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Translated by Margarida Ferreira
Reviewed by Carolina Ferreira

0:12 Qual foi a coisa mais assustadora que já fizeram? Ou, dizendo de outra forma, qual foi a coisa mais perigosa que já fizeram? E porque é que a fizeram? Eu sei qual foi a coisa mais perigosa que fiz porque a NASA calculou isso. Olhando para os cinco primeiros lançamentos de vaivéns, a probabilidade de um acidente catastrófico, nesses cinco primeiros lançamentos, era de 1 em 9. E quando fui pela primeira vez no vaivém em 1995, no 74.º voo, a probabilidade ainda era, agora que olhamos para trás, de cerca de 1 em 38, 1 em 35 ou 1 em 40. Não era uma forte probabilidade. É um dia muito interessante acordarmos no Centro Espacial Kennedy e irmos para o espaço nesse dia. Apercebemo-nos de que, no fim do dia, ou estaremos a flutuar sem esforço, gloriosamente no espaço... ou estaremos mortos. Entramos no Centro Espacial Kennedy, entramos na sala do vestiário, a mesma sala em que os nossos heróis de infância se vestiam, em que Neil Armstrong e Buzz Aldrin se vestiram, para viajar no foguete Apollo até à lua. Vestiram-me o fato pressurizado e levaram-me para o exterior numa carrinha, a caminho da rampa de lançamento — na Astrovan — para a rampa de lançamento. E ao virar da esquina, no Centro Espacial Kennedy, — geralmente é de madrugada — lá ao longe, iluminada pelas gigantescas luzes de xénon, está a nossa nave especial, o veículo que nos vai levar para longe do planeta. A tripulação está dentro da Astrovan em silêncio, quase de mãos dadas, a olhar para aquilo, a ficar cada vez maior e maior. Subimos no elevador e a rastejar, de gatas, entramos na nave, um de cada vez. Subimos como minhocas até à nossa cadeira, onde nos encaixamos deitados de costas. A escotilha fecha-se e de repente, o que foi uma vida inteira de sonhos e negação está a tornar-se real. Uma coisa com que eu sonhara, que eu decidira fazer quando tinha 9 anos, está agora, repentinamente, a meros minutos de acontecer realmente. Na profissão de astronauta o vaivém é um veículo muito complicado; é a máquina voadora mais complicada que já se construiu. E nesta vida de astronauta temos um ditado, que é: "Não existe nenhum problema tão mau "que não o possamos piorar". (Risos) Estamos muito conscienciosos, na cabina de comando, pensamos em todas as coisas que é preciso fazer, todos os botões e interruptores que temos de verificar. Conforme a hora se vai aproximando, sentimos a excitação a crescer. Cerca de 3 minutos e meio antes do lançamento, os enormes bocais traseiros, tão grandes como sinos de igreja, abanam dum lado para o outro. A massa deles é tão grande que abanam o veículo todo, como se o veículo estivesse vivo debaixo dos nossos pés, como um elefante a levantar-se, ou coisa do género. A 30 segundos do lançamento, o veículo está totalmente vivo, pronto a descolar. As unidades de potência auxiliar estão a funcionar. Os computadores a funcionar de forma independente. A nave está pronta para sair do planeta. E 15 segundos antes do lançamento, acontece isto: (video) Voz: "12... 11... 10... "9... 8... 7... 6... "Vaivém espacial pronto para descolar "... ignição... 2... 1... "ignição dos auxiliares e descolagem do vaivém espacial Discovery, "de volta à estação espacial, abrindo caminho... " (O vaivém a descolar) (Aplausos)

