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About this talk
A comediante-filósofa Emily Levine e sua (hilária) conversa sobre ciência, matemática, sociedade e o modo como tudo se conecta. É uma comediante brilhante, que cutuca nossas ideias pré-concebidas e traz verdades à tona. Acomode-se e deixe que ela cutuque seu cérebro.
Translated into Portuguese (Brazil) by Cláudia Almeida
Reviewed by Moreno Barros
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About Emily Levine
Humorist, writer and trickster Emily Levine riffs on science and the human condition. Full bio and more links
Interactive Transcript
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Vou falar sobre mim mesma, coisa que raramente faço porque... em primeiro lugar, prefiro falar sobre coisas que desconheço. E segundo porque sou uma narcisista em reabilitação. (Risos) Eu não sabia que era narcisista. Achava que narcisismo era amar a si mesmo. Aí alguém me disse que tinha uma pegadinha. É mais assustador que amor a si próprio. É amor a si não correspondido. (Risos) E eu não posso ter uma recaída.
Mas eu gostaria de explicar como cheguei a esse tipo de comédia porque já passei por diferentes fases. Comecei com improviso. Um tipo específico de improviso chamado jogos teatrais, que tinha uma regra, que eu sempre achei uma regra excelente para a ética de uma sociedade. E a regra era que não se podia negar a realidade alheia, só construir em cima dela.
Vivemos numa sociedade que sempre contradiz a realidade das outras pessoas. Sempre há contradição, e por isso sou tão sensível a contradições em geral. Eu as vejo em toda parte. Como pesquisas. Sempre me chamou a atenção que, em pesquisas de opinião pública, a porcentagem de americanos que não sabem a resposta é sempre dois por cento. 75 por cento dos americanos acham que o Alasca é parte do Canadá. Mas apenas dois por cento não sabem o efeito que a crise na Argentina terá na política monetária do FMI... (Risos) Me parece contraditório. Ou esse anúncio que li no New York Times: "Usar um relógio refinado diz muito sobre sua posição na sociedade. Comprá-lo aqui diz muito mais sobre seu bom gosto." (Risos) Ou esse que vi numa revista chamada "California Lawyer", um artigo claramente voltado aos advogados da Enron. "Sobrevivendo à Prisão: O Que Fazer e o Que Não." (Risos) "Não use palavras sofisticadas." (Risos) "Aprenda a lingua franca." (Risos) É. Aprenda isso aqui.
E acho que é uma contradição eu falar sobre ciência se nem sei matemática. Porque, sabe - aliás, eu agradeço a Dean Kamen por mostrar que uma das razões, que há razões culturais para que mulheres e minorias não se aventurem na área de ciência e tecnologia - porque por exemplo, a razão da minha aversão à matemática é que aprendi matemática ao mesmo tempo que aprendia a ler. Você tem seis anos, lendo Branca de Neve e os Sete Anões. Fica bem óbvio que há apenas dois tipos de homem no mundo, anões e príncipes encantados. E as chances são de sete para um de se encontrar o príncipe. (Risos) Por isso garotas não gostam de matemática. É muito deprimente.
Claro, falando sobre ciência eu posso, como aconteceu outro dia, incorrer na ira de alguns cientistas que ficaram muito irritados comigo. Eu usei a palavra pós-moderno, achando que estava tudo bem. E eles ficaram muito irritados. Acho que um deles queria começar uma discussão séria. Mas eu não entro em discussões sérias. Não as aprovo porque discussões, claro, são sobre contradições. E são embasadas em valores.
Eu tenho dúvidas sobre os valores da ciência newtoniana. Como a racionalidade, você deve ser racional durante uma discussão. Bem, a racionalidade é construída pelo que Christie Hefner estava falando hoje, a divisão mente e corpo. Lembram? A cabeça é boa, o corpo é ruim. A cabeça é o ego, o corpo é o id. Quando digo "eu," - como quando Rene Descartes dizia, "Eu penso, logo existo," - falamos da cabeça. E quando David Lee Roth canta em "Apenas um Gigolô," "Eu não tenho ninguém." Assim se encontra a racionalidade. E é por isso que o humor se baseia tanto no corpo tentando se afirmar sobre a mente. É por isso que há tanto humor escatológico e sexual. É por isso que os Irmãos Raspyni ficam golpeando os genitais de Richard. E nós rimos ainda mais porque ele é o corpo, mas também...
Emily Levine: Richard. O que foi que eu disse? (Risos) Richard. Sim, mas também é a mente, o cabeça da conferência.
