Esse é Shivdutt Yadav, ele é de Uttar Pradesh, na Índia. Shivdutt visitou o escritório de registro de escrituras em Uttar Pradesh e descobriu que no registro oficial ele aparecia como morto. As terras dele já não estavam registradas em seu nome. Os seus irmãos, Chandrabhan e Phoolchand, também apareciam como mortos.
Outros membros da família subornaram funcionários do governo para alterar os registros dos irmãos como se estivessem mortos e interromper a transferência hereditária das terras tornando aqueles familiares os herdeiros das terras do seu pai. Por causa disso, os três irmãos e as suas famílias tiveram que deixar as casas onde moravam. Segundo a família Yadav, a justiça local tem tentado rever o caso desde 2001, mas nunca apareceu um juiz para julgar o caso.
Há vários exemplos em Uttar Pradesh de pessoas morrendo antes de ter os seus casos revistos pela justiça. A morte do pai de Shivdutt e o interesse pela sua propriedade levaram à corrupção. O pai foi posto para descansar no Rio Ganges, onde os mortos são cremados ao longo das margens do rio ou amarrados a pedras e atirados ao fundo do rio.
Fotografar esses irmãos foi um lance confuso porque no papel eles não existem, mas as fotografias são uma prova de vida. E ainda assim esses três homens continuam "mortos". Esse dilema levou ao título desse meu projeto, considerando que de muitas maneiras nós todos somos mortos-vivos e que de algum modo nós representamos espectros do passado e do futuro.
Essa história é a primeira dos 18 capítulos do meu novo trabalho intitulado "Um homem vivo declarado morto e outros capítulos". Para esse trabalho eu viajei o mundo num período de quatro anos, pesquisando e registrando linhagens genealógicas e histórias associadas com essas linhagens. Eu queria trabalhar com ideias sobre o destino e se o nosso destino é determinado por sangue, por acaso, ou por circunstância. As pessoas que eu documentei variam de famílias inimigas no Brasil, a vítimas de genocídio na Bósnia, à primeira mulher a sequestrar um avião e aos mortos-vivos na Índia. Em cada capítulo, você pode ver as forças externas de poder, território ou religião entrando em choque com as forças internas de herança psicológica e física.
Cada um dos meus trabalhos é composto de três segmentos. À esquerda estão um ou mais retratos em que eu organizo sistematicamente os membros de uma linhagem hereditária. Em seguida vem um texto, apresentado como se fosse um pergaminho, em que eu construo a narrativa em questão. Depois à direita está o que eu chamo de notas de rodapé. Esse espaço é mais intuitivo, eu apresento fragmentos da história, inícios de outras histórias, evidência fotográfica. Eu quero que ele reflita o modo como nós nos envolvemos com histórias na internet, de um modo não muito linear. Portanto é mais desordenado. Essa desordem contrasta com a ordem imutável de uma linhagem hereditária.
Em meus projetos anteriores eu trabalhei em série, documentando coisas que na aparência são compreensíveis, por meio de um certo título ou uma certa apresentação, mas na verdade são bastante abstratas. Neste projeto eu quis fazer o oposto, encontrar um catálogo absoluto, algo que eu não pudesse interromper, administrar ou editar como eu bem quisesse. O que me levou ao sangue. Uma laço de sangue é determinado e ordenado. Mas o projeto se centra no embate entre ordem e desordem -- a ordem do laço de sangue chocando-se contra a desordem das histórias caóticas e violentas que são tratadas nos meus capítulos.
No capítulo dois, fotografei os descendentes de Arthur Ruppin. Em 1907, ele foi enviado à Palestina pela organização sionista, para procurar áreas para assentamentos judeus e adquirir terras para esses assentamentos. Ele supervisionou a aquisição de terras em nome da Companhia Palestina de Desenvolvimento de Terras, cujo trabalho levou ao estabelecimento de um estado judeu. Com a minha pesquisa nos Arquivos Sionistas em Jerusalém, eu queria analisar os documentos iniciais no estabelecimento do estado judeu. Eu encontrei esses mapas que você está vendo. E esses são estudos encomendados pela organização sionista para áreas alternativas para o assentamento judeu. Eu queria entender os efeitos da geografia e imaginar como o mundo seria diferente se Israel fosse em Uganda, que era uma alternativa mostrada nesses mapas. Esses arquivos, em Jerusalém, mantêm um índice em fichário dos primeiros imigrantes e candidatos a imigração para a Palestina, mais tarde Israel, de 1919 a 1965.
