A merenda escolar é um problema de justiça social. Sou diretora para assuntos nutriocionais na escola distrital de Berkeley. Tenho 90 funcionários, 17 cantinas, 9.600 crianças. Preparo 7.100 refeições por dia e há dois anos tento mudar a alimentação das crianças na América. E quero falar disso hoje. Eis algumas crianças servindo-se de salada. Eu ofereço salada em todas as escolas por onde passo. Todos dizem que seria impossível-- os pequenos não comeriam salada, os maiores cuspiriam nela -- nada disso aconteceu.
Quando assumi essa função, tentei imaginar minha visão: como mudamos a relação das crianças com a comida? E digo que precisamos mudá-la, e temos que mudá-la completamente. E o que concluímos foi, que precisamos ensinar as crianças a relação simbiótica de planeta, comida e crianças saudáveis. E se fizermos o contrário, apesar de termos ouvido o oposto, vamos ser extintos, pois estamos matando nossas crianças. É minha premissa.
Vemos crianças ficarems cada vez mais doentes. E o motivo é, sem dúvida, nosso sistema alimentar a forma como o governo vende a comida, negligencia nossa comida, a forma como o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) alimenta nossas crianças é prejudicial e facilita a entrada dessa comida nas escolas. Tacitamente, nós mandamos nossos filhos, netos, sobrinhos à escola e dizemos para aprenderem o que há nas escolas. E quando as alimentamos mal isso é o que eles aprendem.
Chegamos aqui por causa do grande agronegócio. Vivemos num país onde a maioria não escolhe o que comer. Vemos grandes negócios, Monsanto e DuPont -- que trouxeram o Agente Laranja e o tapete anti-mancha -- eles controlam 90% do comércio de sementes no nosso país. São dez empreas que controlam o que está nos mercados, o que as pessoas comem -- e isto é um grande problema.
Quando comecei a pensar nesses assuntos e em como eu mudaria o que a crianças comem, comecei a focar no que poderíamos ensinar a elas. A primeira coisa em que pensei foi a comida regional -- cultivada na própria região. E com o que acontece com o combustível fóssil, à medida em que ele acaba, o petróleo atinge seu pico, temos que começar a pensar se devemos ou não transportar a comida por milhares de quilômetros antes de comê-la. Então conversamos com as crianças sobre isso, e começamos a oferecer comida regional.
Depois falamos sobre comida orgânica. Muitos municípios não podem comprar comida orgânica, mas nós, enquanto nação, temos que começar a pensar sobre consumir, educar e alimentar nossas crianças com comidas sem química. Não podemos continuar dando pesticidas, herbicidas, antibióticos e hormônios às crianças. Não podemos mais fazer isso. Isto não funciona. E o resultado é que os pequenos estão ficando doentes.
Minha maior plataforma agora são os antibióticos. 70% dos antibióticos consumidos na América vêm da pecuária. Damos antibióticos às nossas crianças na forma de carne ou outra proteína animal. É inacreditável. E o resultado são as doençås. Temos a E.coli, que não podemos eliminar, não podemos curar nossas crianças. E antibióticos são largamente receitados, mas é um problema quando na comida. Um grande fato é que a agricultura dos EUA usa 1.2 bilhões de quilos de pesticidas todo ano. Significa que todos nós consumimos o equivalente a sacos daqueles que você tem em casa. Se tivesse um aqui, eu o rasgaria e aquela pilha no chão é o que nós consumimos todos os anos por causa do que vem de nossa alimentação por causa do jeito que consumimos os produtos na América.
O USDA permite estes antibióticos, hormônios e pesticidas em nossa comida, e o USDA pagou por esta propaganda na revista Time. Poderíamos falar sobre Rachel Carson e o DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano), mas sabemos que não foi bom para nós. E o USDA permite isso em nossa alimentação. E isso precisa mudar. O USDA não pode ser visto como autoridade máxima na forma que alimentamos nossos filhos e o que é permitido. Não podemos acreditar que eles defendam nossos interesses. A antítese de tudo isso é comida sustentável. É o que eu quero que as pessoas entendam. Eu tento ensinar issoa às crianças -- é o mais importante. Consumir comida de forma que nós ainda teremos um planeta onde as crianças crescem saudáveis, e tentar diminuir o dano dos impactos negativos que vemos. É só uma nova ideia. As pessoas falam sobre sustentabilidade, mas temos que saber o que é.
