Passei boa parte de uma década pesquisando as respostas dos EUA a atrocidades em massa e genocídio. E gostaria de principiar compartilhando com vocês um momento que resume para mim tudo que há para se saber sobre as respostas dos EUA e da democracia às atrocidades em massa.
E esse momento aconteceu no dia 21 de abril de 1994. Na época, há quase 14 anos, em meio ao genocídio de Ruanda, no qual 800.000 pessoas seriam sistemáticamente exterminadas pelo governo de Ruanda e algumas milícias extremistas. No dia 21 de abril, no New York Times, o jornal relatava que cerca de 200.000 e 300.000 pessoas já tinham sido mortas no genocídio. Estava no jornal -- não na primeira página. Era muito parecido com a cobertura do Holocausto, estava sepultada no meio do jornal. Ruanda em si mesma não era considerada uma notícia importante, e, estranhamente, o próprio genocídio não era considerado uma notícia importante.
Mas no dia 21 de abril, ocorreu um momento maravilhosamente honesto. Aconteceu que uma congressista americana chamada Patricia Schroeder do Colorado reuniu-se com um grupo de jornalistas. E um dos jornalistas perguntou a ela, que há de novo? O que está acontecendo no governo dos EUA? 200.000 a 300.000 pessoas acabaram de ser exterminadas nas últimas duas semanas em Ruanda. Tinham se passado 2 semanas de genocídio, naquela época, mas é claro, naquela hora não se sabia quanto tempo aquilo iria durar. E o jornalista perguntou, porque há tão pouca reação de Washington? Porque a ausência de audiência, nenhuma denúncia, nenhuma pessoa presa diante da embaixada de Ruanda ou diante da Casa Branca? O que é isso? E ela disse -- ela foi extremamente honesta --- ela disse, "É uma ótima questão. Tudo que posso dizer-lhes é em que meu escritório político no Colorado e em meu escritório em Washington, estamos recebendo centenas de telefonemas sobre a população de macacos e gorilas que estão em risco na Ruanda, mas ninguém está telefonando por causa das pessoas. Os telefones simplesmente não tocam por causa das pessoas."
E a razão que apresento a vocês neste momento é, há uma profunda verdade nisto. E essa verdade é, ou era, no século XX, que enquanto estávamos começando a desenvolver movimentos em prol das espécies em risco, nós não tínhamos um movimento pelas pessoas em risco. Tínhamos educação sobre o Holocausto nas escolas. Muitos de nós foram instruídos não apenas em imagens de uma catástrofe nuclear, mas também em imagens e conhecimentos sobre o Holocausto. Existe um museu, é claro, no Passeio em Washington, junto a Lincoln e Jefferson. Quero dizer, nós assumimos culturalmente o Nunca Mais, adequadamente, com interesse. Mas apesar disso a politização do Nunca Mais, a operacionalização do Nunca Mais, nunca ocorreu, no século XX.
E no meu entendimento é isso que aquele momento com Patricia Schroeder mostra: que se realmente pretendemos colocar um fim às maiores atrocidades do mundo, temos de fazê-lo de fato. É necessário desempenhar um papel -- é preciso criar ruído político e custos políticos em resposta aos crimes em larga escala contra a humanidade, e assim por diante. E assim foi o século XX.
Mas agora -- e isto será um alívio para vocês nesta hora da tarde -- existem boas notícias, notícias surpreendentes, no século XXI, e acontece que, parece que vindo do nada, comecou a acontecer um movimento anti-genocídio, uma representação anti-genocídio, e ela parece destinada, de fato, a ser permanente. Ela emergiu em resposta às atrocidades em Darfur. Ela é constituída por estudantes. Existem cerca de 300 sedes locais anti-genocídio em campus universitários ao redor do país (EUA). É maior que o movimento anti-apartheid. Existem cerca de 500 sedes em escolas de segundo grau devotadas a deter o genocídio em Darfur. Os evangélicos associaram-se ao movimento. Grupos judeus associaram-se a ele. Pessoas que viram o filme Hotel Ruanda se associaram. É um movimento cacofônico.