Capítulo três: Joseph Nyamwanda Jura Ondijo tratava pacientes, nos arredores de Kisumu, no Quênia, com Aids, tuberculose, infertilidade, doenças mentais, espíritos maus. Pelos seus serviços ele recebia pagamento em dinheiro, vacas ou cabras. Mas às vezes, quando suas pacientes não podiam pagar pelos serviços, suas famílias entregavam as mulheres a Jura em troca pelo tratamento médico. Como resultado dessas transações, Jura tem nove esposas, 32 filhos e 63 netos. Na linhagem de Jura você vê os filhos e o netos aqui.
Duas de suas esposas foram trazidas a ele por sofrer de infertilidade e ele curou o problema, três por maus espíritos, uma tinha histórico de asma e dores no peito e duas esposas Ondijo diz que tomou por amor, e que pagou às famílias dessas duas um total de 16 vacas. Uma esposa o abandonou e outra faleceu durante um tratamento contra os maus espíritos. Poligamia é muito comum no Quênia. Especialmente entre os de classe privilegiada que podem pagar vários dotes e manter diversas casas. Casos de figuras importantes da sociedade e da política que têm relacionamentos polígamos levaram à percepção de poligamia como um símbolo de riqueza, status e poder.
Em vários capítulos que fotografei, você vai notar que há retratos vazios. Esses retratos vazios representam pessoas, pessoas vivas, que não puderam estar presentes. E os motivos da ausência estão indicados no painel de texto. Eles incluem a ocorrência de dengue, aprisionamento, serviço militar, mulheres proibidas de ser fotografadas por motivos religiosos ou culturais. E neste capítulo em particular, estão crianças cujas mães não permitiram que viajassem para a locação das fotos por medo de que seus pais as sequestrassem durante o trajeto.
Vinte e quatro coelhos europeus foram trazidos para a Austrália, em 1859, por um colonizador britânico como esporte, para caçadas. No período de cem anos, a população tinha explodido de 24 para 500 milhões. O coelho europeu não tem predadores naturais na Austrália e compete com a fauna nativa, destrói a flora nativa e degrada a terra. Desde os anos 50, a Austrália vem introduzindo doenças mortais na população de coelhos selvagens para controlar o crescimento. Esses coelhos foram cruzados numa repartição oficial, Queensland Biossegurança, que criou três linhagens hereditárias de coelhos e os infectou com uma doença mortal e agora estão monitorando para ver se irão efetivamente matar os coelhos. Estão testando a sua virulência. No decorrer desses testes, todos os coelhos morreram, exceto uns poucos, que foram mortos por eutanásia.
Chocolates Haigh em colaboração com a Fundação Austrália Sem Coelhos, interrompeu toda a produção de coelhos de chocolate para a Páscoa e substituiu os coelhos por bilbis [roedor australiano] da Páscoa. Isso foi feito para neutralizar a apologia anual aos coelhos e aparentemente deixou o público mais confortável com a matança de coelhos. Também se promove um animal nativo da Austrália, um animal ameaçado pelo coelho europeu.
No capítulo sete, eu centro foco nos efeitos de um ato genocida numa linhagem de sangue. Num intervalo de dois dias seis pessoas de uma linhagem foram mortas no massacre de Srebrenica. Esse é o único trabalho em que decidi representar visualmente os mortos. Mas eu só represento os que foram mortos no massacre de Srebrenica, que foi o maior assassinato em massa já visto na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Durante esse massacre, 8 mil muçulmanos bósnios, homens e garotos, foram executados sistematicamente.
