, seguiria os seus passos, certificando-se que cumpririam o plano que tinha sido desenhado conjuntamente para atravessarem o obstáculo.
Existem actualmente 22 cidades que têm Tribunais de Veteranos como este. Porque é que a ideia se espalhou? Bem, uma das razões é porque o Juiz Russell já viu 108 veteranos no seu Tribunal de Veteranos desde Fevereiro deste ano, e dos 108, adivinhem quantos deles voltaram a porta giratória da justiça para entrar na prisão. Nenhum. Nenhum. Qualquer pessoa agarraria um sistema de justiça criminal com este tipo de recorde. Aqui está um sistema de mudança, que parece ser um exemplo a seguir.
Há um banqueiro que criou um banco comunitário com fins lucrativos que encorajava os banqueiros - eu sei que isto é difícil de acreditar - encorajava os banqueiros que trabalhavam lá a fazer o bem ajudando os seus clientes de baixos rendimentos. O banco ajudou a financiar a reconstrução daquilo que de outra forma seria uma comunidade a morrer. Embora os devedores fossem de alto risco, de acordo com os padrões comuns, os juros eram extremamente baixos. O banco era lucrativo. Os banqueiros acompanhavam os destinatários dos empréstimos. Eles não faziam empréstimos e depois vendiam-nos. Eles serviam os empréstimos. Eles certificavam-se que os recipientes dos empréstimos cumpriam com as suas obrigações. A banca nem sempre foi aquilo que lemos hoje nos jornais. Até a Goldman Sachs costumava servir os seus clientes, antes de se tornar uma instituição que apenas se serve a si mesma. A banca nem sempre foi assim, e não tem de ser assim.
Há exemplos destes na área da Medicina - médicos de Harvard que estão a tentar transformar a educação médica, para que não haja uma espécie de erosão ética e perda de empatia, que caracteriza a maioria dos estudantes de Medicina durante a sua formação. E eles fazem isto dando aos estudantes de medicina do 3º ano doentes que eles seguem durante o ano inteiro. Por isso os doentes não são órgãos do sistema, e não são doenças; são pessoas, pessoas com vidas. E de forma a ser um médico eficaz, é preciso tratar pessoas que têm vidas e não apenas uma doença. Além disto, há uma enorme quantidade de idas e vindas, orientação de um aluno por outro, de todos os estudantes pelos médicos, e o resultado é uma geração - esperamos - de médicos que têm tempo para as pessoas que cuidam. Veremos.
Por isso há imensos exemplos como este de que falámos. Todos eles mostram que é possível construir e nutrir carácter e manter uma profissão fiel à sua verdadeira missão - o que Aristóteles teria chamado o seu telos (objectivo) adequado. E o Ken e eu acreditamos que é isto que os praticantes querem verdadeiramente. As pessoas querem poder ser virtuosas. Elas querem ter a autorização para fazer a coisa acertada. Elas não se querem sentir como se precisassem de tomar um duche para tirar a sujeira da moral dos seus corpos todos os dias quando regressam do seu trabalho.
Aristóteles pensava que a sabedoria prática era a chave da felicidade, e ele estava certo. Há actualmente muita investigação a ser feita em Psicologia sobre o que faz as pessoas felizes, e as duas coisas que sobressaem em todos os estudos - eu sei que isto será um choque para todos vós - as duas coisas que são mais importantes para a felicidade são o amor e o trabalho. Amor: gerir com sucesso as relações com as pessoas que nos são próximas e com as comunidades de que somos parte. Trabalho: participar em actividades significativas e gratificantes. Se tivermos isto, boas e íntimas relações com outras pessoas, trabalho que tem significado e que nos completa, não precisamos muito de mais nada.
Bem, para amar bem e para trabalhar bem, precisamos de sabedoria. As regras e os incentivos não nos dizem como ser um bom amigo, como ser um bom pai, como ser um bom/boa esposo/a, ou como ser um bom médico ou um bom advogado ou um bom professor. Regras e incentivos não são substitutos para a sabedoria. Com efeito, argumentamos, não existe substituto para a sabedoria. E, por isso, a sabedoria prática não requer actos heróicos de sacrifício próprio da parte dos praticantes. Ao dar-nos a vontade e a aptidão de fazer a coisa acertada - de fazer o que está certo pelos outros - a sabedoria prática dá-nos também a vontade e a aptidão de fazer o que está certo por nós mesmos.
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Numa conversa íntima, Barry Schwartz mergulha na questão "Como é que fazemos a coisa acertada?". Com a ajuda do colaborador Kenneth Sharpe, ele partilha histórias que ilustram a diferença entre seguir as regras e escolher sabiamente.
Barry Schwartz studies the link between economics and psychology, offering startling insights into modern life. Lately, working with Ken Sharpe, he's studying wisdom. Full bio »
Translated into Portuguese by Ana Luísa Bernardino
Reviewed by Miguel Cabral de Pinho
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20:45 Posted: Feb 2009
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