Chamá-lo de um movimento, como talvez aconteça com todos os movimentos, é um pouco confuso. Ele tem diversas correntes. Tem muitas abordagens diferentes. Tem todas as qualidades e defeitos dos movimentos. Mas tem sido surpreendentemente bem sucedido em um aspecto, pois ele tornou-se, ele se cristalizou neste movimento em prol das pessoas ameaçadas, que estava fazendo falta no século XX. Este movimento se considera, tal como ele é, como algo que vai criar a impressão de que haverá um custo político, haverá um preço político a ser pago, ao se permitir que ocorra um genocídio, quando não houver uma imaginação heróica, por não se levantar contra, e ser apenas um observador.
Agora, como é uma iniciativa dos estudantes, existem algumas coisas surpreendentes que o movimento realizou. Eles lançaram uma campanha de desinvestimento que já convenceu, creio eu, 55 universidades em 22 estados a desinvestir suas carteiras de ações daquelas empresas que fazem negócios no Sudão. Eles têm um número 1-800-GENOCIDE -- sei que isso parece meio kitsch, mas para aqueles entre vocês que não sejam, ou melhor, que sejam apolíticos, mas tenham interesse em fazer alguma coisa em relação ao genocídio, vocês discam 1-800-GENOCIDE e digitam seu código postal, e vocês nem mesmo precisam saber quem é o representante de vocês no congresso. Esse procedimento vai encaminha-los diretamente ao representante de vocês no congresso, ao seu senador dos EUA, ao governador do seu estado onde a legislação sobre desinvestimento estiver pendente. Eles baixaram o custo transacional de deter o genocídio. Acho que a coisa mais inovadora que eles introduziram recentemente são as notas de genocídio. É preciso ser estudante para inventar notas de genocídio. E daí o que acontece quando um Congresso está em sessão, é que membros do Congresso telefonam para esses jovens de 19 ou 24 anos de idade e dizem, acabei de saber que tive nota D menos em genocídio; o que preciso fazer para conseguir um C. Preciso de um C. Ajude-me. E os estudantes e os demais que fazem parte dessa base incrivelmente entusiasmada estão prontos a responder, e sempre existe algo a ser feito.
E assim, o que este movimento conseguiu foi extrair da administração Bush dos Estados Unidos, num período de extrema tensão -- militar, financeira, diplomática -- uma série completa de compromissos relativos a Darfur que nenhum outro país no mundo está fazendo. Por exemplo, a representação dos crimes ocorridos em Darfur perante a Corte Penal Internacional, da qual a administração Bush não gosta. O custeio de 3 bilhões de dólares para abrigos de refugiados para manter basicamente, as pessoas que foram desalojadas de suas casas pelo governo do Sudão, pelo chamado Janjawid, a milícia, para manter essas pessoas vivas até que algo mais definitivo possa ser feito. E recentemente, ou agora não tão recentemente, há cerca de seis meses, a autorização para uma força de paz de 26.000 que irá lá.
E tudo isso com a liderança da administração Bush, e tudo isso por causa dessa pressão de baixo para cima e o fato de que os telefones não pararam de tocar desde o início desta crise. A má notícia porem, a esta questão,"prevalecerá o mal?", é que o mal continua vivo. As pessoas nesses campos estão cercadas por todos os lados pelos tais dos Janjawid, esses homens a cavalo com lanças e Kalashnikovs. Mulheres que saem em busca de lenha para aquecer as rações humanitárias doadas para alimentar suas famílias -- ajuda humanitária -- o segredo sujo disso é que elas precisam ser aquecidas realmente, para serem comestíveis -- são elas mesmas vítimas de estupro, que é um instrumento de genocídio que está sendo usado. E os pacificadores que mencionei, a tropa que foi autorizada, mas quase nenhum país da Terra se ofereceu desde a autorização para efetivamente colocar suas tropas ou sua polícia em perigo.
E desse modo, conseguimos muito em relação ao século XX, e infelizmente ainda muito pouco em relação à gravidade do crime que está sendo perpetrado enquanto estamos aqui sentados, enquanto falamos. Qual a razão dos limites do movimento? Porque o que foi realizado, ou o que o movimento fez, foram necessários mas não suficientes para (deter) o crime? Entendo que existe um par -- existem muitas razões -- mas apenas um par delas apenas para focalizar rapidamente.
