Uma palestra sobre robôs cirurgiões é também uma palestra sobre cirurgia. E, embora eu tenha tentado não usar imagens muito fortes, tenham em mente que cirurgiões tem um relacionamento diferente com sangue em comparação pessoas normais. Porque, afinal de contas, o que um cirurgião faz com um paciente, se fosse feito sem consentimento, seria um crime. Cirurgiões são os alfaiates, os encanadores, os carpinteiros, alguns diriam os açougueiros do mundo médico. Cortando, remodelando, reformando, desviando, consertando. Mas você precisa falar sobre instrumentos cirúrgicos e a evolução da tecnologia cirúrgica juntos.
Então, para lhes dar uma certa perspectiva de onde nós estamos agora com robôs cirúrgicos, e para onde nós iremos no futuro, eu quero lhes dar um pouco de perspectiva de como chegamos a este ponto. Até de como nós chegamos a acreditar que é OK fazer cirurgia, que isso seria algo possível de se fazer, que essa coisa de cortar e reformar é OK.
Então, um pouco de perspectiva -- mais ou menos 10.000 anos de perspectiva. Esse é um crânio trepanado. E trepanação é simplesmente cortar um buraco no crânio. E muitas, muitas centenas de crânios como esse foram encontrados em sítios arqueológicos ao redor do mundo, datados de 5 a 10 mil anos atrás. Cinco a 10 mil anos. Vamos imaginar uma cena. Você é um curandeiro numa vila na idade da pedra. Aparece um cara com sintomas misteriosos para você. Oliver Sacks ainda está para nascer num futuro muito distante. Ele tem algum problema de convulsão. E você não entende isso. Mas você pensa consigo mesmo, "Eu não tenho muita certeza do que há de errado com esse cara. Mas talvez se eu cortar um buraco na cabeça dele, eu possa dar um jeito." (Risos) Isso é pensamento cirúrgico.
Assim, temos o início da cirurgia intervencionista aqui. Agora o que é espantoso sobre isso é que embora nós não saibamos realmente o quanto disso tinha uma intenção religiosa, ou o quanto disso tinha uma intenção terapêutica, o que nós podemos dizer é que esses pacientes sobreviveram. A julgar pela cicatrização nas bordas desses buracos, eles viveram dias, meses, anos após a trepanação. Então o que nós estamos vendo é evidência de uma técnica refinada, que estava sendo repassada por milhares e milhares de anos, por todo o mundo. Isso surgiu de maneira independente em vários locais, que não tinham como se comunicar entre si. Nós realmente estamos vendo o início da cirurgia intervencionista.
Vamos avançar muitos milhares de anos até a era do bronze e além. Vemos novas e refinadas ferramentas sendo produzidas. Mas cirurgiões nessas eras são um pouco mais conservadores que seus ousados ancestrais trepanadores. Esses caras confinaram suas cirurgias a lesões um tanto superficiais. E cirurgiões eram mais comerciantes do que médicos. Isso persistiu até e durante a Renascença.
Ela pode ter salvo os escritores, mas não ajudou os cirurgiões tanto assim. Ainda havia muita desconfiança deles. Cirurgiões ainda tinham um pequeno problema de Relações Públicas. Porque o cenário era dominado pelo cirurgião-barbeiro itinerante. Eles eram pessoas que viajavam de vila a vila, cidade a cidade, fazendo cirurgias como um tipo de arte performática. Porque nós estávamos na era pré-anestésica, E a agonia do paciente era realmente tanto parte do espetáculo quanto a própria cirurgia. Um desses caras mais famosos, Frere Jacques, mostrado aqui uma litotomia. A extração de um cálculo na bexiga, uma das cirurgias mais invasivas que eles realizavam na época, tinha que ser feita em menos de dois minutos. Você tinha que ter talento para o dramático e ser muito, muito rápido.
