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Translated by Kalina Matušin
Reviewed by Filipa Seixas

0:11 Portanto, este livro que tenho na mão é a agenda de todos os que tinham correio eletrónico em 1982. (Risos) Na realidade, é enganosamente grande. Há somente 20 pessoas em cada página, porque temos o nome, a morada e o número de telefone de cada pessoa. E, de facto, todos aparecem duas vezes porque está ordenada uma vez pelo nome e outra pelo correio eletrónico. Obviamente, uma comunidade muito pequena. Naquela época só havia mais dois Dannys na Internet. Conhecia ambos. Não nos conhecíamos todos, mas tínhamos uma certa confiança uns nos outros, e esse sentimento básico de confiança impregnava toda a rede, e existia uma sensação real de que podíamos depender uns dos outros para qualquer coisa.

1:05 E para dar-vos a ideia do nível de confiança que existia nessa comunidade, vou contar-vos como era registar um domínio naqueles dias. Aconteceu que fui eu registar o terceiro domínio na Internet. Portanto, podia escolher o que quisesse exceto bbn.com e symbolics.com. E então escolhi o think.com, mas pensei: "Existem muitos nomes interessantes". Talvez devesse registar um ou dois extra, só para ter a certeza. E então pensei: "Não, isso não ia ser muito simpático."

1:39 (Risos)

1:45 A atitude de apenas usar o que é necessário era realmente o que todos tinham na rede, naqueles dias, e, de facto, não eram somente as pessoas na rede mas, estava de certa forma incorporado nos protocolos da própria Internet. A ideia básica do IP ou protocolo da Internet, e a maneira como o algoritmo de roteamento que o usava eram essencialmente "de cada um, conforme a sua capacidade, para cada um, conforme a sua necessidade". E então, se tínhamos largura de banda a mais, enviávamos uma mensagem por alguém. Se eles tínhamos largura de banda a mais, entregavam a mensagem por vocês. De certa forma, dependíamos de outras pessoas para fazer isso, e isso eram os blocos de construção. Na verdade, foi muito interessante ver como um princípio tão comunista era a base do sistema desenvolvido durante a Guerra Fria pelo Departamento de Defesa, mas que claramente funcionou muito bem, e todos vimos o que aconteceu à Internet. Teve um sucesso incrível.

2:43 De facto, o sucesso foi tão grande que não existia maneira de hoje em dia fazer um livro deste tipo. Calculo que teria a grossura de 40 Kms. Mas, claramente, não o poderíamos fazer, porque não conhecemos os nomes de toda a gente com Internet ou com correio eletrónico, e mesmo se soubéssemos os seus nomes, estou convencido de que não iam querer os seus nomes, as moradas e os números de telefone publicados para todos verem.

3:10 A verdade é que, hoje em dia, há muitos sujeitos maus na Internet e assim, lidámos com isso criando comunidades fechadas, sub-redes seguras, VPNs, coisas pequenas que não são realmente a Internet mas são feitas dos mesmos blocos de construção mas, basicamente, continuamos a construí-los com os mesmos blocos de construção com as mesmas suposições de confiança. E isso significa que é vulnerável a certo tipo de erros que podem ocorrer, ou a certo tipo de ataques deliberados, mas os erros também podem ser maus.

3:45 Portanto, por exemplo, em toda a Ásia, recentemente, foi impossível estar no YouTube durante algum tempo porque o Paquistão cometeu alguns erros em como foi feita a censura na rede interna do YouTube. Não tinham a intenção de prejudicar a Ásia, mas fizeram-no devido à forma como os protocolos funcionam. Outro exemplo que podia ter afetado muitos de vocês no público é que, lembram-se de como há uns anos atrás, todos os aviões a oeste do Mississipi ficaram em terra porque um único roteiro em Salt Lake City tinha um vírus. Portanto, não é possível pensarem que os sistemas de aviação dependem da Internet e, em certo sentido, não dependem. Vou voltar a esse assunto mais tarde. A verdade é que as pessoas não puderam voar porque algo de errado se passava na Internet, e o sistema de roteamento caiu.