A primeira é que o movimento, como ele é, se detém nas fronteiras dos EUA. Não é um movimento global. Ele não dispõe de muitos compatriotas no exterior que também estejam pedindo a seus governos que façam mais para deter o genocídio. E a cultura do Holocausto que temos neste país torna os Americanos, de certo modo, mais propensos a, creio eu, quererem reavivar o Nunca Mais. O sentimento de culpa que a Administração Clinton manifestou, que Bill Clinton expressou sobre Ruanda criou um espaço em nossa sociedade para o consenso de que Ruanda foi mau e errado e gostaríamos de ter feito mais, e isso é algo de que o movimento tirou vantagem. Governos europeus, em sua maioria, não reconheceram responsabilidade, e não se tem algo que permita, de algum modo, pressioná-los e fazê-los reagir.
Assim este movimento, para poder ser durável e global, vai precisar cruzar fronteiras, e vocês vão precisar ver outros cidadãos em democracias, não apenas confiando na suposição de que seus governos vão fazer alguma coisa em face do genocídio, mas realmente fazendo isso. Os governos jamais se mobilizarão em direção à luta contra crimes dessa magnitude naturalmente ou ansiosamente. Como vimos, eles nem mesmo se precipitaram para proteger nossos portos ou dominar armamentos nucleares fora de controle. Como poderíamos esperar que uma burocracia se orientasse em direção a sofrimentos distantes? Então, uma das razões é que ele não se tornou global.
A segunda, é claro, é que neste momento particular da história dos EUA temos um problema de credibilidade, um problema de legitimidade nas instituições internacionais. Estruturalmente é muito, muito complicada de fazer, o que, corretamente, a administração Bush faz, que é denunciar um genocídio na segunda-feira e então descrever tortura por pseudo-afogamento na terça-feira, como um coisa muito natural, e aparecer na quarta-feira em busca de compromisso para envio de tropas. Agora, outros países têm suas razões para não desejarem se envolver. Permitam que eu seja clara. Eles estão de certa forma usando a administração Bush como álibi. Mas é essencial para nós sermos líderes nessa esfera, certamente para restaurar nossa posição e nossa liderança no mundo. A recuperação vai levar algum tempo.
Precisamos perguntar a nós mesmos, e agora? Que faremos para progredir como país e como cidadãos em relação aos piores lugares do mundo, os piores sofrimentos do mundo, assassinos, e as espécies de assassinos que poderão assumir o poder em algum momento futuro. A direção para a qual me voltei para responder a essa questão, foi para um homem a respeito do qual muitos de vocês talvez nunca tenham ouvido falar; um brasileiro chamado Sergio Vieira de Mello que, como o Chris disse, foi destroçado por uma explosão no Iraque em 2003. Ele foi a vítima da primeira das bombas suicidas no Iraque. É difícil lembrar, mas houve realmente um período no verão de 2003, mesmo depois da invasão dos EUA, no qual, com exceção das pilhagens, os civis tiveram uma segurança relativa no Iraque.
E então, quem foi Sergio? Sergio Vieira de Mello era seu nome. Além de ser brasileiro, ele foi descrito a mim antes que eu o encontrasse em 1994 como alguém que era uma mistura entre James Bond por um lado e Bobby Kennedy por outro. E, na ONU, você não encontra muitas pessoas que efetivamente consigam misturar essas duas qualidades. Ele se assemelhava a James Bond por ser engenhoso. Ele era atraído pelas chamas, ele perseguia as chamas, ele era como uma mariposa com as chamas. Uma espécie de viciado em adrenalina. Ele tinha sucesso com as mulheres. Ele se assemelhava a Bobby Kennedy porque de vários modos não se podia dizer se ele era um realista se fazendo de idealista ou um idealista se fazendo de realista, como as pessoas sempre se perguntaram a respeito de Bobby Kennedy e John Kennedy, nesse sentido.
O que ele foi, foi um decatleta da construção de nações, da resolução de problemas, da solução de impasses nos piores lugares do mundo e nos lugares mais arruinados do mundo. Em estados falidos, estados genocidas, estados desgovernados, precisamente os tipos de lugares onde ameaças a este país existem no horizonte, e precisamente as espécies de lugares onde a maior parte dos sofrimentos do mundo tendem a se concentrar. Esses eram os lugares pelos quais ele tinha atração. Ele se mudava com as manchetes. Ele ficou na ONU por 34 anos. Ele entrou com a idade de 21 anos. Começou quando as causas das guerras do momento na década de 70 eram lutas pela independência e descolonização. Ele esteve lá em Bangladesh lidando com o transbordamento de milhões de refugiados -- o maior fluxo de refugiados na história até aquele momento. Ele esteve no Sudão quando a guerra civil explodiu lá. Ele esteve em Chipre logo depois da invasão turca. Ele esteve em Moçambique durante a Guerra de Independência. Ele esteve no Líbano. Surpreendentemente, ele esteve no Líbano -- a base da ONU foi usada -- os palestinos lançavam ataques de trás da base da ONU. Israel então invadiu e devastou a base da ONU.