Aqui vemos ele fazendo uma litotomia. Acredita-se que ele realizou mais de 4.000 dessas cirurgias públicas, vagando pela Europa. O que é um número impressionante, quando você pensa que cirurgia deveria ser um último recurso. Quer dizer, quem se submeteria a isso? Até a anestesia, a ausência de sensação. Com a demonstração do Inalador de Éter de Morton no Hospital Geral de Massachusetts, em 1847, toda uma nova era da cirurgia foi iniciada. A anestesia deu aos cirurgiões a liberdade para operar. A anestesia lhes deu a liberdade para experimentar, para começar a se aprofundar mais dentro do corpo. Isso foi verdadeiramente uma revolução na cirurgia.
Mas havia um grande problema com isso. Após essas longas, trabalhosas operações, tentando curar coisas que eles nunca puderam nem tocar antes, os pacientes morriam. Eles morriam de infecção generalizada. A cirurgia não doía mais, mas ela matava muito rápido. E infecções continuariam a acometer a maioria dos pacientes cirúrgicos até a próxima grande revolução na cirurgia. Que foi a técnica asséptica.
Agora Joseph Lister foi o maior defensor da assepsia, ou esterilização, frente a um grupo muito, muito cético de cirurgiões. Mas com o tempo eles foram convencidos. Os irmãos Mayo foram visitar Lister na Europa. E eles voltaram para sua clínica na América, dizendo que eles aprenderam que era tão importante lavar suas mãos antes de fazer um cirurgia quanto era lavá-las depois. Algo tão simples. No entanto, a mortalidade pós-cirúrgica caiu drasticamente.
Essas cirurgias agora estavam realmente funcionando. Com o paciente insensível à dor, e um campo de operações esterilizado tomavam-se todas as apostas, e o céu era o limite. Você podia agora começar a fazer cirurgias em qualquer lugar, nas vísceras, no fígado, no coração, no cérebro. Transplantes: você poderia tirar o órgão de uma pessoa, pôr em outra pessoa, e ele funcionaria. Cirurgiões não tinham mais problemas de não serem respeitados. Eles se tornaram deuses.
A era do "grande cirurgião, grande incisão" havia chegado. Mas a um custo Porque eles estão salvando vidas, mas não necessariamente qualidade de vida. Porque pessoas saudáveis geralmente não precisam de cirurgia. E pessoas enfermas têm grande dificuldade de se recuperar de um corte como esse. A pergunta teve que ser feita, "Bem, poderíamos fazer essas mesmas cirurgias, mas através de pequenas incisões?" Laparoscopia é fazer esse tipo de cirurgia. Cirurgia com instrumentos longos, através de pequenas incisões. E isso realmente mudou o panorama das cirurgias. Algumas das ferramentas para isso já existiam há centenas de anos. Mas apenas haviam sido usadas para técnicas diagnósticas até a década de 1980, quando aconteceram mudanças na tecnologia de câmeras e coisas do tipo, que permitiram que isso fosse feito para operações de verdade.
Então o que vocês veem -- essa é a primeira imagem cirúrgica já feita -- ao descer pelo tubo, essa é uma nova porta de entrada para o corpo. Parece muito diferente do que você espera que uma cirurgia pareça. Nós introduzimos os instrumentos a partir de dois cortes separados em cada lado, para depois começar a manipular tecido. 10 anos depois das primeiras cirurgias de vesícula feitas laparoscopicamente, a maioria das cirurgias de vesícula estava sendo feita laparoscopicamente. Isso é uma grande revolução.
Mas haviam contratempos nessa revolução. Essas técnicas eram muito mais difíceis de aprender do que as pessoas esperavam. A curva de aprendizado era um tanto longa. E durante essa curva de aprendizado, as complicações ficaram ainda maiores. Cirurgiões tinham que abandonar sua visão tridimensional. Eles tinham que abdicar de seus punhos. Eles tinham que abandonar a movimentação intuitiva nos instrumentos. Este cirurgião tem mais de 3.000 horas de experiência laparoscópica. Esta é uma localização especialmente frustrante da agulha. Isto é difícil. E um dos motivos de ser tão difícil é porque a ergonomia externa é terrível. São necessários esses instrumentos longos, e o cirurgião trabalha fora da linha do centro. E os instrumentos funcionam ao contrário.