4:09 Chris Hadfield: É incrivelmente poderoso estar a bordo de uma coisa destas. Estamos sob o domínio de uma coisa que é muito mais poderosa que nós próprios. Está a abanar-nos tanto que não nos conseguimos concentrar nos instrumentos à nossa frente. Parece que estamos nas mandíbulas dum cão enorme e temos um pé ao fundo das costas a empurrar-nos para o espaço, acelerando loucamente para cima, empurrando-nos para o ar. Estamos num local muito complexo, muito atentos, observando o veículo, a rever cada um dos dispositivos, com um sorriso crescente na cara. Dois minutos depois, explodem aqueles foguetões, ficamos só com os motores de combustão líquida, o hidrogénio e o oxigénio. Parece que estamos num "dragster" com os pés no chão, a acelerar como nunca acelerámos na vida, cada vez mais leves. A força cai em cima de nós cada vez mais pesada. Sentimo-nos como se alguém nos estivesse a despejar cimento em cima. Até que, finalmente, ao fim de cerca de 8 minutos e 40 segundos, estamos exatamente na altitude certa, exatamente na velocidade certa, na direção certa. O motor para, e estamos sem peso. E estamos vivos.

5:18 É uma experiência espantosa! Mas porque é que corremos esse risco? Porque é que havemos de fazer uma coisa tão perigosa?

5:26 No meu caso, a resposta é muito simples. Fui inspirado em pequeno. Era isso que eu queria fazer. Assisti às primeiras pessoas que pisaram a lua e, para mim, era uma coisa óbvia. Queria fazer a mesma coisa. Mas o problema é este, como é que lidamos com o perigo e com o medo que sentimos? Como lidamos com o medo "versus" perigo? Com este objetivo em mente, pensando onde podia ir parar, encaminhei-me para uma vida em que procurei todos os pormenores que me permitissem tornar isto possível: poder embarcar e ajudar a construir uma estação espacial a bordo duma máquina de quinhentas toneladas que dá a volta ao mundo a 5 milhas por segundo, 8 km por segundo, que dá a volta ao mundo 16 vezes por dia, com experiências a bordo que nos ensinam de que substância é feito o universo. Fazemos 200 experiências lá dentro. Mas talvez o mais importante, é que nos permite ver o mundo duma forma que é impossível por qualquer outro meio. Podermos olhar para baixo e ver — se fosse possível descair o queixo, ficariam boquiabertos — o esplendor extasiante do globo a girar como uma galeria de arte autopropulsionada de uma fantástica beleza, sempre mutável, que é o mundo. E, por causa da velocidade, vemos um nascer ou um pôr-do-sol de 45 em 45 minutos durante meio ano. E a parte mais grandiosa de tudo isto é sair para o exterior num passeio espacial. Estamos numa nave de um só tripulante que é o nosso fato espacial e andamos pelo espaço juntamente com o mundo. É uma perspetiva totalmente diferente. Não olhamos para cima, para o universo. Nós e a Terra estamos a andar juntos no universo.

7:17 E seguramo-nos com uma mão, olhando para o mundo que gira ao nosso lado. É como um estrondo silencioso, que despeja cor e textura, que nos hipnotiza. E se conseguirmos desviar os olhos e olharmos por baixo do braço para tudo o resto lá em baixo, é uma negrura insondável, com uma textura onde parece que podemos meter as mãos. Seguramo-nos com uma mão, um elo com os outros sete mil milhões de pessoas. Estava lá fora no meu primeiro passeio espacial

7:52 quando o meu olho esquerdo cegou e não percebi porquê. De repente, o olho fechou-se com uma grande dor. Nem percebi porque é que o meu olho tinha deixado de ver. Pensei: "O que é que eu faço?" Pensei: "Talvez seja por isso é que temos dois olhos". Continuei a trabalhar. Infelizmente, sem gravidade, as lágrimas não caem. Por isso, fiquei com uma bolha cada vez maior, fosse do que fosse, misturado com as lágrimas do olho. Até que, por fim, a bolha ficou tão grande que a tensão superficial a empurrou por cima do nariz como uma pequena cascata e "splash" passou para o outro olho. Então, fiquei totalmente cego lá fora no espaço.