Sergio estava em Beirute quando a Embaixada dos EUA foi atingida pelo primeiro de todos os ataques suicidas contra os Estados Unidos. As pessoas datam o início desta nova era como 11 de setembro, mas como certeza 1983, com o ataque à Embaixada dos EUA e aos acampamentos dos Fuzileiros Navais -- que Sergio presenciou -- esses foram, de fato, de certo modo, o início da era em que nos encontramos hoje. Do Líbano ele foi para a Bósnia, na década de 90. As disputas eram, é claro, violência étnica e sectarismo. Ele foi a primeira pessoa a negociar com o Khmer Vermelho. Bastava falar em supremacia do mal, eis que ele estava na sala, lidando com a encarnação do mal no Camboja. Ele negociou com os Sérvios. Ele realmente atravessou tão longe nesse domínio de conversar com o mal e tentar convencer o mal de que ele não precisa prevalecer que ele ganhou o apelido -- não Sergio mas Serbio enquanto ele vivia nos Balcãs e conduzia essas negociações.
Então ele vai para Ruanda e ao Congo logo após o genocídio, e ele foi a pessoa que precisou decidir -- hã, tudo bem, o genocídio acabou; 800.000 pessoas foram mortas; os responsáveis estão escapando para países vizinhos -- para o Congo, para a Tanzânia. Eu sou o Sergio, sou humanitário, e quero alimentar aqueles -- bem, não quero alimentar os assassinos mas quero alimentar os dois milhões de pessoas que estão com eles, e daí vamos fazer o seguinte, vamos instalar acampamentos, e vamos fornecer ajuda humanitária. Mas, hum-hum, os assassinos estão dentro dos acampamentos. Bem, eu gostaria de separar as ovelhas dos lobos. Deixem que eu vá de porta em porta à comunidade mundial para ver se alguém pode me dar forças policiais ou militares para fazer a separação. E a resposta deles, é claro, foi não mais do que queríamos, para deter o genocídio, e colocar as tropas em perigo para fazer isso; tampouco estavam dispostos a se meter nessa e retirar os genocidas dos acampamentos.
E então você precisa decidir. Você fecha a torneira do suporte internacional à vida e arrisca as vidas de dois milhões de civis? Ou você continua alimentando os civis, sabendo que os genocidas estão nos acampamentos, literalmente afiando suas facas para batalhas futuras? O que você faz? Tudo é uma questão de qual é o mal menor nesses lugares arruinados.
Final da década de 90: formação de nações é a causa do momento. Ele é o homem que assume o encargo. Ele é o Paul Bremer ou o Jerry Bremer do primeiro Kosovo e então do Timor Leste. ele governa os lugares. Ele é o vice-rei. Ele tem de decidir sobre a política de impostos, sobre a moeda, sobre patrulhamento das fronteiras. Ele precisa fazer todos esse julgamentos. Ele é um brasileiro nesses lugares. Ele fala sete línguas. Ele chegou a esse ponto em 14 zonas de guerra portanto ele está posicionado para fazer julgamentos melhores, talvez, do que pessoas que jamais fizeram esse trabalho. Mas apesar de tudo, ele é a linha de ponta de nossa experimentação com fazer o bem com pouquíssimos recursos obtidos para dar auxílio nos, de novo, piores lugares do mundo.
E então, depois de Timor, aconteceu o 11 de setembro, ele é nomeado Comissário de Direitos Humanos da ONU, e ele precisa contrabalançar liberdade e segurança e achar um jeito, o que você faz quando a mais poderosa nação da Organização das Nações Unidas está se afastando da Convenção de Genebra, se afastando da lei internacional? Você denuncia? Bem, se você denunciar, você provavelmente nunca mais voltará a entrar na sala. Talvez você possa permanecer reticente. Quem sabe você pode tentar encantar o Presidente Bush -- e isso foi o que ele fez. E fazendo isso ele conseguiu para si mesmo, infelizmente, sua última e trágica nomeação para o Iraque -- aquela que resultou em sua morte.