Em menos de 200 anos, em poucas gerações, deixaremos de ser 200 - 100, 95% de fazendeiros para menos de 2% de fazendeiro. Vivemos num país que tem mais prisioneiros que fazendeiros -- 2.1 milhões de prisioneiros, 1.9 milhões de fazendeiros. E gastamos 35 mil dólares, em média, por ano para manter um prisioneiro na cadeia e os municípios gastam 500 dólares por ano em merenda escolar. Não é de se espantar que tenhamos criminosos.
O que acontece é que estamos ficando doentes -- nós e nossas crianças também. É o que nós comemos. Somos o que enta em nós. Somos o que comemos. Se continuarmos por este caminho, se continuarmos a dar comida ruim a elas, se não ensinarmos o que é comida boa, o que vai acontecer? O que acontecerá com o nosso sistema de saúde? O que vai acontecer é nossos filhos não viverão tanto quanto nós. O CCD, Centro de Controle de Doenças, disse que, das crianças nascidas no ano 2000, que têm entre sete e oito anos hoje, um dentre três caucasianos, um dentre dois afro-americanos e hispânicos, desenvolverão diabetes ao longo da vida. Não só isso, mas ainda disseram que, a maioria seria antes de terminar o colegial. Significa que cerca de 40% ou 45% de todas as crianças em idade escolar podem tornar-se dependentes de insulina em uma década.
O que vai acontecer? O CCD disse ainda que essas mesmas crianças podem ser a primeira geração na história deste país a morrerem mais cedo que seus pais. E tudo por causa da alimentação. Crianças de oito anos não decidem, e se o fazem, precisam de terapia. Nós somos responsáveis pelo que as crianças comem. Mas, "ops", talvez eles sejam os responsáveis. Grandes empresas gastam 20 bilhões de dóalres por ano vendendo comidas pouco nutriticas a crianças. Dez mil comerciais vistos por crianças. Eles gastam 500 dólares para cada dólar -- 500 dólares para vender alimentos que a crianças não deveriam comer -- para cada dólar destinado a comida saudável e nutritiva. O resultado é que crianças pensam que vão morrer se não comerem nuggets de frango.
Todo mundo pensa que deveriam comer cada vez mais. Esta é a minúscula porção do USDA E aquela ali,maior que minha cabeça, é o que McDonald`s e Burger King e aquelas empresas acham que devemos comer. E por que eles servem isso tudo? Por que engolimos refeições de 29 centavos e hambúrgueres de 99 centavos? É por causa da forma como o governo comercializa a comida, o milho e a soja barata que são empurrados para nossa alimentação que faz com que esses comestíveis sejam extremamente baratos. Por isso que eu digo que é uma questão de justiça social.
Como eu disse que faço isso em Berkeley, vocês podem pensar, "Ah, claro que você pode fazer isso em Berkeley." Esta é a comida há 2 anos. Se é que podemos chamar isso de comida. Isto é o que damos de comer aos nossos filhos Doritos, Cheetos pizza pronta, queijo quente. Tudo em plástico, papelão. A única ferramenta que eu tinha era um abridor de caixas. O único equipamento na minha cozinha era um esmagado de latas. Se não vinha em lata, vinha congelado numa caixa. O USDA permite isso. Permite tudo isso. Caso não consiga imaginar, digamos que seja um danoninho e uns bolinhos. Nuggets de frango, Tater Tots, achocolatados, suco em caixinha -- uma refeição fácil.
É o que o governo diz ser bom para nossas crianças. Não é certo, sabe? Não é! E todos nós temos que entender que é por nós nós podemos fazer a diferença. Não sei se alguém aqui inventou os nuggets, mas aposto que essa pessoa é rica. Mas quem decidiu que um frango deve se parecer com um coração, uma girafa, uma estrela? Foi o Tyson, pois de frango não tem nada. E eles sacaram que poderiam vender essa coisa para crianças. O que há de errado em ensinar às crianças que frango é frango? Mas é o que a maioria das escolas serve. Na verdade, muitos pais servem isso E isto é o que tentamos servir.
Precisamos mudar esse paradigma com crianças e comida. Temos que ensinar ao pequenos que um frango não é uma girafa. Que vegetais são coloridos e saborosos, que cenouras crescem na terra, que morangos crescem na terra. Não existe uma morangueira ou cenoureira. Temos que mudar a forma que ensiamos às crianças. Há muito que podemos fazer. Várias escolas fazem projetos de hortas. Muitas escolas trazem alimentos frescos.