Esse é outro tipo de humor... como Art Buchwald detonando chefes de estado. Não é tão lucrativo quanto o humor físico, tenho certeza... (Risos) mas mesmo assim, nós o apreciamos e adoramos.
Há também uma contradição na racionalidade nesse país, que é, não importa o quanto reverenciemos a mente, nós somos muito anti-intelectuais. Sei disso porque li no New York Times, a fundação Ayn Rand pegou uma página inteira depois do 11 de setembro, e publicou, "O problema não é o Irã ou o Iraque, o problema nesse país, que assola esse país, são os professores universitários e suas crias." (Risos) Então eu resolvi reler "A Nascente." (Risos) Não sei quantos aqui o leram. Não sou especialista em sadomasoquismo. (Risos) Mas gostaria de ler só umas partes da página 217.
"O ato de um mestre que a possuía com requintes de desprezo, era o tipo de êxtase que ela desejava. Quando eles se deitavam, era, como tinha de ser, como a natureza do ato pedia, um ato de violência. Era um ato de ódio, de dentes cerrados. Era insuportável. Nem um carinho, mas uma onda de dor. A agonia como um ato de paixão."
Então vocês podem imaginar minha surpresa ao ler na revista 'The New Yorker' que Alan Greenspan, Diretor do Banco Central, afirma que Ayn Rand é sua mentora intelectual. (Risos) É como descobrir que sua babá é uma dominatrix. (Risos) Já foi péssimo ter que ver J. Edgar Hoover num vestido. Agora temos que imaginar Alan Greenspan num espartilho de couro preto, com uma tatuagem na bunda dizendo, "Chicoteie a inflação."
E Ayn Rand, claro, é famosa por sua filosofia, o Objetivismo, que reflete outro valor da física Newtoniana, que é a objetividade. A objetividade é construída da mesma forma que um momento S&M. É o sujeito subjugando o objeto. É assim que você se impõe. Você se transforma na voz ativa. E o objeto é o passivo sem voz.
Eu fiquei fascinada pelo comercial da Oxygen. Não sei se sabem disso, mas - talvez seja diferente agora, ou talvez alguém estivesse tentando provar um ponto - mas em muitas maternidades do país, até bem recentemente, segundo um livro de Jessica Benjamin, as plaquinhas nos berços dos meninos dizia, "Sou um menino." E as plaquinhas nos berços das meninas dizia, "É uma menina." A passividade já era culturalmente projetada nas meninas.
E continua do mesmo jeito que eu comentei ano passado. Há uma pesquisa que prova isso. Houve uma pesquisa da revista "Time", perguntaram somente a homens: "Você já fez sexo com uma mulher que você não gostasse?" E claro que sim. Bem, 58 por cento disseram sim, o que eu acho um número bastante inflacionado aliás, porque a maioria dos homens, se você perguntar, "Você já fez sexo..." "Já!" Eles nem eperam pelo resto da pergunta. (Risos) E claro que dois por cento não sabiam se já tinham... (Risos) Essa é a primeira parte no meu salto quádruplo.
Então essa coisa toda de sujeito e objeto é de grande interesse para mim porque é a razão para eu acreditar no politicamente correto. Acredito. E acho que pode haver exageros. Acho que os Irmãos Ringling exageraram com um anúncio na Revista do New York Times. "Temos um compromisso emocional e financeiro com nossos parceiros Elefantes Asiáticos." (Risos) Talvez longe demais. Mas sabe, eu não acho que uma pessoa negra fazer piada com brancos é a mesma coisa que uma pessa branca fazer piada com negros. Ou mulheres fazendo piadas com homens, não é o mesmo que homens... Ou pobres gozando de ricos, e o mesmo para os ricos.
Acho que você pode fazer piada com quem tem e não com quem não tem, e é por isso que vocês não me veem fazendo piada do Kenneth Lay e de sua charmosa esposa. (Risos) Qual é a graça de só ter quatro casas? (Risos) Eu realmente aprendi a lição durante os escândalos sexuais do governo Clinton. Ou como eu chamo, os bons e velhos tempos. (Risos) Quando as pessoas que eu conhecia, pessoas que se diziam liberais, e tudo mais, ficavam fazendo piada com Jennifer Flowers e Paula Jones. Faziam piada delas dizendo que eram branquelas vadias, lixo branco. Parece, a princípio, preconceito inofensivo e que não está afetando ninguém. Até você ler, como eu li, um anúncio no Los Angeles Times. "Promoção: Compactador de lixo branco." (Risos)
Então essa coisa toda de sujeito e objeto é relevante para o humor nesse caso. Eu li um livro de uma mulher chamada Amy Richlin, que é diretora do departamento de História Clássica da USC. O livro se chama "O Jardim de Príapo." E ela diz que o humor romano espelha a construção da sociedade romana. A sociedade romana era muito hierarquizada, e a nossa também, até certo ponto. O humor também era. Sempre havia o alvo da piada. Então era o humorista, tipo Juvenal ou Marshall, representando a platéia, e fazendo piada com alguém de fora, alguém que não tivesse o mesmo status.