Uma detalhe sobre sua morte, que é extremamente devastador, é que apesar de declarar guerra ao Iraque por uma ligação entre Saddam Hussein e o terrorismo de 11 de setembro, creiam ou não, a administração Bush ou os invasores não fizeram planejamento, nenhum planejamento antes da guerra, para dar resposta a atos de terrorismo. E então Sergio -- detentor de toda essa aprendizagem sobre como lidar com o mal e como lidar com a ruína, fica soterrado sob as ruínas por três ou quatro horas sem resgate. Sem Estado. O homem que em toda sua carreira tentou ajudar as pessoas que não tinham um Estado que as protegesse. Como um refugiado. Porque ele representa a ONU.
Se você representa todos, de certo modo você não representa ninguém. Você não tem dono. E o que os americanos -- a mais poderosa organização militar na história da humanidade foi capaz de reunir para resgatá-lo, acreditem ou não, foram literalmente esses dois heróicos soldados americanos que entraram no poço do elevador. O prédio estava tremendo. Um deles estivera em 11 de setembro e perdeu seus companheiros em 11 de setembro, e mesmo assim entrou e arriscou sua vida para salvar Sergio. Mas tudo que eles tinham era uma bolsa de mulher -- literalmente uma dessas cestas de compras -- e eles a amarraram a uma corda feita com a cortina de um dos escritórios da sede da ONU, e fizeram um sistema de polia nesse poço, nesse prédio que tremia com o objetivo de resgatar essa pessoa, a pessoa de cuja ajuda mais precisamos agora, este pastor, num momento em que tantos de nós sentimos falta de um guia.
E este era o sistema de polias. Isto foi o que conseguimos fazer para ajudar Sergio. As boas notícias, pelo que elas valem, é que depois de Sergio e outras 21 pessoas terem sido mortas no ataque à ONU, os militares criaram uma unidade de busca e resgate que tinha o equipamento de corte, a madeira para escoramento, os guindastes, as coisas que você precisaria para fazer o resgate. Mas foi tarde demais para Sergio.
Quero concluir, mas quero encerrar com o que eu entendo serem as quatro lições da vida de Sergio nessa questão de como evitar que o mal prevaleça, que é a maneira como enquadrei a questão. Eis aqui o homem que tinha uma dianteira de 34 anos lidando com o gênero de questões com as quais nós como nação estamos lutando agora, nós como cidadãos estamos lutando agora. O que podemos levar?
Primeiro, creio eu, é seu relacionamento com, de fato, o mal é uma coisa com a qual temos de aprender. Ele, ao longo de sua carreira, mudou muito. Ele tinha muitos defeitos, mas ele era muito adaptativo. Creio que esta era sua maior qualidade. Ele começou como alguém que denunciava os agentes do mal, ele acusava as pessoas que violavam a lei internacional, e ele dizia, você está violando, esta é a Carta da ONU. Você não percebe que é inaceitável o que você está fazendo? E eles riam dele porque ele não tinha o poder dos Estados, o poder de uma força militar ou polícia qualquer. Ele só tinha as regras, ele tinha as normas, e tentava usá-las. E no Líbano, Sul do Líbano, em 1982, ele disse a si mesmo e a todos os demais, jamais voltarei a usar a palavra inaceitável. Nunca mais vou usá-la. Vou me esforçar para que efetivamente seja, mas nunca mais usarei essa palavra. Mas ele investiu na direção oposta. Ele começou, como já mencionei, a entrar numa sala com o mal, não para denunciar, e tornou-se quase subserviente quando ele ganhou esse apelido Serbio, por exemplo, e mesmo quando negociou com o Khmer Vermelho colocava numa caixa preta tudo que tinha acontecido antes de entrar na sala.
Mas no final de sua vida, creio que ele tinha conseguido um equilíbrio do qual nós, como país, podemos aprender. Entre na sala, não tenha medo de falar com seus adversários, mas não coloque entre parênteses tudo que aconteceu antes de você entrar na sala. Não coloque a história numa caixa preta. Não deixe seus princípios ao passar pela porta. E acho que isso é algo que precisamos ser na sala, independentemente de ser Nixon indo à China, ou Khrushchev e Kennedy ou Reagan e Gorbachev. Todos os grandes progressos neste país em relação aos adversários vieram de entrar na sala (de negociação). E não precisa ser um ato de fraqueza. Você pode realmente fazer muito mais para construir uma coalizão internacional contra um agente do mal ou um trapaceiro estando na sala e mostrando ao resto do mundo que aquela pessoa, aquele regime, é o problema e que você, os Estados Unidos, não são o problema.