O que precisa ser feito é pegar a capacidade da mão, e colocá-la do outro lado dessa pequena incisão, é colocar um punho nesse instrumento. E assim -- passamos a falar de robôs -- o robô da Vinci colocou esse punho no outro lado da incisão. Aqui vemos a operação deste punho. E, ao contrário da laparoscopia, é possível colocar a agulha com toda a precisão no instrumento, é possível passar o caminho todo e segui-la em uma trajetória. E o motivo disso tornar-se tão mais fácil é, como podem ver na parte inferior, que as mãos fazem os movimentos, e os instrumentos seguem os movimentos exatamente. O que colocamos entre esses instrumentos e as mãos é um robô grande, razoavelmente complicado. O cirurgião fica sentado em um console, controlando o robô com estes controladores. E o robô move esses instrumentos, acionando-os dentro do corpo. Existe uma câmera tri-dimensional, que oferece uma visão tri-dimensional.
Desde que isso foi lançado em 1999, foram fabricados muitos robôs, que estão sendo usados para procedimentos como prostatectomia. A próstata fica no fundo da pelvis, exigindo dissecação cuidadosa e manipulação delicada, para possibilitar um bom resultado cirúrgico. É possível também costurar pontes de safena em um coração pulsante, sem abrir o tórax. Isso é feito entre as costelas. É possível até entrar no coração, e consertar as válvulas de dentro. Temos estas tecnologias -- muito obrigada -- (aplausos) e alguns dirão: "Nossa, isso é muito legal!" Portanto, espertinhos, porque apenas algumas cirurgias são feitas desta forma?" Existem motivos, alguns bons motivos. Um deles é o custo.
Falei sobre um robô grande e complicado. Com todos os seus acessórios, um desses robôs custará tanto quanto um cirurgião de ouro maciço. Sim, é mais útil que um cirurgião de ouro maciço, mas ainda assim um grande investimento. Uma vez comprado, contudo, os custos do procedimento caem. Mas existem outras barreiras. Para uma prostatectomia, por exemplo, temos a próstata, que é pequena e confinada a um local. É possível configurar o robô com grande precisão, para trabalhar exatamente nesse local. Portanto, é perfeito para esse tipo de trabalho. Se você, ou qualquer pessoa que você conhece, teve a próstata removida nos últimos dois anos, é bem provável que foi com um desses sistemas. Mas se tiver de alcançar mais de um lugar, é preciso mover o robô. É preciso fazer novas incisões. É preciso reconfigurá-lo. É preciso acrescentar mais portas, e muito mais. Com isso, tudo toma mais tempo e fica mais desajeitado.
Por esse motivo, muitas cirurgias não são feitas com o da Vinci. Assim, tivemos de nos perguntar: "Como damos um jeito nisso?" Se pudéssemos mudá-lo, para que não precisasse ser reconfigurado cada vez que tivéssemos de ir para outro lugar? E se reuníssemos todos esses instrumentos em um único local? Como isso mudaria a capacidade do cirurgião? E como isso mudaria a experiência do paciente? Para fazer isso, é preciso trazer a câmera, e os instrumentos, juntos, através de um pequeno tubo, como o tubo que viram no vídeo da laparoscopia. Ou, de forma não tão coincidente, em um tubo como este.
O que vai sair deste tubo é o lançamento de uma nova tecnologia, este novo robô conseguirá chegar a qualquer lugar. Prontos? Vamos lá. Esta é a câmera e três instrumentos. Ao sairem do tubo, para que sejam realmente úteis, não podem ficar amontoados assim. É preciso que saia da linha central e voltar à linha central. É danadinho, ele. Mas o que isso permite fazer, é ter a importante tração, e contra-tração, que permite dissecar e costurar, para que possa ser feito tudo o que precisa ser feito, todas as tarefas cirúrgicas. E tudo passa através de uma incisão. Não é tão simples assim. Mas vale a pena pela liberdade que nos dá, de ir onde precisamos ir. Contudo, para o paciente, é transparente. Isso é tudo o que verão.
Estamos animadíssimos em pensar onde podemos chegar. Podemos escrever o script da próxima revolução na cirurgia. Conforme tomamos essas capacidades, podemos ir a outros lugares, podemos decidir quais serão nossas novas cirurgias. E penso que para trilhar o restante da revolução, precisamos não apenas fazer novos usos de nossas mãos, mas também fazer novos usos de nossos olhos. Precisamos ver além da superfície. Precisamos guiar o que estamos cortando de forma muito melhor.