4:34 E assim, começam a acontecer muitas coisas desse tipo. Aconteceu uma coisa interessante em abril passado. De repente, uma percentagem muito grande de tráfego na Internet, incluindo muito de tráfego entre as instalações militares norte-americanas, foi redirecionado via China. Então, durante algumas horas, tudo passou através da China. A China Telecom diz que foi apenas um erro honesto, e, na realidade, é possível de que tenha sido, da forma como as coisas funcionam. Mas, claramente, alguém podia ter feito um erro desonesto daquele tipo se o tivesse querido. Isto mostra o quão vulnerável o sistema é, mesmo a erros. Imaginem quão vulnerável é o sistema aos ataques deliberados.

5:18 E se alguém quisesse mesmo atacar os Estados Unidos ou a civilização ocidental nestes dias, não o vão fazer com tanques de combate. Não ia ter sucesso. O que fariam provavelmente seria algo muito semelhante aos ataques que aconteceram na central nuclear iraniana. Ninguém reclamou o mérito pelo acontecido. Existia, basicamente, uma fábrica de máquinas industriais. Não se considerava estar na Internet. Considerava-se desconectada da Internet, mas foi possível alguém introduzir uma memória USB lá dentro, ou algo semelhante, e o <i>software</i> introduzido fez com que as centrifugadoras, nesse caso, se autodestruíssem. Agora, esse tipo de <i>software</i> poderia destruir uma refinaria de petróleo, uma indústria farmacêutica ou uma indústria de semicondutores E então há muito ... tenho a certeza de que leram muito nos jornais sobre as preocupações com os ataques cibernéticos e as defesas contra os mesmos.

6:13 Mas, na realidade, as pessoas estão mais concentradas na defesa dos computadores na Internet e, surpreendentemente, têm dado pouca atenção à defesa da própria Internet, como meio de comunicação. E acho que provavelmente deveríamos prestar mais atenção porque, na realidade, é muito frágil. E, na verdade, nos primeiros dias, quando ainda se chamava ARPANET, houve vezes... existiu um momento em particular em que falhou completamente porque um único processador de mensagens teve um erro de programação. A maneira como a Internet funciona consiste em os roteadores trocarem informação sobre como podem entregar as mensagens, e esse processador, porque tinha uma lâmina quebrada, decidiu que podia entregar a mensagem a um certo lugar no tempo negativo. Em outras palavras, afirmava poder entregar a mensagem antes de essa ser enviada. Então, claro, a maneira mais rápida de entregar a mensagem era enviá-la a esse sujeito, que depois iria enviá-la de volta e devolvê-la super cedo, então todas as mensagens na Internet começaram a trocar-se através de um só nó e, claro, foi o que entupiu tudo. Tudo começou a desmoronar-se. O interessante foi que, embora, os administradores do sistema puderam repará-lo mas, basicamente, tiveram de desligar absolutamente tudo na Internet. Claro está que hoje uma coisa assim não se poderia fazer. Quero dizer, desligar tudo, é como a chamada de serviço que recebe da empresa da televisão por cabo, mas para o mundo inteiro.

7:40 Não o poderiam fazer por uma série de razões, hoje em dia. Uma das razões é que muitos telefones usam o protocolo IP e usam programas como o Skype e outros que funcionam com Internet. Assim, estamos a tornar-nos dependentes deles para cada vez mais coisas diferentes, Quando apanhamos um voo no Aeroporto de Los Angeles, não pensamos que estamos a usar a Internet. Na bomba da gasolina, não pensamos que estamos a usar a Internet. O que se passa cada vez mais, é que estes sistemas têm começado a usar Internet. A maioria ainda não se baseia na Internet, mas já começaram a usá-la para funções de serviço, para funções administrativas. Se tomarmos, por exemplo, algo como o sistema dos telemóveis, que é relativamente independente da Internet, na sua maioria, pedaços da Internet começam a infiltrar-se dentro dela, em algumas funções de controlo e administrativas, e é tentador usar os mesmos blocos de construção porque funcionam tão bem, são baratos, repetem-se, e et cetera. Todos os nossos sistemas, cada vez mais, começam a usar a mesma tecnologia e estão a tornar-se dependentes dela. Até um foguete espacial moderno usa os protocolos da Internet para falar duma ponta do foguete para a outra. É uma loucura. Não foi criado para isso.