Segundo legado da vida de Sérgio, resumidamente. O que eu levo comigo, e isto de certo modo é o mais importante, ele adotou e exibia uma reverência pela dignidade que era realmente, realmente incomum. No nível micro, os indivíduos ao redor dele eram visíveis. Ele os via. No nível macro, ele pensava, sabem como é, nós falamos de promoção da democracia, mas nós às vezes fazemos isso de uma maneira que é uma afronta à dignidade das pessoas. Nós colocamos as pessoas em ajuda humanitária e nos vangloriamos disso porque gastamos três bilhões. É extraordinariamente importante, essas pessoas não mais estariam vivas se os Estados Unidos, por exemplo, não tivessem gasto esse dinheiro em Darfur, mas isso não é uma maneira de viver. Se nos preocupamos com dignidade em nossa conduta como cidadãos e como indivíduos em relação às pessoas ao nosso redor, e como um país, se pudéssemos incluir uma consideração pela dignidade alheia, em nossas negociações com outros países, isso seria uma espécie de revolução.
terceiro ponto, bem resumido. Ele falava muito sobre ser livre de medo. E eu reconheço que existem tantas coisas para serem temidas. Existem tantas ameaças genuínas no mundo. Mas o que Sergio dizia é, vamos calibrar nossa relação com a ameaça. Não vamos exagerar a ameaça; vamos vê-la com clareza, na realidade. temos motivos para temermos o derretimento das calotas polares. Temos razão para temer porque não criamos um esquema de segurança para o material nuclear disperso na antiga União Soviética. Vamos focalizar naqueles que são os legítimos desafios e ameaças, mas não nos atiremos em más decisões por causa de pânico ou medo. Em tempos de medo, por exemplo, uma das coisas que Sergio costumava dizer é, o medo é mau conselheiro. Nós investimos em direção aos extremos quando não estamos operando e tentando, novamente, calibrar nosso relacionamento com o mundo a nossa volta.
Quarto e último ponto: ele, de algum modo, como estava trabalhando em todos os piores lugares do mundo e buscando os menores males, tinha uma humildade, é claro, e uma consciência da complexidade do mundo ao redor dele. Quero dizer, uma consciência tão aguda de como era difícil. Como essa missão de remendar era um trabalho de Sísifo, e no entanto, consciente dessa complexidade, sentindo-se humilde diante dela, ele não ficava paralisado por ela. E nós como cidadãos, quando passamos por esta experiência, assim como, por crises de confiança, crises de competência, crises de legitimidade, acho que há uma tentação de se retirar do mundo e dizer, ah, Katrina, Iraque -- não sabemos o que estamos fazendo. Não podemos nos permitir essa retirada do mundo. É uma questão de como estar no mundo.
E a lição, creio eu, do movimento anti-genocídio que mencionei, que é um sucesso parcial mas de modo algum conseguiu realizar o que se propôs a fazer -- podem se passar décadas, provavelmente, antes que isso aconteça -- mas é que se queremos ver mudança, temos de ser a mudança. Não podemos esperar que nossas instituições façam o trabalho ou que necessariamente falem com os adversários por si mesmas sem que nós criemos um espaço para que isso aconteça, para ter respeito e dignidade, e para alcançar aquela combinação de humildade e uma espécie de senso ousado de responsabilidade, à maneira como lidamos com o resto do mundo. E daí, será que o mal prevalecerá? Será essa a questão? Creio que a resposta curta é: não, a menos que nós deixemos.
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Samantha Power conta a história de um herói complicado, Sergio Vieira de Mello. Este diplomata da ONU caminhava sobre uma estreita linha moral, negociando com os piores ditadores do mundo para ajudar as pessoas a sobreviverem às crises. É uma história poderosa, contada com uma intensa energia.
Samantha Power studies US foreign policy, especially as it relates to war and human rights. Her books take on the world's worst problems: genocide, civil war and brutal dictatorships. Full bio »
Translated into Portuguese, Brazilian by Durval Castro
Reviewed by Denise Bem David
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23:16 Posted: Sep 2008
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