Agora em Berkeley, só alimentos frescos. Não temos Karo, gordura trans, comidas processadas. Preparamos as refeições todos os dias. 25 por cento -- (Aplauso) obrigada -- 25 por cento de nossa comida é orgânica e local. Nós cozinhamos. São minhas mãos. Acordo às 4 da manhã todo dia e cozinho para as crianças, por que isso é o que precisamos fazer. Não podemos continuar a servir essa porcaria processada cheia de química e querer formar cidadãos saudáveis. Vocês não conseguirão fazer as próximas gerações pensarem assim se eles não são nutridos. Se eles comem química o tempo todo, eles não poderão pensar. Eles não serão espertos. Sabe de uma coisa? Eles estarão doentes.
O que aconteceu quando fui para Berkeley foi que notei que é tudo fantástico para as pessoas muito diferente -- e eu precisava divulgar isto. Inventei esses calendários, que eu enviei para todos os pais. E estes calendários começaram a definir meu programa. Hoje sou responsável por todas as aulas de culinária e de jardinagem do distrito. Este é um cardápio típico -- é o que servimos esta semana nas escolas. Podem ver as receitas ao lado? São as que as crianças aprendem nas minhas aulas. Eles degustam os ingredientes. E também cultivam os alimentos que servimos nas cantinas. Se vamos mudar o relacionamento das crianças com a comida, começamos com comida gostosa e nutritiva nas cantinas. Mão na massa -- você vê em aulas de culinária e jardinagem -- e currículo acadêmico para juntar tudo.
Vocês já devem ter notado que eu não gosto do USDA, e não faço ideia da pirâmide deles -- essa de cabeça pra baixo com um arco-íris, sei lá. Sabe, corra para o final do arco-íris, não sei o que se faz com isso. Então inventei a minha. Está disponível no meu site em inglês e espanhol. e é uma forma visual de falar sobre comida com as crianças. O pequeno hambúrguer, os grandes vegetais. Temos que começar a mudar isto. Fazer as crianças entenderem que as escolhas fazem grande diferença. Temos aulas e salas de culinária em nossas escolas, e o motivo disso ser tão importante é que criamos uma geração talvez duas, de crianças que comem besteira em uma das refeições e uma das outras refeições são consumidas em frente à TV ou computador. O que as crianças aprendem? Onde está o tempo da família? Onde está a socialização? A discussão? A conversa? Temos que mudar isto.
Estas são as crianças com quem trabalho no Harlem. (EATWISE)-- Adolescentes Espertos que Inspiram uma Alimentação Correta. Temos que ensinar as crianças que Coca-Cola e biscoitos não são café-da-manhã. Temos que ensiná-las que se elas seguirem uma dieta com açúcar refinado, elas terão altos e baixos, como viciados em crack. Temos que ponderar tudo. Temos adubagem em todas as escolas. Temos reciclagem em todas as escolas. Aquelas coisas que talvez façamos em casa e achamos importantes, temos que ensiná-las na escola. Tem que fazer parte delas para elas entenderem. Porque muitos de nós estamos no final de nossas carreiras, e precisamos dar a essas crianças à próxima geração as ferramentas para se salvarem e salvarem o planeta.
Uma coisa que eu faço muito são parcerias público-privadas. Trabalho com empresas privadas que querem fazer pesquisa comigo que querem fazer a distribuição para mim, ir às escolas. As escolas não têm verba suficiente. A maioria das escolas na América gastam menos de 7.500 dólares/ano para ensinar uma criança. É menos que cinco dólares por hora. Muitos de vocês gastam 10, 15 dólares por hora para babás, quando as têm. Gastamos menos de 5 dólares por hora no sistema educacional. Se vamos mudar isto, e mudar como alimentamos as crianças, temos que repensar isso. Parcerias público-privadas, escritórios de advocacia, fundações. No nosso distrito, a forma de custear isto é alocar três por cento do fundo geral para serviços nutricionais. E acho que, se todo distrito alocasse de meio a um por cento, poderíamos começar a embasar o programa.
Realmente precisamos mudar isto. Vamos precisar de mais dinheiro. Claro que não é só a comida mas também atividade física. E uma coisa simples que podemos fazer é colocar um horário vago antes do almoço. É uma coisa muito simples mesmo. Se as crianças vão almoçar e o horário vago fica depois do almoço elas dispensam a comida para correr lá fora. E à uma da tarde, elas estão mortas de cansadas. São seus filhos e netos se arrastando quando você os busca, pois não almoçaram. Se depois do almoço elas forem para a aula, acreditem, elas vão sentar e almoçar.