8:34 E então, qual foi a coisa mais assustadora que já fizeram? (Risos) Talvez as aranhas. Muita gente tem medo de aranhas. Acho que devemos ter medo de aranhas. As aranhas são arrepiantes e têm pernas compridas e peludas. Aranhas como esta, a aranha parda reclusa — é horrível ser mordido por essa aranha. Acabamos com esta coisa necrótica e horrível na perna. Pode haver uma neste momento na cadeira atrás de vocês. Como é que sabemos? A aranha cai-vos em cima, e vocês têm um grande ataque de pânico porque as aranhas são assustadoras. Podem perguntar: "Há uma aranha parda reclusa "na cadeira ao meu lado, ou não?" Não sei. Aqui há aranhas pardas reclusas? Se fizerem uma pesquisa, vão descobrir que no mundo há cerca de 50 000 tipos diferentes de aranhas e cerca de duas dúzias são venenosas, dentre essas 50 000. No Canadá, por causa dos invernos frios, aqui na Colúmbia Britânica, há cerca de 720 ou 730 tipos diferentes de aranhas e há só uma — só uma — que é venenosa e o seu veneno nem sequer é fatal. É somente uma coisa desagradável. E essa aranha — não é só essa — essa aranha tem belas marcas. É como: "Sou perigosa. Tenho um grande símbolo de radiação nas costas". É a viúva-negra. Portanto, se tiverem um cuidado mínimo, podem evitar encontrar essa aranha. E vive junto ao solo. Quando passeamos, nunca vamos de encontro a uma teia de aranha duma viúva-negra. Ela não constrói teias de aranha destas, constrói-as nos cantos. E chama-se viúva-negra porque as aranhas fêmeas comem o macho; não querem saber de vocês. Por isso, a próxima vez que encontrarem uma teia de aranha, não precisam de entrar em pânico e ter uma reação troglodita. O perigo é muito diferente do medo.

10:17 Mas como é que lhe damos a volta? Como mudar de comportamento? Bem, da próxima vez que virem uma teia de aranha, olhem bem, vejam se não é duma viúva-negra. e depois avancem de encontro a ela. Se virem outra teia de aranha, avancem de encontro a ela. É só uma coisa fofa. Nada de especial. Se a aranha aparecer, não é mais ameaçadora do que uma joaninha ou uma borboleta. E, garanto-vos, se formos de encontro a 100 teias de aranha alteramos o nosso comportamento humano básico, a nossa reação troglodita, e poderemos andar pelo parque de manhã, sem nos preocuparmos com as teias de aranha, pelo sótão da avó, por qualquer lado, pela nossa cave. E podemos aplicar isso a tudo.

11:01 Se estivermos num passeio espacial e ficarmos cegos, acho que a nossa reação natural será de pânico. Ficamos nervosos e preocupados. Mas considerámos todos os venenos, e treinámos com muitas variedades diferentes de teias de aranha. Sabíamos tudo o que havia a saber sobre o fato espacial e treinámos debaixo de água milhares de vezes. Não treinamos só o que corre bem. Treinamos muitas vezes coisas a correr mal. de modo que estamos sempre a andar por entre essas teias de aranha. E não só debaixo de água, mas também em laboratórios de realidade virtual, com o capacete e as luvas, sente-se como se fosse realidade. Por isso quando saímos efetivamente para o exterior num fato espacial, é muito diferente do que seria se saíssemos pela primeira vez. Mesmo que fiquemos cegos, não acontece a reação natural de pânico. Pelo contrário, pensamos: "Ok, não consigo ver, "mas consigo ouvir e consigo falar. "Scott Parazynski está cá fora comigo. "Pode vir aqui e ajudar-me". Treinámos mesmo salvamento de tripulantes incapacitados, portanto ele pode rebocar-me como a um balão e enfiar-me pela escotilha, se fosse preciso. Eu podia encontrar o caminho. Não era uma coisa muito difícil. E, na realidade, se chorarmos durante um bocado, qualquer que seja o que estava no olho começa a diluir-se, podemos voltar a ver, e, se negociarmos com Houston, eles deixam-nos continuar a trabalhar. Acabámos tudo no passeio espacial e, quando voltámos para dentro, Jeff foi buscar algodão e tirou aquela crosta dos meus olhos e aconteceu que era apenas o antinevoeiro, uma mistura de óleo e sabão que entrara para o meu olho. Agora usamos Não Causa Lágrimas, da Johnson que devíamos ter usado desde o início. (Risos)

12:41 Mas o importante é isto: Quando se observa a diferença entre o perigo apercebido e o verdadeiro perigo, onde está o risco real? Qual é a coisa de que devemos ter medo? Não apenas um medo genérico de coisas más a acontecer. Podemos mudar radicalmente a nossa reação às coisas para podermos ir a sítios e ver coisas e fazer coisas que, caso contrário, nos estariam totalmente vedadas.