8:52 Então, criámos este sistema no qual entendemos todas as partes, mas estamos a usá-lo duma maneira muito diferente da prevista, e ficou com uma escala muito diferente daquela para que foi criado. Na realidade, ninguém percebe exatamente todas as coisas em que é usado agora. Está a tornar-se num daqueles grandes sistemas emergentes como o sistema financeiro, onde criamos todas as partes mas ninguém realmente percebe como funciona e todos os seus pequenos pormenores e o tipo do comportamento emergente que pode ter. Se ouvirem um especialista falar da Internet e dizer que pode fazer isto, ou que faz isto, ou que vai fazer aquilo, deveriam trata-lo com o mesmo cepticismo que poderia tratar os comentários dum economista sobre a economia ou o meteorologista sobre o tempo, ou algo semelhante. Eles têm uma opinião informada, mas está a mudar tão rápido que até os especialistas não sabem o que se passa exatamente. Então se virem um destes mapas na Internet é só a estimativa de alguém. Ninguém realmente sabe o que a Internet é porque é diferente do que foi há uma hora. E está a mudar constantemente. E está a reconfigurar-se constantemente.

10:00 E o problema é que, acho que estamos no caminho de um tipo de desastre, como o desastre que tivemos no sistema financeiro, onde temos um sistema que é basicamente construído com base na confiança, que foi feito basicamente para sistemas de escala menor e, de certa forma, expandimo-lo muito além dos seus limites, de como era suposto funcionar. Por isso, agora, acho que é literalmente verdade que não sabemos quais seriam as consequências de um ataque efetivo de negação de serviço na Internet. Aconteça o que acontecer, será pior no próximo ano e no seguinte, e assim por diante.

10:35 E então o que precisamos é um plano B. Neste momento, não temos um plano B. Não existe nenhum sistema de <i>backup</i> evidente guardado cuidadosamente para ser independente da Internet, feito de blocos de construção completamente diferentes. Então, o que precisamos é algo que não tem de ter necessariamente as mesmas características da Internet, mas a polícia tem de poder ligar aos bombeiros mesmo sem a Internet, ou os hospitais têm que encomendar combustível. Não tem de ser um projeto do governo de bilhões de dólares. Na verdade, é relativamente fácil de fazer, tecnicamente, porque se podem usar as fibras que estão debaixo de terra, as infraestruturas sem fios existentes. É basicamente uma questão de decidir fazê-lo.

11:16 Mas as pessoas não vão decidir fazê-lo até reconhecer que a necessidade existe, e esse é o problema que agora temos. Têm sido muitas pessoas, muitos de nós temos discutido silenciosamente durante anos que deveríamos ter esse plano independente, mas é muito difícil de fazer as pessoas pensarem no plano B quando o plano A parece estar a funcionar tão bem.

11:38 Portanto penso que, se as pessoas entenderem o quanto estamos a começar a depender da Internet e quão vulnerável é, poderíamos focar-nos na vontade de que este outro sistema existisse. Acho que, se pessoas em número suficiente disserem: "Sim, gostaria de usá-lo, gostaria de ter um sistema assim", é quando vai ser construído. O problema não é tão difícil. As pessoas nesta sala poderiam fazê-lo definitivamente.

12:02 Acho que isto é, de todos os problemas que vão ser mencionados na conferência, provavelmente o mais fácil de solucionar. Fico contente por vos poder falar dele.

12:15 Muito obrigado.

12:18 (Aplausos)