Precisamos educar. Precisamos educar as crianças. Educar os funcionários. Eu tinha 90 funcionários. Eram pra ser dois cozinheiros, supostamente. E não melhorou muito não. Mas precisamos educar. As instituições acadêmicas têm que começar a pensar em formas de ensinar pessoas a cozinharem de novo, porque é óbvio que elas não cozinham -- as comidas processadas estão em escolas e instituições há muito tempo. Os almoços têm que durar 40 minutos -- a maioria das escolas disponibiliza 20 minutos -- e almoços na hora certa. Foi feito um grande estudo, e há muitas escolas começando o almoço às 9, 10 da manhã. Isso não é hora de almoçar.
É maluquice o que eles fazem. E lembrem-se, pelo menos tacitamente, é o que estamos ensinando às crianças como fazer. Se vamos consertar isto, o que temos que fazer é mudar o jeito que vemos o Programa Nacional de Merenda Escolar. Em vez do Programa estar sob a tutela do USDA, tinha que pertencer ao CDC. Se começássemos a pensar sobre comida e como alimentamos nossas crianças como iniciativa para a saúde, e começássemos a pensar em comida como saúde, então acho que não teríamos salsichas para o almoço.
Certo, finanças básicas. Estou misturando isso com finanças porque acho que é algo que temos que entender. O Programa Nacional de Merenda Escola gasta oito bilhões de dólares alimentando 30 milhões de crianças por ano. Esse número precisa dobrar. Dizem "ai meu Deus, onde vamos conseguir 8 bilhões?" Neste país, gastamos 110 bilhões de dólares por ano em fast food. Gastamos 100 bilhões de dólares por ano em suplementos. Gastamos 50 bilhões de dólares em vegetais, o por quê de precisarmos de suplementos. Gastamos 200 bilhões de dólares por ano em doenças decorrentes de uma dieta ruim, com 9 por cento das crianças com diabetes tipo 2 200 bilhões.
Então, quando falamos que precisamos de mais 8 bilhões, não é muito. Esses 8 bilhões se reduzem a dois dólares e 49 centavos é o que o governo destina para almoço. Muitos distritos gastam dois terços disso em folha de pagamento e supérfluos. Isso significa que gastamos menos de um dólar por dia em comida nas escolas a maioria das escolas, 80 a 90 centavos. Em LA, são 56 centavos. Então estamos gastando menos de um dólar em almoço. Não sei quanto a vocês mas vou ao Starbucks e Pete's, por exemplo, e um chocolate em São Francisco custa cinco dólares. Um café refinado, um, custa mais -- gastamos mais ali do que para alimentar as crianças por uma semana inteira nas escolas.
Devíamos nos envergonhar. Nós, como uma nação, deveríamos nos envergonhar disso -- o país mais rico do mundo. Em nosso país, são as crianças, que mais precisam disso, que recebem essa porcaria de comida. São crianças cujos pais, avós, tios e tias que não podem pagar a merenda que comem isso. E são estas crianças que vão ficar doentes. São as mesmas crianças que precisam ser cuidadas.
Todos podemos fazer a diferença cada um de nós não importa se temos filhos se nos importamos com os filhos, se temos sobrinhos ou qualquer outra coisa nós podemos fazer a diferença Se você se senta para comer com seus filhos se leva os filhos, netos sobrinhos para às compras na mercearia -- só para experimentar. Sente-se e dê atenção. No nível macro, estamos no que parece ser uma campanha presidencial de 19 meses e tudo o que perguntamos todos esses prováveis líderes, que tal perguntar sobre a saúde de nossas crianças? Obrigada. Obrigada.
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Palestrante na conferência de 2007 da EG, a "renegada senhora do almoço", Ann Cooper fala sobre a iminente revolução na forma que as crianças comem na escola - comida local, sustentável, da época e até educativa.
Ann Cooper cares -- a lot -- what kids eat for lunch. As the head of nutrition for Berkeley, California, schools, she serves organic, regionally sourced and sustainable meals to lots of lucky children. Full bio »
Translated into Portuguese, Brazilian by Silvana Thees
Reviewed by Leandro Cianconi
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20:08 Posted: May 2008
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17:25 Posted: Feb 2008
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20:24 Posted: Nov 2008
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