Quando você observa um detalhe deste trabalho, você pode ver, o homem no alto à esquerda é o pai da mulher sentada ao lado dele. O nome dela é Zumra. Ele é seguida de perto por suas quatro crianças, e todos foram mortos no massacre de Srebrenica. Após as quatro crianças, está a irmã mais nova de Zumra que é seguida por suas próprias crianças, todas mortas também. No tempo em que estive na Bósnia, os restos mortais do filho mais velho de Zumra foram exumados de uma vala comum. Eu pude fotografar os restos mortais, recompostos. Mas os outros indivíduos estão representados por esses slides azuis, com amostras de dentes e ossos, reconhecidos por evidência de DNA coletado de membros da família, para comprovar as identidades desses indivíduos. Eles todos receberam um enterro próprio, e o que resta são esses slides azuis na Comissão Internacional de Pessoas Desaparecidas.
Esses são os pertences retirados de uma vala comum que estão aguardando reconhecimento por membros da família. e a pixação na fábrica de baterias Potochari, onde os soldados holandeses estavam estacionados, e mais tarde os soldados sérvios na época das execuções. Esse vídeo foi usado no julgamento de Milosevic. Aqui, de cima para baixo, estão membros de uma unidade paramilitar sérvia sendo abençoados por um sacerdote ortodoxo pouco antes de cercar meninos e homens e matá-los.
O capítulo 15 é mais uma peça de performance. Em 2009, pedi ao Escritório do Conselho Estatal de Informação da China que escolhesse uma família com várias gerações para representar a China neste projeto. Eles escolheram uma família bem grande de Beijing, e se recusaram a me dar o motivo da escolha, além do tamanho da família. É uma dessas situações raras em que não tenho nenhum retrato vazio. Todo mundo compareceu. Dá pra ver a evolução da política de filho único na linhagem dessa família.
Antes conhecido como Departamento de Propaganda Exterior, o Escritório do Conselho Estatal de Informação cuida de todas as operações de propaganda da China no exterior. Monitora toda a mídia estrangeira e a produção de imagens, fora da China, dos meios de comunicação trabalhando dentro do país. O Escritório também monitora a internet e instrui a mídia local como lidar com assuntos potencialmente controversos, incluindo o Tibet, minorias étnicas, direitos humanos, religião, movimentos democráticos e terrorismo. Para a nota de rodapé neste trabalho, o Escritório me instruiu a fotografar a torre central de televisão em Beijing. Eu também fotografei um papel de presente que eles me deram quando saí do país.
Esses são os descendentes de Hans Frank que foi o conselheiro legal particular de Hitler e governador geral da Polônia ocupada. Essa linhagem tem vários retratos vazios, ressaltando as relações complexas na história dessa família. Os motivos dessas ausências incluem gente que se recusou a participar. Há também os pais que participaram mas não autorizaram a inclusão de seus filhos, justificando que eles seriam muito novos para decidir por conta própria. Outra parte da família ofereceu suas roupas, em vez de sua presença física, porque eles não quiseram ser identificados com o passado que eu estava apresentando. Por fim, outro indivíduo posou de costas e mais tarde rescindiu sua participação, então eu tive que reticular a imagem para que ele ficasse irreconhecível.
Na nota de rodapé que acompanha esse trabalho eu fotografei o selo de correio oficial de Adolph Hitler e uma imitação daquele selo produzida pela inteligência britânica com a imagem de Hans Frank. Foi lançado na Polônia para criar tensão entre Frank e Hitler, para fazer Hitler pensar que Frank estava tentando usurpar o seu poder.
De novo, falando sobre destino, eu queria as histórias e o destino de uns certos trabalhos de arte. Essas pinturas foram tomadas por Hans Frank durante o regime do Terceiro Reich. Me interessa o impacto da ausência dessas peças e sua presença ao longo do tempo. Essas pinturas são "Dama do Arminho" de Leonardo da Vinci, "Paisagem com o Bom Samaritano" de Rembrandt e "Retrato de um Jovem" de Rafael, que nunca foi encontrado.