Esta é uma cirurgia de câncer. Um dos problemas desta cirurgia, mesmo para cirurgiões experientes, é que não se pode ver o câncer, especialmente se está oculto abaixo da superfície. Assim, o que estamos começando a fazer é injetar marcadores especialmente projetados na corrente sanguínea, que terão o câncer como alvo. O marcador se prenderá ao câncer. E podemos fazer os marcadores brilharem. E, usando câmeras especiais, ver o câncer. Agora sabemos onde devemos cortar, mesmo se estiver abaixo da superfície. Podemos pegar esses marcadores e injetá-los no local do tumor. E acompanhá-los quando sairem do local do tumor, o que nos dirá para onde o câncer pode ir. Podemos injetar esses corantes na corrente sanguínea, para que, ao suturarmos um novo vaso, e fizermos uma ponte de safena, podemos ver se realmente fizemos a conexão, antes de fecharmos o paciente. É algo que ainda não tínhamos conseguido fazer sem radiação. Podemos acender tumores, como este tumor no rim, para podermos ver exatamente onde estão os limites entre o tumor no rim e o rim em si, que precisa ser preservado. Ou o tumor do fígado, e o fígado que precisa ser preservado.
Não precisamos sequer nos limitar a esta visão macro. Temos sensores microscópicos sensíveis que podemos introduzir no corpo. Permitindo que olhemos diretamente para as células. Estamos olhando para os nervos. São estes, aqui na parte inferior. O sensor microscópico está sendo segurado pela mão robótica, na parte superior. Atualmente, tudo ainda está no estágio de protótipos. Mas se você é um paciente cirúrgico, precisa preocupar-se com nervos. Porque são eles que impedem a incontinência, controlam a bexiga e a função sexuar após a cirurgia. Todos os quais, são bastante importantes para o paciente.
Assim, através da combinação destas tecnologias podemos chegar a qualquer lugar, ver tudo. Podemos curar a doença. Podemos deixar o paciente inteiro, intacto. e funcional após a cirurgia. Falei sobre o paciente como se o paciente fosse alguém abstrato fora desta sala. Mas isto não é o caso. Muitos de vocês, talvez todos, irão, se já não tiveram, ter um câncer diagnosticado, ou talvez uma doença cardíaca, ou uma disfunção de algum órgão, que promoverão um encontro entre vocês e um cirurgião. E quando chegarem nesse ponto -- quer dizer, esses males não querem saber quantos livros vocês escreveram, quantas empresas chefiaram, o Prêmio Nobel que ainda vão ganhar, quanto tempo gostariam de passar com seus filhos. Esses males acontecem com todos nós.
E a perspectiva que estou apresentando a vocês, de uma cirurgia mais fácil... irá tornar esse diagnóstico menos assustador? Não tenho certeza se realmente desejo que seja menos assustador. Encarar nossa própria mortalidade faz com que reavaliemos nossas prioridades, e realinhemos nossos objetivos de vida -- mais que qualquer outra coisa. E jamais eu gostaria de impedir vocês de ter esse momento de iluminação. Contudo, o que desejo, é que fiquem inteiros, intactos, e funcionais o suficiente para sair daqui e salvar o mundo, após terem decidido que é isso que precisam fazer. E essa é minha visão do futuro. Muito obrigada. (aplausos)
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A cirurgiã e inventora Catherine Mohr nos guia pela história da cirurgia (e seu passado pré-anestesia e pré-antissepsia), e depois demonstra algumas das mais novas ferramentas para cirurgias realizadas através de pequenas incisões, usando ágeis mãos robóticas. Fascinante -- mas não para os que se enjoam facilmente.
Catherine Mohr works on surgical robots and robotic surgical procedures, using robots to make surgery safer -- and to go places where human wrists and eyes simply can't. Full bio »
Translated into Portuguese, Brazilian by RAINER HARTMANN
Reviewed by Moreno Barros
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17:51 Posted: May 2008
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