E na comédia stand-up, claro o comediante deve dominar a platéia. Muito da provocação vem da tensão de tentar assegurar que o comediante vai dominar e derrotar o provocador. Eu fiquei boa nisso quando fiz stand-up. Mas eu sempre odiei porque os outros ditavam os termos da interação. Da mesma forma que se envolver numa briga séria determina, de certa forma, o conteúdo do que se discute. Eu estava buscando um formato que não tivesse isso. Eu queria alguma coisa que fosse mais interativa. Sei que essa palavra está meio fora de moda agora porque é tão usada pelos marqueteiros da Internet.
Eu sinto falta dos tele-marqueteiros agora, sabem. (Risos) É verdade. Pelo menos a gente tinha uma chance, entende? Eu desligava o telefone na cara deles. Mas aí eu li na coluna da Dear Abby que isso era grosseiro. Então na próxima vez que um ligou eu o deixei ir até a metade do blá-blá-blá e disse, "Que voz sexy." (Risos) Ele desligou na minha cara!
Mas a interatividade permite que a platéia molde o que você vai fazer da mesma forma que você molda a experiência que elas terão. E é isso que eu estou procurando. E quando eu comecei a analisar o que exatamente eu faço, eu li um livro chamado "O Ardiloso Faz o Mundo", de Lewis Hyde. Foi como uma sessão de psicanálise. Estava tudo lá. Aí vim a essa conferência, e percebi que quase todo mundo aqui compartilha as mesmas qualidades, porque uma pessoa ardilosa é um agente de mudança. O ardiloso é o agente de mudança. E as qualidades que eu vou descrever são as qualidades que tornam a mudança possível. E uma delas é ultrapassar fronteiras. Eu acho que isso é o que enfureceu os cientistas. Mas eu gosto de cruzar fronteiras. Como eu disse, gosto de falar sobre coisas que desconheço.
Espero que seja meu agente, porque vocês não estão me pagando nada.
Eu acho bom falar sobre coisas que desconheço porque eu falo sob um ponto de vista totalmente novo. Eu posso ver a contradição de uma forma que você talvez não consiga. Como por exemplo esse mímico - ou 'mime' como ele se denominava. Era um mime muito egoísta. E ele disse que eu tinha que mostrar mais respeito porque levou 18 anos para ele aprender mímica direito. E eu disse: "Bem, é assim que sabemos que só gente meio burra faz isso." (Risos) Leva só dois anos para aprender a falar.
E sabem, esse é o problema com a abre aspas, objetividade, fecha aspas. Quando você está rodeado de pessoas que usam o mesmo linguajar ou que têm as mesmas crenças que você, você começa a pensar que essa é a realidade. Como os economistas e sua definição de racional, que todos nós agimos por interesse econômico próprio. Bom, veja então Michael Hawley, ou Dean Kamen, ou mesmo minha avó.
Minha avó sempre agiu no interesse de outras pessoas, quisessem elas ou não. (Risos) Se houvesse uma Olimpíada de altruísmo, minha avó perderia de propósito. (Risos) "Não, fique com o prêmio. Você é jovem, eu estou velha. Quem vai ver esse prêmio? O que eu vou fazer? Vou morrer logo."
Bem, esse é o primeiro - cruzar fronteiras, ser o mensageiro. Fritz Lanting, acho que é o nome, disse que ele era um mensageiro. Na verdade é uma qualidade do ardiloso. Uma outra é: estratégias não-oposicionistas. Isso ao invés da contradição. Quando você nega a realidade do outro, você tem um paradoxo quando você permite a coexistência de mais de uma realidade.
Acho que essa é outra construção filosófica. Não sei como se chama. Mas um exemplo dela é uma placa que vi numa joalheria. Dizia: "Furamos sua orelha enquanto espera." (Risos) Aqui a alternativa é simplesmente alucinante. (Risos) "Não, obrigada. Prefiro deixá-las aqui. Muito obrigada. Tenho umas coisas para fazer. Volto para buscá-las lá pelas cinco, tudo bem? Hã? Quê? Não entendi."