13:03 onde possamos ver o sul do Saara, ou a cidade de Nova Iorque num modo quase de sonho, ou o xadrez inconsciente dos campos da Europa de Leste ou os Grandes Lagos. como um conjunto de pequenas poças. Podemos ver as linhas da falha de San Francisco e a forma como a água corre por baixo da ponte, de modo totalmente diferente de qualquer outro modo se não tivéssemos arranjado forma de vencer o nosso medo. Vemos uma beleza que, de outro modo, nunca teríamos podido apreciar.

13:39 É tempo de voltar a casa. Esta é Soyuz, a nossa pequena nave espacial, Somos três a entrar e depois esta nave espacial desliga-se da estação e cai na atmosfera. Estas duas partes aqui derretem-se, largamo-las e elas incendeiam-se na atmosfera. A única parte que resta é a pequena bala em que viajamos. Cai na atmosfera e, essencialmente, estamos a viajar num meteorito. Viajar em meteoritos é assustador. Não admira. Mas, em vez de cairmos na atmosfera aos gritos, como vocês fariam se se encontrassem a viajar num meteorito, de volta à Terra... (Risos) Em vez disso, 20 anos antes tínhamos começado a aprender russo. Depois de aprender russo, aprendemos a mecânica orbital, em russo. Depois aprendemos a teoria de controlo de veículos, e entrámos num simulador. Praticámos vezes sem conta. E a verdade é que podemos viajar neste meteorito e guiá-lo e aterrar num raio de cerca de 15 km em qualquer parte da Terra. Portanto, quando a nossa tripulação regressou à atmosfera dentro do Soyuz, não nos pusemos a gritar. Estávamos a rir. Era divertido. E quando se abriu o grande paraquedas, sabíamos que, se ele não abrisse, havia um segundo paraquedas com um belo mecanismo de relógio. Assim, voltámos estrondosamente para a Terra e é este o aspeto de aterrar num Soyuz, no Casaquistão. Repórter: "Podemos ver "um dos helicópteros de pesquisa e recuperação, "um helicóptero de uma dúzia de helicópteros Mi-8 "da Rússia. "Aterragem "— 3:14 e 48 segundos da manhã, Hora Central". CH: E rebolamos até parar como se tivessem atirado a nave para o chão e ela não parasse de cair. Mas estamos preparados para isso, temos um assento especial, sabemos que há amortecedores E por fim chegam os russos, tiram-nos cá para fora, espetam connosco numa cadeira, e podemos recordar aquela que foi uma experiência incrível. Realizámos os sonhos daquele rapazinho de 9 anos, que eram impossíveis e terrivelmente assustadores. — terrivelmente assustadores — e pusemo-los em prática. Arranjámos uma forma de nos reprogramarmos de transformar o nosso medo primitivo de modo a permitir que voltássemos com uma série de experiências e um nível de inspiração para outras pessoas que nunca poderiam ter existido de outro modo. Para acabar, pediram-me que tocasse viola. Sei esta canção e é realmente um tributo ao génio de David Bowie. Mas penso também que é uma reflexão sobre o facto de não sermos máquinas a explorar o universo. Somos pessoas e aproveitamos a nossa capacidade de adaptação e a nossa capacidade de compreender, a nossa capacidade de levar a nossa perceção a novos lugares. (Música) ♫ "Controlo de solo para Major Tom ♫ "Parti para sempre ♫ "E estou a flutuar muito estranhamente ♫ "As estrelas hoje parecem muito diferentes ♫ "Estou a flutuar nesta lata ♫ "Um último olhar sobre o mundo ♫ "O planeta Terra é azul e falta fazer muita coisa."♫ (Música) Não tenham medo. (Aplausos) São muito amáveis. Muito obrigado. Obrigado.