O Capítulo 12 apresenta gente nascendo dentro de uma guerra que eles não criaram, mas que se torna a sua guerra. É o caso da família Ferraz e da família Novaes. Eles estão numa batalha constante. Essa disputa existe desde 1991 em Pernambuco, no Nordeste brasileiro, envolvendo as mortes de 20 membros das duas famílias e outras 40 mortes associadas com a disputa, incluindo matadores de aluguel, gente atingida por balas perdidas e amigos. As tensões entre essas duas famílias começaram em 1913, quando houve uma disputa de poder político. A disputa ficou violenta nas duas últimas décadas e incluiu uma decapitação e a morte de dois prefeitos. Num muro de proteção que cerca a casa de Luís Novaes, que é o patriarca da família Novaes, estão esses buracos de torres, usados para atirar e para olhar.
Pernambuco, no Nordeste brasileiro é uma das regiões mais violentas do Brasil. Está plantado no princípio de justiça de retribuição, ou olho por olho, então matanças retaliatórias causaram muitas mortes naquela área. Essa história, como outras nos meus capítulos, parece um episódio tirado de arquétipos, algo saído de Shakespeare, mas que está ocorrendo agora e vai continuar no futuro. Me interessa essa ideia de repetição. Então quando voltei para casa, informaram-me que um membro da família tinha recebido 30 tiros na face.
O capítulo 17 é uma exploração da ausência de uma linhagem de sangue e da ausência de uma história. As crianças nesse orfanato na Ucrânia têm idades entre 6 e 16 anos. Este trabalho é ordenado por idade porque não pode ser organizado por laços de sangue. Num período de 12 meses em que eu estive no orfanato, só uma criança foi adotada. Elas têm que deixar o orfanato quando completam 16 anos, embora geralmente não tenham nenhum outro lugar para ir. Há muitos relatos na Ucrânia de crianças que, ao deixar um orfanato, são vítimas de tráfico humano, pornografia e prostituição. Muitas se envolvem em atividades criminosas para sobreviver, e as taxas de suicídio são altas.
Esse é um quarto de garotos. Não há camas suficientes no orfanato nem roupas de frio suficientes. As crianças tomam banho esporadicamente porque só há água quente a partir de outubro [no outono]. Esse um quarto de meninas. E o diretor listou as necessidades mais urgentes do orfanato como uma máquina de lavar e secadora industriais, quatro aspiradores de pó, dois computadores, um projetor de vídeo, uma copiadora, sapatos de inverno e uma broca de dentista. Essa fotografia, que tirei de uma das salas de aula no orfanato, mostra uma placa que traduzi quando voltei para casa. Diz: "Quem não conhece o seu passado não é merecedor do seu futuro."
Há muitos outros capítulos neste projeto. Essa é uma apresentação abreviada de mais de mil imagens. E essa pilha de imagens e histórias forma um arquivo. Dentro dessa pilha de imagens e textos, eu tento encontrar padrões e imaginar que as narrativas envolvendo as vidas que levamos carregam tantos códigos como o sangue. Mas existem arquivos porque existe algo que não pode ser articulado. Alguma coisa é dita nas brechas entre toda a informação que é coletada. E há essa persistência obstinada de nascimento e morte e uma coleção sem fim de histórias no meio. É quase mecânico o modo como as pessoas nascem e as pessoas morrem, e as histórias estão sempre acontecendo. Nisso, eu me pergunto, esse acúmulo está levando a algum tipo de evolução, ou nós estamos nos repetindo e nos repetindo mais uma vez?
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Taryn Simon captura a essência de sagas familiares ao fotografar os descendentes de pessoas fundamentais em cada narrativa. Nesta apresentação cativante ela fala de histórias passadas em várias partes do mundo, investigando a natureza da linhagem genealógica e o modo como nossas vidas são moldadas na interação de muitas forças diferentes.
With a large-format camera and a knack for talking her way into forbidden zones, Taryn Simon photographs portions of the American infrastructure inaccessible to its inhabitants. Full bio »
Translated into Portuguese, Brazilian by Erica Junghans
Reviewed by Isabel Villan
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17:32 Posted: Sep 2009
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15:27 Posted: Nov 2010
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10:44 Posted: May 2011
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