Outro atributo do ardiloso é a pura sorte. Acidentes, foi Louis Kahn que falou sobre acidentes, essa é outra qualidade do ardiloso. Sua mente está preparada para o inesperado. Sim, e vou dizer aos cientistas que o ardiloso tem a habilidade de deixar a mente leve para que ideias novas possam entrar ou para ver as contradições ou os problemas escondidos nessas ideias. Não tenho nenhuma piada para encaixar aqui. Só queria colocar os cientistas em seu devido lugar. (Risos)
Mas é aqui que eu queria fazer a mudança, no estabelecimento de conexões. Isso é o que eu enxergo mais, até mais que contradições. Por exemplo, como se chamam os dedos da lagartixa? Sim, os dedos da lagartixa, se curvando e desenrolando como os dedos de Michael Moschen. Adoro conexões.
Leio que um dos dois atributos da matéria no universo Newtoniano - há dois atributos da matéria no universo Newtoniano - um deles é ocupação de espaço. A matéria ocupa espaço. E quanto mais matéria você tem, mais espaço você ocupa, o que explica o fenômeno dos utilitários esportivos. (Risos) E o outro atributo é a impermeabilidade.
Bem, na Roma antiga, a impermeabilidade era um critério da masculinidade. A masculinidade dependia de você ser o penetrador ativo. E também, na economia, há o produtor ativo e o consumidor passivo, o que explica por que as empresas sempre têm que penetrar em novos mercados. Foi por isso que forçamos a China a abrir seu mercado. E não foi bom? (Risos) Agora estamos sendo penetrados. As empresas biotécnicas estão de fato entrando em nós e plantando suas sementes em nossos genes. Você sabe que está sendo penetrado. E eu suspeito que por alguém que não gosta muito de nós. (Risos) Essa é a segunda do quádruplo. Claro que vocês entenderam. Muito obrigada. Mas ainda está faltando.
O que eu espero, ao fazer essas conexões, é dar uma guinada no pensamento das pessoas. Fazer com que vocês não sigam a linha de associação normal, mas sim reconectar. Literalmente - quando falam sobre o choque do reconhecimento, é literalmente o re-conhecimento, reconectando o seu pensamento... Eu tinha uma uma piada sobre isso e esqueci. Desculpem-me. Estou ficando como a mulher daquela piada...
já ouviram a piada da mulher que estava no carro com sua mãe? E a mãe já era de idade. E a mãe passa direto por um sinal vermelho. A filha não quer falar nada. Ela não quer ser do tipo chata, "Você está muito velha para dirigir." E a mãe passa por outro sinal vermelho. Aí a filha diz, cheia de dedos, "Mãe, você viu que acabou de passar por dois sinais vermelhos?" E a mãe diz: "Ah! Sou eu que estou dirigindo?"
E esse é o choque do reconhecimento que vem do choque de re-conhecimento. E assim completamos o quádruplo.
Gostaria de dizer mais duas coisinhas. A primeira, é que outra característica do ardiloso é que ele tem que andar na corda bamba. Ele tem que ter desenvoltura. O maior obstáculo para mim, no que faço, é construir minha apresentação de forma que seja preparada e não-preparada. Achar o equilíbrio entre essas coisas é sempre perigoso porque você pode se inclinar muito na direção do não-preparado. Mas estar preparado demais também não deixa espaço para os 'acidentes' acontecerem.
Eu estava pensando no que Moshe Safdie disse ontem sobre beleza, porque em seu livro, Hyde diz que às vezes o ardiloso se inclina para a beleza. Mas para isso você precisa perder todas as outras qualidades porque uma vez que você se incline à beleza você entra num caminho sem volta. Num caminho que ocupa espaço e toma tempo. É aquilo e pronto. E é sempre extraordinário ver a beleza. Mas se você não fizer isso, se você permitir que acidentes continuem acontecendo, você tem a possibilidade de entrar numa onda. Gosto de pensar em mim como uma onda de probabilidades. Quando você focaliza a beleza, a onda de probabilidades se transforma em apenas uma. E eu gosto de explorar todas as possibilidades na esperança de estar na mesma onda da platéia.
E a última qualidade que eu gostaria de dizer sobre um ardiloso é que ele não tem um lar. Ele está sempre com o pé na estrada. Gostaria de dizer, Richard, para finalizar, que aqui no TED você encontrou um lar. E obrigada por me convidar. Muito obrigada.
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